Todo esse crescimento do campo da comunicação levou a uma proliferação de trabalhos e estudos que tentam mapear, avaliar e conhecer melhor esse campo. É exatamente a partir desses estudos – e da crítica a esses estudos, buscando uma metodologia alternativa de forma a evidenciar outros aspectos da questão – que se desenha a proposta deste projeto de pesquisa.
Um dos primeiros trabalhos realizados, utilizando um grande conjunto de documentos científicos da área de Comunicação, é o de Kunsch e Dencker, publicado em 1997, relativo à toda a produção científica registrada pelo Portcom até o final da década de 1980. Sobre a forma como se deu a listagem dos assuntos, explicam as autoras que
a temática abordada nos documentos registrados foi classificada em uma entrada definida pelo assunto principal. Caso o critério adotado fosse o de registro múltiplo, teríamos um número mais abrangente de temas, porém não correspondente ao número de documentos existentes e registrados pelo inventário (KUNSCH; DENCKER, 1997, p. 30).
As autoras apresentam o mapeamento temático da produção científica brasileira por períodos históricos, sendo que cada quadro possui uma lista de assuntos própria, diferente dos demais – as autoras não trabalharam com a mesma lista de assuntos para cada período analisado. A TABELA 2 apresenta uma fusão dos vários quadros apresentados pelas autoras:
TABELA 2
Síntese dos quadros relativos às temáticas da pesquisa brasileira em Comunicação , segundo classificação adotada por KUNSCH e DENCKER
(Continua) Temática 1880 - 1949 1950 - 1959 1960 – 1969 1970 – 1974 1975 – 1979 1980 - 1989 Antropologia - - - 1 - - Arquitetura - - - - 3 - Arte/artes pláticas - - - 2 8 - Artes gráficas - - - - 2 8 Biblioteconomia/document./museu - - - - 6 - Cartaz - - - - 2 - Cibernética/informática/telemática 1 5 -
Ciências sociais e comunicação - - - 35
Cinema 1 2 7 5 20 190
Comunicação - - - - 28 -
Comunicação científica - - - - 2 40
Comunicação comunitária - - - - 1 -
Comunicação de massa - - 1 11 12 41
TABELA 2
Síntese dos quadros relativos às temáticas da pesquisa brasileira em Comunicação , segundo classificação adotada por KUNSCH e DENCKER
(Continua)
Temática 1880 -
1949 1950 - 1959 1960 – 1969 1970 – 1974 1975 – 1979 1980 - 1989
Comunicação – difusão rural - - - 4 - -
Comunicação – difusão viária - - - 1 - -
Comunicação empresarial/institucional - - - 56 Comunicação expressiva/gesto/exp.corp. - - - - 5 - Comunicação e cultura - - - 89 Comunicação e educação - - - 60 Comunicação e política - - - - 3 54 Comunicação e recepção - - - 13 Comunicação e religião - - - 35 Comunicação/ideologia/poder - - - 30 Comunicação internacional - - - 16 Comunicação interpessoal - - - Comunicação não-verbal - - - Comunicação popular/altern./emerg. - - - 1 2 39 Comunicação rural - - 4 - 18 43 Comunicação social - - - 2 - - Comunicação verbal - - - 17 Comunicação visual - - - 24 Cultura (+ kitsch) - 2 3 - 9 -
Cultura popular (xilogravura) - - 8 3 27 -
Editoração - - - 2 2 44
Ensino - - - - 1 -
Ensino de comunic. e das sub-áreas - - - 45
Ética da comunicação - - - 15
Fotonovela - - - 1 1 -
Fotografia - - - 34
Gêneros e cultura de massa - - - -
História da comunicação - - - 14
História em quadrinhos - - - 3 8 16
Imprensa - 2 15 6 24 76
Indústria cultural - - - 2 4 17
TABELA 2
Síntese dos quadros relativos às temáticas da pesquisa brasileira em Comunicação , segundo classificação adotada por KUNSCH e DENCKER
(Continua) Temática 1880 - 1949 1950 - 1959 1960 – 1969 1970 – 1974 1975 – 1979 1980 - 1989 Jornalismo 13 4 - 12 17 185 Jornais de bairro - - - 1 - - Lazer - - - - 3 - Legislação da com./direito/censura - - - - 9 34 Lei de imprensa/liberdade de expressão 1 2 - - 3 -
