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D. Tam Tefsir Çalışmaları

4. Mevlana Muhammad Eminü’l-İslâm

Desde o seu surgimento, a Rede Brasileira de Prostitutas assumiu em seu discurso a missão de promover a articulação política do movimento social organizado de prostitutas e o fortalecimento da identidade profissional da categoria, visando o pleno exercício da cidadania, a redução do estigma e da discriminação. Para isso, assessora a formação e a capacitação de associações de prostitutas, apoia e promove eventos e encontros da categoria, formula

políticas públicas em parceria com órgãos governamentais e luta para obter o reconhecimento legal da profissão.

A RBP não é uma rede institucionalizada, ou seja, não possui personalidade jurídica, nem possui cargos. Assim, qualquer grupo pode fazer parte da RBP, seja de prostitutas ou de simpatizantes das causas da prostituição, contanto que assuma a missão da RBP (SKACKAUSKAS, 2007).

Segundo o sociólogo Castells (1999), as “redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades, e a difusão da lógica de redes modifica de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência, poder e cultura” (CASTELLS, 1999, p.497).

Conforme o sociólogo:

Rede é um conjunto de nós interconectados. Nó é um ponto no qual uma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos. São mercados de bolsas de valores e suas centrais de serviços auxiliares avançados na rede dos fluxos financeiros globais. São conselhos nacionais de ministros e comissários europeus da rede política que governa a União Européia. São campos de coca e papoula, laboratórios clandestinos, pistas de aterrissagem secretas, gangues de rua e instituições financeiras para lavagem de dinheiro, na rede de tráfico de drogas que invade as economias, sociedades e Estados do mundo inteiro. São sistemas de televisão, estúdios de entretenimento, meios de computação gráfica, equipes para cobertura jornalística e equipamentos móveis gerando, transmitindo e recebendo sinais na rede global da nova mídia no âmago da expressão cultural e da opinião pública, na era da informação. (CASTELLS, 1999, p.498).

Do exposto por Manuel Castells, verifica-se que o objeto criador dos fluxos da rede não é o importante. O essencial é o mecanismo de conexão, justamente o fluxo, entre os nós e entre os entes externos àquela rede. No caso da RBP, o mecanismo de conexão me parece ser representado pela Gabriela Leite e por algumas mulheres que estiveram com ela desde o “I Encontro Nacional de Prostitutas”, inclusive a Tina. Gabriela faleceu durante a realização desta pesquisa, e um dos comentários que ouvi das mulheres que fazem parte do NEP, dias depois do ocorrido, foi: “Tem um furo na rede agora” (Soila, novembro de 2013).

Castells afirma que, a rede opera de uma forma democrática, difusora de poder, repartidora de conteúdos e de Know-how, e assim é a RBP. Essa rede foi construída como um espaço de trocas de experiências entre as associações e/ou organizações de prostitutas no país e de integração de forças para terem seus direitos reconhecidos na sociedade.

A RBP surgiu em meio à epidemia de AIDS no Brasil que pauta a agenda do movimento de prostitutas no Brasil desde o seu princípio, como consequência de um trabalho pioneiro de elaboração de projetos de prevenção à AIDS para a categoria. A relação da RBP com o Ministério da Saúde é histórica. A cooperação entre estas duas organizações existe desde o surgimento desse movimento social. Os projetos nacionais de prevenção à AIDS e cidadania para essa categoria, financiados pela Coordenação Nacional de DSTs e AIDS do Ministério da Saúde são quase sempre coordenados e executados pela RBP e outras organizações que dela fazem parte. Isto é, as associações, organizações não governamentais e grupos alinhados à RBP trabalham com projetos semelhantes, que, apesar das especificidades locais, muitos são planejados coletivamente, como por exemplo: o primeiro projeto “Previna” (1989), “Esquina na Noite” (2002), e “Sem vergonha” (2006). Além da campanha nacional: “Sem vergonha, garota. Você tem profissão”, executada pelo Programa Nacional de DSTs e AIDS, em 2002, em parceira com a RBP.

