2. BÖLÜM
3.2. AraĢtırmanın Yöntemi
Autores apontam que no dia a dia familiar os pais buscam guiar o comportamento dos filhos a fim de que os mesmos sigam princípios morais e aprendam comportamentos que garantam a independência, a autonomia e responsabilidade e, assim, possam exercer adequadamente o papel social quando jovens e adultos (COSTA et al., 2000; GOMIDE, 2003; OLIVEIRA et al., 2002).
Para isso, os pais utilizam diversas estratégias e técnicas para orientar o comportamento dos filhos no cotidiano e promover sua independência e socialização. Tais estratégias e técnicas utilizadas pelos pais na educação dos filhos são denominadas práticas educativas parentais (CECCONELLO et al., 2003; GOMIDE, 2003; OLIVEIRA et al., 2002).
O resultado do uso de um conjunto de Práticas Educativas Parentais é denominado Estilo Parental (GOMIDE, 2003; OLIVEIRA et al., 2002; SALVO et al., 2005), que pode ser entendido como a maneira que os pais lidam com as questões de poder, hierarquia e apoio emocional na relação com os filhos. Cecconello (2003) aponta que o Estilo Parental é o
padrão global de características da interação dos pais com os filhos em diversas situações, gerando um clima emocional.
Dishion e McMahon (1998) consideram o estilo parental como um processo complexo que abrange: responsividade, qualidade das relações pais-filho, colocação de limites, reforço positivo, solução de problemas e envolvimento parental na vida dos filhos. Esse processo varia de acordo com a idade da criança e com a dinâmica de atividades e relações que ela vivencia nos diversos ambientes que frequenta nas diferentes fases de seu desenvolvimento. Os autores colocam que os estilos parentais constituem em uma conexão dinâmica com um sistema de tarefas e interações entre pais e filhos que são mutuamente dependentes e definidas hierarquicamente. A qualidade desta relação se baseia na motivação parental, compreendida como a crença dos pais no sistema de valores, normas e objetivos familiares, no monitoramento dos pais com relação à vida dos filhos e no controle do comportamento dos filhos, que pode ocorrer através de reforços positivos, incentivo, colocação de limites, negociação, dentre outros.
Baumrind (1966) – pioneira no estudo da influência das práticas e estilos parentais no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes propôs que a variação do nível do controle parental, aliada a outros aspectos da interação pais-filho, como comunicação e afeto, produz três estilos parentais diferentes: Estilo Autoritativo, Estilo Autoritário e Estilo Permissivo.
Costa e colaboradores (2000) apontam que o modelo de Baumrind (1966) foi reformulado por Maccoby e Martim em 1983, que propuseram duas dimensões nas práticas educativas dos pais, denominadas: exigência e responsividade. Sendo que a exigência é caracterizada por comportamentos parentais que buscam supervisão e disciplina e a responsividade se refere a comportamentos parentais de apoio, compreensão e comunicação, visando favorecer o desenvolvimento da autonomia e autoafirmação dos filhos. A combinação dessas duas dimensões resulta em 4 estilos parentais propostos por Maccoby e Martim (COSTA et al., 2000), são eles:
Estilo autoritativo: Combinação entre exigência e responsividade em altos níveis. Caracteriza-se por regras claras, monitoramento da conduta dos filhos a partir de correção e gratificação, comunicação clara e aberta, presença do afeto seguro e responsividade às necessidades dos filhos.
Estilo autoritário: Caracteriza-se pelos altos níveis de exigência e controle e baixa responsividade. A obediência é buscada a partir do respeito à autoridade e à ordem. Há o uso da punição como forma de controle, o diálogo não é valorizado e há baixa responsividade e afeto.
Estilo Indulgente: este estilo parental se relaciona a baixo controle e alta responsividade. Suas principais características são: ausência de regras e limites claros; poucas demandas de responsabilidade e maturidade; excesso de tolerância e presença de afeto e comunicação.
Estilo Negligente: os pais que se caracterizam por este estilo parental combinam baixo controle e baixa responsividade ao lidarem com seus filhos. Além disso, não há monitoramento do comportamento do filho, os pais não se envolvem com as atividades dos filhos, de forma que os pais são centrados em interesses próprios.
