BÖLÜM II. KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.7. Mesleki Teknik Eğitim Sisteminde Bilgi, Beceri ve Yeterliliklerin Tanınması
2.7.2. Avrupa Yeterlilikler Çerçevesi
“A terra pertencerá apenas àqueles que vivem das forças do cosmos”. (...) A relação antiga com o cosmos processava-se de outro modo: pelo êxtase. De fato, o êxtase é a experiência pela qual nos asseguramos do que há de mais próximo e de mais distante, e nunca de uma coisa sem a outra. Mas isso significa que só em comunidade o homem pode comunicar com o cosmos em êxtase. A desorientação que ameaça os modernos vem-lhes de considerarem essa experiência irrelevante e desprezível e de a verem apenas como vivência contemplativa individual em belas noites estreladas.
(...) a técnica não é a dominação da natureza: é a dominação da
relação entre a natureza e a humanidade. É certo que os homens,
enquanto espécie, estão há dezenas de milhares de anos no fim da sua evolução; mas a humanidade, enquanto espécie, está no começo. A técnica organiza para ela uma physis na qual o seu contato com o cosmos se constitui de forma nova e diferente do que acontece com os povos e as famílias. (...) O terror da autêntica experiência cósmica não se liga àquele minúsculo fragmento de natureza que nos habituamos a designar de
“natureza”. O ser vivo só supera a vertigem da destruição no êxtase da procriação. 92
Todos os saberes da modernidade emergem na medida em que se constituem, simultaneamente, enquanto objeto e horizonte de formação discursiva de um objeto, isto é, enquanto significante e positividade. Por exemplo, a Biologia e as Ciências Humanas. Antes delas, nem a “vida” e nem “homem” existiam, não estavam devidamente constituídos como continuidade discursiva, como sujeito e objeto desses saberes. O que existe precedentemente, segundo a análise de Foucault, é apenas a História natural, no interior da qual o homem e a vida humana são a ausência de uma disciplina ou de uniformidade discursiva; o homem se iguala a todos os outros seres em contiguidade com o mundo pré-moderno em que rege a semelhança; ele não representa a sua representação ainda. 93 Não há, então, uma historicidade da vida humana enquanto objeto epistemologicamente constituído, como figura da analogia na ordem de organização dos saberes. É isso que faz com que cada saber, cada discurso que aparece na episteme da modernidade, seja, a um só tempo, constituinte e constituído por um interior (a normatização da linguagem) e um exterior (os domínios além da linguagem disciplina que impede algo de submergir como um saber).
Mas é algo distinto o que exatamente acontece com a literatura. Ela é o que excede o dispositivo de formalização das grandes formas do saber moderno. Formaliza-se sob uma definição voluntariosa de linguagem que a alça em relação ao que está em seu entorno. É nesse sentido que a literatura será uma “linguagem segunda”. A literatura, a uniformidade discursiva que a fará um conceito, permanecerá apenas como Teoria da Literatura, método de abordagem da “linguagem segunda”, definição da “linguagem segunda”, mas não extamente sua manifestação. Na qualidade de “coisa em si”, objeto preciso e definível na malha epistemológica, a literatura não existe na positividade moderna. Ela só existe pela exceção, o resto que não cabe na gramaticalidade dos demais campos do saber. A literatura não tem um objeto definido consigo – tudo, nela, é um puro sistema de dispersão, pois não fixa a historicidade da linguagem através do tempo, ou pelo menos não como ocorre aos outros campos e planos de ordenação das grandes formas do saber. É por isso que a sua normatização não termina de se processar; é uma falha, um contradiscurso. Não se definindo a um só tempo enquanto objeto e conceito, a literatura resta como um contra-
92BENJAMIN. Pa a o pla et io , pp. -65. In: ___. Rua de mão única. Infância berlinense: 1900. 93 Cf. FOUCAULT. As palavras e as coisas, pp. 475-476-477-510-512.
saber, uma contrapositividade, ou, ainda, uma forma estranha ao assujeitamento, pois escapa às gramaticalidades. Sob a condição de conceito, de saber literário não disjuntivo, ela ganha historicidade. Mas, em seguida, aquela mesma historicidade é abolida por uma instabilidade do seu objeto, a secundaridade da linguagem, e já não é nem mais o comentário pré-moderno, nem tampouco a crítica com que a linguagem ressurge na modernidade. Opera-se, nesse tecido poroso, um trânsito inassimilável. Eis a armadilha que o “ser literário” deixa para a positividade do pensamento moderno.
