C. Görüşümüz
III. Marka Hukukunda Sessiz Kalma Yoluyla Hak Kaybı
O DSC produzido a partir do Tema 2 revela algumas particularidades, conceitos e conhecimentos relacionados ao sexo e a sexualidade, bem como detalhes envolvendo práticas, vivências sexuais e eróticas dessa coletivo. No que concerne aos relacionamentos sexuais, tem- se a constatação de que muitas vezes não basta a parceira sexual estar disponível e atraída pela pessoa com deficiência, importa também saber entender e aceitar algumas especificidades que são próprias do enredo sexual circunscrito a partir dos corpos lesionados, a exemplo da necessidade de cuidadores para que possam fazer as transferências da cadeira para cama, especialmente para aqueles que preferem manter suas atividades sexuais deitados. Nesse sentido, segue-se o DSC para o Tema 2, revelando “A sexualidade como espaço de sentidos, prazeres e de autoconhecimento”.
Eu não consigo me vê sem viver a sexualidade. Sexualidade é isso, troca de carinho, de amor, de afeto, um beijo bem dado, um passar de mão no rosto, no corpo. Você pode beijar, abraçar e isso ai já é visto como sexualidade. Falou em sexualidade é meio que falar em privacidade. Na área da sexualidade, meio que é dando prazer pra receber prazer. No entanto, a sexualidade não é só o prazer de ter penetrações, têm sem penetração, com e sem orgasmo, tem a mão, língua, às vezes um beijo é sexo; se bem que o prazer sexual da carne é gostoso pra caramba. E o sexo é tudo e eu não sei como esse povo vive sem sexo. Pra fazer sexo você tem que ter desejo né. Por isso, é prazer, sensação de liberdade. Eu encaro o sexo como fosse algo que faz bem, pelo menos eu me sinto assim, te deixa mais feliz. A gente acha que
aprende e se você não treina, você não adquire experiência. Se você não tentar você não sabe. Eu consigo passa prazer e receber prazer. É a experiência do lesionado, né? É um autoconhecimento que tive que buscar, ninguém veio em mim e falou. A sexualidade é uma forma de se autoconhecer, sei até onde tenho que chega pra acontece isso, as experiências sexuais seriam importante também nesse sentido. Mas tem que arrumar uma pessoa cabeça pra fazer isso, tá entendendo? Por exemplo, ela vai até ver o cuidador me ajudando a subir na cama e ele vai ver ela e a mulher pensa “Pô, mas o colega dele vai sabe que nós vamos transar né?!”. Por isso, a mulher tem que ser muito cabeça, em todos os sentidos. Me masturbo pra caramba, pra dá uma esvaziada na mente. Tem vez que eu não aguento não, aí eu vou pro jogo mesmo. Eu não tenho o hábito de filme erótico, mas vejo um pouco sim, tem hora que tô meio bolado, eu vejo memo. Então, vô na locadora, pego umas bagaça e eu também vô na net e vejo alguns vídeos, hoje é tudo de graça. Desde que a internet ficou liberada, vire e mexe assisto. Só que enjoa logo. Agora, folhear e ver fulana que saiu na Playboy, tal, é normal, é o corpo humano, é uma escultura. Agora vem pelo whatsapp esses videozinhos, você tá entendendo?
A partir da análise dos discursos dos participantes, desponta a percepção de que o sexo não é apenas uma atividade mecânica/penetrativa e estreita a contextos fisiológicos, na medida em envolve também carinho, afeto, confiança. Como já apontado por França-Ribeiro (2001), um dos grandes entraves para a manifestação da sexualidade é admitir a prática sexual exclusivamente pelos viés normativo, procriativo e biológico, espaço exclusivo para reprodução humana, desconsiderando o sexo como busca de prazer, vivência e satisfação erótica, o sexo para recreação.
É preciso refletir e repensar a sexualidade para além dos aspectos meramente biológicos e tensionados a partir de entendimentos estreitos às “genitalidades”; uma dimensão global do processo, envolvendo enredos e contextos psicológicos, afetivos, familiares e comportamentais (DENARI, 2010, 2002). Ao afirmarem no DSC que muitas vezes “A gente acha que sexo é só meter, meter, fude”, tecem uma crítica ao constructo sexual historicamente centrado em modelos penetrativos/falocêntricos.
Entender-se-á que muitas interpretações ainda hoje conectam-se essencialmente com padrões normativos e funcionais estreitos à sexualidade e às práticas sexuais, desconsiderando- as como uma dimensão da vida, reconhecida como uma sexualidade ampla e manifestada em todos os seres humanos (MAIA; RIBEIRO, 2010).
Com relação aos caminhos e materialidades das experiências sexuais que se projetam pela superfície de corpos lesionados/amputados/deficientes, Centeno Ortiz (2014) ressalta a importância de ter autonomia perante o sexo, mesmo quando sua condição corporal requer suportes, auxílios e cuidados de outrem, uma vez que muitas pessoas com deficiência não podem explorar sozinhas seus corpos e as possibilidades sexuais desse “novo” corpo.
Esse fato não é muito diferente daquilo que Hunt já anunciava no ano de 1981, quando problematizou junto à instituição em que vivia com outras pessoas com deficiências, o fato de
não poderem decidir ou opinar sobre as rotinas de atendimentos, atividades diárias e nem mesmo poderem escolher com quem e de que forma fariam sexo. Nesse sentido, em uma das passagens do DSC fica evidente a importância da autonomia perante as práticas sexuais, pois como afirmaram “A questão da sexualidade é uma coisa particular, o deficiente físico tem que se conhecer. É prática, ninguém aprende a fazer nada sem a prática. Se você não pratica, você não aprende e se você não treina, você não adquire experiência. Se você não tentar você não sabe.”
