II. BÖLÜM
3.2. FELATUN BEYLE RAKIM EFENDİ, ARABA SEVDASI, ŞIK,
3.2.1. FELATUN BEYLE RAKIM EFENDİ
3.2.1.1. Aydın ve Yabancılaşma
O prognóstico consiste em uma ou mais soluções que são propostas pelos movimentos sociais para sanar as injustiças identificadas na etapa de diagnóstico. Para o movimento negro brasileiro, tais propostas giram em torno do seu principal “remédio” contra os males da exclusão racial: as ações afirmativas. Conforme apresentei antes, este é um dos poucos consensos celebrados pelo movimento e tem sido a principal bandeira de luta das organizações negras.
A questão racial naturaliza a desigualdade; a questão racial naturaliza o fato de que pessoas, por terem determinada cor na pele, é natural que não tenham abrigo, é natural que peçam esmolas, é naturalizado isso na sociedade, e isso deve ser mudado. E a única forma que nós pensamos que pode se mudar é a partir de políticas complementares às políticas universais. As políticas complementares são políticas de nova geração, políticas que nós chamamos de ação afirmativa.
(Mário Lisboa Theodoro, 2010)
notada pela Secretária de Estado Hillary Clinton que, durante visita a faculdade, ressaltou: “I am delighted to be
at the first Afro Brazilian university. It is very similar to our historically black colleges and universities, so I feel very much at home”. Para mais detalhes sobre a Faculdade Zumbi, acessar: http://www2.zumbidospalmares.edu.br/
Embora as ações afirmativas sejam uma solução consagrada pela maioria esmagadora das organizações negras57, poucas conseguem identificar quando a proposta entrou na agenda do movimento negro. Sabe-se que teve seu debate iniciado nos anos 1980, mas não exatamente como e por quem.
A idéia de ação afirmativa veio surgindo, eu não posso dizer exatamente quando, mas eu digo que, nos anos 1980, a gente já falava disso, e foi amadurecendo. No início dos anos 1990 já havia um número significativo de pessoas preocupadas com isso. Mas eu não sei quando é que começou a entrar na minha cabeça. Em 1992, com certeza, a gente já estava trabalhando para isso. Outro dia eu estava assistindo a uma palestra do Ivair, e ele falava como, ainda no governo Fernando Henrique, algumas iniciativas que o governo federal estava tomando eram resultado de algo que vinha sendo desenvolvido desde o governo Franco Montoro. Porque um número muito grande de quadros do governo Fernando Henrique veio do governo Franco Montoro, em 1983, em São Paulo.
(Carlos Alberto Medeiros, 2007, p.352)
Há pelo menos duas portas de entrada para as ações afirmativas na agenda do movimento negro. A primeira através do legislativo, com uma proposta de lei apresentada pelo deputado Abdias do Nascimento, após retornar do exílio nos EUA. Nas palavras do próprio Abdias,
[...] creio que uma das mais importantes medidas do meu mandato foi a de abrir, no Congresso Nacional, o precedente de uma proposta que hoje ganha cada vez mais destaque: a instituição de políticas públicas específicas para a população de origem africana, através da chamada Ação Afirmativa, ou Ação Compensatória na linguagem do meu Projeto de Lei nº 1.332, de 1983. (Nascimento & Nascimento, 2000, p.222)
A segunda porta de entrada se abre a partir de uma parceria com empresas multinacionais de origem norte-americana que, por exigência de suas matrizes, já utilizavam ações afirmativas com seus funcionários (cf. Alves & Galeão-Silva, 2004). O contato do movimento negro com estas experiências ocorre
Em 1991, quando assumi a Coordenadoria do Negro na prefeitura de São Paulo, chegou para mim uma notícia de que tinha uma empresa em São Paulo que aplicava ação afirmativa: Levi Strauss. Aí marquei um dia, liguei para lá e falei: “Quero conhecer o diretor da empresa.” Peguei um carro e fui lá para a cidade de Cotia, para a Levi Strauss. Ali foram mapeando para mim como a coisa acontecia na empresa e comecei a me dar conta de algumas coisas. Primeiro, que era possível. Segundo, que havia alguns nós muito concretos. Quais eram? Que você não fazia ação afirmativa só com conversa. Precisava ter dinheiro. Os caras tinham gastado quase um milhão de reais
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Me refiro a uma maioria porque não são todas as organizações negras que aprovam este prognóstico. Veremos no capítulo cinco que há correntes contrárias ou parcialmente contrárias as ações afirmativas.
para poder mudar, porque implicava em muito treinamento, muita capacitação, eventos, apoio a projetos da comunidade, de ONGs antirracistas...
