MÜBADĠLLER VE BAĞLAR
3.2. Ġzmir Yöresi Bağcıların Diğer Sorunları
A esperança é a melhor coisa da vida. Dá-nos coragem para tudo. Eu faço castelos maravilhosos nos poucos instantes em que espero o sono. (MORLEY, 1998, p.314, 19nov95).
A abertura do diário se dá numa quinta-feira, dia 5 de janeiro de 1893. A personagem já revela um olhar observador e avaliativo: “Hoje foi nosso bom dia da semana”. Ela apresenta, de forma geral, a situação pela qual a família passa, evidenciando a dificuldade financeira decorrente da escassez do diamante nas minas, “agora que a lavra não tem dado nem um diamantinho olho-de-mosquito”, segundo desabafa (MORLEY, 1998, p.19, 5jan93). A menina esclarece a distribuição das atividades domésticas entre os pares e a existência de uma economia de subsistência, visto que os meninos (irmãos) Nhonhô e Renato, vendem peixes e passarinhos, enquanto mãe e filhas cuidam da roupa e outros afazeres domésticos. Aqueles se preocupam com a caça e a pesca: “Nhonhô põe o visgo e fica de longe à espera de passarinhos” (MORLEY, 1998, p. 19, 5jan93), e Renato pesca lambaris. Ao retornarem à cidade, eles vendem o que conseguiram caçar e pescar. A partir desse contexto, Helena vislumbra situações que poderiam amenizar as atividades árduas realizadas pela mãe: “Ainda
se pudéssemos ficar na lavra com meu pai, ela não precisava trabalhar tanto [...], eu morro de pena dela” (MORLEY, 1998, p. 20, 5jan93).
Todos partilham das atividades domésticas e procuram suavizar as tarefas da mãe, que parece ser frágil. “Hoje, fui chegando, jogando os livros na mesa e começando a fazer as obrigações da semana: passar roupa da casa a ferro”, registra a menina (MORLEY, 1998, p. 70, 26jul93). Às vezes, fica com a família uma auxiliar, ou seja, uma ex-escrava que pertenceria à avó. A autora observa: “A nossa negrinha Cesarina tem nos feito muita falta” (MORLEY, 1998, p. 70, 26jul93). O modo como a menina registra os fatos evidencia uma postura crítica e inconformada, pois se preocupa com a condição da vida familiar. Helena relata uma série de acontecimentos, registra suas relações com familiares, amigos e vizinhos. Tais fatos atuam na maneira de ser e de perceber o mundo e, necessariamente, contribuem para a sua formação e interação social. Além desses aspectos, a Igreja e a escola apresentam uma função decisiva, sobretudo quando inculcam valores pré-estabelecidos pertinentes ao final do século XIX.
A constituição da personagem não resulta apenas de eventos internos, mas está ligada aos fatos externos, seja nos limites do lar, da família, da escola ou da rua. Há um processo dinâmico e reflexivo: viver, observar, registrar e reelaborar o cotidiano. Portanto, esse movimento circular resulta num processo de aprendizagem e acentua a maturidade psíquica, afetiva e emocional da adolescente. Além da escrita e das atividades escolares, a leitura é uma prática recorrente no cotidiano de Morley, e não se reduz apenas às atividades escolares, pois tia Madge a incentiva e colabora para tal exercício. Assim, a menina comenta: “Eu fui acabando de aprender a ler e tia Magde, que só acha bom o que é inglês, arranjou O poder da
vontade e me fez ler para ela ouvir. Acabado este deu-me outro: O caráter. Eu tinha de ler e contar tintim por tintim” (MORLEY, 1998, p. 58, 1ºjun93). Aqui, Helena reflete sobre o texto que lhe foi dado para ler:
Tenho certeza de que esses livros não me valeram de nada. Força de vontade não adquiri nem um pingo mais do que eu já tinha. Caráter não mudei em nada. Bondade, nada mais do que eu já tinha. Só uma coisa eu penso que lucrei, mas não tenho certeza se foi Samuel Smiles que me ensinou, pois não me ensinou outras coisas: foi aprender a ser poupada e a guardar tudo o que tenho. (MORLEY, 1998, p. 58, 1ºjun93).