É por isso que a literatura, em seu “ser selvagem”, é algo verdadeiramente estranho no campo dos saberes a serem formalizados no domínio epistemológico da modernidade. Recorrentemente, vem a ser definida via polarização, espécie de exterior (descontinuidade discursiva incontrolável) que recusa o interior (continuidade, controle da dispersão) da linguagem, constituindo, dessa maneira, uma espessura altamente contraditória em relação à (dis)positividade dos discursos de nossa idade epistemológica. Nesse sentido, a Teoria da Literatura, um saber precisamente moderno, veio acossando, desde o século XIX, a zona membranosa, de partilha, em que vive a literatura, para tão logo transformá-la, simultaneamente, em objeto e discurso igualmente válidos. Porém, a literatura traz um conflito a lume: revela, quando consigo mesma, isto é, não sob a condição formalizada de análise literária ou teoria, e sim de formalização do literário, que ela jamais operou sob tal determinação – ou coisa, ou outra, ou comentário, ou crítica, uma minando a condição da outra. A literatura, não apenas uma gramaticalidade teórica, como a Teoria da Literatura se pensou desde o século XIX, mas, antes, a literatura sob uma condição de prática e teoria de si mesma, repõe o êxtase cosmológico através da escrita e dos saberes na “era da técnica”, da instrumentalidade epistemológica.
É ela, a literatura, que, entre nós, pode “conquistar a terra” na modernidade, desde que seja entendida a partir da demanda técnica de que falava Benjamin, uma demanda da técnica, logo, da escrita que “não é a dominação da natureza”, mas “a dominação da relação entre a natureza e a humanidade”, logo, da natureza e da literatura, pois, sendo o reverso de todos os saberes da época, o “ser selvagem” da literatura, é o único ser verdadeiramente agreste, capaz vive “das forças do cosmos”, do êxtase literário que inebira os sabres modernos. É com essa questão incontornável que agora tem de lidar tanto a Teoria da Literatura quanto as suas vizinhas, as Ciências Humanas, saberes que tomam o
homem como “representação da sua representação” 94
ou universalização da analogia: não exatamente a comunhão de outrora, mas, agora, a multiplicidade de ambas as coisas, de ambos os mundos, social e biológico, natural e estético, etc., deslizando um sobre o outro, porém sem ter de submeter para defini-los (pré)identitariamente.
A literatura, gostaríamos de antecipar isso antes do que vem com os próximos capítulos, pode ser, na modernidade, não o domínio da linguagem artificial, da dessemelhança e do simbolismo a despeito da linguagem da Natureza, da semelhança e da alegoria do mundo, mas a relação, o hímem, aquilo que faz com que uma instância participe à outra, produzindo, assim, um convívio, ambas. É nesse sentido, por exemplo, que Clément Rosset, no livro A antinatureza, sugere um caminho a não ser ignorado aqui: sair, ao mesmo tempo, do “preconceito naturalista” e do “privilégio ambíguo do artifício”.
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Nem o artíficio deve ser tomado como o caráter originalmente não natural de todas as coisas, como a superação do acaso, nem muito menos a natureza pensada como a incapacidade de manifestar-se por si mesma, como o reino do acaso. É, antes, a relação entre ambos, artifício e natureza, que irradia uma força criadora, uma poiésis – uma força, por exemplo, no sentido de uma “natureza por fazer”, como sugere Peter Sloterdijk, isto é, o questionamento do idílio (a imagem da “Grande Mãe”) da unidade original e integral entre o ser humano e a Natureza, daí então surgindo uma crítica capaz de distinguir a duplicidade e o antagonismo entre ambas as partes, minimizando a relação dualista, a consciência do contra-ataque entre, por um lado, uma natureza que pede ser copiada e compreendida como um útero absoluto e, de outro, uma instância artificial que aspira a competência e o conhecimento mediante a libertação técnica em relação ao ambiente entorno. Assim, segundo Sloterdijk, a “natureza por fazer” poderia ser comprendida como um abandono da tentativa demiúrgica de tomar o a criação para si, o fim do apoderamento das forças da Terra, resultando a Natureza não como a base, mas como um setor de produção do humano sem que, para isso, haja a necessidade de manter a cisão original do contra-ataque entre a Natureza e a humanidade, libertando-nos dos constrangimentos antropogenésicos da produção de cultura. 96 E entender em âmbito estético, por fim, como propõe Rosset, que é da relação entre ambos, artifício e natureza, e não da “apreensão de uma natureza transcendente ao artifício”, que floresce o “êxtase poético”, algo capaz de
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Cf. FOUCAULT. As palavras e as coisas, pp. 507.
95 Cf. ROSSET. A antinatureza, pp. 14-15-20-21-22-53 passim.
assimilar todo “objeto natural” a objetos artificiais, volatizando-os, confundidos na “intuição de uma mesma não necessidade”. 97
Acredito que usos do tópos do livro do mundo, em literatura, permitem discutir um viés dessa questão de cintilância ainda não bem ascesa entre nós. É aí que gostaria de circunscrever estas páginas, recuperando aqueles que me precederam para então poder desaparecer com eles.
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Ao longo do próximo capítulo veremos o momento em que o conceito de literatura passa a ser organizado enquanto projeto teórico e prático, quer dizer, poiésis. E, sobretudo, como essa sistematização demanda um novo regimento estético do livro na modernidade capaz abrir caminho alternativo ao pensamento da hipótese dualista da legibilidade do mundo, da cisão entre natureza e escrita, mundo e livro, semelhança e dessemelhança. A isso, portanto.