Leitura (hábitos – pesquisa) - - - 1 - -
Linguagem - - 4 - - -
Lingüística - - - 4 5 -
Literatura e poesia - - - 1 13 -
Literatura de cordel (e oral) - - - 3 8 -
Livro (livro didático) 1 1 - 1 5 -
Marketing - - - 37 Movimento social - - - - 2 - Música - - - 1 6 - Música popular - - - 4 5 - Opinião pública - - - - 1 12 Outros - - 3 - 3 - Pesquisa - - - 1 - - Pesquisa em comunicação - - - 42 Políticas de comunicação - - - 25 Psicologia da comunicação - - - 8 Publicidade e propaganda - - 1 2 13 78 Rádio - - 2 2 6 36 Radiodifusão - 1 - - - - Relações públicas - - 1 3 5 95 Religião - - - 2 8 - Revistas - - - 1 1 - Semiótica/semiologia - - - - 6 35 Teatro - - - 9 23 - Tecnologia da comunicação - - - 45 Telecomunicações - - - - 2 5 Telenovela - - - 2 - 22
TABELA 2
Síntese dos quadros relativos às temáticas da pesquisa brasileira em Comunicação , segundo classificação adotada por KUNSCH e DENCKER
(Conclusão) Temática 1880 - 1949 1950 - 1959 1960 – 1969 1970 – 1974 1975 – 1979 1980 - 1989 Televisão - - 1 4 4 101 Teoria da comunicação - - - 5 - 33 Vanguarda - - - - 3 - Vídeo - - - 20
FONTE: KUNSCH; DENCKER, 1997, p. 27-36. NOTA: A tabela 2 foi criada a partir de seis tabelas apresentadas pelas autoras. Como nem todos os assuntos constam de todas as tabelas, há campos em que se verifica a ausência de valores. Nestes casos, o que ocorre é a ausência do assunto na tabela relativa àquele período. Os números indicam a quantidade de documentos (livros, teses e artigos) sobre aquela temática no período indicado.
Uma atualização desse trabalho foi realizada por Lopes e publicada no ano 2000. A autora trabalha com um total de 6175 textos, entre livros, teses, dissertações e artigos de periódicos, que compõem a documentação científica registrada pelo Portcom até o final de 1995. O mapeamento temático do campo é apresentado a seguir, na TABELA 3:
TABELA 3
Temáticas da produção científica em comunicação documentada pelo Portcom até 1995, segundo classificação adotada por LOPES
(Continua)
Linhas de pesquisa Até
1959 1960 - 1969 1970 – 1979 1980 - 1989 1990 - 1995 Total
Jornalismo e imprensa 24 19 92 415 66 616
Comunicação e cultura popular 3 17 79 233 26 358 Com. e cultura de massa/ind. Cultural 0 13 38 252 22 325
Cinema 5 8 35 218 46 312 Televisão 0 3 21 202 42 268 Comunicação lingüística 1 9 69 137 46 262 Propaganda 0 4 17 104 31 156 Comunicação e política 1 4 11 98 28 142 Comunicação e educação 1 3 13 79 36 132 Comunicação rural 3 21 40 49 19 132 Bibliografia e documentação 1 0 3 115 6 125
TABELA 3
Temáticas da produção científica em comunicação documentada pelo Portcom até 1995, segundo classificação adotada por LOPES
(Conclusão)
Linhas de pesquisa Até
1959 1960 - 1969 1970 – 1979 1980 - 1989 1990 - 1995 Total
Políticas de comunicação 0 0 4 95 6 105
Comunicação e novas tecnologias 0 1 15 51 38 105
Rádio 1 1 15 65 16 98 Comunicação e religiosidade 1 2 17 51 15 86 Ensino de comunicação 0 0 4 74 7 85 Relações públicas 0 1 8 51 13 73 Artes plásticas - 5 17 22 27 71 Teoria da comunicação 0 1 20 34 16 71 Editoração 1 0 9 30 29 69 Pesquisa de comunicação 0 3 8 48 6 65 Comunicação organizacional 0 0 3 38 22 63 Comunicação e ciência 0 2 7 34 11 54 Teatro - 10 11 21 5 47 Música - 3 11 14 11 39 Lazer e turismo 1 2 6 23 2 34
Comunicação e memória social - - - - 20 20
Comunicação e relações de gênero - - - - 16 16
Comunicação e recepção - - - - 14 14
Fotografia - - - - 11 11
Comunicação e etnia - - - - 10 10
Comunicação e imaginário infantil - - - - 7 7
Comunicação e cultura urbana - - - - 7 7
Consumo - - - - 4 4
Total 43 114 534 2496 1895 5082
FONTE: LOPES, 2000, p. 58.
