MÜBADĠLLER VE BAĞLAR
3.1. Metruk Bağlar Meseles
Vou fazer quatorze anos e já raciocino mais de que toda família. Comecei a tirar conclusões desde dez anos ou menos, eu penso. E juro que nunca vi uma pessoa da família de mamãe pensar nas coisas. Ouvem uma coisa e acreditam; e aquilo fica para o resto da vida. São todos felizes assim! (MORLEY, 1998, p.174-5-6, 26jul94).
No diário intitulado Minha vida de menina (1942), Helena Morley declara que foi motivada pelo pai, protestante eclético, a exercitar o hábito de escrever, registrar os
acontecimentos os quais a família vivenciava. Além disso, o professor de Português da Escola Normal exigia das alunas uma composição diária. Assim, a trama diz respeito ao cotidiano da vida em Diamantina, cidade mineira onde os resquícios da escravidão eram latentes e a mineração encontrava-se em decadência. Dessa forma, Helena revela uma análise crítica da realidade histórica daquele momento, sobretudo do olhar de Alexandre, pai da protagonista. Este era filho de ingleses, o que permite a exposição e o olhar de diferentes perspectivas históricas, sociais e religiosas. Como, também, de tia Madge e da avó materna, Teodora.
O diário aproxima-se de uma narrativa de formação, subgênero muito próximo do
Bildungsroman (romance de formação), na medida em que relata o processo de crescimento a partir de experiências de vida da protagonista. Esta aprende a conhecer a si mesma e as outras pessoas que vivem no mesmo espaço (urbano/mineração), penetrando, silenciosamente, nas entranhas e segredos da existência humana. A personagem revela sua condição social e as necessidades materiais, marcadas pela falta e o desejo de alcançar uma vida melhor. Aguiar afirma que pesquisar “[...] elementos no diário que atestem seu ‘bildung’ não é tarefa difícil considerando a impregnação de situações que lentamente vão atuando sobre a trajetória da menina” (AGUIAR, 2004, p. 82, grifo do autor). Aproxima-se, portanto, conforme François Jost, do subgênero literário denominado bildungsroman. Conforme o estudioso, o “Bildungsroman” é caracterizado não apenas pela estrutura formal, mas sobretudo pelos aspectos temáticos presentes na narrativa, que retrata o adolescente e os valores sociais de uma determinada época, porque
[...] apresenta as conseqüências de eventos externos sobre o herói, registrando as transformações emocionais, psicológicas e de caráter que ele sofre. Há uma ênfase, portanto, no desenvolvimento interior do protagonista como resultado de sua interação com o mundo exterior. (PINTO, 1990, p.10).
Ou seja, trata-se da descoberta que a menina faz de si mesma e do papel que desempenha na sociedade por meio das experiências múltiplas, vivenciadas ao lado de inúmeros personagens (pais, tios, tias, primas, primos, amigas, professores, padres, vizinhos, ex-escravos, moradores, em geral), que desfilam nos registros do diário. Vale assinalarmos que, a partir da tradição do romance de formação, conforme a sua definição inaugural do “Bildungsroman”, a protagonista perpassa pela fase inicial da adolescência, vivencia experiências ao longo dos registros, sofre modificações internas, percebe e enfrenta as dificuldades diversas impostas pela vida.
Os registros correspondem aos anseios da jovem e ao modo como se dá a organização familiar. Além disso, a protagonista observa as condições da constituição do mundo social e político de Diamantina; ela narra sobre o homem comum, o político, o ex-escravo, o hóspede, o padre, as mulheres nos seus diversos papéis, enfim, todas as categorias sociais. Ao referir-se a si mesma, Helena percebe a sua própria condição, marcada pela contradição, por conflitos e dúvidas.
A organização do diário apresenta uma estrutura linear e cronológica, característica do gênero: cada registro vem antecedido pela indicação do dia da semana e do mês. Os fatos apresentados referem-se às atividades, impressões e observações das experiências rotineiras da menina, e há encadeamentos de histórias autônomas, próximas à crônica do cotidiano. Às vezes, a protagonista termina o final do registro como uma sentença, próxima às lições de moral presentes nas fábulas. Retoma histórias do passado contadas pela avó ou os contos narrados pelas negras que vivem na Chácara. O final é aberto, pois o leitor não tem informações, sobre se acaso Helena deu continuidade ou se fez um corte para a publicação.