(Ivair Alves dos Santos, 2007, p.354
Depois deste encontro, a proposta de ação afirmativa se tornava palpável a partir de uma experiência concreta. Baseado nisso
Não tive dúvida: quando assumimos aqui em Brasília, a primeira coisa que fiz foi reunir as empresas, para elas poderem relatar suas experiências. Fizemos uma reunião no Sesc em São Paulo chamando Levi Strauss, Johnson & Johnson, Motorola, essas grandes empresas. Todas que eu sabia que tinham ação afirmativa, chamei para uma reunião e um seminário. Foi muito bom. E lá eu fiz um documento juntamente com a OIT, um documento muito importante. Qual é a coisa mais importante desse processo? Estava ali vendo aquelas empresas confirmando aquilo que eu tinha visto três anos atrás, em 1991. Era possível, entendeu? Então comecei a trabalhar um pouco esse tema dentro do governo, com essa diretriz.
(Ivair Alves dos Santos, 2077, p.355)
Apesar de não ter sido aprovado pela Câmara58, o projeto de lei proposto por Abdias do Nascimento contribuiu para inserir as ações afirmativas no debate do movimento negro. Mas foi pelo esforço de Ivair Santos, em dialogar com as empresas, que as ações afirmativas se consolidam nos debates dentro do governo. Sendo hoje defendidas no primeiro escalão da administração federal, conforme a fala do Ministro da Seppir:
“Cotas” é um instrumento que vai oferecer – e oferece – uma perspectiva de futuro para uma parcela expressiva de nosso povo, de jovens negros que sonham com a universidade e em formarem-se nas mais diferentes áreas biomédicas, tecnológicas e humanas, e cabe ao Estado assegurar isso à nossa população.
(Ministro Edson de Souza, 2010)
Já consolidada na agenda de prioridades do movimento negro, as ações afirmativas entraram efetivamente na agenda do governo somente após a conferência de Durban, em 2001. Como país signatário do acordo, inicia a implementação das políticas de ação afirmativa.
E, quando a gente veio de lá, o Fernando Henrique começou a implementar a política de cotas no Ministério do Desenvolvimento Agrário. Essa discussão já tinha começado com a Marcha de Zumbi dos Palmares, em 1995, e, com a vinda de Durban, ficou muito mais forte. Tudo isso aconteceu também no
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O projeto foi arquivado em 5/4/1989. Para detalhes sobre sua tramitação na Câmara Federal, acessar: http://www.camara.gov.br/internet/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=190742
governo Fernando Henrique. A repercussão também foi extremamente positiva, porque, enquanto a gente estava lá, todo dia saía matéria no jornal da nossa estada lá, das coisas que o governo brasileiro estava defendendo. E aí, o que era importante nisso? Já não era mais só o movimento negro fazendo defesa; o governo brasileiro fez as defesas do que nós decidimos nas conferências municipais e estaduais. [...] saímos da África do Sul definindo que os governos signatários da carta de Durban iriam também implementar em seus países políticas de ação afirmativa.
(Jurema Batista, 2007, p.387)
Entre as possibilidades de ação afirmativa, note-se que as “cotas” ganham destaque nas iniciativas tanto no serviço público – conforme o relato acima – como nas universidades com a reserva de vagas para estudantes negros. Ainda que a maioria dos militantes veja o sistema de cotas como algo pronto, que deve ser ampliado para outros segmentos além das universidades, alguns militantes reconhecem as distorções da proposta e defendem um aperfeiçoamento constante. Principalmente quando se trata dos recortes racial e/ou socioeconômico utilizado em muitas instituições que adotaram o sistema.