Gohn (2000, p.50), afirma que as ONGs se apresentam atualmente no Brasil como executoras de atividades de interesse público fora da máquina governamental, com custos menores e maior eficiência, potencializam as forças organizadas da sociedade e criam um novo campo de trabalho, o trabalho social voltado para as populações mais pobres, em especial os pobres urbanos, que estão à margem do sistema capitalista. Para além da mobilização social, na execução dos projetos de intervenção com prostitutas, é dessa forma que as organizações que fazem parte da RBP vêm trabalhando.

Segundo Skackauskas (2007), o trabalho de prevenção realizado pela RBP pôde ser avaliado na primeira pesquisa nacional sobre profissionais do sexo encomendada pela Coordenação Nacional de DSTs e AIDS, realizada pela Universidade de Brasília (UNB)9 e divulgada em 2002. Prostitutas e técnicos da RBP acompanharam todo o processo de pesquisa a fim de garantir os direitos das pesquisadas. O principal objetivo do estudo foi o de medir a efetividade das ações educativas sobre as DSTs e AIDS voltadas para as profissionais do sexo. A pesquisa comprovou que as prostitutas que já foram abordadas por projetos de

9 A pesquisa constava de uma parte qualitativa, através da aplicação de técnicas de grupo focal e entrevistas

individuais em profundidade, além de um inquérito sorológico incluindo grupos de mulheres que receberam a intervenção e grupos que não receberam a intervenção. In: Jornal Beijo da Rua, edição abril de 2002, e Ministério da Saúde, Programa nacional de DST e AIDS. Série estudos pesquisas e avaliação, n.07, Brasília/DF, 2004.

prevenção são as que mais usam preservativos e fazem exames de AIDS e o preventivo de câncer de colo de útero (SKACKAUSKAS, 2007, p.66).

Essa organização social das prostitutas nasceu no contexto das lutas pela redemocratização do país, e elas reuniram-se pela primeira vez em 1987. Inicialmente, tratou- se, sobretudo, de denunciar a violência policial, mas também a histórica associação de prostituição com doença que, no momento de seu surgimento, atualizava-se pela epidemia de AIDS, que possibilitou uma série de recursos públicos para a organização e fortalecimento dessas associações de prostitutas. Em entrevista realizada com Tina pedi que ela me falasse sobre a relação do movimento social organizado de prostitutas com o Estado brasileiro, principalmente no que se refere às políticas públicas de prevenção e enfrentamento a AIDS. Tina e uma prostituta que também faz parte do NEP que não participou desta pesquisa são a memória da OSC, pois estão lá desde o início. Tina é uma mulher elegante, sempre bem vestida e maquiada, de fala clara e que gosta muito de contar sua trajetória junto às prostitutas em todos os locais por onde passa: de bares a congressos.

Segundo Tina, foram os desafios criados pela epidemia de AIDS que levaram as organizações de prostitutas (grande parte delas já vinculadas à Rede Brasileira de Prostitutas) aos espaços de articulação de políticas públicas a nível nacional, principalmente sob a forma de projetos e ações de prevenção em parceria com o Ministério da Saúde e outras organizações.

Tina conta que a primeira intervenção para prevenção do HIV entre prostitutas (mas também junto a travestis, profissionais do sexo e michês, homossexuais masculinos, presidiários e usuários de drogas injetáveis) foi o projeto “Previna”, executado entre os anos de 1988 a 1990. Esse projeto deu inicio à parceria formal entre o antigo Programa Nacional de DST/ AIDS do Ministério da Saúde e as ONGs. Segundo Tina, isto contribuiu para que o projeto incorporasse em suas ações a participação de lideranças e representantes das populações a quem se dirigia. Além disso, inaugurava o uso da metodologia de educação pelos pares nas ações de prevenção das DST/AIDS para grupos específicos.

Em 1989, a Rede Brasileira de Prostitutas, promoveu o II Encontro Nacional, também no Rio de Janeiro, para tratar especificamente do tema prostituição e AIDS, enfocando o engajamento das prostitutas em ações de prevenção das DST/AIDS, em parceria com o governo. Neste evento, que contou com a participação das prostitutas vinculadas à RBP, além

