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BÖLÜM II. KAVRAMSAL ÇERÇEVE

2.6. Mesleki Teknik Eğitim ve Çevre ĠĢbirlikleri

2.6.2. Mesleki ve Teknik Eğitim-Çevre ĠĢbirlikleri Kapsamında ġimdiye Kadar

Agora tenhamos em consideração que ao longo dos tempos foram feitos distintos juízos de valor também a propósito da escrita (essência irradiadora do livro e suas teleologias). Sumariamente, digamos uma vez mais o óbvio: a relação que hoje mantemos com a escrita muito se distingue daquilo que ocorria no medievo, assim como o que ocorrera neste período é completamente diverso daquilo que respeita à antiguidade clássica e sua concepção de escrita. Estão implicadas peculiares nuances a cada uma das idades históricas mencionadas com respeito ao papel desempenhado tanto pela escrita quanto pelo livro, instância derradeira de impressão e arquivamento da escrita no mundo ocidental.

Foi marcante na concepção de escrita no mundo grego, por exemplo, uma querela entre os oradores (rhétores) do período clássico, algo que veio a dividi-los entre aqueles que, de um lado, concebiam a escrita como uma forma legítima da expressão do saber, e, de outro, aqueles descrentes da forma escrita, reiterando altamente necessária a forma oral dos ensinamentos e dos discursos. Isócrates teria sido o orador exemplar da primeira linhagem. Górgias – o grande mestre oral e instaurador da tradição retórica – exemplificaria a segunda. Paul Friedländer resume isso da seguinte maneira:

34 LABARRE. História do livro, p. 32.

El arte de la palabra, ejercitado desde mucho tiempo antes de la práctica, se contemplaba también teóricamente desde hacía una década,

y también cómo se había empezado a utilizar las letras como “auxiliares de la palabra”. Lisias tuvo entonces que convertirse en “escritor de discursos” para los demás con el fin de ganar dinero. Pero, en primer

lugar, con Isócrates, el mayor talento retórico entre los coetáneos de Platón, venció el logos escrito – siempre aún “discurso”, aunque escrito

– al oral, como ideal de la “destreza” (α ρ βε α) artística sobre el

discurso improvisado. A partir de su propia experiencia construyo una doctrina y, como él mismo elabora larga y muy cuidadosamente en el

silencio de su cuarto de estudio sus “discursos políticos”, en realidad

folletos y manifiestos, así transmitía a sus discípulos un comportamiento semejante. Pero eso levantó una oposición a la novedad, por parte de la fila de las corporaciones que participaban del arte oral puro de su maestro Gorgias. Documentos de esa conversación de disputa, a veces conducida de forma muy mordaz, nos colocan ante los discursos de ambos líderes de palabras, Isócrates y Alcidamante. Pertenecen a los años ochenta del siglo IV. Platón también vio ante él esa discusión cuando componía al Fedro, el diálogo que parte de las diarias discusiones de los rétores y conduce de nuevo a la situación

transformada desde que la que él, con inalcanzable vuelo en la “manía”

de Eros, ha remitido a la mayor altura de la Filosofía. 35

Daí porque alguns dos diálogos platônicos (Górgias, ou a oratória e, sobretudo, Fedro) apresentam um rebaixamento da escrita como letra morta. Isso implica que o livro (par imediato da escrita) seja, portanto, desmerecido uma vez considerado simulacro do saber verdadeiro em razão da conhecida condenação platônica da mimese.

Para entendermos tal processo, detenhamo-nos da cena em que – conforme a descrição de Platão – Sócrates narra, para Fedro, a apresentação da escrita por seu inventor, Thoth (ou Theuth):

