• Sonuç bulunamadı

Como as tecnologias da informação e comunicação hoje participam de forma mar- cante das atividades de pesquisa e do cotidiano das pessoas, buscou-se investigar o papel que elas desempenham na questão da transdisciplinaridade, as transformações que elas acarretam na produção, comunicação e uso do conhecimento, principalmente no que diz respeito à democratização do acesso às informações, incluindo-se aí a utilização de arquivos abertos para a disponibilização de trabalhos.

As mudanças trazidas pelas novas tecnologias da informação e comunicação para a produção, comunicação e uso do conhecimento, tema estudado por autores como Levy (1999) e Castells (1999), são vistas pelos entrevistados como uma verdadeira revolução:

Eu não vou arriscar muito não, vou falar mais pela minha área: o desenvol- vimento tecnológico m alguma coisa sem precedentes no mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, tem feito com que a tmcnica apareça de uma maneira naturalizada para as pessoas. Na minha área, eu sou de uma mpoca em que eu aprendia a fazer a diagramação de uma peça gráfica, no jornal, por exemplo, desenhando no papel,

38

Vários podem ser acessados no canal Cascagrossa, do YouTube: http://www.youtube.com/user/ cascagrossavideo.

fazendo um layout, depois usando rmguas específicas para contar quantas linhas de composição teriam ali numa determinada coluna de texto, como m que faria o processo de colocação de uma imagem na página, se seria uma imagem fotográfica, se seria uma imagem litográfica etc. Então, tinha uma smrie de processos para produzir uma página impressa, um jornal, que, vinte anos depois, todos eles foram meio que engolidos por uma tecnologia informática. O que a gente antes gastava muito tempo para fazer e tinha instrumentos específicos, você tinha uma mesa, você tinha uma rmgua, tinha não sei o que, e tal, hoje você faz num único instrumento, que seria o computador. Então, os processos tmcnicos não desapareceram, mas eles estão incorporados de uma outra maneira. E quem vai se formar, hoje, muitas vezes não sabe como que era esse processo, não percebe, às vezes, a dimensão histórica que a própria tmcnica tem, olha para o computador e o computador parece às vezes uma caixinha mágica. Aquilo ali incorporou vários processos, se ele não tem a dimensão daquilo, ele tende a naturalizar a tmcnica, e aí parece que a tmcnica se superpõe à concepção do trabalho, fazer o jornal m o computador. Mas o computador m uma forma, poderia atm continuar fazendo de outras maneiras, computador m só uma maneira de fazer. Então, pelo menos na minha área, as tmcnicas estão cada vez mais presentes e ao mesmo tempo cada vez mais naturalizadas.

Entr. 19, Projeto Manuelzão

Vou colocar um exemplo meu, meu e de várias outras pessoas. Quando voltei dos Estados Unidos, do meu doutorado, a Física era embrionária aqui na UFMG, definitivamente, em outros lugares tambmm, eu recebia, de alguns colegas meus, do orientador, e tudo, os artigos que eles iam publicar, ainda na forma de preprint, prm- publicação, que eles colocavam em um envelope e vinha no navio, levava não sei quanto tempo para chegar aqui. Hoje em dia, você já manda para a revista, já um artigo no formato da revista. Você digita, o cara formata, revisa, vai para lá e tal. E esse artigo você divulga em várias fontes. Almm disso, você baixa pelo portal da CAPES, imediatamente, qualquer artigo que tenha sido publicado. Então, globali- zação m isso, do ponto de vista de informação, eu tenho, ou qualquer colega aqui do departamento, a mesma informação, a grande informação, que qualquer outra pessoa no mundo, que tenha Internet e tudo mais. [...] Mas, antigamente, essas idmias, os resultados, tudo, ficavam restritos a algumas pessoas que estavam próxi- mas a ele. Próximas, geograficamente, dentro do próprio prmdio, ou que se encon- travam em uma conferência. Hoje, não, m tempo real, tem toda informação igual- zinha, cabe a você, a partir dali, fazer uma publicação. Então, esse m um aspecto da chamada tecnologia da informação, incorporando aí as várias formas de comuni- cação. Eu recebo e divulgo com a mesma rapidez qualquer idmia, eu escrevo, eu faço pesquisa junto, se eu quiser, com várias pessoas de vários lugares do mundo, conver- sando, mandando gráficos, construindo. Isso m muito bom.