de representantes de ONGs/AIDS e de governos municipais, estaduais e federal, foi apresentado e discutido o material elaborado para o projeto “Previna”. O evento representou, como conta Tina, “a consolidação de uma parceria em que sustentabilidade e descentralização das ações, protagonismo e, principalmente, a noção de estigma foram discutidas e entendidas como fundamentais para um trabalho realmente sério com as prostitutas”. Em função dessa mobilização de prostitutas, neste encontro, outros temas como direitos humanos, estigma e discriminação, profissão, regulamentação e acesso aos serviços de saúde foram sendo incorporados na agenda de interlocução entre prostitutas e agentes governamentais para construção de políticas públicas. Segundo Lenz e Leite (2013, p.46), “esta ampliação da agenda também respondeu ao questionamento do viés higienista subjacente a uma abordagem da prostituição restrita à vertente da transmissão de doenças e, além disso, passou a adotar o conceito de vulnerabilidade como marco orientador das ações do Programa Nacional de DST/AIDS”.

A partir de 1994, o projeto “Previna II”, viabilizado com recursos provenientes dos acordos de empréstimo do Banco Mundial, garantiu a manutenção de atividades junto a profissionais do sexo, por meio do apoio a projetos desenvolvidos por associações de prostitutas e ONGs/AIDS atuando com prostitutas. Reforçou-se a metodologia da educação pelos pares, com o treinamento de prostitutas como “multiplicadoras de informação” junto a suas colegas. Do trabalho em campo, ou “intervenções”, fazia parte a distribuição de preservativos masculinos e de materiais educativos concebidos pelas ONGs e produzidos com recursos repassados pelo Programa Nacional de DST/AIDS. Algumas associações, que faziam parte da Rede Brasileira de Prostitutas, também introduziram oficinas de direitos humanos e cidadania.

Para Lenz e Leite (2013, p.46), cabe ressaltar o aumento, durante todo esse período, de organizações de prostitutas, que passaram a acessar fundos públicos na perspectiva de trabalhar com a prevenção da epidemia. Houve também um expressivo volume de propostas de trabalho de prevenção das DST/AIDS por organizações não formadas, nem lideradas pelas profissionais. Os autores destacam, entretanto, “alguns pontos críticos, em especial a falta de continuidade de parte dos projetos, bem como a dificuldade de capilarização das ações, a falta de uma cultura de avaliação que possibilitasse a análise da efetividade das diversas estratégias de prevenção implementadas e ainda a carência de uma melhor sistematização das boas práticas desenvolvidas”. Outra fragilidade segundo eles foi “a junção, num mesmo conjunto

de iniciativas, de diferentes tipos de trabalhadores sexuais, como as travestis ou os meninos de programa e as mulheres prostitutas, o que foi corrigido ao longo do tempo”. Para os autores, “no seu conjunto, esses percalços contribuíram para reduzir o aprofundamento das ações de controle social das políticas voltadas para garantia dos direitos das prostitutas e a visibilidade da sua pauta de reivindicações específicas” (LENZ, LEITE, 2013, p.46).

O processo de descentralização do SUS, ao lado da consolidação e ampliação da Rede Brasileira de Prostitutas a partir do terceiro encontro nacional, dessa vez chamado “III Encontro Nacional das Trabalhadoras do Sexo”, em 1994, novamente realizado no Rio de Janeiro, contribuiu para a introdução de projetos em consórcio, como forma de facilitar o recebimento dos recursos federais por organizações menores. Em 2002, o projeto “Esquina da Noite” mobilizou mais de 50 associações das cinco regiões do país, com um líder de consórcio por região, ou seja, uma associação de cada região administrava financeiramente os projetos ali executados.

Nesse mesmo ano, três ações inéditas marcaram a parceria entre o setor da saúde e o movimento social de prostitutas: o “Seminário Nacional AIDS e Prostituição”; a campanha nacional “Sem vergonha, garota. Você tem profissão”; e a execução da pesquisa “Avaliação da efetividade de ações de prevenção dirigidas às profissionais do sexo, em três regiões brasileiras”.

Nas políticas públicas para além da saúde, a RBP também conquistou avanços no que diz respeito à legislação sobre prostituição. Primeiro, com o reconhecimento da prostituição como uma atividade profissional pelo Ministério do Trabalho e Emprego, na Classificação Brasileira de Ocupações, em 2002. A iniciativa, construída com representantes da RBP, visa permitir que a mulher que se prostitui se perceba realizando um trabalho, do mesmo modo que os demais atores sociais. Garante-se também o registro formal da atividade pelo Censo, caso ela seja declarada pelo recenseado. E tornou possível o registro de trabalhador autônomo junto à Previdência Social como “profissional do sexo”, as duas últimas contribuindo para a geração de políticas públicas (LENZ e LEITE, 2013). A identificação da prostituição como um trabalho possibilita que se atinja outro patamar na discussão a respeito dos direitos das profissionais que realizam este trabalho.