Sócrates: O que ouvi foi que em Naucratis, no Egito, havia um dos

antigos deuses daquela nação, ao qual a ave consagrada é chamada de íbis, sendo o nome desse próprio deus Thoth. Foi ele que primeiramente concebeu os números, o cálculo, a geometria e a astronomia, além do jogo de damas, os dados e – o mais importante de tudo – as letras. Ora, o rei de todo o Egito naquela época era Tamos, que vivia na megalópole da região superior chamada pelos gregos de Tebas egípcia, chamando estes o próprio deus de Amon. A este dirigiu-se Thoth para mostrar suas invenções, alegando ele que deviam ser distribuidas entre os outros egípcios. Tamos, entretanto, perguntou-lhe acerca dos usos de cada uma delas e à medida que Thoth indicava seus usos exteriorizou louvor ou censura, com base em sua aprovação ou reprovação. A história relata que Tamos declarou muitas coisas a Thoth elogiando ou censurando as várias

artes, o que seria excessivo aqui repetir; todavia, quando ele apresentou as letras, no dizer de Thoth: “Isto, ó rei, uma vez aprendido tornará os egípcios mais sábios e aprimorará suas memórias: trata-se de uma poção [phármakon] para a memória e a sabedoria por mim descoberta”. Tamos, contudo, respondeu: “Sumamente engenhoso Thoth, uma pessoa é capaz de conceber as artes, mas a capacidade de julgar de sua utilidade ou nocividade aos que farão uso delas cabe a uma outra pessoa. E tu, agora, pai das letras, foste levado pelo afeto a elas a conferir-lhes um poder que corresponde ao que essa invenção irá gerar esquecimento nas mentes dos que farão o seu aprendizado, visto que deixarão de praticar com sua memória. A confiança que passarão a depositar na escrita, produzida por esses caracteres externos que não fazem parte de deles próprios, os desestimulará quanto ao uso de sua própria memória, que lhes é interior. O que descobriste não é uma poção [phármakon] para a memória, mas sim para a evocação; proporcionarás aos teus discípulos a aparência da sabedoria, mas não a verdadeira sabedoria, porque lerão muitas coisas sem se instruírem, com o que parecerão conhecer muitas coisas, mas na realidade permanecerão majoritariamente ignorantes, incapazes de acompanhar essas matérias, visto que não são sábios, mas tão-só parecem ser sábios”.36

Tal é o veredicto do rei Tamos (ou Thamous) em relação à invenção de Thoth. Esse evento marca, pelo menos para a interpretação do mundo ocidental, a subordinação clássica entre um lógos determinado pela memória viva (mnéme) e uma escrita subdeterminada pela recordação ou rememoração (hypómnesis) através dos caracteres. A escrita, por tudo isso, nasce do entendimento da necessidade de um phármakon para a memória e a sabedoria. Dito de outro modo: o texto escrito suscita, de acordo com a mentalidade do mundo antigo, uma potência ambivalente do saber, pois há uma incompatibilidade entre o escrito e o verdadeiro. Justo por isso a necessidade de uma “poção” que, a depender da dosagem ministrada, neutralizaria a dita potencialidade. Nesse sentido, tudo aquilo que se manifesta mediante a escrita seria a não-Verdade, expressão do não conhecimento que apenas faz repetir sem produzir saber algum.

A leitura do significante que – segundo palavras atribuídas a Sócrates nos diálogos platônicos – qualifica a escrita no contexto da antiguidade clássica encontra-se atualmente determinada pela interpretação levada a cabo por Jaques Derrida. Fala-nos o filósofo franco-argelino a propósito de como a palavra phármakon está imersa em uma rede textual rica de significações ou “canais de sentidos”, dessa forma não cessando de operar por si mesma uma erosão hermenêutica. Derrida demonstra que, apesar da tradição platônica, e,

36 PLATÃO. Fedro, pp. 102-103.

sobretudo, das interpretações do termo em questão, a escrita, em sua qualidade de phármakon, é o “descaminho” da Verdade:

Esse phármakon, essa “medicina”, esse filtro, ao mesmo tempo remédio e veneno, já se introduz no corpo do discurso como toda sua ambivalência. Esse encanto, essa virtude de fascinação, essa potência de feitiço podem ser – alternada ou simultaneamente – benéficas e maléficas. O phármakon seria uma substância, como tudo o que esta palavra possa conotar, no que diz respeito a sua matéria, de virtudes ocultas, de profundidade críptica recusando sua ambivalência à análise, preparando, desde então, o espaço da alquimia, caso não devamos seguir mais longe reconhecendo-a como a própria anti-substância: o que resiste a todo filosofema, excedendo-o indefinidamente como não-identidade, não- essência, não substância, e fornecendo-lhe, por isso mesmo, a inesgotável adversidade de seu fundo e de sua ausência. 37

A enriquecedora análise de Derrida implica uma gama muito ampla de questões, tais como o imperativo do fonocentrismo na antiguidade clássica, a “tese do pai” defendida por Sócrates ao reivindicar a presença do orador (autor) a despeito da enunciação meramente textual quando de uma repetição longe do pai, etc. Não nos debruçaremos sobre os pontos mencionados. 38 Seja como for, o que temos dito até aqui já é suficiente para entendermos o rebaixamento da escrita no mundo clássico a partir de um entendimento da mesma como letra morta.

