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II. BÖLÜM

2.5. MEKÂNSAL YABANCILAŞMA

Na abordagem de frames, os movimentos sociais elaboram diagnósticos para identificar quais são os fatores responsáveis pela injustiça que pretendem combater por meio da ação coletiva. Encontrar estes fatores passa, primeiro, pela definição de

Quem é que sofre estas injustiças e, depois, de Qual é o tipo de injustiça sofrida.

Tomando o caso do movimento negro neste processo, temos a elaboração de um diagnóstico que visa identificar quem são os negros discriminados e qual o tipo de

discriminação eles sofrem. Evidentemente, existem múltiplas possibilidades de se

elaborar um diagnóstico que atenda a estas questões, porém, em se tratando do movimento negro brasileiro e das conexões que ele guarda com a dinâmica do Atlântico Negro, este diagnóstico assume uma feição bastante particular. A começar pela própria definição de quem é negro no Brasil.

Eu trabalho com a noção do ser negro a partir de três referenciais possíveis. Primeiro, considero negros todos os descendentes de africanos. Todos os descendentes de africanos são negros. Um segundo referencial é: quem se considera como tal. Você tem que ser descendente de africano, e segundo, você tem que se considerar negro. E um terceiro referencial é: quem é tratado como tal. Ou seja, quem sofre discriminação.

(Edna Roland, 2007, p.411)

De acordo com o relato acima, a primeira referência para se definir quem é negro é a ancestralidade. Ou seja, o sistema de classificação norte-americano conhecido por onde drop rule ou princípio da hipodescendência. Neste sistema, todo sujeito nascido de relações interétnicas envolvendo negros, também será considerado negro. A segunda referência exige que o sujeito se reconheça como negro dentro deste sistema. O que muitas vezes pode ser um processo difícil de enfrentar quando ainda se está sob a influência de frames raciais anteriores a este. Em alguns casos, conforme mostra o relato a seguir, será a partir da terceira referência – de ser tratado como negro – que o sujeito irá se reconhecer como tal.

[...] de repente, ele disse: “Você tem aí a foto de sua mãe?” Eu disse: “Tenho sim.” Enfiei a mão na carteira, peguei a foto da mãe e mostrei para ele. Ele olhou: “Sua mãe é branca?” Eu disse: “Lógico. Eu sou branco, minha mãe tem que ser branca.” Ele cortou o assunto e, assim que percebeu que eu estava totalmente descontraído, fez a seguinte pergunta: “Tem uma foto do seu pai?” Eu disse: “Não tenho, não.” Ele disse: “Não tem?” Eu disse: “É, frei, ter, eu tenho, mas está lá na mala.” “Vai lá buscar.” Eu disse: “Mas a mala já está fechada e eu estou pronto para ir embora...” “Você vai embora, e eu quero conhecer pelo menos o seu pai de foto.” Eu abro a mala, pego lá no fundo a foto do pai, trago e mostro para ele, todo humilhado. Ele diz: “Seu pai é negro.” Aí deu um choque geral. Parado, nem saí do lugar, nem para frente,

nem para trás, nem baixava. Ele pegou um copo d’água e disse: “O que está acontecendo?” Eu não conseguia falar e ele disse: “Olha, você sofre de uma doença grave de que você não é culpado. Você sofre de uma doença perigosíssima, contagiante. Ela chama-se ‘ideologia do embranquecimento’.” (Frei David, 2007, p.50)

O episódio narrado ocorreu durante a juventude do militante, quando ele ainda cursava o seminário. Até aquela ocasião, ele se identificava com a mãe e se via como um branco. Isto é, como assinala seu interlocutor na estória, ele reproduz a lógica do branqueamento, uma ideologia que inverte a lógica da hipodescendência. Segundo Hofbauer (2006), biologicamente o branqueamento visava “clarear” a população brasileira. Assim, todo cruzamento envolvendo brancos, tornava seus descendentes “brancos”. Culturalmente, o branqueamento visava assimilar negros e mestiços, incutindo-lhes crenças e valores da cultura branca europeia. Trata-se, portanto, de um princípio de hiperdescendência que, mesmo após o elogio à mestiçagem feito por Gilberto Freyre, ainda vigorou por muito tempo, permeando o imaginário social dos mestiços que buscavam se integrar a sociedade.

