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Podemos ver que as compreensões iniciais do movimento revival de origem wesleyana na Inglaterra, migrado aos EUA, entrou em comunhão com o movimento

holiness de origem batista, encontrou acolhida entre os presbiterianos, acarretando

salientes mudanças. Aumentou a distância das origens protestantes e reagiu contra a modernidade racionalista, concretizando-se em pontos conservadores, vindos de variadas fontes, divergindo da Reforma Luterana e seu combate ao intimismo místico. O gestado pentecostalismo prega a volta às origens cristãs, mas não deixa de fazer de forma inversa, a absorção de elementos arcaicos da idade média, os movimentos sincréticos e seitas tão combatidos pelo longo movimento de ruptura protestante.

Na defesa do seguimento da seita anabatista (séc.XVI) sobre o batismo de adultos ou o re-batismo, o pentecostalismo diverge da tradição católica e protestante e nega o valor do batismo de criança. Resignifica a dimensão de compadrio do catolicismo popular para o relacionamento de irmandade dos convertidos e pertencentes à congregação crente, os irmãos na fé. Enquanto, o protestantismo e o catolicismo romano, em suas ortodoxias, rejeitaram a cultura popular, o pentecostalismo acolheu e reconfigurou, conforme pontos de interesse na sua lógica ritual e doutrinal, formulando a compreensão e aceitação de seu enfoque pietista e sectário. O crente não precisa ir à festa mundana com suas épocas e locais. O pentecostal faz festa o ano todo, louvando a Deus pela alegria da experiência de fé na sua individualidade e pelo culto de louvor e êxtase no templo. É a convicção de convertido, santificado e salvo que lhe projeta na alegria de dimensão transcendental, diferente das momentâneas e pecaminosas festas terrenas. Há uma re-elaboração dos simbolismos pré-existentes na cultura e religiosidade popular, como também, pontos das ortodoxias oficiais das igrejas cristãs.

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Por isso, o pentecostalismo torna-se diversificado, conforme a visão pessoal e realidade cultural de seus líderes e a coletividade da congregação religiosa local.

Vejamos alguns elementos divergentes, deste protestantismo conservador ou

religião do espírito com perfil de mudança e renovação: - Deus é o soberano que impõe

temor e punição eterna às criaturas; - concepção calvinista da eleição e seu puritanismo moral à santidade; - movimento pietista à santificação, justificados pela fé (salvação imediata) e capacitados no poder vencedor do mundo contaminado; - visões místicas individuais e seus fenômenos espirituais em massa: glossolalia, batismo com o Espírito Santo, revelações, milagreirismo...; - o movimento ascético incutindo o sacrifício e o isolamento sectário- a prioridade do emocional sobre o racional, gerando fanatismo entusiasta; - a salvação mediada pela experiência individual da fé (revelação pessoal); - a prioridade do sobrenatural, desprezando o mundo histórico; - o maniqueísmo e dualismo (luta entre: bem-mal, sagrado-mundano, Deus-diabo, salvos-condenados); - o desafio à missão proselitista de arrebanhar na igreja, em preparação à cidade celestial no novo milênio; - visão mágica do mistério redentor de Cristo, sobre a realidade humana decaída; - o individualismo na interpretação bíblica e seu enfoque fundamentalista, literal e moralista; - o emocionalismo cúltico, nutrindo a visão subjetiva da salvação; - a distância entre o natural e o sobrenatural; - a exigência de comportamento pessoal (linguagem, testemunho) e corporal (usos e costumes), como sinal de militância do crente, o indivíduo salvo; - dramatização das experiências pessoais, o êxtase sagrado e o testemunho.

O pentecostalismo em sua origem e tradição conserva divergência com sua vertente protestante, em relação à participação e flexibilidade de relações com os leigos, primando pela visão hierárquica da religião e sua institucionalização. É permitida e incentivada a liberdade cúltica intimista, mas quanto à organização da instituição, o poder é monopólio do líder iluminado, cabendo obediência. Nisso, acontece uma contra-

reforma, dentro do protestantismo, resgatando uma imagem do Deus-autoridade, o

guerreiro dos exércitos do Antigo Testamento e da época medieval, o casuísmo moral e sua condenação, o emocional e místico em desprezo ao racional, a autoridade religiosa que impõe normas à conduta civil, a salvação individual da alma, a obediência e idolatração aos líderes centralizadores, o dever da massa em conservar a obediência concordante para agradar a Deus, a tradição e legalismo dominantes, a cúpula com o monopólio do saber e poder.

Neste panorama, a estrutura pentecostal institucionalizada apresenta na sua organização geral, o poder centralizado em suas cúpulas, permitindo uma participação controlada da membresia. A flexibilidade fica restrita, em torno das manifestações individuais de crença, durante o culto, como: expressões particularizadas de testemunhos numa dimensão vertical da fé nos momentos de súplica ou na hora dos louvores, leitura bíblica individual, atuação proselitista de pregação nas casas. No mais, cabe ao crente, escutar com obediência o ensino dos pastores e cumprir suas exigências para merecer o atendimento divino que a isto está condicionado.

