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1.8. FEMİNİZM TÜRLERİ

1.8.3. Marxist ve Sosyalist Feminizm

De acordo com Jeffrey Weeks (2008, p. 48) “(...) nós não experimentamos nossas necessidades e desejos sexuais como acidentais ou como produtos da sociedade. Eles estão profundamente entranhados em nós como indivíduos”. Esta afirmação fundamenta nossa proposta de trabalhar a temática da sexualidade tendo por base a compreensão da identidade.

Procuramos, deste modo, apresentar a perspectiva que adotamos, conforme o trabalho de pesquisa sobre Identidade Humana que vem sendo desenvolvido pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Identidade-Metamorfose (NEPIM), no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUC-SP.

Ao acompanhar os estudos do psicólogo social Antonio da Costa Ciampa (2008 [1987], 2002, 1998), reconhecemos que o posicionamento ontológico que adota para desenvolver uma conceituação de Identidade converge com as perspectivas que buscam destituir o caráter natural e estável dos elementos e conexões que dão forma à sexualidade humana. Membro da considerada Escola de São Paulo como coordenador do NEPIM, Ciampa vem contribuindo academicamente com a atualização dos estudos sobre Identidade dentro do campo da Psicologia Social Crítica, o que o levou ao desenvolvimento do sintagma Identidade-Metamorfose-Emancipação. A formação de um programa de pesquisa sobre o tema se deu, principalmente, por intermédio das mais de cem orientações de estudos pós- graduados que já realizou, incluindo esta dissertação para mestrado.

A visão dialética da identidade trazida por Ciampa em sua tese de doutoramento baseia-se no materialismo-histórico reconstruído por Habermas (1983), na filosofia da linguagem e no pensamento pós-metafísico, como observa Iray Carone (s/d) ao realizar uma análise epistemológica desta obra. A identidade humana é vista, em síntese, como produto da intersubjetividade que, pela razão dialógica, constitui o humano reflexivamente. A noção do sintagma decorre, especialmente, da necessidade de se considerar que identidade é movimento e, por isso, estabelece direções. Estes sentidos são preponderantes para a realização de uma análise crítica sobre os processos identitários e sociais, pois outorga uma razão à história de vida do indivíduo e, concomitantemente, assinala o devir da História da Humanidade.

Em meio a um arcabouço simbólico (de gestos e linguagem), o ser humano constrói seu mundo e, ao compartilhar convenções semânticas intersubjetivamente legitimadas, também pode se constituir e viver em sociedade (MEAD, 1972). No curso dessa história compartilhada e culturalmente relativa, a plasticidade humana descrita por Ciampa (2008 [1987]) circunscreve-se “num contexto de ordem, direção e estabilidade” (BERGER, LUCKMANN, 1983, p.75) permitida pelas institucionalizações das ações habituais e dos próprios indivíduos como atores sociais. Assim, o sujeito humano se insere num sistema social de papéis que o torna ator/personagem de uma realidade objetivada da vida cotidiana, capaz inclusive de objetivar-se, o que permite localizar-se e mover-se na tessitura das

relações sociais. Pois, à proporção que personagens vão se articulando, também se constitui um universo de significados e relações intrincadas de correspondência identitária.

No tema abordado, exemplificamos: para deixar de ser solteira, há de se virar esposa, o que pressupõe, diante das normas sociais vigentes, ter um marido, ou seja, estabelecer um vínculo formal, heterossexual e monogâmico, legitimando condições e expectativas sociais de estabilidade afetiva, exclusividade sexual e delimitação do patrimônio. Contudo, tendo em vista que há uma expectativa social para que esta personagem “solteira” seja provisória, um projeto de vida solteira trará implicações identitárias à medida que um sentido singular autentica a reposição da personagem “solteira” na história de vida. Adiemos esta análise para os capítulos seguintes. Todavia, Ciampa (2008 [1987]) coloca em dúvida o grau de liberdade que um indivíduo tem para adotar uma personagem, podendo ser esta, conseqüência das relações que se dão, e também condição para tais relações, a depender do lugar ocupado por tal personagem nas tramas das relações de poder instauradas. “São múltiplas personagens que ora se conservam, ora se sucedem; ora coexistem, ora se alternam. Estas diferentes maneiras de se estruturar as personagens indicam como que modos de produção de identidade”, afirma o autor (CIAMPA, 2008 [1987], p. 157).