O constrangimento sofrido por Frei David ao mostrar a foto seu pai negro nos mostra também que sua condição mestiço, filho de uma união inter-racial, coloca-o numa posição ambígua entre dois frames com lógicas contrárias que, ao se imporem, eliminam a possibilidade de formar uma identidade a partir desta zona intermediária, ou seja, uma identidade mestiça. É neste campo de ambiguidades e possibilidades que os sistemas de classificação racial operam, empurrando o mestiço para um dos pólos. Conforme a discussão do capítulo anterior (vide 3.5.3), na classificação proposta pelo movimento negro brasileiro, o mestiço é empurrado para a hipodescendência e “escurece” nas estatísticas, já naturalizadas na forma de discurso oficial. Como mostra a fala do Ministro da Seppir:

Quero, em primeiro lugar, dizer que, do ponto de vista, inclusive, da auto declaração, hoje a pesquisa nacional por amostragem de domicílio aponta a população brasileira se declarando negra, ou seja, preta ou parda, 50,06% da população de nosso país, o que mostra que se está discutindo, tratando-se aqui de um tema que vai ao encontro da maioria da população brasileira. (Ministro Edson de Souza, 2010)

Assim, a primeira questão do diagnóstico sobre quem são os negros

discriminados, fica respondida com o uso da equação: pretos + pardos = negros.

os indicadores sociais com recorte racial são vistos pelo movimento negro como um instrumento valioso para um diagnóstico adequado.

A negação da informação tem sido um dos instrumentos mais virulentos existentes no Brasil, produto do racismo e da discriminação. Um problema sobre o qual você não tem informação não existe. Você não pode combater o que não existe. Se não está documentada, a desigualdade não existe. Então nós já vimos há décadas lutando para que todos os sistemas de informações públicas no Brasil acerca da população tenham essa informação. Seja no trabalho, na educação, na saúde, habitação, acesso ao crédito, ao capital... Tudo isso precisa ter informação. Antes, o único lugar em que se registrava a cor era na polícia. O Estado brasileiro só estava interessado em comprovar que os negros são marginais e que cometem crimes. Então nós precisamos ter informação do outro lado da moeda. Quais são as condições sociais existentes, que conduzem a população negra a uma situação de marginalidade?

(Edna Roland, 2007, p.282)

De acordo com o relato acima, somente com a racializaçao dos sistemas de informação seria possível ter uma dimensão precisa do problema no negro no Brasil. Ainda que não exista uma coleta sistemática de dados com base na raça, alguns institutos, como é o caso do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), já coletam e analisam dados com recorte racial, utilizando a polaridade negros e brancos54. As informações racializadas tem sido utilizadas como instrumento de denúncia do racismo institucional e também para reivindicar junto ao Estado mudanças nos indicadores sociais que afligem a população negra.

No caso dos matriculados no ensino fundamental, os alunos negros são menos estimulados e sofrem mais discriminação nas escolas, o que é mostrado por vários estudos. As professoras não têm tido o mesmo tipo de preocupação, de estímulo com os alunos negros que têm com os alunos brancos. No caso da saúde. A razão de mortalidade materna na mulher negra é quase três vezes maior do que a razão para as mulheres brancas, mesmo depois de implantado o Sistema Único de Saúde, a universalização da saúde. Entre as gestantes, as mulheres negras têm em média um número menor de consultas e um número maior de não realização de pré-natal; os jovens negros são mais assediados pela polícia, o que significa dizer que as políticas universais, embora importantes, não conseguem enfrentar essa desigualdade proveniente da discriminação. A discriminação é um fenômeno social ativo no Brasil e precisa ser enfrentado. Está sempre presente no quotidiano brasileiro e estreitando as oportunidades, ou seja, o que nós queremos dizer é que a discriminação racial reforça os padrões de exclusão da sociedade brasileira, e é um obstáculo à ascensão social da população negra à maior integração da sociedade nacional. Ela impede, essa discriminação, o exercício da desigualdade.

