O instituto da Aprendizagem emergiu do direito romano e expandiu-se com as corporações de ofício, na Idade Média, quando os contratos eram firmados entre os mestres e os pais dos aprendizes (OLESKI, 2009). Conforme esclarecem Gomes e Gottschalk (1991), os aprendizes, normalmente entre 10 e 18 anos de idade, tinham sua vida profissional e pessoal regrada pelos contratos, cuja duração podia atingir até 12 anos. As primeiras leis de proteção ao trabalho de menores emergiram no final de século XIX em decorrência dos excessos cometidos pela Revolução Industrial em nome da modernização. Crianças e adolescentes chegavam a trabalhar mais de dezesseis horas diárias, dormindo no próprio emprego e se alimentando precariamente. Surgiram então movimentos contra a exploração do trabalhador que, entre outras conquistas, impuseram os primeiros limites ao trabalho do menor (SALES, 2010).
A Inglaterra foi pioneira, quando instituiu a Lei de Peel em 1802 limitando a jornada diária de trabalho dos menores em 12 horas. Em 1919, a Organização
Internacional do Trabalho (OIT), por meio das Convenções Nº. 05 e N°. 06 limitou a idade mínima de 14 anos para o trabalho na indústria.
No Brasil, o primeiro marco histórico-legal ocorreu em 1891, com a publicação do Decreto Nº. 1.313, de 17 de janeiro de 1891, que instituiu a fiscalização do trabalho dos menores nos estabelecimentos fabris da capital federal. Em 1923, por meio do Decreto Nº. 16.300, de 31 de dezembro de 1923, foi proibido o trabalho de menores de 16 anos por mais de seis horas diárias. Exatamente a metade do número de horas limitadas pela Lei de Peel, o que demonstra o quanto a legislação evoluía.
Em 1927 foi aprovado o Código de Menores pelo Decreto Nº. 17.943-A, de 12 de outubro de 1927. Este dispositivo legal teve como base a Doutrina da Situação Irregular, na qual o direito e o atendimento eram específicos a determinadas crianças e adolescentes que apresentassem uma situação de marginalidade e delinquência, derivada da própria conduta (infrações) desses e/ou da desagregação familiar (SOUSA, 2008).
O Código trouxe benefícios ao vedar o trabalho dos menores de 12 anos e o trabalho noturno aos menores de 18 anos, mas contribuiu para uma representação social que até hoje não se desfez completamente, de que os adolescentes e jovens de classe social muito baixa, ao serem contemplados com uma oportunidade de trabalho, devem aceitar e valorizar o “remédio” independente de seu “gosto amargo”. Tal percepção alimenta o imaginário dos que ainda hoje se submetem a trabalhos extenuantes ou no mínimo desprovidos de potencial de aprendizagem, a partir da crença de que qualquer emprego (ou subemprego) é alternativa válida à desocupação para alguém de origem tão humilde. Escolher trabalho, na concepção de muitos adolescentes e jovens é considerado um “luxo para ricos”.
A Constituição de 1937, segundo Chiaradia (2009), manteve a orientação assistencialista da formação profissional, considerando-a dever do estado para com as classes menos favorecidos.
O Decreto-Lei Nº. 5.091, de 15 de dezembro de 1942, considera aprendiz o “trabalhador menor de 18 anos e maior de 14 anos, sujeito à formação profissional metódica do ofício em que exerça seu trabalho (BRASIL, 1942). Em 1943, a legislação esparsa que regrava a proteção ao trabalho em geral foi consolidada numa única norma intitulada Consolidação das Leis do Trabalho - CLT. Especialmente para disciplinar o trabalho de menores, a CLT dedicou um capítulo específico, dos artigos 402 ao 441, com importantes regramentos, os quais sofreram várias alterações ao longo dos anos. Assim,
como registra Oliveira (2009, p.22), o “núcleo da Lei do aprendiz” data da década de quarenta.
Foram estabelecidas proibições quanto ao trabalho em locais insalubres, perigosos ou que pudessem causar prejuízos morais ao adolescente e a obrigação aos empregadores de certificar-se quanto à continuidade dos estudos obrigatórios dos contratados. Foi afixada uma cota mínima para contratação de aprendizes e as empresas comerciais ou industriais contratantes passaram a ter que matricular os aprendizes, respectivamente, em estabelecimentos do SENAC ou SENAI.
