• Sonuç bulunamadı

İSTANBUL BÜYÜKŞEHİR BELEDİYESİ, ATATÜRK KİTAPLIĞI, Bel_Yz_K 001565 NOLU MECMUANIN DEĞERLENDİRİLMESİ

2) Mecmûa Üzerine Tespitler

A década anterior ao governo sandinista foi palco do ápice e da derrocada de um regime autoritário controlado por uma família e grupos associados à mesma. Assim como indicamos na introdução do presente trabalho, o caso nicaraguense afasta-se um pouco das correntes características de regimes semelhantes na América, especialmente da região sul- americana, uma vez que o regime somozista não foi considerado uma ditadura militar. Apesar do uso sistemático da Guarda Nacional, ele aproximou-se mais da ideia de “ditadura patrimonial ou sultanismo88”, baseada na dominação pelo arbítrio, no personalismo despótico com tendências ao poder familiar e no poder pessoal irrestrito do governante. Porém, o somozismo tampouco foi um regime exclusivamente pessoal. Somoza teve a preocupação de legitimar institucional e politicamente o poder que exercia. Para tanto, manteve aspectos de uma democracia burguesa tradicional (sistema de três poderes do Estado, existência de partidos políticos, eleições regulares, liberdade de imprensa, etc.), por mais que fossem características de caráter restrito. Ademais, a estrutura institucional montada estava a serviço também dos pactos entre liberais e conservadores, iniciados em 1927, que refletiam o acordo entre a burguesia nicaraguense (grupo social que controlava o sistema produtivo da economia agroexportadora). O respaldo estadunidense e os pactos internos eram indissociáveis para estruturar a legitimidade de Somoza e da Guarda Nacional. Como afirmou Víctor L. Bacchetta89:

No cabe duda que el más firme y fiel bastión del poder de Somoza era la Guardia Nacional, la cual le proporcionaba la autoridad militar en el país, pero esa condición por sí sola era insuficiente para permitirle gobernar en forma más o menos estable. La burguesía opositora no tenía posibilidades de influencia directa sobre la Guardia Nacional y ésta no contaba con bases propias de sustentación política o social, que pudieran legitimar por sí mismas el poder que detentaba.

88 Ver: LINZ, Juan J.; STEPAN, Alfred. A transição e consolidação da democracia. São Paulo: Paz e Terra,

1999 e WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora da UnB, 1991-1999.

89 BACCHETTA, Víctor L. El desmoronamiento político de un ejército – La Guardia Nacional Somocista. In:

Nueva Sociedad n. 81, janeiro-fevereiro de 1986. p. 25. Tradução livre: “Sem dúvida o mais firme e fiel bastião do poder de Somoza era a Guarda Nacional, que lhe proporcionava a autoridade militar no país, mas essa condição por si só era insuficiente para permitir-lhe governar de maneira mais ou menos estável. A burguesia opositora não tinha possibilidades de influência direta sobre a Guarda Nacional e esta não contava com bases próprias de sustentação política ou social, que pudessem legitimar por si mesmas o poder que detinha”.

Principal instrumento político e militar do somozismo, a Guarda Nacional, educada e organizada por oficiais estadunidenses, assimilou e aplicou as concepções de seus mentores. O processo de trespasse de homens e mentalidades foi lento e décadas foram necessárias para que o grau máximo de efetivos e organização fossem alcançados. Mas é certo que a Guarda Nacional nunca teve o sentido apartidário que supostamente quiseram atribuí-la, uma vez que Somoza e seus filhos e parceiros desde o início foram chefes irrestritos da mesma. Importante salientar que o apoio dos Estados Unidos não era direcionado à instituição militar em si, mas a seu chefe, Anastasio Somoza, homem de confiança do governo estadunidense e o “último caudillo90” da Nicarágua. O sentimento de que com Somoza (primeiramente Somoza García e depois com seu filho Somoza Debayle) o apoio estadunidense estava assegurado e que desse modo ninguém poderia contestar a autoridade imposta foi forte entre os membros da Guarda e permaneceu durante todo o regime somozista, sendo questionado somente em fins da década de 1970 e abandonado completamente dias antes da insurreição de 1979.