Quando você pega 2003 e estuda separadamente as cotas, você vai descobrir um dado bastante preocupante: na cota de rede pública, onde se pressupunha que o negro pobre iria ser beneficiado, você vai descobrir que 90% dos beneficiados são brancos. Por que isso? Fácil de explicar. Uma escola pública da Zona Sul tem qualidade dez vezes superior à de uma escola onde moram os negros: Baixada Fluminense, favelas... Você está diante de bens escassos: vagas em universidades são bens escassos. [...] E aí o resultado foi esse: na Uerj, a maioria dos que entraram por rede pública foi branca. Então não atendeu a nossa questão. E, nas cotas raciais, descobrimos que 100% dos que entraram fora negros ou pessoas que se declararam negras que vieram das escolas particulares. Nem um sequer veio da escola pública. Isso foi um trauma para a gente. A gente se sentiu quebrado, traído, humilhado. E por isso lutamos radicalmente para que todas as cotas, daí para frente, tenham corte socioeconômico.
(Frei David, 2007, p.419)
Junto com as cotas, o ensino de História da África complementa o prognóstico do movimento negro para promover a igualdade racial. Introduzido no currículo escolar da educação básica pela Lei nº. 10.639 de 2003, a proposta visa romper com a historiografia oficial – que coloca o negro à margem dos grandes acontecimentos nacionais – e reconhecer a contribuição dos africanos e seus descendentes para construção do país. Além de ser considerada uma demanda antiga do movimento negro, a proposta se alinha ao Afrocentrismo na medida em que busca deslocar as narrativas históricas da Europa para a África (Hoskins, 1992).
Isso implica em desconstruir as versões europeias sobre abolição dos escravos no Brasil e da sua participação neste processo.
É importante recuperar essas iniciativas, porque revelam que esse resgate do passado sempre foi uma preocupação do movimento negro. Falar de história da África, de história e cultura afro-brasileira, isso não é uma coisa de uma pessoa, isso sempre veio por várias gerações do movimento.
(Edson Cardoso, 2007, p.429)
Porque é aquele negócio que a gente sempre diz: tirar Zumbi lá dos porões da história já foi uma tremenda vitória. Mas ainda falta muita coisa, ainda falta falar desse que eu chamo “sequestro” dos negros de África para o Brasil. E também falta falar muito mais de como foi que aconteceu a libertação. A princesa Isabel ainda é a referência. Nós construímos Zumbi, mas a princesa Isabel ainda existe nos livros escolares, ainda existe essa idéia de que o negro não brigou pela sua libertação.
(Jurema Batista, 2007, p.438)
Assim como a proposta de cotas, o ensino da História da África também possui alguns problemas. O primeiro deles, como ressalta Appiah (1997), está na heterogeneidade do continente, o que torna inviável falar de uma única África sem incorrer em erros grosseiros. O segundo problema, notado por Oliva (2003), é sobre a dificuldade de se ensinar o que não se conhece bem. Não obstante as publicações já existentes sobre a África, o fato é que por muito tempo deixamos de estudar o continente africano. O que tem dificultado acumular conhecimento sobre a diversas áfricas que o continente abriga.
Até hoje a gente não sabe de que África você vai falar. Já que não existe uma África, existem muitas, e há um turbilhão de livros que estão saindo sobre a África. Um dia desses, encontrei com o professor Kabengele Munanga e disse: “Mas de qual África a gente vai falar?” Porque são muitas Áfricas, não é? São mais de duas mil línguas, pode imaginar...
(Nilma Bentes, 2007, p.433)
Finalmente, importante destacar que o sistema de cotas e o ensino da História da África são propostas já em funcionamento há algum tempo no país e por isso ocupam lugar de destaque nos debates atuais. Outras propostas nas áreas de educação, cultura, saúde, religião, mercado de trabalho, meios de comunicação, acesso à moradia, acesso a justiça, esporte e lazer estão no texto do Estatuto da
Igualdade Racial (Lei nº 12.288, de 20 de Julho de 2010), que consolida o conjunto