Entr. 9, IEAT De acordo com Lévy (1993) , as tecnologias da informação e comunicação levaram a uma nova conceituação de inteligência, e Simondon (2001) defende que a comunicação entre homens e máquinas obriga a pensar em um novo tipo de cultura e mesmo de humanidade. Essas visões também emergiram das entrevistas:

Então, o que a gente está construindo, na realidade, possui uma linguagem, uma gramática, uma sintaxe que você não encontra em lugar nenhum, em disciplina específica nenhuma. Então, m um troço que começa romper mesmo as fronteiras, mesmo atm de comunicação entre as disciplinas. Então quando a gente fala aqui de algoritmo, genmtica, tudo isso faz parte de uma “obra”, entre aspas, mas m um acon- tecimento estmtico, eu prefiro chamar assim, que uma obra dada, a gente começa transpor essas barreiras e, almm do mais, você pode acrescentar aí os aspectos colaborativos. Você pode ligar essas pessoas, espectadores, autores, em rede, ou os próprios computadores e isso ser expandido tambmm. Aí você tem um sistema, de fato, um sistema dinâmico, complexo, e essa coisa vai cada vez se aproximando mais dos conceitos da biologia, de vida, de equilíbrio dinâmico, homeostase, essas coisas. Eu acho que o homem está vivendo um momento de criação de uma coisa entre o humano e o não humano, uma espmcie nova, a gente faz m uma espmcie nova, não no termo da definição ortodoxa da biologia, mas se você pensar, a gente age diferen- temente no mundo, a gente percebe o mundo diferentemente.

Entr. 8, IEAT As tecnologias da informação e comunicação foram consideradas importantes para a instauração de um trabalho transdisciplinar, porém não suficientes:

Elas são fundamentais, longe de mim ser um nostálgico da não-tecnologia, elas são fundamentais. Mas acho que a gente tem que trabalhar de uma maneira crítica. Primeiro porque uma tecnologia da informação, como a da Internet, permite essa conexão, pelo mundo inteiro, de vários saberes, de várias culturas, de vários sujeitos do saber, e isso para a transdisciplinaridade m fundamental. [...] Acho que abre o conhecimento, o conhecimento m mais acessível, ele m mais passível de apro- priação, m mais passível de comparação, de conexão, de ser trocado com o conhe- cimento de uma outra cultura. Para isso, as tecnologias nos dão essa capacidade de conectar campos, conectar culturas, conectar diferentes. O que eu acho que falta mais, sobretudo, m equipamento intelectual e psicológico do próprio sujeito para se abrir ao outro e interagir com ele, respeitá-lo, absorvê-lo.

Entr. 6, IEAT Eu acho que ela contribui muito, com certeza. Ela contribui porque eu acho que a tecnologia da informação trouxe alguns instrumentais que facilitam as [trocas de] informações entre pessoas, entre áreas de conhecimento, então com isso você tem a possibilidade de compartilhar melhor e ter uma visão mais sistêmica que ajuda muito a construir a visão transdisciplinar,

É importante, m central. Acho que franqueia, divulga e atende à exigência central do conhecimento, que m a universalização, publicização. Sem isso, não tem conhecimento. A ciência m a forma de conhecimento mais confiável. Ela atende a essas características. Cai no espaço público, cai na discussão, m publicizada. E visa fundar esses preceitos do conhecimento universal. Estou falando do conhecimento, essa m a índole do conhecimento, da filosofia, da ciência, das artes. É da índole. Agora, pode privatizar e auferir lucros, gerar dividendos e capitalizar isso? Claro que pode, mas isso m outra conversa. Copyright, patentes, royalties, isso m outra conversa, m uma conversa com economia e o Estado.

Entr. 2, IEAT Elas são a plataforma da transdisciplinaridade, na atualidade, essas tecnolo- gias de informação e comunicação. TV digital, Internet, Web 2.0, rede, computado- res, portais, toda essa parte de tecnologia voltada para a informação e comunicação, elas são fundamentais para a transdisciplinaridade, atm se eu considerar que trans- disciplinar significa global, globalização. E isso tem trazido para a sociedade um impacto muito grande, porque, de repente, o conceito de incluir e excluir mudou, não m mais economicamente, m quem tem acesso ou não às tecnologias da informação.