Após apresentar o quadro que aponta para uma diversidade de temáticas, Lopes identifica algumas grandes áreas temáticas presentes nas várias linhas de pesquisa. Fazendo o somatório dessas grandes áreas, ela identifica como primeira grande área a temática do massivo (objeto de 48,6% dos textos, sendo que, dentro dela, os meios de comunicação de massa, como imprensa, cinema, televisão, propaganda e rádio, são objeto de 39,1% dos
textos), seguida pela temática do popular (10,4% dos textos), da política (6,6% dos textos), da linguagem (6,7% dos textos) e da tecnologia (5,6% dos textos). Numa outra forma de agrupamento das linhas de pesquisa, a autora percebe a grande concentração de textos com temática vinculada às habilitações profissionais (46,3% dos textos), em contraste com as linhas de teoria e pesquisa (apenas 2,5% do total).
Outro trabalho relevante é o de Ida Stumpf e Sérgio Capparelli. Os autores realizaram um completo inventário das dissertações e teses em Comunicação no Brasil, relativo ao período compreendido entre 1992 e 1996, lançando, em forma de livro, a lista destes trabalhos, com os respectivos resumos. Na introdução desse livro, os autores indicam que
(...) o trabalho se constitui num dos produtos de um estudo mais amplo que estamos realizando, referente à avaliação da pesquisa e da pós-graduação em comunicação no Brasil, relativa aos anos de 1992 a 1996. Entre os objetivos específicos que visamos atingir com este estudo mais amplo está a análise da produção discente dos cursos. (...) Os índices de autores e de orientadores foram fáceis de realizar. Já o índice de assuntos apresentou algumas dificuldades. A maior delas é de que não existe ou ainda não temos notícia até o momento, de um vocabulário controlado ou um tesaurus que sirva de base para a indexação por assuntos na área de comunicação (STUMPF; CAPPARELI, 1998, p. 05-07).
A citada continuidade do trabalho desenvolvido se dá exatamente na direção de um mapeamento quantitativo temático da área, que leva em consideração as dificuldades apresentadas na indexação por assuntos. Em outro trabalho (STUMPF; CAPPARELI, 2000) os autores apresentam o resultado do somatório de assuntos da área, utilizando exatamente as 754 dissertações e teses cujos resumos foram apresentados na obra anterior. Sobre a escolha dos termos para compor o sistema, os autores explicam que utilizaram os 20 assuntos mais freqüentes das teses e dissertações analisadas, de uma lista de quase duas centenas de termos que representavam os assuntos. Foram obtidos muitos termos porque cada trabalho foi representado por mais de um assunto. Sobre a origem dos termos, esclarecem os autores que
para compor a lista de palavras-chave, utilizamos como base o índice temático da Bibliografia Brasileira de Comunicação, publicado pela INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – e do Banco de Dados da COMPÓS – Associação Nacional de Programas de Pós- Graduação em Comunicação -, acrescentando ainda termos que nos pareceram pertinentes para a recuperação dos trabalhos por assuntos. A lista não é
completa nem por demais específica porque o objetivo foi enquadrar os trabalhos dentro de grandes temas, sem a preocupação de chegar a minúcias para sua representação e recuperação. Com vistas a facilitar a indexação, tanto utilizamos palavras-chave que dizem respeito aos assuntos mais gerais, perspectivas teóricas e/ou metodológicas, quanto interfaces presentes nos trabalhos (STUMPF; CAPPARELI, 2000, p. 243).
O resultado da contabilização dos 20 assuntos mais freqüentes das teses e dissertações é apresentado na TABELA 4, logo abaixo:
TABELA 4
Assuntos estudados nas teses e dissertações em comunicação no Brasil (1992-1996), segundo classificação adotada por STUMPF e CAPPARELLI
Assunto N % Assunto N %
Semiótica 100 18,2 Imprensa 39 5,2
Literatura 77 10,2 Comunicação organizacional 36 4,8
Televisão 62 8,2 Imagem 36 4,8
Jornalismo 60 8,0 Psicanálise 36 4,8
Arte 56 7,4 Narrativa 24 4,5
Discurso jornalístico 55 7,3 Música 33 4,4
Educação 45 6,0 Recepção 31 4,1
Novas tecnologias 45 6,0 História 30 4,0
Cultura 41 5,4 Filosofia 29 3,8
Cinema 39 5,2 Linguagem 26 3,4
FONTE: STUMPF; CAPPARELLI, 2000, p. 248.