(Mário Lisboa Theodoro, 2010)

54

Em seu banco de dados denominado de Ipeadata, são disponibilizados relatórios racializados com informações sobre negros e brancos nas áreas de demografia, desenvolvimento humano, educação, habitação, renda e saúde. Estes dados podem ser acessados em: http://www.ipeadata.gov.br

A taxa de analfabetismo da população negra, com quinze anos ou mais, é 2.2% maior que a do segmento branco de nosso país. No que se refere à questão do trabalho e renda, entre os 10% mais pobres, os negros são 73.7% contra 25.4% dos brancos. E entre os 10% mais ricos, os negros são 15% contra 82.7% da população branca. Então, tudo isso já demonstra a necessidade de uma intervenção do Estado. O Estado não deve se manter distante e neutro diante de um quadro de desigualdades que este país expõe. (Ministro Edson de Souza, 2010)

De posse destes indicadores, o movimento negro consegue fazer comparações com a situação do negro em outros países. O que ajuda a ilustrar ainda mais as assimetrias, não apenas entre brancos e negros no país, mas também entre os negros em diferentes países. Comparações mais comuns são feitas entre países como Brasil, EUA e África do Sul55, tendo em vista as variadas formas de racismo vividas por estas localidades e suas diferentes estratégias para combatê-lo (cf. Guimarães, 1999a; Silva, 2006; Souza, 1997). A educação costuma ser um tema muito utilizado nas comparações, pois tem sido considerada pelo movimento negro como a melhor alternativa para redução das desigualdades entre negros e brancos. Em termos comparativos pode-se dizer que

Diferentemente os negros norte-americanos, por exemplo, também vítimas da escravidão, tiveram a sua mula e o seu acre de terra; tiveram a subvenção do Estado e puderam criar, por exemplo, suas escolas, suas igrejas e suas universidades. Quando éramos escravos aqui a Cheyney University na Pensilvânia, nos Estados Unidos da América, fundada em 1837, já recebia a sua primeira turma de jovens negros. E mesmo hoje nos Estados Unidos cento e dezessete universidades, historicamente negras, completam esse serviço de incluir e permitir o acesso ao conhecimento aos negros nos Estados Unidos.

(José Vicente, 2010)

Além das diferenças no acesso a educação superior que os negros americanos tiveram, é importante notar que o relato cita também que eles puderam criar suas escolas e suas igrejas. Iniciativas alinhadas a proposta de W.E.B DuBois de criar organizações negras como estratégia para conservação das raças. Não por acaso, José Vicente é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, a única escola de nível superior da América Latina voltada para a inclusão de estudantes negros56.

55

Um estudo bastante completo comparando os três países pode ser encontrado no relatório “Para Além do

Racismo: abraçando um futuro interdependente” desenvolvido pela Iniciativa Comparada de Relações Humanas,

um projeto da Southern Education Foundation (SEF), coordenado pela americana Lynn Huntley, com a participação de pesquisadores dos três países. A pesquisa durou quatro anos e os resultados incluem discussões sobre os conceitos de “raça” e racismo, perspectivas de luta antirracista e também uma série de comparações de dados entre os países. O relatório pode ser acessado em: http://www.beyondracism.org

56

A Faculdade Zumbi dos Palmares foi inaugurada em 20 de novembro de 2003 com uma proposta de ensino voltada para a cultura, a história e os valores da raça negra. Possui 90% dos alunos autodeclarados negros e, até hoje, é a primeira e única faculdade negra na América Latina. Sua similaridade com as black colleges foi

Sua proposta é inspirada nas chamadas black colleges norte-americanas, fundadas a partir do século XIX para atender estudantes negros impedidos de estudar nas universidades brancas por força da Jim Crow.

Embora nunca tenha havido barreiras legais para a entrada dos negros brasileiros na universidade, soluções como esta surgem no cenário brasileiro a partir de uma comparação com os EUA e da inclusão dos negros por meio destas instituições negras. Note que se trata de uma solução que atende a um problema específico dos EUA, que era a Jim Crow. Porém isso não impede que seja apropriada pelos movimento negro brasileiro para resolver uma questão similar, que é a exclusão dos negros no ensino superior brasileiro. Não por força de uma norma como a Jim Crow, mas por mecanismos sociais e econômicos que historicamente colocaram o negro brasileiro à margem deste nível educacional. Deste modo, conforme veremos a seguir, nem sempre um determinado prognóstico estará vinculado a um diagnóstico correspondente, podendo variar de acordo com a interpretação daqueles que dele se apropriam.

Benzer Belgeler