Todo o culto à beleza física, toda a preocupação com o corpo, sob a perspectiva estética da beleza física e da obra de arte, era encarada como um reflexo do paganismo. Como tal, esse culto era proibido, bem como tudo o que fosse contrário aos dogmas religiosos vigentes. Os clérigos pregavam contra a preocupação com a estética corporal, pois no dualismo corpo versus alma, o primeiro era pecaminoso. O importante para o bom cristão era salvar a sua alma (LE GOFF; SCHMITT, 2006).
A Idade Média foi também a época da grande renúncia ao corpo. As manifestações sociais mais ostensivas, assim como as exultações mais íntimas do corpo são amplamente reprimidas. No medievo o corpo é o lugar de um paradoxo. Por um lado, o cristianismo não cessa de reprimi-lo; por outro, ele é glorificado, sobretudo por meio do corpo padecente de Cristo, sacralizado na Igreja como corpo divino. Esse corpo é atravessado por essas tensões, essas oscilações entre a repressão e a exaltação (LE GOFF; SCHMITT, 2006; BAKHTIN, 2002).
14 Segundo Bakhtin (2002) o “baixo corporal”, antes de ser sinal de indecência, imoralidade, expressa uma
concepção cosmológica do mundo profundamente marcada pela experiência da carnavalização. A orientação para baixo é própria de todas as formas de alegria popular e do realismo grotesco. Embaixo, do avesso, de trás para frente, tal é o movimento que marca todas essas formas.
A subjugação do corpo pela religião transitava entre pólos opostos, e o interesse da religião por ele era de redimi-lo, para que a alma contida ali pudesse encontrar sua redenção. O corpo, dessa forma, é contido pela concepção anticorporal do cristianismo institucionalizado, mas resiste à sua repressão por meio da festa, do riso, das metamorfoses que era capaz de suscitar; é considerado a prisão e o veneno da alma, à primeira vista, portanto, o culto ao corpo, na Antiguidade, cede lugar, na Idade Média, a uma derrocada desse corpo na vida social. (LE GOFF; TRUONG, 2006).
O corpo, nesse período, principalmente com o advento do cristianismo, servia mais para a salvação da alma do que para os jogos e festas populares15. Entretanto, o homem
medieval, mesmo com a passagem do paganismo para o cristianismo, demonstrando dessa forma o poder religioso, mostrava corpos que se desviavam dos padrões de uma normalidade estabelecida pela sociedade e que se mostravam desvinculados desses padrões quando não estavam preocupados com seu adestramento nem tampouco com os valores sociais e corporais vigentes.
O corpo, na Idade Média, era percebido como centro dos acontecimentos, havendo uma idolatria divina sobre ele e uma consequente separação entre o corpo profano e o corpo sagrado, sendo definido como um instrumento de consolidação das relações sociais existentes entre a Igreja, o feudo e o povo. Dessa forma, a moral cristã tolhia qualquer tipo de prática corporal que visasse ao culto ao corpo, pois este poderia tornar impura a alma sagrada (LE GOFF; TRUONG, 2006).
No limiar da Idade Média, o corpo era qualificado de "abominável vestimenta da alma", e a Igreja o mortificou com pertinaz tenacidade, jejuando, vergastando-se na vã tentativa de afastar a tentação, portanto o pecado. O corpo, nesse sentido, é carregado de tensões, tais como o corpo versus a alma e o corpo versus sexualidade, de que tanto fala Le Goff; Truong (2006). Essa oposição dual do corpo e da alma nos medievalistas é que compõe o homem tanto de um corpo que era material, portanto mortal, quanto de uma alma, imaterial e imortal. Logo essas oposições duais evocam o desejo culpável, na medida em que o corpo era o lugar das tentações, do pecado sexual.
Alma sublime e glorificada a contrastar com o corpo desprezado e perverso. Corpo tão depressa santificado como violentado, desejado e anulado, ignorado e exaltado. Assim,
15 Tomamos o carnaval como uma das grandes festas populares da Idade Média. Manifestada a partir das saturnais romanas, o carnaval foi concebido como um retorno à livre expressão, em que bobos e bufões, Arlechins e colombinas, clérigos e gente do povo manifestavam suas insatisfações e satisfações nesse período que ocorria antes da quaresma. O carnaval não fazia parte do calendário religioso cristão, entretanto exercia forte influência no povo medieval, podendo durar aproximadamente por três meses, possuindo um caráter universal em que o renascimento e a renovação dos que dele participam são intensamente festejados (BAKHTIN, 2002).
antecipando a suprema desforra do corpo, que ao longo dos séculos medievais acabará por se tornar onipresente, luminoso, magnífico; alimento privilegiado do próprio erotismo (LE GOFF; TRUONG, 2006).
Percebe-se que há uma passagem do tempo sagrado para o tempo profano no corpo do medievo. Eliade (1992) comenta que o homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta como algo diferente do profano. Esse humano manifesta o sagrado em um objeto que continua a ser ele mesmo. No sentido eliadeano, as categorias do sagrado e do profano implicam um pensamento religioso. É preciso ressaltar que o pensamento profano é homogêneo, que jamais se encontra em estado puro, enquanto que o pensamento religioso é não homogêneo; apresenta rupturas, quebras e constitui uma experiência primordial. E ainda que o homem profano queira dessacralizar-se do mundo sagrado, não consegue abolir completamente o comportamento religioso.
Em relação ao tempo/espaço, o autor se refere ao sagrado como poderoso e significativo, e como tal é estruturado e consistente; em contrapartida, o tempo/espaço não sagrado é amorfo e vazio. No que tange ao homem religioso, o espaço é pleno de rupturas qualitativas. Mais precisamente, é na experiência do sagrado que o homem descobre a realidade do mundo dos significados e a ambiguidade de todo o resto.
Para o autor a experiência religiosa do tempo/espaço se apresenta como primordial e, desse modo, é o marco referencial da própria origem do mundo. Quando o sagrado se manifesta, ele expressa o absoluto em meio à completa relatividade da extensão que o envolve.
Na mesma discussão, a dualidade sagrado e profano perfaz o entendimento da realidade. Se não conseguimos afirmar o que é o sagrado em sua plenitude, podemos caracterizar o que não é. Quando a reflexão parte da negação do que seja o sagrado, passamos a reconhecer o não-sagrado.
Dessa forma, o corpo profano carrega uma moral sexual. Corpos que se apresentam “belos” ou “feios” como objetos de consumo, e o que se busca é incutir um tipo de comportamento para os indivíduos do medievo. Esse discurso construído era pautado principalmente na sensualidade e sexualidade intrínsecas ao corpo feminino e masculino.