O movimento revivacional da fé, surgido no metodismo inglês, migrado e expandido em novos grupos, encontrou acolhida, junto aos negros americanos marginalizados e seus grupos de santidade (holiness), pertencentes à Igreja Batista. Logo diversificou-se e acabou encontrando catalisação unificadora na formação do movimento pentecostal. Porém, a unidade foi passageira e em contraponto, a diversificação das origens voltou a manifestar-se, como característica fundante deste movimento religioso que tem como base espiritual, a liberdade e envio, soprado pelo
vento e fogo a cada um no evento de pentecostes. Em pouco tempo, foram acontecendo
metamorfoses no reavivamento pentecostal, mostrando variedades doutrinais e organizacionais, reproduzindo o mecanismo protestante, dentro do movimento, expandindo-se pela divisão denominacional.
Este processo de mutação mostra que nas religiões instituídas e tradicionais, grupos à margem vão construindo enfoques religiosos da existência, independentes do monopólio doutrinal e ritual, resultado da gestação simbólica que lhes capacita a enfrentarem os desafios terrenos. Estes grupos contestadores ou submissos movem-se pela dinâmica do senso-comum. Este é constituído por conteúdos rudimentares tradicionais, fragmentos ideológicos da classe dirigente, compreensões populares,
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religiosas, superstições, elementos culturais e ideológicos diversos. Desta maneira, os grupos à margem, organizando-se em movimentos/seitas, forjam estratégias próprias de representação do existencial e suas utopias, a continuidade e reformulação das relações sociais, econômicas e religiosas, a satisfação das necessidades concretas e visões de transcendência.
Na efervescência religiosa pentecostal, compreende-se que o Espírito Santo atua no fiel, conforme o grau de sua fé, dando-lhe um direto poder 166. O convertido acolhe o
convite divino que justifica (perdoa) e o introduz no caminho de salvação, a qual acontecerá mediante a busca permanente de santidade. Quem trilhar este novo comportamento purificador (expiatório), será confirmado com a promessa divina, a quem de fato for crente e será digno de receber o batismo no Espírito Santo. Assim, receberá o poder de testemunhar o Evangelho, demonstrando ter a força divina sobre os males do corpo, o mundo e legião de demônios.
166 Poder
– Termo polissêmico. Apresenta formas e objetivos variados, podendo envolver tensões em sua natureza, compreensões e exercício, diante da realidade heterogênea que engloba o relacionamento entre humanos e com as situações de mundo. No âmbito das organizações sociais (política, econômica, cultural, associações) constituíram-se normas sistematizadas racionalmente, sendo o poder regido por leis que estabelecem seu padrão de atuação em vista do direito e da justiça, almejando o bem comum. A modernidade foi marcada pela domesticação das compreensões e práticas dos poderes em sociedade. Passou-se a dar ênfase a que fosse regido pelo respeito à liberdade humana, ao direito universal e às particularidades, tendo sensibilidade na busca de equidade entre a consciência e o arbítrio pessoal, em comunhão com a coletividade e com os variados organismos sociais. O poder deve ser expressão da vontade ordenada do conjunto das pessoas num espaço social e seus relacionamentos expandidos. Deve ter como objetivo a moderação de comportamentos e mútua satisfação da vida humana envolvida e sua atuação com as demais realidades. Por envolver complexidades de relações e variadas situações, tende a estar permeado de momentos de conflitos, os quais desafiam a serem superados na busca de eqüidade na convivência e nas ações com o mundo. Psicologicamente, o poder está em nossos desejos e faz parte do instinto dos animais, o que exige racionalidade no comportamento humano para não se tornar obsessão e patologia, geradora de relações traumáticas. O poder só tem sentido quando o seu conteúdo encontra reconhecimento ou „legitimidade‟. Simbolicamente transmite noções e valores de disciplina na organização social, dando sintonia à variedade de interesses. Quando enfocado pelo prisma da justiça e verdade, envolve interesses harmônicos em noções e atitudes de quem exerce e sobre quem é exercido, havendo influências mútuas. O poder tem caráter relacional, no qual podemos ser sujeitos ou objetos de influências concretas ou difusas, dependendo dos mecanismos usados na sua execução.
Ver, LOGOS: Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, volume 4, pp. 311-319; Também, Enciclopédia Mirador Internacional. Volume 16, p. 9001-9004.
