MĠLLĠ MÜCADELE’NĠN BĠTĠMĠNDE ĠZMĠR YÖRESĠ BAĞLAR
2.3. Cumhuriyet Döneminde (1923 1925) Ġzmir Bağlarının Durumu ve Üzüm
Nesses escritos nenhuma alteração foi feita, além de pequenas correções e substituições de alguns nomes, poucos, por motivos fáceis de compreender.
(Helena Morley, 1942)
Em O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet (2008), Philippe Lejeune, crítico francês que se tem dedicado ao estudo da escrita autobiográfica, discorre a respeito da elaboração da história de alguém; a escrita do eu que relata o cotidiano de uma existência. Assim, em busca de uma definição, o estudioso estabelece algumas denominações, tais como: romance pessoal, diário, crônica, memória, biografia, poema autobiográfico e autorretrato ou ensaio.
A autobiografia é terminável, diferentemente do diário, que se caracteriza como algo
interminável, assinala Lejeune. A primeira diz sobre algo vivido e narrado em prosa por um narrador, o qual pode ser o próprio autor e o personagem central da narrativa. A identidade entre autor, narrador e personagem é um fator essencial para se configurar a autobiografia, ou seja, a escrita do eu. Em outras palavras, é uma “[...] narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade” (LEJEUNE, 2008, p. 14).
A autobiografia tem seu marco na história por volta de 1755, quando Mme. Stäel redige suas memórias e Marolles reedita as suas. Antes disso, os relatos voltados para a escrita do eu eram denominados testemunhos. Além do mais, as memórias não eram consideradas textos marcados pela literariedade, porque seguiam um modelo comum para expor a trajetória dos fatos narrados. A literatura autobiográfica passou a ser reconhecida quando abandonou tais modelos preestabelecidos. Lejeune assinala que a escrita autobiográfica pode romper com a exatidão dos fatos passados, pois pode inventar e criar uma forma de registrar a história de alguém. Sendo assim, deixa de ser uma variedade da biografia e se opõe a ela. Lejeune enfatiza, ainda, que os textos autobiográficos anteriores a 1760 foram publicados com significativo atraso e foram pouco lidos, principalmente pela construção medíocre, porque não havia uma preocupação estilística e estética e, raros leitores se interessavam pelas memórias, salvo aqueles que se voltavam para as questões políticas, históricas e sociais.
Dessa maneira, a partir da publicação de Confissões (1764), de Rousseau, imprime-se a autobiografia e abre-se, então, o espaço para a literatura voltada para a escrita do eu, uma vez que o autor buscava, por meio da escrita, (re)conhecer a sua identidade. Lejeune sublinha que, nos dois preâmbulos, Rousseau anuncia:
[...] uma tripla revolução, psicológica (um novo modelo de personalidade e de um novo tipo de comunicação entre os homens), política (valor exemplar do vivido do homem independente de sua posição social) e literária (é preciso inventar para a autografia uma nova linguagem). (LEJEUNE, 2008, p. 72-3).
Em Máscaras de Narciso: estudos sobre a literatura autobiográfica, em Portugal (1992), Clara Rocha, ao se pautar nos estudos de G. Gusdorf, afirma que a autobiografia teve sua origem na Europa e o termo aparece em 1789, empregado por Frederico Schlegel, em alemão: Autobiographie, tornando-se popular a partir de 1800. O sucesso do termo resulta das Confissões de Rousseau, considerado texto paradigmático. Sobre essa questão, Georges May, no ensaio intitulado L’Autobiographie, assegura que com este se dá “[...] l’occasion de la première vraie prise de conscience collective de l’existence littéraire de l’autobiographie” (MAY, 1979, p.21). Segundo May, a literatura autobiográfica tem sua origem ligada à influência do individualismo num contexto permeado pela cultura cristã, esta pautada pela confissão e pelo exame de consciência.
A autobiografia moderna insere-se, portanto, em um contexto político, histórico e social mais amplo, e está atrelada à subjetividade de quem a produz. Já o artista romântico, por exemplo, se expressa de uma forma pessoal, relatando a maneira como vê o mundo,
registrando uma visão particular e subjetiva da realidade, mediada pela emoção. O texto autobiográfico, por sua vez, revela a interioridade do sujeito que conta a experiência vivida.