Até a década de 1950, a Guarda Nacional não contava com um aparato administrativo forte e capaz de tomar decisões importantes, visto que Somoza García – ou ‘Tacho’, apelido familiar que passou a ser usado por populares e pela imprensa – resolvia problemas e controlava pessoalmente tal instituição armada. A dependência pessoal da Guarda Nacional e a fidelidade inquestionável de seus membros evitavam disputas internas por poder. Com esse mesmo objetivo, Somoza deixava a cargo de parentes o comando das principais unidades da Guarda Nacional, além de manter um número reduzido de efetivos e de munição por unidade. Nesse sentido, o “clã Somoza” era o único a ser beneficiado com o uso da Guarda, evitando uma gravitação política da chamada burguesia não-somozista no seio dos quadros militares e garantindo um monolitismo na oficialidade. Além das unidades ativas ligadas exclusivamente à Guarda Nacional, Somoza promoveu a organização de um contingente paramilitar, formado por homens recrutados pelo Partido Liberal e membros retirados da Guarda. Sob o nome de Reserva Civil, era responsável por atividades repressivas e terroristas, tendo atuação destacada na década de 1970 contra quadros guerrilheiros da Frente Sandinista. Em 1976, estimava-se que a Guarda Nacional possuía em torno de sete mil homens, ao passo que a Reserva Civil contava com cerca de quatro mil.

O apoio e financiamento direto dos Estados Unidos tornaram-se nítidos principalmente a partir do período pós-Segunda Guerra Mundial, momento em que Somoza García se

90 Apesar da autobiografia do general nicaraguense Emiliano Chamorro ter esse título, os fatos posteriores

mostrariam que Somoza agiu e governou efetivamente como um caudillo latino-americano. Ver: CHAMORRO, Emiliano. El último caudillo: autobiografia. Managua: Ediciones del Partido Conservador Demócrata, 1983.

converteu no grande aliado estadunidense na região. Armas e equipamentos militares, assessoria e treinamentos para a Guarda Nacional foram recorrentes desde a segunda metade da década de 1950. Por meio dessa ajuda foi possível uma modernização militar na Nicarágua, com a possibilidade de funcionamento regular da então Academia Militar, além do aumento de efetivos e a criação de corpos especializados. Nicaraguenses também eram enviados para estudar em escolas militares estadunidenses, com destaque para a Academia de West Point, a mais antiga do país, onde inclusive Somoza García e Somoza Debayle foram especializar-se. Mas igualmente estrangeiros iam à Nicarágua para a formação de pessoal: na grande maioria militares estadunidenses que graduavam oficiais nicaraguenses sob manuais de “contra insurgência” elaborados pelo Pentágono, simplesmente traduzidos para o espanhol. Com referida modernização, criou-se uma base militar na Costa Atlântica, região praticamente ignorada pelo governo por ser indígena e culturalmente distinta do resto do país, de maneira a estender o controle sobre o território nacional; local que também serviria de entreposto para ações marítimas estadunidenses contra Cuba. Outra característica significativa foi o início do uso sistemático do batalhão de blindados, criado com assistência estrangeira, e que ocuparia lugar central até o fim do regime somozista.

O ponto de inflexão na abordagem política e militar do somozismo foi o ano de 1972. O terremoto que atingiu a capital Managua no dia 23 de dezembro desse ano praticamente destruiu a cidade e trouxe sérias consequências econômicas e sociais para o país. Posteriormente, o que se concretizou foi um enorme desvio de verbas por parte do clã Somoza e da Guarda Nacional, canalizando as ajudas externas destinadas à reconstrução da cidade. Associado ao fim do período constituinte do país, representado pelo pacto entre Fernando Agüero – representante do Partido Conservador – e Somoza Debayle91 e que culminaria na eleição desse último como presidente para o mandato até 1980, criou-se um debilitamento do consenso político e social em torno do regime somozista.