Quando o então deputado federal Fernando Gabeira apresentou, em 2003, o projeto de lei que reconhecia a existência de serviços de natureza sexual, e que legalizava a profissão e

retirava o empresário do crime, a RBP apoiou e discutiu com o deputado esse projeto de lei. O projeto de lei não foi aprovado, mas ajudou a levantar discussões a respeito da prostituição na sociedade civil e, especialmente, entre as prostitutas e os grupos que trabalham com prostitutas. Segundo Lentz e Leite (2013), “a lógica da não criminalização das casas de prostituição decorre do entendimento desta atividade como um trabalho, que não deve ser realizado numa situação considerada criminosa ou ilegal. É pela compreensão de que a prostituição é um trabalho que se torna possível reivindicar as condições necessárias para que seja realizado em condições dignas (LENTZ e LEITE, 2013, p.46). No contexto atual, a RBP participou ativamente junto ao Deputado Jean Wyllys na construção do PL 4211/2012.

Entre os quatro grandes eixos de discussão sobre a prostituição no mundo - regulamentarista, proibicionista, abolicionista e autodeterminista -, a Rede Brasileira de Prostitutas assume um discurso autodeterminista. Nesse sentido, toma forma a partir da visão que a própria prostituta tem de si e de sua profissão, a fim de acabar com o estigma sobre a prostituição.

O discurso que regulamenta a prostituição pressupõe que a prostituta deva ser controlada para cumprir, da melhor forma possível, seu papel social, que consiste em controlar os instintos masculinos. Para o perfeito equilíbrio social, a prostituta não deve ser extirpada do convívio social. Assim, a regulamentação se caracteriza pela tolerância oficial do Estado, que considera a prostituição um “mal necessário”. Mediante a tentativa de controlar a prostituição, o Estado licencia bordéis, nos quais as prostitutas estão sujeitas a várias formas de regulação, tais como exames médicos forçados e a delimitação de áreas de trabalho, as conhecidas zonas de tolerância. Essa postura é assumida em países como Alemanha, Holanda, Grécia, Nova Zelândia e parte da Austrália, nos quais a prostituição é permitida e regulada pelo Estado. Países como os Estados Unidos, Arábia Saudita e Tailândia assumem uma postura proibicionista em relação à prostituição, isto é, a prostituição é crime tanto para quem vende como para quem paga por serviços sexuais. O que não acontece na concepção abolicionista, em que a ilegalidade recai sobre terceiros, como proxenetas e proprietários de bordéis. A longo prazo, o objetivo do abolicionismo é a abolição completa da prostituição através da despenalização da prostituta. Sob o controle de leis, mulheres suspeitas de prostituição eram detidas pela polícia. Em resposta a tais atos, o movimento feminista começou a alegar que as prostitutas eram vítimas que deveriam ser resgatadas ou reabilitadas e não policiadas ou punidas. Nesse discurso, o trabalho sexual é visto como forma de sujeição

da mulher ao poder do homem e ao poder do capital, pois uma mulher, por vontade própria, dificilmente exerceria o trabalho sexual. O seu ingresso nesse meio é sempre justificado por motivos socioeconômicos: a mulher necessita do dinheiro para garantir a sua subsistência e a sociedade não lhe oferece nenhuma alternativa. Dessa forma, a prostituição não é vista como um trabalho escolhido pelas mulheres, mas como um fenômeno que estigmatiza e exclui as mulheres de uma vida digna.

Como parte de uma reação a esta perspectiva feminista, onde toda prostituição é violência contra as mulheres, ativistas em defesa dos direitos das prostitutas alegam que cabe uma distinção entre prostituição “voluntária”, vista como trabalho legítimo, e prostituição “forçada”, vista como violação dos direitos humanos. Reconhece-se, contudo, que “a liberdade de escolha” também existe nesse meio e deve ser respeitada. Esse discurso é reconhecido como autodeterminista e seguido principalmente por organizações de prostitutas que defendem a prostituição como um trabalho e consideram a prostituta capaz de definir o rumo de sua própria vida e de fazer suas próprias opções. Segundo os defensores desse discurso, o que se configura como manifestação de violência contra as mulheres é a prostituição forçada: essa seria a verdadeira violação do direito de autodeterminação da pessoa adulta engajada voluntariamente na prostituição (SKACKAUSKAS, 2007, p.60).