Apesar de achar que de nada valeram, ainda diz:
Cada um de nós tem duas ou três galinhas. Meus irmãos só esperam as deles botarem e às vezes até acabam de puxar ovo da galinha para assarem na colher ou fazerem gemada. Eu, desde que li os diabos dos livros, ajunto os ovos. Quando inteiro uma dúzia eu vendo. Uma vez comprei uma escova de dentes; outra vez comprei um par de meias. Se vovó manda um queijo ou uma caixeta de marmelada
para nós, os outros comem a parte deles no mesmo dia, eu guardo a minha parte para ir comendo aos poucos; mas sempre acabo repartindo com eles. (MORLEY, 1998, p. 58-9, 1ºjun93).
Desse relato, podemos observar que Helena enfrenta, em seu crescimento, o difícil processo de ajustar-se ao mundo adulto, visto que dispõe de poucos recursos materiais. Ela precisa, pois, lutar contra as carências ambientais que a circundam. Para tanto, precisa apropriar-se de suas forças intrínsecas. Ou seja, apesar de a tia indicar leituras, a maneira como se dá a apropriação do conteúdo dos textos indicados difere da de seu irmão. Então, Helena valoriza sua capacidade de apropriar-se dos recursos disponíveis ao seu redor. Assim, dá ênfase à sua consciência de responsabilidade, que advém de sua liberdade criadora de pensamento. Nesse sentido, os relatos cotidianos da protagonista revelam a sua inquietação e a sua energia interna, que a mobilizam a atuar à sua volta. Por conseguinte, há um crescimento interior, e as relações com o mundo ganham uma dimensão mais rica.
Helena, a seu modo, reflete as ideias do liberalismo, porque mostra a sua capacidade de iniciativa individual na solução dos problemas econômicos. Não se trata do individualismo marcado pelo egocentrismo; ao contrário, pressupõe:
Toda uma sociedade regida basicamente pela ideia da independência intrínseca de cada indivíduo em relação a outros indivíduos e à fidelidade aos modelos de pensamento e conduta do passado designados pelo termo “tradição” – uma força que é sempre social, não individual. A existência de tal sociedade depende evidentemente de um tipo especial de organização política e econômica e de uma ideologia adequada; de modo mais específico, depende de uma organização econômica e política que proporcione a seus membros um amplo leque de escolhas e de uma ideologia baseada não na tradição do passado, mas na autonomia do indivíduo, sem levar em conta status social ou capacidade pessoal. (WATT, 1990, p. 55).
Desse pressuposto, Watt ressalta que a sociedade moderna se define como individualista, sobretudo pelos fatores históricos: o capitalismo industrial e a difusão do protestantismo (partidários da Reforma – luteranos, calvinistas, anglicanos). Helena, então, anuncia, no século XIX, o capitalismo numa sociedade que ainda vivenciava a transformação da ordem tradicionall para a formação de um mundo moderno. Este requer um sujeito racional, com maior autonomia e esclarecimento. Entretanto, ela está inserida num contexto tradicional, organizado numa estrutura social mais rígida. Ou seja, está numa via de mão dupla, pois o capitalismo, teoricamente, permite a liberdade de escolha individual e a organização social, pautada numa estrutura patriarcal, dita normas. A família e a igreja perdem espaço para essa ordem econômica e o indivíduo passa a ter um papel significativo:
“[...] ele era o responsável pela determinação de seus papéis econômico, social e político e religioso” (WATT, 1990, p. 56). Assim, os relatos do diário estão associados a uma estrutura social e econômica que se encontra num processo de passagem.
Ao estabelecer a linhagem da qual se origina o gênero romance, Ian Watt comenta sobre o “homem econômico” e o individualismo, assinalando que um dos temas presentes nas personagens de Daniel Defoe, por exemplo, é a busca pelo dinheiro. Sendo assim, a questão de contabilidade é um dos aspectos recorrentes da ordem social moderna e, consequentemente, da literatura por ela produzida. Quando consideramos os relatos de Morley, são perceptíveis na sociedade retratada a preocupação contábil e as relações contratuais. Lidar com o dinheiro é uma tarefa complicada para a jovem, mas isto não impede o desejo de melhorar a condição financeira. Além disso, a sua descendência paterna ligada ao protestantismo assegura o valor do trabalho como algo que enobrece o homem; todavia Helena se distancia de Robinson Crusoe porque considera que o prazer é essencial, pois a vida não deve ser apenas de empenho produtivo e sofrimento.