Entr. 16, Projeto Manuelzão Eu acho que elas podem ser instrumentos muito interessantes, na medida em que elas facilitam o acesso a determinadas informações, para a produção do conhecimento transdisciplinar. Eu acho que as tecnologias podem permitir uma mudança de patamar do conhecimento básico que a gente tem. Então, por exemplo, se eu vou mexer com bacia hidrográfica, eu posso ter uma concepção de bacia sem sentar com um geólogo, sem sentar com especialista em recursos hídricos para ele me explicar isso. As tecnologias me facilitam o acesso a essas coisas. Nesse sentido, elas são um repositório de informação que antes estava concentrada em algumas pessoas. Se eu não tivesse Fulano para sentar comigo e me explicar, eu não iria saber. Agora, eu já posso ter alguns conhecimentos básicos, introdutórios, iniciáticos, que me permitem saber disso. Então, eu acho que facilita, ela amplia o acesso a informações que são necessárias para que eu possa participar de alguma coisa que se pretenda transdisciplinar. Ao mesmo tempo, essas tecnologias não só ampliam o acesso, mas permitem o encontro. Então, se eu penso nessas tecnologias, [...] elas podem constituir fóruns, chamadas redes, redes sociais, que permitem uma interlo- cução. Eu posso ter em algum lugar pessoas que discutam as coisas e que são pessoas de áreas diferentes, com formas de conhecimento diferentes e que podem usar essas tecnologias para trocar esse tipo de informação.

Entr. 19, Projeto Manuelzão Parece haver um consenso entre os entrevistados sobre o fato de que tais tecno- logias promovem uma maior democratização do acesso às informações, mesmo que alguns deles façam ressalvas a essa característica:

São fantásticas! Elas são altamente desestabilizadoras do conservadorismo, elas são indisciplinadas, nesse sentido que eu estou falando, que eu já falei, acho que elas são determinantes, fundamentais para poder fazer isso. Elas são instrumentos poderosíssimos de democratização, porque você abre tudo, você vai propiciar fazer

essas consultas em tempo real, prospectar atm eventualmente os Minority Reports, que pode cair nos desvarios de determinar o futuro, mas eu vejo que passa tudo por aí. [...] Antigamente as pessoas pegavam um livro e liam aquele livro cinqüenta vezes, ai passava a ser referência, hoje você tem que ler m cinqüenta mil livros, cinqüenta vezes, então qual a forma de ser fazer isso? Atravms dessas redes.

Entr. 3, IEAT Por tudo que a gente já falou aqui, isso m inegável. Hoje, eu não preciso comprar uma Barsa ou uma enciclopmdia sei lá das quantas e, hoje, numa enciclopmdia dessas não cabe nem um milionmsimo do que a Internet oferece, então assim, quanto a isso eu acho que não tem a menor dúvida. E eu acho que m um caminho sem volta, m um caminho que a gente trilhou no sentido da democratização do conhecimento. É como nós estamos falando, só acho que ele precisa ser melhor encaixado dentro da estrutura, da formação pessoal, profissional. Eu acho que m aquela idmia, não m informação que gera, necessariamente, uma atitude de cidadania, não m ela por si que gera a formatação de indivíduos mais bem ajustados do ponto de vista psicossocial, ela m importante no sentido de tornar aquele recurso disponível para todos, mas a apropriação disso m uma coisa que tem que ser trabalhada, talvez uma das coisas.

Entr. 11, Projeto Manuelzão Eu acho que sem dúvida. Ela corre o risco tambmm da manipulação, mas eu acho que, como você tem várias fontes possíveis, você pode atm fugir do monopólio da informação. Eu li, há alguns dias atrás, um comentário do Mino Carta, ele diz o seguinte: que, hoje, a Globo já não tem o monopólio da informação. Ela tem ainda um poderio muito grande, mas não o monopólio, porque tem muito blog na Internet. E ele falou: tem muito blog que está atm repetindo o monopólio, o que a grande imprensa fala, mas tem alternativas. A pessoa pode obter informações de outra fonte. Então, eu acho que vai democratizar sim, eu espero que sim, porque não tem como controlar todo mundo.

Entr. 1, IEAT Ficou mais fácil, mas eu acho que se perde muito tempo. Você pode ter acesso, mas você gasta muito mais tempo do que antes. Por exemplo, os nossos estudantes. Você pede para fazer um trabalho sobre tal tema. A primeira coisa que eles vão fazer [m procurar na] Internet. Só que, sobre aquele tema, tem 99% de lixo e 1% de coisa boa. Mas ningumm, ningumm vem na sua sala para olhar os livros que estão em cima da mesa. Na sala de aulas, os meninos querem xerocar as trans- parências, os slides, xerocar o caderninho do coleguinha, mas ningumm te pergunta qual livro você usou para estudar para aquela aula, que ele quer ler o livro, quer ver aquilo que você está fazendo ali. Então, eu acho que democratizou no sentido de disponibilizar, disponibiliza mais informação, mas não quer dizer que as pessoas sejam melhores usuárias da informação disponível.