Em 2005, a relação entre o Estado brasileiro no que se refere às políticas de saúde e o movimento social organizado de prostitutas foi fortalecida quando o governo brasileiro levou em consideração a decisão da RBP de denunciar e recusar-se a participar de edital da USAID/PACT10 que exigia a assinatura de um compromisso formal de condenação da prostituição pelas ONGs. A cláusula não existia no primeiro edital USAID/PACT, em 2004, quando organizações de prostitutas estiveram entre as contempladas. Foi denunciado que a cláusula introduzida ao PEPFAR (Plano de emergência para a AIDS da presidência dos Estados Unidos) não poderia ser aceita pelas associações, porque feria sua própria linha política, bem como a do governo. O resultado foi a recusa do executivo federal a aceitar o

10 USAID é a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (United States Agency for

International Development), um órgão do governo dos Estados Unidos encarregado de distribuir a maior parte da ajuda externa de caráter civil. É um organismo independente, surgiu em 1961. Diretamente ou através de agências subsidiárias, a USAID atua como um reforço à política externa dos EUA, cooperando com os países receptores nas áreas de economia, agricultura, saúde, política e assistência humanitária. Fundada em 1971 nos Estados Unidos, a Pact, Inc. é uma organização internacional sem fins lucrativos, que trabalha para contribuir no desenvolvimento de comunidades visando prover cidadania e bem-estar. Sua presença se estende hoje por mais de 50 países por meio de 18 escritórios locais, contando com centenas de parceiros na África, Ásia, América Latina, Leste Europeu e Oriente Médio. Fonte: www.usaid.gov e www.pactworld.org .

financiamento associado à cláusula. O movimento social organizado de prostitutas e o governo articularam então o projeto “Sem Vergonha”, com recursos nacionais. Capacitação e identificação de lideranças, protagonismo político, direitos humanos, sustentabilidade e advocacy11 foram os principais eixos desse projeto, coordenado nacionalmente pela ONG Davida, com coordenações regionais de associações da RBP.

Em 2007, as prostitutas foram incluídas no Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia de AIDS e outras DSTs. O Plano foi bem recebido pelo movimento organizado, principalmente por inserir as prostitutas em políticas públicas para as mulheres em geral, antiga, porém ainda bastante atual, demanda do movimento social organizado de prostitutas, mas que efetivamente, até hoje não obteve resultados concretos.

No início do ano seguinte, o Brasil promoveu a primeira Consulta Nacional sobre DST/AIDS, Direitos Humanos e Prostituição, conforme recomendação da Consulta Regional sobre HIV e Trabalho Sexual na América Latina e Caribe, realizada em Lima, em 2007, onde a prostituição foi considerada, pela primeira vez, como “direito sexual, no marco da igualdade de gênero”. Poucos meses após a consulta nacional, representantes da Rede Brasileira de Prostitutas foram recebidas pelo então ministro da saúde José Gomes Temporão, a quem apresentaram um documento com dezessete recomendações que a categoria considerou prioritárias, dentre as mais de cem elaboradas durante a consulta. O ministro informou que levaria aos colegas da Justiça, Trabalho, Previdência, Cultura e Secretaria Especial de Direitos das Mulheres a proposta de formar uma comissão interministerial para tratar de diversos aspectos da prostituição. A comissão nunca foi criada. Até hoje algumas prostitutas que fazem parte da RBP defendem a gestão desse ministro, dizendo: “foram bons tempos”, elas se sentiam ouvidas e respeitadas nesse segmento do Estado brasileiro. Uma delas mostrou-me orgulhosa uma foto com o ministro durante o encontro.

Ao final do ano de 2008, a RBP promoveu no Rio de Janeiro, com apoio do Programa Nacional de DST/AIDS, o IV Encontro Nacional, quando elaborou coletivamente e divulgou formalmente sua Carta de Princípios, refletindo valores já adotados e que orientam as ações