A Classe 5 representa 15% do total do corpus analisado. A Tabela 18 traz as palavras mais significativas desta classe e remetem a uma concepção mais positiva dos aspectos de atuação na docência.
As palavras da Tabela 18 são as mais significativas da Classe 5 e representam o amor que os estudantes dizem ter pelo ato de ensinar, mesmo que a docência seja uma profissão que enfrente adversidades como a precarização e intensificação do trabalho docente.
Tabela 18. Classe 5. Amor pelo Ensino
Classe 5: Amor pelo Ensino χ2
Criança 48 Pedagogia 48 Feliz 39 Magistério 39 Trabalho 38 Gostar 30 Aula 29 Educação 27 Interesse 23 Psicologia 18 Dinheiro 16 Vida 14 15,0%
A reconstrução do discurso da Classe 5 demonstra que apesar da docência enfrentar uma série de adversidades como a precarização dessa profissão, ainda assim existem estudantes dos cursos de licenciaturas que dizem ter amor pela profissão e sentem vontade de segui-la, buscando para isso especialização na área, por exemplo, alguns discursos mostram que alguns estudantes desejam cursar Psicologia ou Pedagogia na busca por aperfeiçoamento, já que desejam trabalhar com educação infantil, portanto aqui a ênfase em cursar um novo curso não é apenas na expectativa de mudar de profissão, mas de se aperfeiçoar na docência, como pode ser observado nos discursos abaixo:
Faria pedagogia, porque me interesso muito, e gosto de trabalhar também com as crianças. Gosto de ser professor e pretendo sim trabalhar nessa profissão, apesar dos obstáculos que se tem que enfrentar nos dias de hoje. (Estudante 34, Letras, 31 anos)
Atualmente faço letras, mas quero ainda a complementação em pedagogia. Faria pedagogia ou psicologia, quero dar seguimento ao curso do magistério, fazendo a complementação em pedagogia, pois dou aula para crianças e gostaria de me especializar mais. Fiz o magistério e a partir daí me senti encantada com a educação. Gosto muito de trabalhar com a alfabetização, é gratificante. (Estudante 28, Letras, 37 anos)
Também cursaria pedagogia, nela está inclusa a psicologia da educação e transferência de conhecimento para as crianças, que seria minha área de trabalho, tendo em vista a minha permanente escolha por essa profissão. (Estudante 2, Ciências Biológicas, 21 anos)
Os discursos acima retratam as percepções de estudantes que realmente desejam seguir a carreira docente, estes demonstram serem indivíduos comprometidos com a profissão escolhida e que desejam se especializar na tentativa de oferecer uma melhor educação aos estudantes da educação básica. Evidenciam respeito e admiração pela docência sem doses
exageradas de romantismo, já que em alguns momentos de suas falas deixam claro que têm consciência que a profissão escolhida enfrenta grandes dificuldades.
Os discursos supracitados evidenciam também um grande desejo dos estudantes de cursarem Pedagogia. Como expõem Nascimento, Silva, Silva (2014) os licenciandos em Pedagogia são os profissionais habilitados e responsáveis pela docência na educação infantil, nos anos iniciais do ensino fundamental, além de exercerem funções de coordenação pedagógica e de planejamento, orientação e gestão educacional em todos os níveis e modalidades de ensino. Os autores também destacam que existem duas exceções admitidas à regra de obrigatoriedade de titulação em grau de licenciatura, a formação em nível médio para quem ministra aulas na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental e a formação superior com grau bacharel ou tecnólogo para que se lecione nos anos finais do ensino fundamental e médio, desde que se apresente certificado de conclusão de complementação pedagógica.
Outro dado interessante a se analisar nestes discursos é o fato dos estudantes demonstrarem desejo de atuarem na educação infantil, trabalhando a alfabetização com crianças, porém eles estão finalizando um curso que lhes propiciarão trabalhar nos anos finais do ensino fundamental e médio, portanto estes estudantes estão cursando uma licenciatura que não lhes darão acesso ao nível de ensino que desejam atuar, daí o interesse em se formarem em Pedagogia também.
Aparece ainda na Classe 5 discursos mais românticos em relação à docência, em que se tem uma imagem idealizada do professor como um profissional que ama seus alunos e não trabalha por interesse financeiro, como pode-se observar nos discursos abaixo:
Amo ensinar as pessoas e vê-las felizes. (Estudante 32, Letras, 23 anos)
Quero ir para a sala de aula, quero ser professora, quero tentar fazer a diferença na vida de alguém. (Estudante 33, Letras, 24 anos)
Talvez nunca ganhe dinheiro nessa vida, mas enquanto eu puder ajudar, sempre me sentirei muito feliz. Sou um professor razoável, preocupado demasiadamente com a educação. (Estudante 4, Ciências Biológicas, 22 anos)
É evidente nas falas acima como o ofício do professor ainda é idealizado, visto como um ato de amor ao próximo, e que exige doação em todos os aspectos inclusive financeiro e essa ideia acabou sendo internalizada por alguns futuros professores, já que num dos discursos o estudante deixa evidente que o maior interesse dele não é “ganhar dinheiro”, mas servir ao próximo, se doar.
Mais uma vez é perceptível pela fala dos estudantes que qualquer pessoa imbuída de boas intenções e amor ao próximo pode e deve se tornar professor, já que nessa visão a docência necessita de pessoas que se doem sem exigir nada em troca. Assim, a docência acaba se enquadrando no que Sacristán (1999) chama de “semiprofissão” se analisada sob a visão sociológica em relação às profissões liberais clássicas. Além do que, a visão idealizada da profissão, como já dito anteriormente faz com que a docência tenha dificuldade em se reconhecer como profissão, já que qualquer pessoa que queira se dedicar ao próximo pode se tornar professor, como ressaltam Martinez e Tozetto (2013).
Na Classe 5 ainda é possível notar a vontade de ajudar ao próximo mesmo se o estudante fizesse outro curso superior que não fosse a docência:
Medicina e veterinária são duas áreas que me interessam muito. As pessoas precisam muito de ajuda, os animais precisam muito de ajuda. (Estudante 4, Ciências Biológicas, 41 anos)
Fica claro, que a fala do estudante citada acima demonstra que qualquer profissão é capaz de mudar o futuro tanto dos homens quanto dos animais, que o ponto principal para se escolher uma profissão é ter amor ao homem e/ou aos animais, já que mesmo seguindo outra profissão essas características são essenciais para fazer o movimento transformador da sociedade, assim a vocação é imprescindível para qualquer profissão. Segundo Haguette (1991) a “[...] ideologia da vocação não decorre de um artifício de autodefesa no intuito de agregar forças e levar a diante o serviço”; nesse pressuposto é como se qualquer profissão fosse sagrada, mesmo que esta não lhe proporcione boas condições de atuação, o que é importante é a missão de ajudar ao próximo.