No tocante às personagens principais, podemos realçar a importância dos pais, da avó, de tia Madge e os irmãos: Renato, Nhonhô e Luisinha. Há uma série de personagens femininas, masculinas, crianças, que perpassam a escrita de Morley8. Assim, podemos
8 Aqui elencamos os nomes, a partir da sequência apresentada no diário, em 1893, constituindo-se um interessante painel onomástico do Brasil (e de Minas) dos novecentos: Renato, Luisinha, Nhonhô (Joãozinho). Emídio, Benvinda, Dona Mariquinha, Seu Juca, Capitão Gasparino, Seu João Roberto, Cesarina (negrinha demônia), Arinda e seu o pai, Tio Joãozinho, Dindinha, Chiquita (filha de Teodora), Totônio, Tia Quequeta, Glorinha, Sérgio, professor de Português da Escola Normal, (professor de Geografia), Seu Artur Queiroga, Seu Sebastião (professor), Mariana, Mestra Joaquininha, Siá Ritinha, Tias inglesas, Seu Benfica e D. Teresinha, Leontino, Tia Aurélia. As pobres de Dona Teodora: Chichi Bombom, Frutuosa Pau-de-Sebo, Teresa Doida, Aninha Tico-Tico, Carlota Bostadanta, Teresa Busca-Pé, Eufrásia Boaventura, Maria Pipoca e Sá Fortunata, mãe de Bertolino. Bambães, Andressa, Nestor, Seu Broa, Nico, Seu Herculano. As negras, Seu Antônio Eulálio, Seu Olímpio Mourão, a família de seu Marcelo, Elvira, Seu Guerra, Laurinda, Luís de Resende, Seu Marcelo e tio Geraldo, Seu Marcelo, Jeninha, Naninha, Tia Agostinha, Dona Augusta, Belinha de Seu Cula, Henrique (“tio da mamãe”), Tio Julião, (“primo longe de mamãe”). José Pedro. Ladrão misterioso, Dono da venda do Rio Grande, Tio Conrado, Tia Carlota, Pretinha (filha da alugada) Maria. Iaiá Henriqueta. Senhor Bispo, Padre Florêncio, Chininha, primas. Maria Flora e Rodrigo; Didico (filho de Maria Flora e Rodrigo). Rita, Quintiliano, Padre Augusto, Padre Neves, Tia Agostinha, Américo. Gabriela. Cunhas (“duas velhas que vivem metidas em casa”). Geraldo e Anacleto (irmãos das Cunhas). Siá Generosa, Magna. Mainarte (negro africano). Seu Cláudio e as filhas; Ivo Arara, Donana Teles (mulher do médico). Só Tomé (escravo). Dona Mariana, Dona Maria Batistina. Major Antônio Felício. “Homem que passa toda sexta-feira”. Seu Ferreira, Dona Germana. Clementina, Seu Manuel César, Júlia. Rapazes das principais famílias: Lauro Coelho; Seu Leivas, Fifina, Eva, Lucas, João Afonso, Beatriz, Sérgio, Hortênsia, João Afonso, Sérgio, Delmira, Isabelinha. Seu Paulinho, Heloísa (filha de Paulinho); Moisés de Paula, Manuel Arrã e Modesta (rendeira), Ester, Siá Aninha, Seu Antônio do Rego. Seu Ricardo, a esposa e cunhada de Seu Ricardo. Zé da Mata, Raimundinha (falsa gravidez), Pedro Falci, Seu Manuel César, Seu Sebastião Coruja, Ester, Mãe Tina, Tio Mortimer (irmão de Alexandre), Tia Ifigênia e tia Cecília, tia Neném. Mãe Tina (ex-escrava tísica), Siá Virgínia, Onofre (filho de tio Geraldo), Elvira. Negra Maria (de tia Aurélia), Tia Clarinha, Zé Pedro, Mota (dono da loja), Padrinho Carlos, irmão de Alexandre; Zezé (filho de Geraldo). Bibiana (filha de Geraldo). Seu João Pereira, Joãozinho e Onofre, Reginalda (funcionária de Teodora), Chico (macaco), José Rabelo (“vive pesando urubu na balança”), Seu Juca Neves, Anselmo, José Santeiro e Malaquias.