O autor sugere que a identidade humana apresenta-se como fenômeno social e intersubjetivo, a partir da relação dinâmica que o indivíduo estabelece com seu mundo, com o outro e consigo mesmo acontecendo enquanto metamorfose que se objetivam como personagens. Pensar a identidade pela articulação de personagens é conceber que nos reconhecemos e somos reconhecidos, na qualidade de sujeitos humanos, a partir das ações que nos predicam, sendo inerente ao entendimento deste processo, a consciência e a atividade.

Habermas (1983) declara que o fundamento para a afirmação da própria identidade é a auto-identificação intersubjetivamente reconhecida, tal como o fundamento das relações sociais é a comunicação intersubjetivamente mediada. Assinala, ainda, que as implicações da convicção moral, do saber prático, do agir comunicativo e da regulamentação consensual dos conflitos de ação influem na produção de formas mais maduras de interação social. Assim, conclui Ciampa (1998), só a partir da cultura, do trabalho social e da estrutura familiar é possível falar em vida humana.

A identidade, em sua singular abertura, se inscreve num processo dialético e metamórfico, na possibilidade de condensar objetividade e subjetividade, o indivíduo e sua

representação. A subjetividade do sujeito humano é vista, por esta perspectiva, sempre articulada com a integração da objetividade da natureza, a normatividade da sociedade e a intersubjetividade da linguagem. Decorre deste entendimento que os trajetos identitários se caracterizam pela razão dialética entre regulação e emancipação, a qual confere aspectos qualitativos à metamorfose. São denominados de mesmice – quando ocorre um movimento de reposição das personagens por um sentido conformista ou de resistência; ou de mesmidade, quando dizem respeito a um processo de alterização de personagens, cuja metamorfose resulte em degradação ou superação da identidade pressuposta.

A trama que nos permite compreender o sentido do processo identitário é inscrita sob condições materiais e simbólicas de reconhecimento social. Personagens identitárias vão se articulando e se transformando a partir das relações intersubjetivas que são estabelecidas na vida social, compondo um enredo singular às relações. Emblemáticas do contexto e momento histórico em que se projetam, as identidades são responsáveis por concretizar fenômenos sociais, antecipando-os como tendências. Assim, ao considerar projetos de vida e pretensões identitárias, estamos levando em conta estas relações, localizando a formação identitária nos sistemas normativos da vida cotidiana conforme responde por interesses e conveniências autônomas ou heterônomas. De modo que, ao empreender-se neste registro, a identidade revela ser um processo de conformidade/manutenção ou de resistência/superação frente o contexto sócio-econômico e cultural vigente.

Diante destas considerações, salientamos que “(...) a progressiva concretização de uma identidade humana será sempre, antes de mais nada, uma questão política”, instalando-se um primeiro questionamento voltado para o interesse da razão: “nas condições dadas, o que merece ser vivido?” (CIAMPA, 2008 [1987], p.216) Desdobram-se, neste ponto, questões mais ampliadas que nos remetem a pensar no processo de individualização: “Que possibilidades reais (e não meramente formais) devem ser favorecidas? Que condições necessárias devem ser produzidas?” Entendendo que a simples mudança de aparências não significa, necessariamente, uma transformação de caráter qualitativo, vale-nos pensar, na e, para a contemporaneidade, que valores e sentidos da tradição – e também da inovação – estariam subsidiando a elaboração simbólica dos aspectos conjugais para projetos de vida de supostas novas personagens sociais, como é o caso da denominada “nova solteira”.