As empresas eram orientadas pelo SENAI e pelo SENAC, que elaboravam os programas e firmavam acordos para que estes fossem executados em ambientes adequados e sob a supervisão de um responsável designado por cada empresa. A determinação de quais ofícios e ocupações seriam objeto da aprendizagem metódica, assim como o planejamento dos conteúdos e duração dos programas ficavam exclusivamente a cargo das instituições do sistema S, conforme legislação da época. Facultava-se, no entanto, aos sindicatos de trabalhadores e empregadores requererem alterações nos limites máximos de duração dos cursos realizados no próprio emprego (OLESKI, 2009, p.87).
Sobre as Constituições de 1946 e 1967, Spidel (1989) comenta os avanços da primeira em relação à proteção ao menor, citando como exemplo o aumento da idade mínima de 14 anos para o trabalho. Quanto à segunda, o autor considera que houve graves retrocessos, dentre os quais destaca dois pontos fundamentais:
[...] o rebaixamento da idade mínima para o trabalho, dos 14 para os 12 anos e a eliminação da proibição estabelecida na Constituição de 1946, de qualquer discriminação de salário por motivo de idade [...] facultou o pagamento de salário inferior ao mínimo regional a todos os menores (SPIDEL, 1989, p.36- 37).
A criação do Serviço de Assistência ao Menor (SAM), em 1941, ilustra uma estratégia do Estado brasileiro com a tônica de tutela. Esse serviço foi substituído, sob a égide do regime ditatorial, pela Política Nacional de Bem-Estar do Menor (PNBEM), em 1964, tendo como organismo gestor, de representatividade nacional, a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM). A ação desse órgão estava em consonância com a Lei de Segurança Nacional e representou a perpetuação da lógica do SAM e, por conseguinte, do Código de Menores, segundo a qual o jovem pobre era potencialmente um infrator que deveria ser reconduzido às malhas do sistema.
Em 1979, o novo Código de Menores manteve a orientação do anterior, baseando-se na doutrina da situação irregular e não fazendo distinção entre crianças e adolescentes (FROTA, 2002). Nessa época, conforme explica Costa (2002), a legislação era executada através da Política Nacional do Bem-Estar do Menor.
A Constituição Federal de 1988 trouxe novos princípios e importantes disposições sobre a inserção do menor no trabalho. O texto original permitia o trabalho do menor a partir dos 14 anos completos, desde que não fosse desenvolvido no período noturno e a atividade não o expusesse a agentes nocivos que, potencialmente, pudessem representar risco à saúde ou segurança do mesmo (art. 7°, XXXIII, original e art. 227, § 3°, inc. I, da CF/88). Em 1998, com a edição da Emenda Constitucional N°. 20, referido inciso foi alterado. A idade mínima para o trabalho passou de 14 para 16 anos e a do aprendiz, de 12 para 14 anos. Essas medidas vêm alinhar o marco regulatório brasileiro às convenções internacionais do trabalho, como a Convenção 138 da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 1973) que trata do combate à exploração do trabalho infantil.
Em 1990, por meio da Lei N°.8.069, de 13 de julho, foi instituído o Estatuto da Criança e do Adolescente, que veio regulamentar os direitos e garantias assegurados pela Constituição de 1988, entre eles o direito à profissionalização e à proteção no trabalho. Essa lei colocou o Brasil em posição de destaque entre os demais países do mundo, face aos seus avanços na defesa e proteção aos direitos das crianças e dos adolescentes.
Embora o Estatuto não tenha a juventude como foco, ele trata de alguns temas comuns aos adolescentes e jovens, como é o caso do trabalho. Os Artigos 60 a 69 tratam do direito à profissionalização e à proteção no trabalho. O Artigo 62 do ECA define aprendizagem como a formação técnico-profissional ministrada segundo as diretrizes e bases da legislação de educação em vigor. Os princípios norteadores dessa educação são, segundo o Artigo 63: a garantia de acesso e frequência obrigatória ao ensino regular; atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente e horário especial para o exercício das atividades. Outro importante aspecto está no Artigo 65, que assegura ao adolescente aprendiz todos os direitos trabalhistas e previdenciários.
Durante a década de 90 as atenções se voltaram muito para a questão da infância e adolescência, porém não houve novas alterações no que tange à lei da aprendizagem. A década seguinte, por outro lado, traz uma série de novas garantias para os jovens e outras mudanças relacionadas à operacionalização do programa, conforme será exposto no próximo tópico.