perceber o número significativo de personagens ou pessoas que desfilam nos registros de Morley. Algumas são apenas citadas, apresentam traços meramente superficiais ou servem
Luisinha, Renato, Nhonhô, Emídio, Tia Neném, Tia Ifigênia, Tia Agostinha, Siá Eufrásia, Boaventura – encapadora de chapéu;, Professora Virgínia, Professor Sebastião. Padre Neves, Seu João e Virgínia (“dois pretos muito bons”, e “a negrinha”; Tio Justino, Tio Geraldo, Tio Joãozinho, Tio Conrado, Tia Aurélia, Tia Henriqueta (Iaiá) (filha de Teodora). Nico Boi Pintado (Henriqueta criou como filho dela), Naná (Maria Orminda), Inhá (mãe de Naná), Florisbela (escrava), Marciano (escravo). Amigo de Marciano (invejou Bela e fez feitiço), Dindinha, Glorinha, Leontino, Chichi Bombom, Seu Cadete, Chica, Rita (funcionária da avó), Doutor Teles, Siá Donana, Elvira e Jeninha (amigas de Helena), Dr. João da Mata (deputado). Negros da Chácara que sabem ler: Marciano, Roldão e Nestor. Dentista. Palha, Seu Antônio Eulálio. Dona Gabriela. Biela, Mariana, Clélia. (Negros da Chácara), eram três casais: Benfica e Generosa, Mainarte e Magna, Machadinho e Henriqueta, e dois sem mulheres: Joaquim Angola e Quintiliano. Cesarina. Rita. Júlia. Maria Hilária; Seu Alex, “trouxe padaria”; Siá Mariazinha, Dona Vicentina (professora de piano de Glórinha), Siá Ritinha, Mestra Joaquininha, Senhor Bispo, Maria Pena, Sá Ratinha, João Antônio. Cecília, Quita, Chiquinha, Américo de Matos, Seu Juca Parrudo, Maria da Conceição (filha de Juca Parrudo), Sebastião Coruja, Rodrigo Pimenta, Se Zeca (morador no alto da Luz – “que vivia de fazer cigarros”,, vendedor de Alexandre), Isaías, Siá Margarida (esposa de seu Zeca), Tia Clarinha, Juliana, Raquel, Laurinda. Neto de tia Clarinha, Naninha, Arício; Seu Manuel Matias, Andresa, Sinhá, Mateus Camilo, Siá Etelvina, Zulmira, Beatriz, Anselmo Coelho e Toninha, sua esposa. Mariquinhas, aluna do 4º ano, e Antoninha, sua mãe, Seu Carneiro, Reginalda, Leontina, Maria Pequena, Aída, filha de Maria Pequena, Cristina Ferreira (Zizica), Lucas, José (filho de criação de tia Agostinha), Mãe Tina, Pai Filipe, Joaquim – filho de criação de Dindinha. Seu Juca Neves, Catarina, Antônio Lemos, Menino (queimado pelo fogo), Chico Lessa, Henriqueta e Machadinho (negros que ficavam na horta de Teodora), Zé Pedro, As Pitangas: Miloca e Jacinta, Juca Boi, Siá Antoninha, Procópio, Dona Juliana, Raquel (cozinheira), Agapito, Siá Emília e seu Serafim. Tião, Belinha, Francelino, Gegênia, Edmundo, tia Ritinha, Joviano, Maricas, Siá Alexandrina, Seu Mendes, Tião, João Quati, Joaquim Angola, Júlia e Roldão, Dona Elvira, Biela Neto, Nazinha (filha de Biela Neto), Pedro Neto, D. Nazaré, Clélia e Mercedes (colegas da escola) e Modesto Rabequista (ensinou lições de exame – música).