Já terá percebido o nosso leitor que tal particularidade da escrita na antiguidade clássica permite-nos postular uma clara consequência: o desprezo pelo livro será determinante durante o referido contexto. Ora, uma vez que a escrita é considerada natimorta, tal com vimos a partir da sentença pronunciada pelo rei Tamos ante a invenção do deus Thoth, a mesma sempre sofrerá de uma implacável desconfiança quanto à sua eficácia, quanto à sua ambiguidade. Aspectos dessa ordem, ainda de acordo com Derrida, fizeram com que a escrita fosse vista, pelo menos no mundo clássico, como uma operação que se dá sempre por razões mágicas e não pelas leis da necessidade. Isso fará com que o livro, pelo menos o livro pensado de acordo com este contexto, esteja sempre relacionado com a droga: o saber que veicula será um saber morto e rígido, pois sempre se encontrará encerrado nos bíblia; as histórias por ele contadas serão sempre acúmulos de

37 DERRIDA. A farmácia de Platão, p. 14. 38

Para acompanhar o detalhamento de temas tais como os citados acima a propósito de Derrida, ver os comentários de Evando NASCIMENTO. Derrida e a literatura, espe ial e te o apítulo: Es ita e g a atologia .

nomenclaturas, receitas e fórmulas aprendidas de cor. 39 Nunca, portanto, o saber vivo proveniente da dialética dos oradores adeptos da prática atribuída ao mestre Górgias.

Tamanho será o desprezo de Platão pelos lógoi en biblíois que tal será a reflexão posta por este na boca de Fedro (268c): “Diriam, imagino, que tal pessoa está louca pelo fato de pensar que é um médico simplesmente porque leu alguma coisa num livro [ek biblíou] ou topou com alguns medicamentos, não tendo ela nenhum conhecimento da arte

[da medicina].” Ou ainda: levará Platão a rechaçar a difusão impressa da própria obra através da escrita, tal como podemos acompanhar na Carta II, 314c. Platão, neste trecho, confessa desconfiar dos escritos com fins de deixar algum legado para a posterioridade, assim recomendando a seu remetente a queima da referida carta logo de ser lida.

Exemplos dessa ordem nos permitem concluir que na antiguidade clássica, ou pelo menos a partir do viés implicado pelo platonismo, a escrita é secundária, sempre inferior ao discurso, o lógos. Espécie de filha bastarda, a escrita compartilha todas as características com o mythos, isto é, a repetição sem saber, a enunciação já longe da presença do pai. E assim estará muito distante do lógos e da dialética, daquilo que, segundo a tradição platônica, implica o saber vivo. Sendo o livro o templo de culto da escrita, de produção do phármakon, será ele um simulacro segundo a tradição referida. Aquilo que somente dá a ler não pode oferecer um saber em seu acontecimento verdadeiro. Em suma: não há apenas desmerecimento do livro na antiguidade clássica senão, também, da leitura e de toda sorte de recepção da obra caso optemos pela avaliação anacrônica do referido processo. 40

Apesar do menosprezo pela escrita e pelo livro operantes no mundo antigo, a exemplo do que acabamos de ver em Platão, será, contudo, um diálogo platônico tardio que abrirá o caminho para o simbolismo do livro através da interpretação deste objeto enquanto símile para o processo de formação da dóxa. Eis o que diz Sócrates personagem no trecho 38e do Filebo: “penso que nessas ocasiões nossa alma se assemelha a um livro”. E, adiante, complementa na passagem 39a buscando explicar-se quanto à analogia livro/alma: “a memória coincidindo com as sensações numa mesma coisa, e as afecções acerca dessas coisas escrevem discursos na alma, e quando essa afecção escreve coisas

39 DERRIDA. A Farmácia de Platão, p. 17.

40 Algo a ser notado: devemos aos sofistas da Grécia clássica a acepção mediante a qual hoje tomamos a relação entre o livro e a escrita. Foram estes filósofos que (a contrapelo do juízo clássico do livro na antiguidade que acabamos de ver) reivindicaram a multiplicação das obras em prosa e a popularização da tragédia, estimulando, assim, a produção de textos. De certo modo, foram os sofistas, portanto, os precussores do gesto laico do livro antes da instauração de sua circulação comercial.

verdadeiras, o resultado é dóxa e discursos verdadeiros, mas quando o escritor escreve coisas falsas em nós, surgem falsas dóxai e falsos discursos”.