A crescente influência da FSLN (criada em 1961) em esferas populares também contribuiu para tal quadro de desconfiança e descontentamento. Como resposta, Somoza promoveu uma militarização do Estado, com militares sendo nomeados para cargos de confiança e de decisão política. Além disso, promoveu-se uma modificação do conteúdo

91 Tal acordo, conhecido como Pacto Somoza-Agüero ou Pacto Kupia-Kumi (no idioma miskito – de grupos

indígenas da Costa Atlântica da Nicarágua – significa “um só coração”), resultou na elaboração de uma convenção política na qual Somoza Debayle não investiria na presidência da República durante dois anos e meio, enquanto era convocada uma Assembleia Constituinte e se nomeava um triunvirato, nomeado Junta Nacional de Governo, para governar o país provisoriamente até as eleições em 1974. Compunham tal triunvirato os liberais Roberto Martínez Lacayo e Alfonso Lovo Cordero e o já citado conservador Fernando Agüero. Oficialmente, entre 1972 e 1974, Somoza Debayle ocupava somente o cargo de Chefe da Guarda Nacional.

ideológico e das características dos treinamentos das tropas e corpos especiais da Guarda Nacional, uma vez que a imagem democrática da mesma perdia legitimidade e concomitantemente crescia o apoio à FSLN. Desse modo, passou-se de um anticomunismo para uma ideologia antipopular, praticamente sem restrições, especialmente a partir de 1975. O aumento da repressão era uma consequência lógica. Produto dessa mudança de mentalidade foi a criação da Escola de Treinamento Básico de Infantaria (Escuela de Entrenamiento Básico de Infantería – EEBI), sob comando de Anastasio Somoza Portocarrero, filho mais velho do então presidente Anastasio Somoza Debayle. Unidade militar fundada com base na Companhia de Recrutas e de Retirados, com melhores treinamentos e salários, em pouco tempo converteu-se na principal unidade tática militar nicaraguense, um corpo de elite responsável por diversas ações rígidas de repressão92 e para muitos um exército dentro do exército.

A última etapa do somozismo, da segunda metade da década de 1970 até a insurreição em 1979, foi retrato de uma luta quase desesperada da Guarda Nacional pela sobrevivência, tanto de seus membros como de seu aparato material. Mercenários estrangeiros foram contratados para serem instrutores na EEBI, o que resultou na eliminação de estímulos ideológicos: a preservação do status quo era primordial e, para os membros desse corpo militar, era preciso eliminar quem se opusesse a tal manutenção. Mais uma vez, a repressão indiscriminada foi a solução encontrada.

Ao mesmo tempo se tentava articular uma alternativa pacífica para o país por meio de grupos como a União Democrática de Libertação (Unión Democrática de Liberación – UDEL) e a Frente Ampla Opositora (Frente Amplio Opositor - FAO), com apoio do governo estadunidense, um “somozismo sem Somoza”, visando manter as estruturas políticas do regime vigente. Dias antes do já eminente sucesso insurrecional, membros políticos dos Estados Unidos tentaram negociar com a Junta Provisória de Governo93 a manutenção da Guarda Nacional, esforço em vão na já adiantada estratégia sandinista.

O que a FSLN tentou nos últimos meses de governo Somoza foi cooptar membros da Guarda Nacional, objetivando enfraquecer o último sustentáculo de poder que possuía o aparato estatal somozista. A contraposição entre ‘militares corruptos’ e ‘militares honestos’,

92 Em vários relatos de ex-combatentes e de antigos membros da EEBI, relata-se que em treinamentos e

preparativos para ações, os chefes dirigiam-se às tropas e perguntavam: “¿Qué quieren ustedes?”, seguidos pelos soldados: “¡Sangre! ¡Sangre!”. Desses relatos justifica-se o enorme temor da população para com a EEBI e seus membros.