Podemos perceber que a pregação do evangelismo pentecostal, ofertando em nome de Deus, a oportunidade de poder ao crente, está preenchendo uma lacuna pessoal, resultante da marginalização social e religiosa dos indivíduos. Ao falar em línguas, fazer sua espontânea oração, falar e ser ouvido nos testemunhos, entrar em êxtase, inspira ao convertido um sentido de possessão do poder divino em sua vida e o dever de proclamá-lo ao mundo que precisa ser salvo, assumindo a missão proselitista. Aplica-se um misticismo de projeção psicológica, em que o fiel abençoado, sente-se emancipado de sua exclusão terrena, encontrando acolhida, valorização na comunidade crente e a possibilidade de pertença à hierarquia eclesial. Pois, no pentecostalismo a hierarquia é conquistada, mediante manifestações de dons espirituais, a começar pela habilidade de pregação da palavra. Não é exigida formação acadêmica como nas igrejas protestantes históricas ou no catolicismo.
Podemos perceber que a pregação do evangelismo pentecostal, ofertando em nome de Deus, um sentimento de poder ao crente, está preenchendo uma lacuna pessoal, resultante da marginalização social e religiosa dos indivíduos. Ao falar em línguas, fazer sua espontânea oração, falar e ser ouvido nos testemunhos, entrar em êxtase, inspira ao convertido um sentido de possessão do poder divino em sua vida e o dever de proclamá-lo ao mundo que precisa ser salvo, assumindo a missão proselitista. Aplica-se um misticismo de projeção psicológica, em que o fiel abençoado, sente-se emancipado de sua exclusão terrena, encontrando acolhida, valorização na comunidade
crente e a possibilidade de pertença à hierarquia eclesial. Pois, no pentecostalismo com
o seu enfoque na universalidade dos ministérios aos agraciados (sacerdócio comum), a hierarquia é conquistada mediante a manifestações de dons espirituais (poder da fé), a começar pela habilidade de pregação da palavra. Não é exigida formação acadêmica como nas igrejas protestantes históricas ou no catolicismo.
Esta mudança operada pela abertura humana à fé, será viabilizada e mantida no viver de consagrado a Deus, mediante uma moralidade rígida que leve a um radical comportamento renovado e distanciamento dos mundanismos e suas idolatrias. Desta forma, passa-se a priorizar o envolvimento com os irmãos na fé, o sectarismo comunitário e doutrinal. O mundo e seus organismos não têm salvação, sendo corroídos pelo pecado humano nele presentes, desde as suas origens, mostradas pela voz de Deus na Bíblia. A salvação estará no futuro escatológico, em que Jesus voltará e re- estabelecerá a paz universal e retribuirá aos seus devotos seguidores, os crentes. Toda tribulação terá o julgamento final e no livramento será estabelecido o novo milênio, em que os fiéis serão arrebatados às alegrias da nova Jerusalém celeste e o mundo com seus infiéis ruirá em chamas.
Acreditando no evangelho que relata a força do Espírito Santo que sopra e
queima onde quer, distribuindo os dons e seus poderes a quem for crente, nutre-se um
processo religioso determinista, uma crença mágica no Espírito Santo. O indivíduo deve sentir-se, o escolhido à conversão geradora de santidade e salvação, retribuindo este agraciamento com uma radical mudança de vida e dedicação à igreja e suas lideranças. Justifica-se, então, o seguimento e obediência a líderes carismáticos ou tradicionais, portadores de poderes sobre a massa convertida. Exige-se militância proselitista na defesa e aumento do grupo religioso, a inculcação de uma moral puritana, um viver sectário calçado numa leitura que promete a descoberta dos fundamentos bíblicos, o
desafio ao combate espiritual. Os pastores recebem crédito, o quanto mais revelarem males e exercerem milagres, repreendendo as forças malignas, dizendo-se enviados à missão de resgatar os pecadores das trevas e a fundação de novas igrejas, o proselitismo. Desta maneira, justificam-se as constantes gestações de novos grupos pentecostais, demonstradas neste século de chegada do movimento no Brasil.
O pentecostalismo, descendendo dos movimentos/seitas reagentes à contradição das igrejas reformadas na Europa e EUA, rompe formando um protestantismo de
conversão. Pela característica marginal e perseguido, o movimento pentecostal
radicaliza o enfoque protestante, como: o dualismo que coloca o mundo como vácuo, entre o divino nas alturas e os seres humanos na vala do pecado; a centralidade em Jesus, o que tem poder de resgate; que a salvação é acesso individual; a trina verdade de crença protestante (só a fé, a graça, a escritura). De outra forma, o pentecostalismo contrapõe a visão de que o sagrado estaria só no âmbito transcendental e acessível, quanto manipulado pelos agentes eruditos e instituídos; a racionalidade, o perfil elitizado, distante e com rejeição à cultura popular; o culto discursivo, intelectualizado e sem dinâmica aos sentidos (gestos, visual, emoções); a contestação ao mistério existencial com suas aberturas ao milagre, superstições e magias.