Estudos referentes aos estilos parentais têm apontado que o Estilo parental autoritativo é o mais fortemente relacionado ao desenvolvimento de maturidade psicossocial, competência, desempenho escolar, autoestima, baixos índices de problemas de comportamento e problemas emocionais. Os outros estilos estão mais relacionados com resultados negativos no desenvolvimento (COSTA et al., 2000; GOMIDE, 2003; TEIXEIRA et al., 2004).
Gomide (2006) relaciona as práticas educativas parentais ao desenvolvimento ou inibição do comportamento antissocial dos filhos e as classifica em dois grandes grupos:
- As Práticas Educativas Parentais Positivas, que desenvolvem comportamentos pró-sociais;
- As Práticas Educativas Parentais Negativas, que desenvolvem comportamentos antissociais.
Os comportamentos pró e antissociais desenvolvidos dependem da intensidade e frequência com que os pais utilizam determinadas estratégias. A autora selecionou oito práticas parentais para estudar os estilos parentais que tratam do resultado do uso do conjunto de práticas. Seis delas estão vinculadas ao desenvolvimento do comportamento antissocial e duas se relacionam à promoção do comportamento pró-social. A seguir, apresenta-se um breve detalhamento sobre cada prática educativa, conforme apontado por Gomide (2006).
As práticas educativas consideradas positivas são: Monitoria Positiva
Conjunto de comportamentos parentais de atenção às atividades e à adaptação dos filhos. É caracterizada pela presença equilibrada da atenção, estabelecimento de regras claras, expressão segura do afeto, acompanhamento e supervisão das atividades.
Comportamento Moral
Refere-se ao desenvolvimento da empatia, do senso de justiça, da responsabilidade, do trabalho, generosidade e do conhecimento do certo e do errado, sempre seguindo o exemplo dos pais.
As práticas Educativas Negativas são: Abuso físico e psicológico
O abuso físico se caracteriza pela disciplina a partir de práticas corporais negativas; é o resultado potencial da punição corporal, caracterizado pelo socar, espancar, chutar ou machucar a criança. Ressalta-se que práticas parentais violentas são consideradas um fator de risco para o desenvolvimento de problemas sociais e psicológicos (condutas antissociais e distúrbios psiquiátricos).
O abuso psicológico se caracteriza principalmente pela ameaça, chantagem de abandono e humilhação da criança. Pode ser o mais frequente dos tipos de abuso infantil, no entanto é mais sutil e difícil de mensurar. Dificulta o desenvolvimento da autonomia e das relações sociais, podendo causar baixa autoestima e depressão.
Disciplina Relaxada
Trata-se do relaxamento das regras estabelecidas. Os pais estabelecem regras, ameaçam, e quando se deparam com comportamentos de oposição dos filhos, abrem mão de seu papel educativo. Considerada um fator de risco para os problemas de conduta e delinquência.
Monitoria Negativa
Caracteriza-se pelo excesso de instruções e regras, independentemente do seu cumprimento. Torna o ambiente familiar hostil e pode ser denominada também de Supervisão Estressante.
Negligência
Ausência de atenção e afeto. Os pais negligentes se caracterizam pela não responsividade, retiram-se de situações difíceis, ignoram a maioria dos comportamentos e atividades das crianças. A negligência desencadeia sentimentos de insegurança, vulnerabilidade e dificuldade nos relacionamentos sociais.
Punição Inconsistente
Pais que se utilizam dessa prática se orientam pelo seu humor no momento de punir ou reforçar e não pelo ato praticado pela criança. Esse tipo de punição interfere, sobretudo, na percepção que a criança desenvolve sobre si.
Ressalta-se que a utilização, pelos pais, de várias práticas parentais consideradas negativas, por exemplo: negligência, punição inconsistente e abuso físico, em detrimento das positivas, caracteriza um estilo parental de risco para o desenvolvimento de comportamentos antissociais pelas crianças. Ao contrário, o uso das práticas consideradas positivas – comportamento moral e monitoria positiva – em detrimento das negativas, caracteriza um estilo parental ótimo (GOMIDE, 2006).