Provocados pela noção de autonomia que vimos adotando, somos levados a inquirir sobre os significados da “liberdade sexual” ou da “independência feminina” arrogados ao termo “nova solteira”. Visamos, com isso, desvelar a lógica liberal interesseira que estaria

dissimulando a idéia de emancipação por meio do desempenho de scripts sexuais justificados pelo exercício do livre-arbítrio, conforme apresentamos na introdução.

Não esqueçamos que o conceito de emancipação sob a qual nos referenciamos tem um cunho ético-político. Um sentido emancipatório pode, então, ser vislumbrado em processos cuja singularidade da história de vida se apresente como possibilidade de concretizar nossa humanidade por propósitos universalizáveis, ou seja, projetos de vida que contemplem a relação dialética entre indivíduo e sociedade pela síntese de heteronomias. Na medida em que o indivíduo constrói a própria história também constrói os sentidos de uma utopia emancipatória. Em vista de uma meta visada ou uma falta sentida, projeta-se em metamorfose por caminhos que o levem a superar obstáculos, libertar-se de coações e criar condições para sua humanização.

Para Ciampa (2008 [1987], p.146), um “(...) ser-para-si é buscar a autodeterminação (que não é a ilusão da ausência de determinações exteriores)”. Em outras palavras, é tornar-se sujeito de seu desejo e finalidade transformando a si e ao mundo, o que se aproxima muito da noção de sujeito sexual trazida por Paiva (1996, 1999). Por esta denominação, Vera Paiva (1999, p. 255) nos apresenta aquele “que regula cada experiência sexual, lidando com a complexidade e os múltiplos fatores que competem pela sua atenção consciente”. “É um domínio específico do sujeito, do exercício do poder e da cidadania”, que está intimamente relacionado com a conscientização dos cenários culturais da comunidade que faz parte, incluindo a noção dialética de si-mesmo como parte desse grupo.

Assumimos, ao adotar uma abordagem habermasiana, que a identidade do Eu é revelada pelo “grau de estabilidade da competência geral na interação” (HABERMAS, 1983, p. 71) indicada pela sustentação de uma consciência moral mesmo em situações de ação que impliquem conflitos moralmente relevantes. Posto isto, verificamos que ações respaldadas por decisões autônomas em qualquer das esferas da vida – envolvendo projetos conjugais ou profissionais, por exemplo – pressupõem competência interativa para elaborar conscientemente e consensualmente conflitos de ação moral e disparidades de interesses. Assim, Habermas (1983) fala numa reciprocidade que, embora incompleta, permite que sujeitos agentes possam empreender-se numa ação comunicativa, sempre fundamentada no questionamento de suas pretensões de validade, do ponto de vista moral, social, estético, cognitivo e expressivo.

Como devir humano, projetos identitários envolvem utopias não antecipáveis, pois o conteúdo da interação depende da consecução da mesma. Contudo, a trama dos procedimentos que opera em tal interação pode ser antecipada, a partir das pretensões identitárias que o indivíduo projete como pressuposição de personagens. Nunca fixa ou estável, também dependem das estruturas de interação que são dispostas no contexto sócio- histórico, econômico e político.

Em outras palavras, face um projeto de vida de pretensão emancipatória, este “sujeito- agente” elabora scripts para se relacionar, decodificando cada cena social e acionando habilidades interativas para uma ação dialógica. Para tal, deve partir de procedimentos consensuais e buscar o entendimento compartilhado de seus propósitos. Vislumbramos que processos identitários que expressem este sentido possam se configurar como uma identidade

política33, autônoma e em processo de individualização, supostamente, primando por deliberações em nível de uma moral pós-convencional.

Estudar a sexualidade do ponto de vista do projeto identitário permite-nos, desta maneira, compreender o sentido das representações e ações do indivíduo, de modo a poder contemplar, simultaneamente, a multiplicidade de fatores sociais, culturais e econômicos como apresentam-se elencados dentro da trama das histórias de vida. Sob esta ótica, pretendemos compreender como padrões valorativos dispostos culturalmente sob a idéia de uma “nova solteira” poderiam vir a subsidiar ou cercear projetos de vida potencialmente emancipatórios, por intermédio do amoldamento de personagens no processo identitário.