O movimento pentecostal pela abertura ritual e formato simples da mensagem, estabelece comunhão, aproximando o crente da divindade. A atuação dos intermediários é menor, como também, torna-se próxima a distância social entre a liderança de perfil popular e sem erudição com a membrezia de cultura marginalizada. O convertido é apresentado como santificado e, portanto, em condição de ter relação direta com o divino, não necessitando da santaria e imagens católicas. Há, uma personalização, transmutando do santo materializado (morto) para o existencial, o corpóreo do crente (vivo). O culto aos agentes passados e de história distante passa a ser idolatria e, conforme a mensagem bíblica, contrário a Deus. O Espírito age no convertido e comunica a vontade e a verdade divina ao indivíduo caminhar santificado e salvo. Assim, o crente torna-se digno de estabelecer diretos contatos, alianças, promessas, votos de fidelidade e confiança com o transcendente que está consigo.
Da mesma maneira, a dimensão messiânica e milenarista, acontecerá mediante o preparo e a vigilância do crente na obediência comportamental, aguardando a separação dos justos para o além. Portanto, a redenção da vida adversa não acontecerá na imanência terrena. As estruturas injustas do mundo permanecerão como espaço de
provação e preparação à transcendência ou permanência terrena e perdição. O juízo
final será de vingança divina. Os variados enfoques do pentecostalismo recriam uma
visão religiosa do mundo, permeada por elementos da ideologia dominante, conservando a crença desvinculada de uma visão crítica das estruturas sociais. E, como contraponto, gestam uma visão de mundo apocalíptica-messiânica à solução dos problemas existenciais. Como protestantismo de conversão, o fenômeno pentecostal formula uma popularização religiosa, incorporando, excluindo e sincretizando, também elementos do catolicismo popular e elementos ideológicos da cultura dominante, como da cultura popular.
Este comportamento religioso e social pentecostal tem origem no movimento
revival, o qual chegou e estruturou-se nos EUA, como seita de cunho intimista e sem
vinculação com os dramas da realidade social, tendo uma espiritualidade a-histórica, devocional, espontânea e milenarista. Incentivou a individualidade da fé, numa moralidade codificada à santidade, nutrindo esperanças na verticalidade da salvação na nova morada dos céus. De forma diferenciada, o movimento holiness, surgiu na periferia norte-americana e avançou nos arrabaldes urbanos permeados por conflitos étnicos, arrebanhando as massas migratórias de tradição rural, excluídas dos direitos sociais. Seu início foi contestador e gerou lideranças em defesa dos direitos sociais das minorias. Porém, nestes cem anos de movimento, até onde esta parcela portadora de uma santidade inserida resistiu? Ou, também foi absorvida pelo branqueamento revivacionista, seguidor da espiritualidade vertical que marcou a divisão inicial do movimento?
Estas levas de povos, em sua carência generalizada e perda de referenciais, tornaram-se receptivas a novos valores simbólicos que lhes dessem sentido no viver, diante da realidade caótica da sociedade moderna envolvente. Esta situação foi propícia às pregações pentecostais de cunho mágico, desencarnadas do real-social, aplicando- se um discurso emotivo, moralista, consolador e de promessas na vingança de Deus. Esta pregação vertical e sectária tem produzido contingentes sociais, massas alheias e conformadas com as dominações da sociedade estabelecida, gestadora do capitalismo excludente. Exemplo desse processo de manipulação econômica e política, embasada no religioso com forte participação pentecostal, ocorreu nas décadas de 1960-70, quando na América Latina instituíram-se ditaduras militares, em nome do combate ao risco do comunismo. Existiram fortes suspeitas do patrocínio norte-americano à
expansão pentecostal, como força de combate à militância de líderes cristãos históricos progressistas, junto às massas populares. Houve acusação de patrocínio empresarial e governamental à expansão pentecostal, como força ideológica de dominação imperialista, a serviço do combate aos movimentos democráticos e reivindicatórios, via alienação religiosa e social.167