No ano seguinte, 1895, Helena cita os seguintes nomes:
Renato, Luisinha, Nhonhô, Justino, Tia Aurélia, Dindinha, Tia Carlota, Tia Ifigênia, Tia Agostinha, Tia Henriqueta, Tia Clarinha, Tio Conrado, Tio Joãozinho, Tio Geraldo, Tio Mortimer, Tio Antônio Lemos (marido de Florinda), Tia Florinda, Antenor (filho de tio Antonio e Florinda), Antoninho (filho de tio Antonio e Florinda), Quequeta (irmã de tia Madge), Nico Boi Pintado, Benvinda (criada de tia Agostinha), João Antônio, Abílio, Tia Plácida, Beatriz e Hortênsia (filhas de Tia Aurélia e Conrado), Ester e Ramalho, Zinha, Esmeralda, Luísa, Seu Sebastião (professor de Língua Portuguesa),Seu Luís de Resende, Mercedes (colega de escola), Mestra Joaquininha Colegas Iaiá Leite, Mercedes, Clélia, Mocinho simpático, conhecido de Iaiá. Afilhada de Helena, pretinha de Boa Vista, e a mãe , Alicinha (irmã de Alexandre), Dr. Teles, Superiora do Colégio, Dr.Vincent (engenheiro) , Seu Emídio, Rita, Maria Quitéria (alugada –“ arrumou o jantar com Seu Sebastião Rabelo e tia Madge”). João Felício, Dr Felício dos Santos, Dr. Alexandre, Seu Claudio “aleijado, que precisava ser carregado”, Seu Antoninho Marcelo, Thiers e João César, Seu Guilherme (dentista), Dona Rosa (esposa do dentista) e (filhas) Angelina e Bibiana; Dona Gabriela (mãe de Clélia, amiga de Helena). Mulher de seu Facadinha, Lauro Agostinho, Amélia do Zé Lotério, Zezinho, Rapazes da escola, Maria Antônia – Tortura. Elvira Bolacha. Sinhá Sílica Menina Bonita, Ângelo, Glorinha, Maria Béu, Maria Balaio, Siá Joaquina Balaio (mãe de Maria Balaio) Sinhá Mota, Professor de História, Senhor Bispo, Seu Luís de Resende, Luísa Guerra, Siá Ritinha, Nestor. As negras, João de Assis, Sérgio, Anita, Siá Germana e Seu Ferreira (esposo de Germana), Clementina, Brígida e Pedrinho (Filhos de seu Ferreira e Siá Germana). Leocádia e Juvência; Mariquinha Bonecreira; Círiaco, João Felício, Seu Dominguinhos, Dr. Viana e Iaiá Viana, Chiquinho e Rafaela (filhos de Tio Geraldo), Lucas, Lála, Botelho, Siá Donana, João Antonio (neto de D. Teodora, filho de tio João). Generosa, Finoca, Madalena, Seu Neves, Catarina, Joaquim Melo, Vieira, Isabel, Naninha, Filhos de Seu Domingos, Estevão, Parentinho (Helena reserva uma data para descrevê-lo). Doidos da cidade: Duraque, Teresa Doida, Chichi Bombom, Maria do Zé Lotério, João Santeiro, Antônio Doido, Domingos do Acenzo (cabeleireiro). Chico Lessa, Nhanhá, Seu Leivas, Iaiá Leite, Seu Marcelo e Lauro (seu filho), Matilde, Cacilda Pimenta, Joaquim Coelho, Dr.Álvaro, Seu Cadete, Manuel do Cadete, Seu Ramos, Mariquinha Pimenta, Zezé Leme, Jeninha. Laurinda, Fifina, Dr. Joaquim Felício dos Santos, Dadinha e Podina, Dona Mariana, Dr.Teodomiro, Siá Balduína, Dona Marcela, José Teixeirão (esposo de D. Marcela e pai de Siá Balduína), Teófilo Otoni, Joaquim Angola (último negro), ,Júlia (filha do ex-escravo), Mercedes, Prima Batistina, Tia Ritinha (mãe de Batistina, esposa de tio Joãozinho), Lenheira Romualda e seus 4 filhinhos. Seu Artur Queiroga, Jacinta do Pitanga, Zabelinha, Maria Pena, Artur Napoleão, Catãozinho, Clélia, Edésia e Nícia (filhas de D. Gabriela), Seu Costa, Siá Etelvina. Uma mulher pobre, Velha Luísa, Salomão, Margarida e, por fim, Padre Neves.
como ilustração para uma explicação; outras se repetem diversas vezes e fazem parte de uma complexa teia de relações que se configuram no meio familiar, revelando, então, aspectos afetivos, espirituais e intelectuais. A maior parte das personagens é apresentada como figurantes, destituídas de complexidade.
Helena nos dá a impressão de que essas pessoas vivem e que mantêm “[...] certas relações com a realidade do mundo, participando de um universo de ação e de sensibilidade que se possa equiparar ao que conhecemos na vida” (CANDIDO, 2002, p.65). Quanto às personagens cruciais, reservamos um espaço para analisá-las cuidadosamente; dentre elas, a mãe, a avó Teodora, Tia Madge, o pai, irmãos, dentre outras tias mais próximas do cotidiano de Morley. Sobre estas, Helena se demora um pouco mais nas descrições de suas atitudes e modos de ser, possibilitando-nos observá-las de forma mais detalhada e cuidadosa.