93 Grupo que depois se converteria na Junta de Governo de Reconstrução Nacional. Reunido ainda no exílio na

Costa Rica, transferiram-se para León e ali estabeleceram a sede provisória de um governo de transição, em 18 de julho de 1979.

associada ao contato de sandinistas com as famílias desses últimos, teve pouco efeito, o que comprovou a ideia de que, enquanto Somoza se manteve no poder, a Guarda Nacional se caracterizou por uma grande coesão interna e por um alto moral de combate. Contudo, sob outro ponto vista, tal unidade interna era também a maior debilidade política de referida unidade militar. Era claro que a Guarda Nacional não era e nunca foi um exército profissional, caracterizava-se mais como uma força armada ao serviço de uma família. Ademais, a ingerência estadunidense, juntamente com a debilidade da burguesia local e com o crescente poder do clã Somoza, favoreceu a estruturação de tal quadro. A dependência e estreita vinculação com Somoza tornava a Guarda Nacional extremamente vulnerável à ausência do ditador, sem seu mentor a Guarda não conseguiria agir e sobreviver. A comprovação dessa afirmação pode ser percebida no momento em que Somoza Debayle estava isolado, já sem o respaldo estadunidense, dias antes da culminação da Revolução Sandinista: em poucas horas, em torno de oito mil homens pertencentes à Guarda Nacional fugiram para as fronteiras do país, desfazendo-se o mais rápido possível de suas fardas, traço que os identificariam.

No dia 19 de julho de 1979, quando tropas guerrilheiras entram em Managua recebidas por milhares de pessoas celebrando o fim de um regime autoritário de mais de quatro décadas, a Guarda Nacional e todo aparato militar somozista existiam apenas em caráter oficial, fisicamente já não eram presentes.

No fim da década de 1970 encerrou-se não apenas referido regime autoritário, mas também um modelo de Forças Armadas, criado como instrumento de ocupação por uma força estrangeira (no caso, os Estados Unidos) e nutrido pelo clã Somoza como instrumento familiar de controle sobre o país. Durante toda sua existência, a Guarda Nacional estabeleceu- se por meio da corrupção institucionalizada e da repressão política, nunca desenvolvendo uma identidade independente ou uma autêntica missão nacional94. Se a proposta estadunidense era combinar funções policiais com atribuições militares visando melhorar a segurança interna e diminuir a corrupção, o que de fato resultou foi uma institucionalização da corrupção e um monopólio legal da violência. Associando-se a isso a completa dependência dos membros da Guarda com os Somoza (primeiro com Anastasio Somoza García e depois com seu filho Anastasio Somoza Debayle). A incapacidade de dita força militar se distanciar desses últimos custou sua existência enquanto instituição militar, minando por vezes sua capacidade de combate. O uso da repressão conduziu ao apoio de diversos setores à luta sandinista, debilitando ainda mais a imagem interna e a credibilidade externa de Somoza e de todo seu

94 MILLET, Richard. Guardianes de la dinastía: La historia de la Guardia Nacional de Nicaragua. Managua:

aparato político-militar. Como indicou Richard Millet95: “La desintegración sin resistencia alguna a la toma del país por parte del sandinismo, marca el epitafio a una organización totalmente corrupta, incapaz de desarrollar su propia identidad”. Ademais, levando-se em consideração tal falta de identidade, podemos considerar que, não fossem as quebras de salvo- conduto por parte do governo sandinista, é duvidoso pensar em um número significativo de antigos membros Guarda Nacional se incorporando à contrarrevolução. Um novo conflito armado pareceu ser a única alternativa para evitarem a prisão ou o exílio, daí o rearmamento meses após a vitória insurrecional.

O fim desse aparato militar evidenciou as debilidades estruturais presentes na sociedade nicaraguense, encobertas pelo somozismo. Os obstáculos para um desenvolvimento sócio-político estavam removidos após 19 de julho de 1979. Caberia ao novo governo revolucionário reorganizar todo o quadro estatal e a sociedade da Nicarágua. E a estrutura militar seria uma das primeiras a sofrer mudanças e transformar-se em um dos sustentáculos do regime que se iniciava.

Benzer Belgeler