O pentecostalismo evangélico é um movimento religioso derivado e marcado pela característica protestante de subjetividade na interpretação bíblica e ruptura institucional, gestando seitas que vão instituir-se em igrejas independentes, salientes no centralismo de líderes carismáticos. Processo que tenderá à gestação de tradição em torno de sua mensagem e autoridade. Portanto, segue a tradição protestante de crescimento pela divisão institucional, mas diverge no perfil de liberdade e participação dos indivíduos na comunidade religiosa e na sociedade. O crente é livre e criativo nas expressões de fé, em relação a Deus, mas não na horizontalidade da existência eclesial e social. Nesta dimensão, cabe ao rebanho submissão ao mediador iluminado e não é permitida a autonomia individual.

Portanto, ocorre o controle dos membros, em relação à sociedade, exigindo-se separação e distinção, quanto aos usos e costumes nas vestes, lazer, atuação partidária, sindical, associações de classe, relações ecumênicas. Há forte insistência na participação interna do grupo eclesial, incutindo-se uma solidariedade sectária, o cultivo do gueto religioso. Quando há atuação para fora, ocorre em nome da igreja na conquista de novos membros, os prosélitos ou, seus líderes estabelecem relações com a sociedade secular, em vista de barganhas pessoais ou institucionais.

Este enfoque religioso sectário e pietista encontra base na cultura popular que por suas carências e marginalização, tende a ser permeada por uma visão de predomínio religioso espiritualista, verticalizado e dualista da realidade existencial, como também de concepções ideológicas incutidas pela classe dominante. Este contexto de compreensão torna-se acessível à aplicação religiosa pentecostal com sua dicotomia de compensação extra-terrena: carência material – abundância espiritual; desprezo ao mundo presente – super-valorização à cidade celestial no pós-morte; analfabetismo e baixa escolaridade – sabedoria do alto; carência de conteúdos eruditos – Bíblia aberta em casa e no culto;

inteligência pessoal – dons do espírito santo; força e poder dos homens – todo domínio vem de Deus; ser humano fraco – Jesus tem e dá a força do alto; incrédulo – convertido; infelizes à sociedade das vaidades- felizes aos valores do céu; organização social e política (horizontalidade e coletividade existencial) – luta simbólico religiosa (verticalidade e individualidade salvífica); mundo na perdição – salvação na segunda vinda de Jesus com o arrebatamento dos puros e salvos; seguir os projetos dos homens - obedecer ao plano de Deus revelado; inserção no mundo/sociedade – participação espiritual/igreja; - sabedoria humana passageira – verdade de Deus eterna... “Vós estais no mundo – não sois do mundo”!

Nesta dicotomia de compensação imaginária que é incutida, o crente encontra sentido na árdua caminhada existencial.

Portanto, o acesso direto e imediato à fonte da verdade religiosa, o Espírito Santo e o cumprimento das normas estabelecidas pela congregação permitem ao crente superar, simbolicamente, a pobreza material, o baixo nível de escolaridade e o poder secular, como algo inacessível. Agrega-se a esta compreensão que o crente oprimido tem do mundo que o marginalizou, a visão messiânica apocalíptica.168

A princípio, o pentecostalismo é avesso ao engajamento, mobilização e contestação da ordem social. Por outro lado, conforme os interesses pontuais da igreja, em algum espaço de poder na sociedade civil, define-se a participação de representantes da cúpula, cabendo à massa crente apoiar, o que lhes for exigido. O apoliticismo lentamente foi sendo rompido, tendo diversos líderes pentecostais, ingressado como candidatos em partidos conservadores e conduzindo suas massas para o voto corporativista de perfil de direita. Se existiram exceções à esquerda, foram raras.

No Brasil, a ditadura militar, a partir de 1964, passou a incentivar líderes pentecostais à inserção na política partidária, como contraponto à militância católica de oposição ao poder do regime militar. Desejavam os militares da linha dura, quebrar a influência do clero e leigos progressistas católicos, junto ao operariado e agricultores, trabalhadores rurais. De 1964-85, diversos donos de igrejas, candidataram-se ou canalizaram os votos do rebanho pentecostal aos políticos alinhados à elite do poder.

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É o caso da política partidária na década de 1980, em diante, em que a Assembléia de Deus, definiu estratégias corporativas de conquista de espaço com candidatos próprios na política. Exemplo que despertou o interesse de tantas outras, dali em diante. Assim, as igrejas pentecostais, como estratégia de poder e penetração social atuam, espelhando posturas contrárias à gênese protestante, ligada à modernidade e inserção social e também divergindo de sua própria tradição pentecostal sectária. Nesta tentativa de penetrar no poder secular, o pentecostalismo clássico, acaba claudicando, entre a continuidade e descontinuidade com a visão-de-mundo da religião tradicional, mundanizada, a qual condenam.

Com a redemocratização na década de 1980 e a Nova República, em 1986, houve grande abertura dos pentecostais na política partidária, à exceção da Congregação Cristã, a qual ainda na primeira década do novo século não permite candidatura e disputas políticas de seus líderes e membros. Na época, a eleição do Congresso Nacional, em vista da nova Constituição do Brasil, em 1988, despertou forte entrada e candidaturas de líderes pentecostais, instrumentalizando a liberdade de voto de seus contingentes de fé. Os eleitos formaram, em nome da defesa da liberdade religiosa e moralidade pentecostal, a Bancada Evangélica, aliada nas votações aos políticos burgueses, representantes do grande capital, o chamado centrão. Neste corporativismo direitista, muitos projetos populares foram barrados, em prejuízo às próprias classes populares, de onde provém a maioria do rebanho pentecostal.

Benzer Belgeler