Outro trabalho relevante, centrado no mesmo objetivo, é o de Cicilia Peruzzo, que se debruça sobre as mesmas 754 dissertações e teses para realizar o mapeamento temático e sua quantificação. A autora preferiu construir uma lista própria de termos, em vez de utilizar os termos de uma base de dados existente:
Optamos em não utilizar os macrodescritores da base de dados do PORTCOM/PORTDATA, mantida pela INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, nem da base de dados da produção acadêmica da UMESP – Universidade Metodista de São Paulo, baseadas no Thesaurus da UNESCO, nem das categorias utilizadas por Margarida M.K. Kunsch e Ada M. Dencker (1997) para classificar a produção científica brasileira em comunicação na década de 80, pelos seguintes motivos: 1o) porque ao invés de classificar os trabalhos em amplas categorias,
preferimos identificar as temáticas mais específicas de modo a facilitar uma visão mais precisa dos temas. 2o) porque, em razão das mudanças rápidas na área da comunicação, ocorre o desaparecimento de determinadas temáticas e a inclusão de outras havendo, portanto, a necessidade de atualização (PERUZZO, 2002, p. 54-55).
Tendo utilizado o trabalho de Stumpf e Capparelli como referência, a autora constrói um sistema com mais termos representando os assuntos das teses e dissertações. O resultado do estudo da autora é apresentado na TABELA 5, a seguir:
TABELA 5
Assuntos estudados nas teses e dissertações em comunicação no Brasil (1992-1996), segundo classificação adotada por PERUZZO
Assunto N % Assunto N %
Jornalismo 107 14,2 Teatro 11 1,5
Literatura 71 9,4 Desenv. das tecnologias da com. 10 1,3
Televisão 37 4,9 Pintura/Xilogravura 10 1,3
Cultura 36 4,8 Marketing 10 1,3
Estética 36 4,8 Psicanálise/Inconsciente 10 1,3
Publicidade/Propaganda 33 4,4 Teorias e metodologias da com. 10 1,3 Relações Públicas 33 4,4 Comunicação Científica 10 1,3
Cinema 32 4,2 Outros 10 1,3
Com. Popular/Alternativa 22 2,9 Comunicação e Saúde 9 1,2
Música 20 2,7 Corpo e Comunicação 8 1,0
Meios/Tec. de com. na educação 20 2,7 Comunicação Rural 5 0,7
Sociologia/Ciência Política 19 2,5 Dança 5 0,7
Linguagem e Significação 18 2,4 Empresas/Instituições de com. 5 0,7
Filosofia 15 2,0 Religiões e com. religiosa 4 0,5
Pensadores/Jornalistas/Artistas 14 1,8 Humor 4 0,5
Com., tecnologias e arte 14 1,8 Futebol/Esporte 4 0,5
Educação 14 1,8 Grafite 3 0,4
Fotografia 13 1,7 Tradução 3 0,4
Inf. no capitalismo/Ind. Cult. 12 1,6 Comunicação Grupal 2 0,3
Rádio 12 1,6 Política Cultural 2 0,3
Arquitetura 12 1,6 Transcodificação 2 0,3
Editoração 12 1,6 Cerâmica/Escultura 2 0,3
Vídeo 11 1,5 Romantismo/Modernidade 2 0,3
Os dois últimos mapeamentos temáticos do campo da comunicação apresentados acima serão analisados cuidadosamente no capítulo 9. Contudo, uma primeira análise será feita logo a seguir, relativa aos quatro trabalhos citados, pois é a partir da crítica a um aspecto específico destas quatro classificações que se desenvolverá toda a pesquisa posterior. Essa primeira análise se dá a partir da identificação de duas características comuns a estes quatro mapeamentos.