A mãe, por sua vez, gosta da atitude da filha e pede a tia Madge para emprestar o livro mencionado para Renato ler, porém ele não consegue lê-lo. Samuel Smiles foi escritor e reformador britânico, ficou conhecido sobretudo por ter escrito livros construtivos e pragmáticos, sobre virtudes e biografias que enalteciam os feitos de engenheiros heróicos. Diante da insistência, o irmão de Helena disse que não perderia tempo com Samuel Smiles, preferia ler Júlio Verne, mostrando, por contraste, seu perfil aventureiro. O entusiasmo da mãe decorre do efeito que a leitura propicia quanto à organização econômica e, por essa razão, vê o ato de ler com uma função prática e pedagógica. Para ela, a ascensão econômica poderia derivar de conhecimentos adquiridos com a leitura e a formação escolar. Assim, atuar como professora poderia ser um caminho para ascensão social:
Eu, tirando meu título de normalista, sei que tudo vai melhorar, pois irei até para o fim do mundo dar minha escola. Já fiz meus planos, tão bem assentadinhos, que até poderemos guardar dinheiro. Mas deixar meu pai naquela peleja, furando a terra à espera de diamantes que não aparecem, é que não deixarei. (MORLEY, 1998, p. 71, 5ago93).
A educação representa uma forma de emancipação econômica, possibilitando melhores condições de vida, já que a mineração estava em decadência. Nesse contexto, a representação da família de Helena apresenta aspectos distintos dos padrões tradicionais estabelecidos na época, principalmente pelos tios e tias. Desse modo, o exercício da escrita mobiliza a personagem a reviver e reavaliar as experiências cotidianas. Podemos observar que
o diário, no decorrer dos anos, passa a ser mais significativo e se materializa como algo que faz parte da completude interior de Helena, Ele é a extensão de sua subjetividade, a configuração e materialização psicológica das ações experimentadas na dimensão social e real.
Assim, o texto passa a pertencer a uma coletividade, aos leitores contemporâneos, que se deparam com a vida no fim do século XIX, através dos registros da menina. O leitor se depara com uma Helena que lança olhares para além de seu tempo, às vezes, irônica, destemida, corajosa, crítica e inconformada com certas atitudes e situações do cotidiano. O diário de Helena trata da descoberta da autora por e para si mesma e do papel que desempenha na sociedade, revelando as múltiplas experiências vivenciadas junto a inúmeros personagens, abrindo horizontes e perspectivas infinitas para que o leitor participe do evento ficcional e perceba nas entrelinhas do diário um vasto mundo. Podemos nos apoiar em Roberto Schwarz, que nos mostra uma das meninas mais importantes da literatura brasileira: Capitu e Helena. Helena narra acontecimentos do cotidiano, mas não deixa de escrever e relatar seus conflitos interiores. Os problemas emocionais configuram o modo subjetivo de a adolescente encarar a realidade, as situações problemáticas, a visão que tem das pessoas e das circunstâncias que a rodeiam, principalmente as de âmbito familiar e escolar. As diversas personagens secundárias contribuem para a construção da protagonista, porém essa construção não é acabada e requer do leitor exercício imaginativo e percepção aguçada.
Dessa maneira, a incompletude da personagem não representa um defeito ou lacuna, sobretudo porque se trata de um diário, com Helena relatando dia a dia as experiências vividas. Dessa forma, é condição fundamental para a interação entre texto e leitor que este reconheça que se trata de um período de transição na história da cidade provinciana e no processo de maturação da enunciadora. Para tanto, destaca Iser: “Essa indeterminação [...] constitui condições elementares de comunicação do texto que possibilitam que o leitor participe na produção da intenção textual” (1996, p. 57, v.1).
Isso é uma característica particular, pois se trata de uma personagem inacabada e que depende do tempo para crescer. Assim a própria autora o revela: “Fiquei radiante de ver como os dois me julgam diferente do que me acham meus parentes e mesmo mamãe. Ester me disse: ‘Não pense nisto! Você com o regime das irmãs vai perder esse gênio alegre e expansivo: vai ficar sem graça e virar outra. Não seja tola, bata o pé e não vá’” (MORLEY, 1998, p.220, 5fev95). O pai, por exemplo, sempre analisa as atitudes da filha, que desabafa: “Meu pai diz que se eu prestasse atenção às aulas eu aprenderia. Sei disso muito bem, mas tive a infelicidade de cair na roda das meninas mais vadias da Escola. Elas não deixam a gente
sentar nos bancos da frente nem prestar atenção às lições” (MORLEY, 1998, p.224, 17fev95). Quando a observação alheia advém de alguém a quem estima, a adolescente reflete sobre a assertiva. Outras vezes, sublinha as observações maternas: “Mamãe dizia a meu pai: “Não sei a quem esta menina puxou. Na minha família nunca vi nenhuma esperta como ela; na sua também nunca ouvi dizer.” Meu pai dizia: “Ela tem alguma coisa de minha irmã Alicinha, quando era pequena” (MORLEY, 1998, p.230, 5mar95).