Além disso, essa série de nomes pode funcionar como um quebra-cabeça. Em outras palavras, Helena cita os nomes no decorrer dos fatos e cabe ao leitor montar o quadro familiar, visto que ela não identifica claramente a posição de cada um, ou seja, se é irmão, irmã, tia materna ou paterna. Assim, o leitor tem a impressão de que faz parte da família e de tudo lhe é conhecido, resultado de que, em princípio, o diário destina-se ao próprio enunciador, que também assume a posição de leitor. Todavia, há um exercício no decorrer da leitura, em que se deve encaixar cada sujeito, numa determinada posição, o que permite entender a dinâmica familiar e, por conseguinte, como se dá a constituição da personagem principal na relação com os outros.
Quanto à duração dos relatos, como já anunciado, trata-se de um período estendido por três anos: 1893, 1894 e 1895. Esses anos apresentam algumas referências históricas significativas, como em 1893: a inauguração do telégrafo, o uso da nota em borrusquês, o dinheiro denominado réis, a chegada do sorvete à cidade, o aluguel de empregadas domésticas (as negras). Percebem-se, ainda, os traços do processo de modernização, visto pela fala de Alexandre: “Ele diz que o francês já encomendou maquinismo e que tirar diamante agora vai ser diferente do sistema de bateia. Os maquinismos vão mexer tudo e os diamantes já saem separados” (MORLEY, 1998, p.113, 11dez93).
Em 1894, há outras referências; inclusive, Helena registra um fato anterior, próximo à infância de sua mãe, relatado pela avó:
Quando os dragões passavam por lá, vovó escondia os diamantes e o ouro dentro da almofada de renda e ficava sentada batendo os bilros. Eles chegavam, olhavam e iam embora. Depois veio licença para mineração e acabaram os sustos.
Quando houve uma guerra na Serra do Mendanha vovô foi, contrariado, porque ele estava de um lado e os irmãos do outro. Ele levou uma bala no braço e vovó ainda tem a farda dele azul, de botões dourados. (MORLEY, 1998, p.123, 14jan94).
Há, ainda, os resquícios da Lei Treze de Maio: a avó de Helena sempre se queixava da condição dos ex-escravos, uma vez que não alcançaram a independência econômica e muitos deles ficaram com dona Teodora. Há o relato sobre a condição política do Brasil, estendendo- se à cidade de Diamantina:
Disse que lá estavam os florianistas e custodistas todos misturados e todos oficiais e não havia soldados, (MORLEY, 1998, p.132, 25fev94).
Os negros da Chácara, que sabem ler, que são Marciano, Roldão e Nestor, já desde cedo estavam de roupa limpa para a eleição. Vovó lhes recomendou: “Vocês não escutem conversa de ninguém nem aceitem papel nenhum que queiram dar. Fiquem perto de Joãozinho e na hora de votar façam o que ele mandar”. Eles saíam muito anchos. Eu gosto de ver a animação da cidade mas não acredito que isso possa adiantar nada para nós”. (MORLEY, 1998, p.134, 25fev94).
Ontem foi a festa de Joaquim Angola. Este negro fugiu de um senhor muito mau do Serro e foi esconder-se num quilombo perto da Lomba. (MORLEY, 1998, p.210, 9dez94).
Diz tia Madge que o tal inglês ficou impressionado com a riqueza dos vestidos, a fartura de comidas e bebidas, a alegria de todos e disse que nunca podia supor encontrar um lugar tão civilizado tão longe do Rio de Janeiro. De volta a Inglaterra ele escreveu um livro onde contava a história da festa e falava em vovó e meus tios. (MORLEY, 1998, p.213, 16dez94).
Em 1895, outros eventos permitem situar o contexto daquele ano:
Hoje houve uma grande festa na nossa linda Diamantina. Inauguraram a administração dos correios com muitos fogos, muitos empregados, numa casa muito grande de Seu Antoninho Marcelo. A rua do Bonfim ficou cheia.(MORLEY, 1998, p.235, 15mar95). No jogo da Bola me disseram que, desde que esses estrangeiros andam por aí comprando lavras, ela pensa que é estrangeira e que esta língua dela também é estrangeira.(MORLEY, 1998, p.238-9, 29mar95).
Não sei como uma menina, inteligente como você, não compreende as coisas. [...] Festejar república é bobagem. República é coisa para essa gentinha. Gente direita não entra nisso. (MORLEY, 1998, p.289, 3set95).