Lejeune comenta sobre os gêneros próximos da autobiografia e reconhece que há uma linha tênue entre eles, pois o texto autobiográfico recorre à narração de fatos passados e mobiliza aspectos presentes no diário. A narrativa autobiográfica retoma o passado com o intuito de rever os fatos e feitos no decorrer da trajetória de vida de um sujeito a partir da perspectiva do tempo presente. Philippe Lejeune assinala que, no século XIX, era comum o estímulo às meninas francesas para anotarem suas experiências cotidianas no diário e, às vezes, as anotações eram acompanhadas pelos educadores. Inicialmente, os diários não eram individuais, mas coletivos e públicos; só num segundo momento, passaram a pertencer a uma esfera particular. Tal prática ainda é usual, talvez, porém, em configurações diferenciadas dos séculos anteriores, devido aos recursos que hoje são oferecidos à sociedade. No entanto, o que há de comum entre os produtores de diários é o prazer pela escrita, assim como a preocupação com o tempo e a reinterpretação de experiências passadas, visto que o sujeito, no momento da escrita, não tem o domínio sobre as ações futuras.
O diário, de modo geral, recebe vários significados, apresenta várias definições; porém o seu conteúdo pode remeter a algumas variantes, de acordo com o contexto em que é empregado. O dicionário Aurélio, por sua vez, diz que se refere ao “cotidiano”, “jornal que sai todos os dias”, “relação de viagem” ou livros de “assentos comerciais” – do latim “diarium”. Em português, a palavra se estende às impressões e confissões, registradas em um caderno de anotações ou suporte afim. Refere-se à atividade e ao exercício da escrita, também significando um espaço íntimo de registro de sentimentos e percepções sobre a vida. No espanhol, a grafia da palavra diário é respectiva à língua italiana e, em alemão, Tagebuch, inglês diary. Já, na língua francesa, journal intime (diário íntimo); o vocábulo francês passou por diferentes modificações.
Conforme Lopes e Reis, no Dicionário de narratologia, o diário caracteriza-se pela reconstituição das experiências vividas no dia-a-dia do narrador. No texto em questão, podemos observar que se trata de vivências diárias que resultam de experiências imediatas, que provocam certa tensão. Lopes e Reis assinalam que
[...] o narrador do romance projecta então no enunciado a incerteza, a indecisão quanto ao futuro, mesmo, em certos casos, o mistério, que decorrem do teor fragmentário e “em progresso” temporal da narração e, conseqüentemente, da própria história; o presente (que não é neste caso, um presente histórico) ou o pretérito imediato traduzem de forma particularmente expressiva estas dominante, [...] (LOPES; REIS, 2002: p.107, grifo dos autores).
Desse modo, a narração intercalada não oferece ao leitor fatos acabados, resultando, então, em uma narrativa fragmentada e entrecortada, na medida em que o narrador relata algo que lhe aconteceu ou presenciou, ou emoções e sentimentos motivadores ou decorrentes, intercalando, assim, a narração diária e a experiência vivida. No entanto, os fatos posteriores dependem das circunstâncias indefinidas pelo próprio narrador, já que este relata fatos por etapas e de maneira entrecortada, interpostas no decorrer da narrativa.
Nesse sentido, o diário “[...] é uma escrita quotidiana: uma série de vestígios datados” (LEJEUNE, 2008, p. 259), próximo da autobiografia, marcado pela retrospectiva contígua do momento vivido. O diário aproxima-se mais do tempo presente da enunciação, pois à medida que os fatos vividos acontecem, eles são registrados sem que o autor se distancie demasiadamente. É marcado pelo tom da confidência, e o caderno de anotações é o interlocutor do eu que registra e revela a sua condição ontológica, existencial. Os relatos sugerem maior exatidão e fidelidade no registro dos fatos, se comparados com a autobiografia ou biografia, porque não há um grande distanciamento entre o passado e a escrita. No caso do diário de Helena, a menina registra testemunhos, pensamentos, opiniões e idéias, mantendo uma sequência imprecisa dos registros; mas geralmente há espaço curto de tempo entre o fato e a anotação:
Quinta-feira, 5 de janeiro
Hoje foi nosso bom dia da semana.
Nas quintas-feiras mamãe nos acorda de madrugada, para arrumarmos a casa e irmos cedo para o beco do moinho. A gente desce pelo beco, que é muito estreito, e sai logo na ponte. É o melhor recanto de Diamantina e está sempre deserto. Nunca encontramos lá uma pessoa, e por isso mamãe escolheu o lugar. (MORLEY, 1998, p.19, 5jan93).