Outras vezes, o pai a compara com a irmã: “Meu pai diz sempre que gosta mais do meu gênio que do de Luisinha; que eu sou o que penso e o que faço e Luisinha é das caladinhas que são muito perigosas. Luisinha é tão quieta” (MORLEY, 1998, p.248, 4mar95). A avó, por sua vez, sempre lhe dirige considerações positivas: “Coitadinha, é tudo por cima dela. Não bastam os estudos e ainda mais agora cozinhando e fazendo tudo sozinha. Forte coisa!” (MORLEY, 1998, p.244, 19abr95). Há também as observações impertinentes de Glorinha: “Que é que você faz para esta diferença de vovó com você? Ela mostra em tudo. Ela pensa que só você é que precisa comer, que é você a mais inteligente, que você é mais esperta” (MORLEY, 1998, p.263, 18jun95). Soma-se, ainda, a preocupação de tia Madge:
Tia Madge chegou do Rio há pouco e desde a sua chegada não tive mais sossego. Tenho de andar de guarda-sol para não me queimar, que as meninas do Rio não têm sardas. Tenho de andar de cabelo solto porque as meninas do Rio andam de cabelo solto. É constantemente a mesma amolação: as meninas do Rio se vestem assim, se penteiam assim. Não me importaria que o vestido fosse feito como o das meninas do Rio. Só queria que fosse cor-de-rosa. (MORLEY, 1998, p.186, 17set83).
Isso posto, notamos que a personagem em sua totalidade se apresenta de forma complexa; as observações alheias favorecem a análise sobre si mesma. As diferentes vozes lhe propiciam uma organização interna, completada pela ordenação via discurso escrito.
No decorrer dos relatos, Helena não se preocupa com a descrição de detalhes físicos e da aparência das pessoas que a circundam, salvo algumas personagens. Ela se volta, sobretudo, ao comportamento das pessoas, assinala as suas manias, as atitudes que são reveladas no cotidiano de cada uma delas, associando-as aos seus aspectos psicológicos, não poupando comentários depreciativos. A visão que temos das demais personagens está intrinsecamente ligada à perspectiva de Helena Morley. Desse modo, as observações da protagonista estão centradas nos aspectos emocionais, nos problemas existenciais da fase específica em que vive, visto que o adolescente quer ocupar um espaço na sociedade e para isso articula suas opiniões e deixa revelar problemas de diversa natureza (econômico-sociais, as angústias, os medos).
A construção da personagem está associada à vivência individual em relação ao meio em que está inserida, ou seja, no ambiente familiar, na Chácara da avó, na escola, na igreja, na rua, no Bom Sucesso, na Boa Vista, no Burgalhau, na casa das tias, no Serro, e em outros lugares. Ela se revela à medida que escreve as experiências do cotidiano, através dos relatos registrados no diário, de modo que os leitores participam de seu processo de elaboração como personagem protagonista, porque acompanham, pelo viés da narradora, os eventos que permitem perscrutar sua subjetividade. Nesse sentido, há espaço para que o receptor crie hipóteses e organize a sua visão sobre o possível perfil da adolescente mineira.
Vale observar que a adolescência9 é um período marcado pela complexidade, na medida em que envolve um ser em estado de transformação, uma metamorfose em todos os sentidos (físico e psíquico). Há também o desenvolvimento intelectual que se aguça nessa fase em ambos os gêneros: com o surgimento do raciocínio hipotético-dedutivo, a sociabilidade intensifica-se e, em consequência, a busca de identidade. Nessa fase, a presença dos pais é fundamental, pois lhes cabe amparar os filhos e ajudá-los a enfrentar as vicissitudes que a vida oferece. No entanto, podemos observar que a situação de Helena não se enquadra numa educação tradicional, visto que tia Madge e a avó constantemente voltam seus cuidados para a menina. Além disso, a mãe outorga à avó a responsabilidade de determinar as escolhas de Helena. No dia 15 de fevereiro, por exemplo, Helena relata o desejo de ir ao baile de máscaras, conversa com a mãe e ela lhe responde:
“Se sua avó deixar, eu deixo”. Pedi a vovó: “Vovó, mamãe deixou. A senhora me deixa ir ao baile com a Glorinha?”. Ela disse: “Não deixo não!”. Saí batendo o pé com força e caí na cama dela, chorando. Ela vem, tira a chinela do pé e me dá duas chineladas, dizendo: “Então chore com razão!”. Bati com as pernas mas não me levantei. (MORLEY, 1998, p. 25, 15fev93).