Hoje morreu o último negro africano de vovó. Serviu a ela até o fim com toda dedicação. Vovó lhe deixou, numa carta que escreveu, duzentos mil - réis. Para as negras deixou quinhentos. Também Joaquim Angola não tinha precisão. Penso que foi mais para ele se consolar. Na morte de vovó é que eu vi como ela era querida dos ex- escravos. Este preto vinha da horta todos os dias para vê-la. (MORLEY, 1998, p.310, 10nov95).
O jantar do aniversário de vovó era um acontecimento na família. Era servido em duas grandes mesas. Na sala de jantar ficavam os filhos, filhas, genros, noras e netos
maiores; os menores em outra mesa debaixo da parreira. Tudo era feito com fartura: leitões, perus, panelões de arroz, tutu de feijão com lingüiça, empadas e o mais [...] Os negros da Chácara, que adoravam vovó, também faziam sua festa no salão da senzala antiga com muita alegria. (MORLEY, 1998, p.324, 16dez95).
Além desses acontecimentos, podemos assinalar costumes, como as brincadeiras de pular fogueira, assar cana ou batata-doce, brincar de fazer comidinha de boneca, contar histórias, barquinha, caçar, pescar, brincadeiras como “Ciranda cirandinha” ou outras cantigas de roda. Do mesmo modo, as atividades voltadas para o trabalho, tais como passar roupa da casa a ferro, arear a casa toda com pita e areia, varrer o terreiro, catar arroz, cerzir meias, lavar roupa no rio, fazer doces, rosquinhas, queijos, dentre outras atividades domésticas. Além das festas religiosas e os costumes da época; dentre eles, procissão do Santíssimo, Festa do Divino, Jogo Trinta-e-Um, festa de São João, malhar o Judas no sábado de Aleluia, velório, novena das Mercês, Cortar jaca (sapateado), levantamento de mastro em Diamantina (este considerado uma das melhores festas por Helena), dentre outras.
No que se refere ao espaço macro, como já enunciado, trata-se da cidade de Diamantina. Há uma série de ambientes citados por Helena, que gostava de visitar e passear pela cidade. Uma referência à sua casa: “Na nossa casa só se usa querosene para a cozinha, e mesmo a lamparina da cozinha estava seca” (MORLEY, 1998, p.110, 4dez93); à Chácara onde a jovem protagonista permanecia por muito tempo. Ela diz que o avô materno era do Serro, na Serra da Mendanha – na lavra da Lomba (Barra da Lomba) – onde encontrou uma formação muito boa de diamante; comentários sobre o Beco do Moinho, Burgalhau, Serro, Boa Vista, Bom Sucesso, Cavalhada, Palha, Palácio - perto da Chácara, Fazenda na Mata do Rio, Loja do Mota, Barracão (Mercado da cidade), Venda no Rio Grande, Casa das Correia, Rio Grande, Botica do doutor Inglês, no alto da rua Direita. E da casa, em frente à Chácara da avó, na esquina da Rua do Rosário, cuja janela nunca se abriu.
Há, ainda, as igrejas: Igreja do Rosário, da Luz, do Amparo, do Bonfim, Nossa Senhora do Amparo e Igreja da Sé. Descreve outras Chácaras além da que pertence à avó, como a Chácara Romana, chácara de seu Ricardo e a Chácara dos Padres. Há uma série de casas referidas por Morley. Eis algumas: casa de tio Conrado, Casa da tia Aurélia, Casa de Maria Flora e Rodrigo. A casa das Cunhas na Rua do Bonfim, Casa de seu Ferreira, a de seu Leivas, Casa de Américo de Matos, Casa do Dr. Teles, o Jogo da Bola (casa de tia Agostinha), Casa de Seu Cadete, Casa de tio Conrado, Casa de tia Aurélia, Casa de tio Geraldo (em frente da Sé, na Rua Direita); Casa de Seu Júlio, Casa de Rodrigo Pimenta, Casa de seu Carneiro, Casa das Mercês, Casa de tia Agostinha, Casa de Jacinta (Pitangas), Casa de
tio João, no Biribiri, Casa das tias inglesas Casa de Juca Neves, Casa das Amarantes, na Rua da Romana, e outras. Além das casas, também discorre sobre a escola de tia Madge, a de mestra Joaquina, o Colégio e a Escola Normal. Há as ruas Rua Direita, Rua do Bonfim, Rua do Carmo, Rua da Glória e Rua da Quitanda.
Há espaços que apenas são evocados, mas que compõem parte da cidade de Diamantina. É importante salientarmos que o espaço da casa dos pais de Helena parece