Ou então:
Ontem foi feriado e, quando abrimos a porta, já estava Leontino à nossa espera para irmos passar o dia com ele no Prata. Fomos eu e Luisinha. Acho aquele lugar adorável, o rio é encachoeirado e o poço maior que o Glória, do Rio Grande. (MORLEY, 1998, p.28, 23fev93).
Lejeune assegura que “a base do diário é a data” (LEJEUNE, 2008, p. 260) e a ausência desse elemento descaracteriza-o como diário, resultando, portanto, num caderno de anotações. No decorrer dos anos, Helena mantém o cuidado de registrar os eventos do dia-a- dia, sobretudo porque suas ideias nem sempre condiziam com as das outras pessoas de
Diamantina. Dessa maneira, trata-se de um diário íntimo, escrito por aquela adolescente de Minas Gerais, na pequena cidade de Diamantina, onde o diamante estava em decadência e sua família passava por uma situação econômica difícil. Escrito entre os anos de 1893 e 1895, foi organizado em três partes: 1893, 1894 e 1895, e cada qual começa com uma vinheta de abertura.
No seu diário, Helena registra as divergências e o modo de ser e agir das pessoas que fazem parte de seu meio. Relata os fatos cotidianos do dia-a-dia de Diamantina, pouco depois da abolição dos escravos. A autora oferece ao leitor um retrato multifacetado da vida mineira, com graça, ironia e criticidade, e apresenta uma visão amorosa do tempo em que vive e da aparente tranquilidade das relações familiares do grupo do qual faz parte, sendo, porém, marcadas pela complexidade e, sobretudo, pelas diferenças econômicas e sociais.
Na nota da primeira edição do texto, Helena esclarece ao leitor o motivo da publicação do diário, dirigindo-se a suas descendentes:
Vocês que já nasceram na abastança e ficaram tão comovidas quando leram alguns episódios de minha infância, não precisam ter pena das meninas pobres, pelo fato de serem pobres. Nós éramos tão felizes! A felicidade não consiste em bens materiais mas na harmonia do lar, na afeição entre a família, na vida simples, sem ambições – coisas que a fortuna não traz, e muitas vezes leva. (MORLEY, 1998, p.14).
Na edição de 1998, a 10ª reimpressão, aparece outra informação de Helena, em que afirma não ter alterado os escritos, tendo apenas realizado algumas revisões e substituições de certos nomes, inclusive do seu. Assim, o diário passa a pertencer não apenas a seus parentes diretos, mas a uma coletividade, aos leitores contemporâneos, que se deparam com a vida no fim do século XIX, através das “[...] impressões de uma menina, de uma cidade sem luz elétrica, água canalizada, telefone, nem mesmo padaria, quando se vivia contente com pouco, sem as preocupações de hoje. E como a vida era boa naquele tempo!” (MORLEY, 1998, p.14) Centra-se, então, na relação de proximidade que se estabelece entre o autor, narrador e o leitor. A substituição do nome revela uma atitude poética. Em relação a essa questão, Phillipe Lejeune diz:
O pseudônimo é um nome de autor. Não é extremamente um nome falso, mas um nome de pena, um segundo nome, exatamente como aquele que uma freira adota ao ser ordenada. [...] Os pseudônimos literários não são, em geral, nem mistérios, nem mistificações: o segundo nome é tão autêntico quanto o primeiro, ele indica simplesmente este segundo nascimento que é a obra publicada. (LEJEUNE, 2008, p.24).
O pseudônimo é um nome diferente daquele registrado no cartório, há uma duplicação, mas isso não significa que mude a personalidade de quem escreve. Às vezes, essa estratégia serve para encobrir algo ou manter a discrição. A escrita de um diário surge da necessidade de uma comunicação, trata-se de um ato confessional ou de uma confidência consigo mesmo e com os outros, uma vez que o “[...] estatuto do diário é o da confidência: extroversão da vida íntima para um ‘amigo’, o caderno de notas” (ROCHA, 1992, p. 28, grifo da autora). Há, portanto, o sentimento ambivalente entre o contar e o guardar o segredo. Daí, o diário funcionar como o interlocutor que completa o processo de comunicação.