Eis o que diz Helena sobre essa sua condição:
É sina minha todo o mundo que gosta de mim me infernar a vida. Todas as minhas primas são governadas pelos pais. Ah, se eu também fosse assim! Meus pais é que menos me amolam. Não tivesse eu o governo de vovó e tia Madge, teria ido ao baile de máscaras do Teatro. Desde os sete anos eu sonhava fazer doze para ir ao baile. Agora estou com treze apanhando para não ir. (MORLEY, 1998, p. 25, 15fev93).
Desse modo, a avó representa um papel crucial, visto que Helena é a neta preferida; inclusive, as passagens que se referem à avó Teodora são das mais intensas no diário. Na
9 Nossas discussões sobre adolescência partem dos pressupostos teóricos de diversos estudiosos: Daniel Becker, Peter Blos, Contardo Calligaris, dentre outros.
primeira passagem, há o relato que traduz uma visão idealizada e crítica da avó: “Já disse à vovó que ela quase nunca erra, quando fala das coisas” (MORLEY, 1998, p. 22, 21jan83, grifo nosso). A neta demonstra sua sapiência e assinala que “quase nunca erra”, compreendendo que a condição humana é passível de erro e nem mesmo a avó ela perdoa, colocando-se muitas vezes no lugar dela: “Vovó é a criatura melhor do mundo. Não sei se no caso dela eu agüentaria Fifina como ela agüenta” (MORLEY, 1998, p. 59, 4jun83). Para ela, a avó é modelo de paciência e bondade: “Vovó ganhou uma lata de biscoitos Pérola, que são uma coisa do outro mundo de bons, e me deu inteirinha” (MORLEY, 1998, p. 60, 4jun83). Além disso, a avó poderia ser a única a mudar a condição de vida da família: “Estou convencida de que, se vovó dirigisse o dinheiro dela, nós não passaríamos necessidade e mamãe e meu pai não ficariam tão amofinados como ficam às vezes, por falta de um pedaço de papel sujo, a que a gente tem de dar maior valor do que a muita coisa boa na vida” (MORLEY, 1998, p. 71, 5ago83).
Helena mantém uma relação respeitosa com a avó, porque valoriza o seu passado e se interessa pelo modo de vida da matriarca. Escuta-a, é uma interlocutora e ouvinte fiel. Ao recuperar a história da parente, também aprende a voltar-se para si mesma, principalmente no exercício da reescrita da vida. A aprendizagem humana acontece gradativamente, visto que Helena aprende a descobrir os segredos de mulheres fortes que souberam conduzir a vida conforme as suas necessidades imediatas, num momento da História em que a mulher não tinha voz, e procura meios para resolver os problemas, mesmo se referindo às atividades domésticas. Eis um trecho que retoma as histórias de D. Teodora:
Hoje vovó esteve me explicando que muitas vezes a gente tem de fazer uma coisa malfeita para evitar um mal maior. Ela, para viver bem com vovô, tinha de enganá-lo algumas vezes. Ele tinha um gênio diferente de todos da casa.
Uma das coisas com que vovô embirrava era de fazer sabão na Fazenda. Vovó disse que ela não podia compreender viver na Fazenda comprando sabão. Então mandava os negros, no tempo dos pequis, buscar cargueiros deles para fazer sabão. Quando vovô via chegar aquela porção em casa, perguntava a vovó para que ela queria tanto pequi. Ela respondia: “É para fazer velas, Batista”. Ele então perguntava: “Faz-se velas de pequi?”. Ela respondia: “Muito boas”. Ele dizia: “Pois eu quero vê-las depois de prontas”. Vovó enchia o tacho de pequis, fazia sabão escondido e ele acabava se esquecendo das velas.
Vovó disse que para viver bem com ele tinha de esconder as coisas malfeitas e tudo