O alegorismo simbólico do livro no mundo ocidental, possivelmente inaugurado no Filebo de Platão, terá, doravante, um percurso longo a ser reiterado durante toda a Idade Média. Contudo, a apropriação do livro enquanto símile da verdadeira dóxa pelo diálogo platônico tardio não chega a formar uma aporia referente ao rebaixamento da escrita e do livro na antiguidade clássica. Ao Sócrates platônico lhe ocorre conceber que a alma não é precisamente um livro escrito, senão um livro de textos e, sobretudo, de imagens (39b). Daí a possibilidade de concluir que o livro, enquanto símile capaz de plasmar a malha simbólica daquilo que representa uma unidade de sentido do mundo, somente aparece no ocidente quando é superada a determinação iconográfica da cultura clássica. 41 Sendo assim, a metaforicidade do livro desenvolvido no Filebo apenas reitera o desprezo pela escrita durante o contexto aludido. De modo que só podemos vislumbrar uma inflexão na valorização da escrita durante a antiguidade clássica a partir da época do helenismo, momento em que o espírito grego toma uma nova forma graças à caracterização de uma educação cosmopolita. É exclusivamente nestes últimos séculos de poesia grega que será crescente o “apego do espírito ao livro e ao mundo dos livros”. 42

Essa transição, portanto, configura a abertura de um contexto histórico em que a expressão de origem antiga scripta manent, verba volant passaria a ser ressignificada tal como Manguel chama a atenção na citação anterior. Obviamente, seria um processo demorado, pois, como nota E. Curtius, a “literatura romana”, em sua florescência, pouco lançou mão do metaforismo do livro. Apesar disso, podemos considerar que o gosto romano pela forma bem cuidada, cultuada a partir da tradição alexandrina-helenística, desencadeou, segundo o próprio Curtius, o gosto pelo belo livro. E já a partir do cristianismo teremos a consagração máxima do livro a perpassar toda a Idade Média, chegando a atingir seu ápice no século XII, quando passa a ocorrer uma celebração tanto do mundo quanto do livro, configurando, doravente, a irrupção metafórica deste último. 43 Por tudo isso, entra em cena uma das mais marcantes dicotomias referentes ao medievo: a oposição do codex scriptus da Bíblia e o codex vivus da Natureza. E é exatamente dessa

41

Cf. BLUMENBERG. La legibilidad del mundo, p. 51. 42CURTIUS. O li o o o sí olo , p. . 43 CURTIUS. O li o o o sí olo , pp. -390.

dicotomia que ainda encontramos dificuldade de desvencilhamento caso seja apreendida a vida póstuma daquela questão mimética que voltar a polinizar os campos da modernidade, isto é, a semente do conflito estético semelhança/dessemelhança.

1.4 Ou o livro, ou o mundo?

(...) os livros que em nossa vida entraram/ São como a radiação de um corpo negro/ Apontando pra a expansão do Universo/ Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso/ (E, sem dúvida, sobretudo o verso)/ É o que pode lançar mundos no mundo. 44

Resíduos semânticos disso que atualmente chamamos livro

Parte substancial do que foi dito até aqui designa apenas as leituras do livro, bem como a idealização do mesmo como símile do pensamento. Assim ignoramos o seu fabrico, deliberadamente? Não. Mas esses pontos somente serão articulados à medida que haja, entre eles, composição com nossa hipótese inicial. Não se trata de postular uma grosseira determinação, ou seja, entender que a encarnação técnica do livro determina a concepção do mesmo em dada época ou, de outro modo, crer que a conceitualidade do livro em determinado contexto determinará a sua fabricação material. Tal processo é bastante opaco. Tenhamos em consideração, por exemplo, a indefinição do livro em relação às técnicas do mesmo ao ganhar atualmente o cenário digital da escrita. Prossigamos, apesar disso, delineando alguns arranjos relativos ao processo de disposição estrutural do livro. Isso nos permitirá aprofundar na questão acerca de como o livro veio a ser lido não somente “tal qual um mundo”, senão um mundo ele mesmo a partir da modernidade.