Encontram-se na literatura nacional dois instrumentos para a avaliação de Estilos parentais, são eles:
1. Inventário de Estilos Parentais (IEP) – elaborado por Gomide (2003) a fim de identificar famílias em que haja alta probabilidade de desenvolvimento de comportamentos antissociais ou pró-sociais em pelo menos um de seus membros. Foi desenvolvido a partir de oito práticas parentais selecionadas pela autora.
2. Escalas de Responsividade e Exigência Parental (LAMBORN et al, 1991) – traduzidas e adaptadas por Costa, Teixeira e Gomes (2000): avaliam as dimensões de responsividade e exigência parental a partir de questões abordadas junto a adolescentes, caracterizando quatro estilos parentais, a saber: negligente, autoritário, autoritativo e indulgente.
No presente estudo, optou-se pela utilização do Inventário de Estilos Parentais (GOMIDE, 2003), que avalia o estilo parental adotado pelos pais a partir de oito práticas parentais, permitindo, assim, não só a identificação/avaliação do estilo parental, mas também das diferentes práticas (positivas e negativas) adotadas pelos pais de forma isolada.
As estratégias utilizadas pelos pais na educação de seus filhos e também os estilos parentais originados a partir de tais estratégias têm sido objeto de investigação de estudiosos há, aproximadamente, quarenta anos, na busca de identificar os fatores nos quais os pais se apóiam para educar seus filhos e de que maneira esse processo influencia na saúde mental das crianças e adolescentes (COSTA et al., 2000; TEIXEIRA et al., 2004).
Com o objetivo de investigar crianças com risco para o desenvolvimento de problemas de conduta, bem como a influência das variáveis: práticas parentais e uso do tempo livre no desenvolvimento de tais problemas, Yu e colaboradores (2010) avaliaram 4.936 crianças australianas de quatro e cinco anos de idade. Os resultados encontrados revelaram que 29% das crianças foram identificadas como sendo com risco para o desenvolvimento de problemas de conduta, sendo que as principais variáveis relacionadas a tal resultado foram a utilização, pelos responsáveis, de práticas parentais pouco consistentes e hostis na educação das crianças. As autoras discutem esse resultado, apontando que práticas parentais dessa natureza podem gerar estresse e medo nas crianças, interferindo na regulação do humor das mesmas e as levando a apresentarem reações imaturas e impulsivas. Assim, intervenções em saúde e educação centradas na família, especificamente nas relações pais-criança seriam as mais efetivas para prevenir o desenvolvimento de transtornos emocionais e comportamentais futuros.
Salvo e colaboradores (2005) desenvolveram um estudo com o objetivo de levantar quais práticas parentais avaliadas pelo Inventário de Estilos Parentais de Gomide (2003) poderiam ser preditoras de problemas de comportamento identificados pelo Child Behavior Check List (CBCL). Foram participantes, trinta crianças, com idades entre onze e treze anos, da rede pública de ensino, e um de seus pais. Os resultados revelaram que as práticas parentais monitoria positiva e comportamento moral são variáveis preditoras de comportamentos pró- sociais, e sua falta somada às práticas negativas são preditoras de distúrbios do comportamento. Os autores apontam que pesquisas como essa são fundamentais para o direcionamento de intervenções preventivas no campo da saúde mental infantil, no entanto, sinalizam que mais estudos, com maior número de participantes e que busquem compreender os aspectos envolvidos na relação entre pais e filhos são importantes.
Assim, observa-se que embora estudos internacionais e nacionais já indiquem a importância das práticas e estilos parentais na determinação da saúde mental infantil, existe a necessidade de mais investigações que busquem compreender de forma mais aprofundada essa questão, buscando relacioná-la com outras características também presentes na relação pai/mãe- criança e no ambiente familiar tais como pobreza, violência intrafamiliar, presença de um transtorno mental, estresse, dentre outras. Acredita-se que tais estudos possam contribuir de forma mais efetiva com o planejamento e implementação de intervenções preventivas voltadas a famílias que vivenciam processos advindos de mecanismos de risco.
1.2.2 A influência da saúde mental materna nos estilos parentais e na saúde mental dos