Nas palavras de Kaufman, Silverberg e Odette (2003), essas concepções envolvendo o sexo funcional, dialogam com a procura e validação social de corpos perfeitos e produtivos, fazendo de qualquer outra expressão sexual que envolva corpos fora desses padrões uma sexualidade desviante, patológica ou sem importância. Além disso, como afirma Centeno Ortiz (2014) ampliar o entendimento sobre as fronteiras e limites para a vida e as práticas sexuais pode fazer com que as pessoas com deficiência possam se sentir sexualizadas e erotizadas sem necessariamente se enquadrar em qualquer modelo idealizado, heteronormativo, falocêntrico, coitocêntrico ou patriarcal, rompendo com esse binômio dependência/infantilização.
Nessa medida, o DSC, nesse subtema, permitiu identificar que, para essas pessoas, o sexo deve ser uma atividade constante em suas rotinas, seus corpos lesionados têm necessidades sexuais e tensões eróticas que precisam ser alimentadas, afirmando esses mesmos corpos como veículos que permitem dar e receber prazer. Esses pensamentos e atitudes expostas nas narrativas contribuem para subverter os cânones dessa sexualidade normativa e procriativa.
O DSC retoma a necessidade de que as pessoas com deficiências físicas, não permitam que suas deformidades e assimetrias corporais impeçam suas tentativas de se inserirem em atividades sexuais e relacionamentos afetivos e amorosos. O corpo lesionado precisa viver experiências sexuais que favoreçam inclusive a autoconhecimento.
Segundo McRuer e Mollow (2012), os corpos com lesão sempre foram marginalizados, retratados em termos trágicos ou como excesso de bizarrice, fazendo com que as sensações sexuais agradáveis estivessem sempre dissociadas de corpos deficientes. Os relatos dos participantes sobre suas vontades, desejos e os anseios por encontrarem parceiros sexuais, podem reescrever esses caminhos da sexualidade sustentada em princípios normativos e regulatórios.
O sexo para pessoas com deficiência é também um momento de abertura para novas atitudes e conhecimentos, de experiências exploratórias e recebendo muitos benefícios da
sexualidade. Desperta-se para novos caminhos, criatividade, imaginação e estímulos para superar limitações corporais (SHAKESPEARE, 2003).
Essa leitura favorece a compreensão de que viver a sexualidade significa ampliar suas experimentações, suas conquistas e prazeres no campo erótico a partir de sua superfície corporal, como anunciado pelos participantes quando expressam, por exemplo, que “É um autoconhecimento que tive que buscar, ninguém veio em mim e falou. A sexualidade é uma forma de se autoconhecer, sei até onde tenho que chega pra acontece isso, as experiências sexuais seriam importante também nesse sentido.”
Destarte, o fato de as pessoas com deficiências terem especificades, limitações e caracteristicas fisicas e corporais singulares, faz com que não possam seguir com esse modelo de prática sexual convencional, levando-as a exprimentarem situações muito interessantes, alternativas e modos de operar sexualmente diferenciados (DEEPAK, 2002). Dessa feita, como relatado por eles “Se você não pratica, você não aprende e se você não treina, você não adquire experiência. Se você não tentar você não sabe.”
A autoestimulação também esteve presente na formatação desse DSC, porém no trecho “Me masturbo pra caramba, pra dá uma esvaziada na mente. Tem vez que eu não aguento não, aí eu vou pro jogo mesmo”, é possível supor que mesmo a autoestimulação (masturbação) sendo uma prática conhecida e acessada com frequência, há uma hesitação no ato, precisamente quando informam que aguentam até um certo ponto antes de se masturbarem.
Poder-se-ia indagar qual o motivo dessa espera, dessa hesitação diante do ato. Sem a pretensão de buscar respostas, no estudo sobre a sexualidade realizado por Deepak (2002) com pessoas com deficiência, identificou que a autoestimulação era um dos temas mais recorrentes nos discursos, porém, para muitos, tratava-se de uma prática inferior, um tipo de sexo incompleto, recurso utilizado por pessoas que se encontravam sozinhos e que não tinham outros recursos à disposição e, por isso, deveria ser motivo de preocupação seu uso para substituir a vida sexual real.
A pornografia também esteve presente nas contribuições dos participantes, com destaque para novas tecnologias de comunicação, como o uso de aplicativo de celulares para o compartilhamento de mídias com conteúdo erótico. Essa fato corrobora com o que aponta Deepak (2002), ao sugerir que muitas pessoas com deficiência, em algum momento de suas vidas, já acessou algum tipo de pornografia, especialmente, pelo fato de que esse tipo de material é encontrado com grande facilidade na atualidade.
Porém, em nenhum momento, foi mencionado o tipo de pornografia (revista, filmes etc) ou teor dessas produções/mídias acessadas e compartilhadas. Diante desse contexto, pode- se indagar se esses materiais pornográficos acessados pelos participantes revelariam, em alguma medida, o protagonismo de corpos aleijados/deficientes/amputados, seja na produção, atuação, edição ou direção dessas produções, assim como os pornôs produzidos por coletivos queer-crip na Espanha e que já foram brevemente apresentados nessa presente pesquisa.
Considerando o teor e a maneira como foram descritos alguns sentimentos, práticas, significados e percepções sobre o sexo nesse DSC, pode-se supor que a pornografia, bem como os enredos sexuais protagonizados pelos participantes ainda não estejam dialogando com outras formas ou maneiras mais transgressoras e libertárias de se pensar e projetar sexualmente os corpos aleijados/lesionados/amputados, como aquelas identificadas em produções como “Nexos” e “Yes, We fuck!” (de natureza post-porn queer-crip).