A primeira característica diz respeito à coexistência, na lista de assuntos de cada um deles, de termos de naturezas distintas, isto é, categorias obtidas a partir de critérios classificatórios diferentes. Assim, por exemplo, é comum em todos os quatro a existência de assuntos que representam outras disciplinas científicas com as quais a comunicação faz interface, como antropologia, psicanálise, história, educação e filosofia. Sua presença como assuntos da produção científica em comunicação não apenas evidencia a interdisciplinaridade que caracteriza o campo, mas marca a existência de estudos que pertencem ao campo da comunicação e que promovem, ainda, um olhar que utiliza conceitos oriundos de uma outra ciência – sendo esse movimento eleito o assunto central do trabalho. É o caso, por exemplo, na classificação de Stumpf e Capparelli, dos 36 trabalhos listados na categoria “Psicanálise”, ou dos 29 dentro de “Filosofia”. Contudo, é bem possível que alguma pesquisa encaixada em outra categoria, como por exemplo cinema (isto é, que tenha como principal assunto o cinema), tenha utilizado conceitos ou abordagens de outra área, mas esse movimento não é contabilizado porque, neste caso, cinema acabou sendo o preponderante.
Da mesma forma, jornalismo, publicidade, relações públicas e editoração têm em comum o fato de serem diferentes habilitações profissionais do campo da comunicação. Assim, foram contabilizados nestas classes trabalhos cujo principal assunto tenha sido uma habilitação profissional, independente do fato de terem ou não realizado movimentos interdisciplinares, isto é, buscado conceitos em outras ciências realizando interfaces. Um estudo sobre jornalismo pode até ter utilizado contribuições da psicanálise ou da filosofia, mas isso não vai aparecer na estatística final porque ele foi considerado apenas como “jornalismo”. Só que, aqui, há um complicador: no somatório final das freqüências, a quantidade de trabalhos encontrados nas categorias “psicanálise”, “história” ou “filosofia” vai ser somado à quantidade encontrada em “jornalismo” e “publicidade”.
Esse problema lógico, como visto no capítulo anterior, é conhecido como “classificação cruzada” (no âmbito da Teoria da classificação) e será discutido posteriormente, no capítulo 9, quando os quatro mapeamentos temáticos apresentados aqui serão analisados. Só é relevante se saber o percentual de trabalhos que recorrem à psicanálise, à semiótica ou à filosofia em relação ao total de trabalhos que recorrem a alguma outra ciência, ou àqueles que não recorrem a nenhuma, mas não em relação àqueles que se debruçam sobre o jornalismo ou a publicidade. Da mesma forma, é relevante se saber o total de trabalhos dedicados à habilitação jornalismo apenas em relação às outras habilitações profissionais do campo (publicidade, relações públicas, editoração, etc).
Os quatro mapeamentos temáticos apresentados possuem ainda uma outra característica. Uma dissertação ou tese que tenha por assunto, por exemplo, “recepção de telejornalismo” pode tanto figurar na classe “recepção” como na “jornalismo” ou, ainda, “televisão”. Ao ser contabilizado em uma delas, o trabalho deixa de ser contabilizado nas demais, provocando uma distorção nos dados encontrados. Isso acontece porque o sistema classificatório prevê a entrada dos documentos em apenas um assunto, e assim se é obrigado a eleger um assunto principal, deixando as outras possibilidades de fora da contabilização.
Essas duas características apontadas pelas quatro classificações aqui apresentadas não as invalidam, de forma alguma. Todas elas possuem seu mérito como mapeamentos temáticos do campo da comunicação. Contudo, o que se quer enfatizar aqui é a possibilidade de se obter outro tipo de resultado, caso se utilize um outro tipo de sistema classificatório que reformule as duas características citadas acima. Em suma, o que se quer propor após esse primeiro exame dos trabalhos de Stumpf e Capparelli, Peruzzo, Lopes e Kunsch e Dencker é a realização de um mapeamento temático da área da comunicação a partir de um sistema facetado, acreditando-se que, com isso, seriam obtidos resultados diferentes que poderiam se somar aos demais trabalhos na compreensão dos temas pesquisados na área. Assim, a proposta que ora se desenha procura pensar na utilização das técnicas e teorias da Ciência da informação para a organização temática do campo da Comunicação, realizando uma discussão sobre os critérios de classificação e divisão do campo e a possibilidade de um trabalho de modelagem conceitual para a construção de facetas – o que permitiria a montagem de um sistema multidimensional. Para a montagem de tal sistema procede-se à utilização de três métodos, que são apresentados nos três capítulos seguintes.
5. Análise facetada da área de comunicação
O presente capítulo realiza a primeira das etapas definidas para a construção do sistema facetado. Para fazer a análise facetada da área de Comunicação, em primeiro lugar, são analisados termos encontrados nas bibliografias editadas por Stumpf e Capparelli. Os termos são agrupados e, depois, são calculadas as freqüências tanto dos termos quanto das classes criadas. Por fim, são apresentados todos os resultados dessa etapa.