O étimo antigo para biblion (Βίδ ος) não designou primeiramente “livro”, muito menos obra. Biblion deriva de biblios que, antes de qualquer outra coisa, nomeia, segundo o grego clássico, a parte interna do papiro, do papel, bem como o equivalente latino, liber, quer dizer, primeiramente, a parte viva da casca antes de designar “livro”. Em seus primórdios, a palavra referiu-se ao “papel de escrever”, nada trazendo, ainda, da nossa ideia de livro, muito menos de obra. Denotava apenas a película em que se escrevia. Entretanto, empregou-se a mesma palavra, por metonímia, como designativo de qualquer suporte de escrita referente àquela época, tais como tabuinha, cartas, correios, etc. Da

extensão alcançada por estas metonímias resultou que biblion passasse a nomear uma acepção do “escrito” em geral, de modo que a nova extensão levou a algo já próximo da forma de “livro”, isto é, o volumen, o rolo de papiro, e, tempos depois, o codex, reunião de cadernos com páginas superpostas. 45

Vem daí uma condição capital para concebermos a emergência seminal da estrutura material e composição livresca a que nós, leitores do livro moderno, estaremos de algum modo vinculados. Trata-se da suplantação do volumen (nomenclatura latina para o rolo de papiro) pelo codex ocorrida durante a época mesopotâmica e o decaimento da antiguidade clássica. Nisso já está implicada uma inaugural obsolescência da estruturação linear dos textos. Dada sua composição física, o manuseio do volumen se tornaria uma tarefa cada vez mais complicada.

Malgrado essa oscilação, temos de considerar que houve uma sorte de permanência de ambos os termos enquanto ia sendo processada a substituição do volumen pelo codex, de modo que nem sempre foi preservado o significado primordial dos mesmos. Durante um período considerável tais termos foram usados de modo indistinto com vistas a compor a enunciação de diferentes suportes de escrita, que apenas de muito longe diziam a mesma coisa. A certa altura de A técnica do livro segundo São Jerônimo, Dom Paulo Evaristo Arns chama a atenção pra isso:

(...) Em toda parte [dos escritos de Jerônimo] liber aparece como termo genérico. De fato, no séc. IV, era aplicado tanto ao volumen quanto ao codex.

(...) O desaparecimento do rolo porá ainda mais em relevo o liber como unidade de composição literária. Foi o que constatou Marrou no que tange à produção literária de Agostinho: “cada livro se apresenta como um bloco, e, por certo, no pensamento do próprio Agostinho, o livro é a unidade literária”. Βίδ ος e seu correspondente latino liber desde muito tempo já podiam designar uma obra inteira que exige vários rolos.

(...) A impressão que resulta de tais constatações se torna cada vez mais clara: o termo liber tem um conteúdo muito elástico, e designa uma unidade de extensão indeterminada. Quando não se quer dar outros detalhes técnicos, fala-se de liber.

(...) Porém volumen designa muitas vezes um manuscrito com uma forma qualquer. Facilmente sacrifica-se o sentido técnico, a fim de evitar uma desagradável repetição da palavra. Encontramos, assim, mais de uma dúzia de exemplos em que São Jerônimo utiliza ora liber, ora volumen para designar a mesma obra em um contexto semelhante. (...) [Porém] enquanto liber se torna uma representação formal da obra, volumen está ligado à unidade material do rolo.

45 Cf. DERRIDA. Papel-máquina, p. 21.

(...) Parece-me correto concluir que o tamanho e a forma do volumen variam de acordo com as obras. O termo torna-se cada vez mais vago, sobretudo em razão do aparecimento da nova forma do livro, o codex. A preferência pela palavra volumen, para designar os livros do Antigo Testamento no texto original, prova que o sentido de “rolo” ainda estava subjacente no tempo de Jerônimo: é o pergaminho que se utiliza

Benzer Belgeler