As impressões registradas podem ultrapassar as impressões íntimas e provocar reflexões de diversa natureza. Essa situação pode ser partilhada com outras pessoas porque a “[...] prática diarística é, assim, o lugar de duplo movimento, de interiorização e de exteriorização” (ROCHA, 1992, p. 29). Com a publicação do diário, o texto que pertencia a alguém em particular passa a ser um objeto público. Helena, por exemplo, publica-o por vontade própria. Para alguns críticos, a publicação representa uma contradição, mas, apesar da publicação, o diário não quebra necessariamente o “efeito de intimidade”. Na narrativa envolvente e pitoresca de Morley, a narradora seduz o leitor, envolvendo-o nos recantos mineiros e o registro do cotidiano não se perde na transcrição de meros fatos repetitivos. Além disso, a prática e o desenvolvimento do diário, conforme Béatrice Didier, envolvem três fatores fundamentais: o capitalismo, o individualismo e o cristianismo.
Didier compara o diário a um capital, ou propriedade, ou seja, o gênero aproxima-se do balanço ou prestação de contas com o intuito de guardar, verificar, preservar um capital de lembranças, fatos, recordações, experiências múltiplas vividas pelo narrador e por outras pessoas que partilham do mesmo espaço. Helena, por exemplo, sublinha diversas questões como: problemas pessoais e familiares, roubo, furto, costumes e rituais religiosos, preconceito racial, marginalização do negro, trabalho, pobreza, educação, leituras, dentre outros. Tais situações, uma vez registradas, tornam-se um tesouro para os familiares e para um grupo social maior, porque dizem respeito a um determinado momento da História. Helena diz:
Eu achava mais fácil escrever o que se passava em torno de mim e entre a nossa família, muito numerosa. Esses escritos, que enchem muitos cadernos e folhas avulsas, andaram anos e anos guardados, esquecidos. Ultimamente pus-me a revê- los e ordená-los para os meus, principalmente para minhas netas. (MORLEY, 1998, p. 13).
Com o passar do tempo, o diário passou a ter um valor comparado às pedras de diamantes que viravam nas bateias, e a pedra a estrelar no esmeril. Pedras preciosas, palavras
que encantam e permitem ao leitor visualizar a História e não apenas estórias. Ou seja, a escrita foi como algo que se capitalizou no decorrer dos anos, revelando-se acúmulo de bens e valores simbólicos, preciosos para um país. Então, o diário é “um thesaurus”, e precisa ser protegido e preservado, porque “[...] é uma forma de poupar e acumular valores: reflexões, achados literários, recordações pessoais e memórias dum tempo colectivo” (ROCHA, 1992, p. 31).
No que se refere ao individualismo, o gênero reflete a crença e o interesse pelo eu, o sentimento narcisista e o abandono do sujeito na escrita, isolando-se, às vezes, do mundo exterior, revelando o desejo de conhecer-se, reconhecer-se, perceber-se parte integrante de um espaço. Comparar, confrontar o tempo e voltar-se ao passado. Refletir e comunicar valores, revelar aspectos idiossincráticos.
Didier (apud ROCHA, 1992) remete à influência do Cristianismo, no que este traz de desejo de libertação e purificação por meio do exame de consciência, do sacramento da confissão e do uso de orações para alcançar a absolvição dos pecados. Nesse sentido, o diário pode ser visto como uma atividade espiritual que apresenta raízes cristãs. Segundo Rocha, a “[...] tradição cristã herda a atitude de recolhimento, a disciplina do exame de consciência, a prática da confissão, o hábito quotidiano de oração como regularidade salvadora e a noção fortemente arraigada da pessoa como ser dividido e auto-judicativo” (ROCHA, 1992, p. 31). O diário pode, assim, representar o ato de contrição de pecados da carne ou do espírito. Tais questões estão presentes no diário de Helena Morley, muitas vezes com valor invertido. Há algumas passagens, nas quais se ressalta que sua família (da parte materna) vive de forma intensa as práticas da religião:
O padre sempre traz comunhão para vovó na Chácara sem ela estar doente, mas sai da Igreja do Rosário. Desta vez foi o Santíssimo que veio e saiu. (MORLEY, 1998, p. 31, 28fev).
No domingo mamãe nos acorda um pouco antes das quatro horas para a missa da madrugada. (MORLEY, 1998, p. 102, 9nov93).
Depois de um ano de estudo de Catecismo Padre Neves comunicou às meninas que estávamos preparadas para a primeira comunhão [...] Chegou a minha vez e ajoelhei, já com a lista de pecados decorada: gula, inveja, luxúria. (MORLEY, 1998, p. 332-4, 29dez95).
