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No campo educacional encontramos infindáveis tratados, artigos e materiais produzidos que supostamente descrevem os caminhos pelos quais o ensino e a produção dos conhecimentos são estruturados. Eles são e foram importantes, mas será que tudo o que vem sendo produzido responde às

44 HANNOUN, Hubert. Educação: certezas e apostas. São Paulo: Fundação Editora da UNESP,

questões essenciais da formação do educador, que mesmo antes de sê-lo é uma pessoa, um ser humano em processo de formar-se?

Continuamos deparando com equívocos, desinformações, atrocidades e menos valia da pessoa do educador. Evidente que no meio desta realidade há experiências significativas e que alcançam sucesso, contudo percebemos que elas são em número muito menor do que as necessidades da grande maioria daqueles que integram o grupo de docentes pelo país afora, sem mencionar a situação que alguns países vivenciam.

Assmann (2000, p.44) complementa essa constatação quando afirma

que não sairemos desses impasses enquanto continuarmos apegados a uma visão dual do mundo e da vida, como a que pervade todo o pensamento moderno sobre a razão, a liberdade, o sujeito, a consciência, etc. Existe uma espécie de brecha epistemológica – não só de difícil superação, mas quase impossível de ser problematizada dentro do pensamento moderno – em toda a conhecida cadeia de binômios falazes sujeito-objeto, indivíduo-sociedade, estado-mercado, micro-macro, consciente-inconsciente, ensinante-aprendente, etc.

A proposta de rever um dos aspectos da formação do educador deseja contribuir para um avanço das reflexões nesta área e empreender uma experiência que seja marcadamente melhor e se insira em uma nova forma de ser e fazer-se educador.

Josso (2008) contribui com nossa necessidade de mudança quando afirma:

[..] para adentrar o caminho do desconhecido, é preciso poder, querer e saber “colocar-se como sujeito mais ou menos ativo de sua vida, na sua vida”. Para chegar a esse sujeito, uma das condições é ser capaz de “desenvolver sua capacidade de estar Presente a si (ou desenvolver sua atenção consciente) em todas as circunstâncias”, através do exercício de nossas competências genéricas transversais. Essas competências genéricas transversais devem ser aplicadas a “desenvolver todas as suas antenas de relação com o mundo” sem esquecer os diferentes registros do pensar as atividades do ser humano tal como as ciências do humano nos propõem (os registros somato-psíquicos, psicossomáticos, psicológicos, psicopatológicos, sociológicos, econômicos, históricos, antropológicos, espirituais).” ( p. 21)

Este recorte da realidade é fruto de uma experiência construída ao longo de vinte anos, atuando em instituições educacionais e a partir dela de minha própria formação enquanto educadora que percorreu inúmeros caminhos, buscando sempre uma melhor formação e qualidade nos locais de atuação.

Considerando que estamos vivendo dentro de um novo paradigma, em que o pensamento complexo estabelece relações e parcerias, não podemos descartar as construções que não se sustentam nesta visão. O que necessitamos é propor ações que possam realmente dar um novo tom à sinfonia do ensino e à formação dos educadores.

Ao nos reportamos à história da educação, veremos aqueles que não possuíam a formação específica na área do ensino se arrogando o direito de normatizar ou determinar quais as linhas ou propostas educacionais que deveriam ser empregadas. Nesse contexto, pouca era a preocupação com a pessoa do educador. Resquícios de um ensino sustentando em uma visão mecanicista e usualmente com o objetivo de formar uma massa que servisse aos propósitos do sistema, mostra-se como panorama.

Uma nação carece de uma memória para contar sua história, mas é cruel pensar que movida pelo poder econômico, muitas decisões e encaminhamentos foram equivocados, prejudicando gerações, ao negar a possibilidade de perceberem-se como pessoas que produzem sentido e saberes diferentes daqueles que um governo teria para nortear.

Morin (2000), nos mostra que há outra forma de pensar sobre os caminhos que os conhecimentos podem percorrer e serem construídos:

Todo conhecimento constitui, ao mesmo tempo, uma tradução e uma reconstrução, a partir de sinais, signos, símbolos, sob a forma de representações, idéias, teorias, discursos. A organização dos conhecimentos é realizada em função de princípios e regras que não cabe analisar aqui: comporta operações de ligação (conjunção, inclusão, implicação) e de separação (diferenciação, oposição, seleção, exclusão). O processo é circular, passando da separação à ligação, da ligação à separação, e, além disso, da análise à síntese, da síntese à análise. Ou seja: o conhecimento comporta, ao mesmo tempo, separação e ligação, análise e síntese. ( p. 24)

Nesse movimento circular e constantemente retroalimentado pelo conhecimento existente e aqueles forjados na experiência, subjaz uma nova essência, que somente poderá ser portadora de uma imagem e um sentido se perpassar pela pessoa do educador e é por isso que ele necessita urgentemente religar-se a sua subjetividade para ali redimensionar o que o move nas suas práticas diárias.

Essa reflexão torna-se um dos elementos que permitirá que a prática seja repensada, renovada e propositiva no sentido de alicerçar sua autoformação nas espirais do seu auto-fazer-se cotidiano.

Mello (2001), ainda enfatiza que:

A temporalidade na formação pode contribuir para nos tornarmos conscientes de que somos, ao mesmo tempo, uma multiplicidade e um espaço único e Uno! Explorar, compreender, articular, auto-gerir e viver com qualidade essas diferentes dimensões de temporalidade certamente nos fará pessoas mais alegres, felizes e livres. Um grande desafio se coloca na formação continuada: dar sentido às múltiplas dimensões de tempo que perpassam as nossas vidas e o mundo, já que elas nos ajudam, com mais competência, a aprender a fazer, a conhecer, a viver em conjunto, a ser, a antecipar, a participar e a buscar Sentido em nossa vida e em nossas ações.

(

p.06)

O tempo que se necessita para desvelar a essência pessoal e o que irá marcar essa transformação é mais do que único, ele está intimamente ligado ao processo que as espirais autoformativas irão enfrentar na mediação com o cotidiano, consigo, com o outro e com a natureza. Para observamos esse tempo de transformações, propusemos uma viagem pelas espirais da subjetividade humana para que pudessem potencializar as mudanças prementes e necessárias.

As espirais da subjetividade sustentam-se nos estudos desenvolvidos por Wilber, mas que procura ir além, dando a pessoa à possibilidade de um repensar sobre a sua ação profissional, uma vez que desvendando as suas marcas pessoais, há como pensar uma autoformação intimamente ligada a esse fazer-se ao longo de sua existência.

Cada uma dessas espirais procurou penetrar na essência da pessoa humana, para propiciar esse “voltar-se para dentro” e desenhar um ser que busca a sua perspectiva autoformativa. Ao longo das oficinas esses aspectos merecerão maior destaque e outros uma análise mais aprofundada. Para tanto, serão descritos logo a seguir cada uma das oficinas e as vivências dos participantes.

6.4.1 - ESPIRAIS DA PRODUÇÃO DE SENTIDOS – ESCULPIR A ESSÊNCIA

Benzer Belgeler