Entr. 14, Projeto Manuelzão Estamos aí entrando em terreno perigoso... Por um lado, m claro que as TICs trouxeram uma dimensão democratizante no acesso à informação, na medida em que tornaram disponíveis - e de fácil acesso - conteúdos os mais variados. Mas, por outro lado, a abundância de informação se apresenta tambmm sob uma forma espan-

tosamente heterogênea, exigindo, por isso, grades de leitura e critmrios de validação que restringem fortemente seu sopro democrático. Almm disso, a Internet representa provavelmente a mais formidável hegemonia cultural jamais vista sobre a terra. A absoluta predominância dos conteúdos em língua inglesa hipertrofia de forma devas- tadora a irradiação da representação do mundo que essa língua carreia, da visão de futuro que projeta. O que, decididamente, não significa um acesso democrático à diversidade das culturas...

Entr. 5, IEAT Ainda dentro da questão de democratização do acesso à informação propiciado pelas tecnologias, perguntou-se aos entrevistados sobre a utilização de arquivos abertos (GUÉDON, 2003; KURAMOTO, 2008) para a divulgação do trabalhos acadêmicos. Apesar de o IBICT conduzir projeto de disseminação dessa iniciativa no Brasil (KURAMOTO, 2008), a maioria deles desconhecia essa alternativa, inclusive confundindo-a com software livre. Depois de colocados cientes do que se tratava, a reconheciam como interessante, mas contestavam a inexistência de um filtro de qualidade nos trabalhos disponibilizados dessa maneira:

Eu acho que tem de trabalhar em duas frentes, por que tem de franquear, porque a índole do conhecimento m a universalidade. [...] Se você divulga, muito, massivamente, a contraparte você pode ter sistema que poderá introduzir um crivo de qualidade, você vai aumentar o número de parceiros que vão fazer as resenhas, que vão fazer as avaliações, e vão dar informação. Alguma coisa vai ter que ser feita nessa área. Algumas editoras já fazem isso com fins comerciais, as grandes editoras, as grandes livrarias virtuais. Você pega a Amazon, alguns livros já vêm resenhados, já vêm com as estrelas, já está tudo lá. Isso m um trabalho notável, pode ajudar mui- to. Mas vai ter que ser aprimorado, para o sistema ficar mais confiável e evitar, corri- gir as distorções do sistema de avaliação por poucos pares, que ajuda, mas não resol- ve, muitas vezes traz distorções e o prejuízo m grande. Mas faz parte da contingência, a falha. O essencial m você ter idmia de que você lida com um sistema aberto auto- corrigível. O erro aparece e você pode corrigir, se você não se refugia no dogmatismo. Mas m um sistema aberto. Eu vejo com bons olhos essa democratização, esse proces- so, essa abertura no acesso à informação.

Entr. 2, IEAT É uma opção legal. Eu tenho muita dificuldade de entrar em corpo editorial, e cada vez m maior. Eu não fiz a minha formação muito em cima disso aí, e hoje você tem uma pressão louca em cima de você para fazer isso, para poder produzir. Eu rezo todo dia para conseguir, eu tenho que fazer aquele capítulo, eu tenho que fazer um trabalho com o Fernando, tenho que fazer um trabalho com o Cacá... Todo dia eu rezo, porque se não eu não consigo fazer. Que tem que sair no Qualis tal, porque se não o departamento não consegue titular, e se não consegue titular vai ter problema. Enfim, acho que essa questão da revista especializada, ela m de público muito restrito, porque as pessoas mesmo que aprovam m que lêem. Quem lê m quem vai publicar e quem aprovou, quem mais lê? Embora eu ache que não se pode ter uma visão assim estreita sobre isso, não, porque isso faz parte da produção científica, você tem que escrever, escrever, um dia aparece uma coisa lá que o mundo todo vai ler. Então, eu

acho muito legal esse tipo de coisa. Eu tenho dificuldade m assim: de você soltar uma coisa e nego entrar dentro e mexer lá, isso eu tenho dificuldade. E tem que ter algum critmrio, uma regra, sei lá, eu não sei como m que m, vocês têm que inventar para nós, mas m uma coisa fantástica.

Entr. 11, Projeto Manuelzão

Benzer Belgeler