Entretanto, Helena registra a dualidade presente em sua formação religiosa, uma vez que a família paterna era protestante. Isso é visível no decorrer dos relatos, porque a menina sempre demonstra uma reação adversa à da mãe e avó, e mais próxima da atitude paterna, pois discorda de alguns rituais religiosos experimentados; como exemplos, o jejuar na sexta-
feira santa e o ato da confissão. A mãe se preocupa com a questão do pecado e a devoção; o pai, extremamente alheio ao ritual católico, compara algumas procissões aos desfiles de carnaval, divergindo, então, das ideias da esposa. Nesse sentido, não há uma nota harmoniosa entre eles, mas um processo que afina e desafina. Tais situações permitem à memorialista perceber o mundo a partir de situações antagônicas.
A menina esclarece a gênese do diário, tanto na nota introdutória à primeira edição, como no decorrer dos relatos:
Cada dia acho mais razão no conselho de meu pai de escrever no meu diário o que penso ou vejo acontecer. Ele me disse: “Escreva o que se passar com você, sem precisar contar às suas amigas e guarde neste caderno para o futuro as suas recordações”.
Se eu não tivesse esse caderno poderia guardar na memória o caso tão engraçado que vi ontem? (MORLEY, 1998, p. 68, 24jul93).
Além disso, a escrita era algo essencial para ela. Vale rever o trecho em que diz que as lições estão atrasadas, mas não deixa de fazer o registro: “Se eu tivesse coragem de explicar às minhas primas e primos o transtorno que a visita diária deles me causa, eu seria tão feliz! Mas o que me falta é coragem. Hoje por exemplo estou até está hora, dez da noite, sem uma lição pronta. Só fiz um exercício” (MORLEY, 1998, p.237, 24mar95). O diário, portanto, não é apenas um retrato de personagens importantes ou relatos corriqueiros, nem uma revisão conscienciosa de atos cometidos, mas a narração íntima de acontecimentos e de necessidades subjetivas; como nesse caso em que, mesmo com os deveres atrasados, a menina permanece fiel ao confidente, fato que nos conduz a uma percepção do momento do enunciado e da enunciação. O diário “[...] é uma rede de tempo, de malhas mais ou menos cerradas [...]” (LEJEUNE, 2008, p. 260).
A diarista mantém a escrita do diário motivada pelos familiares mais próximos e, assim, elabora sua visão de mundo, pois organiza o vivido e traz à tona a memória e lembranças recentes ou não, fixando o passado imediato que se esvai. Esse exercício resulta em um valor imprevisto, porque contribui também para com a memória coletiva. É uma forma de investir no futuro, como o pai lhe garantia. Ou seja, o diário é um amigo, confidente, espaço íntimo em que Helena se afasta dos outros, se encontra (para depois ser encontrada pelos outros), como frente a um espelho ou retrato: “Estou hoje cansada pois foi um dos dias em que tive mais trabalho. Mas poderei deixar de contar ao meu caderno amigo o que me aconteceu ontem?” (MORLEY, 1998, p. 170, 19jul94) Nas palavras de Lejeune, “[...] o papel é um amigo” (LEJEUNE, 2008, p. 264).
Escrever permite olhar-se com certa distância. Reconhecer-se. Projetar-se e, a partir dessa projeção, preparar-se para as situações futuras: “Faz hoje três dias que eu entrei para a escola Normal. Comprei meus livros e vou começar vida nova. O professor de Português aconselhou todas as meninas a irem se acostumando a escrever, todo dia, uma carta ou qualquer coisa que lhes acontecer” (MORLEY, 1998, p. 26, 18fev93). Desse modo, o diário representa movimento e ação interna que se manifesta nas atitudes exteriores.
Para manter a escrita de um diário, há necessidade de gostar de escrever, pois é um prazer que se manifesta intrinsecamente, sem medos e reservas:
Eu sou a única menina da escola que escreve tudo o que pensa e que acontece, nas cartas e redações para seu Sebastião. Sei que ele não se incomoda e até gosta, mas mesmo assim há muita coisa que eu não tenho coragem de levar para ele. E depois que tomei este hábito de pôr no caderno o que me acontece tenho que escrever, mesmo sem preparar as lições. Hoje vou contar aqui uma coisa que eu não quero