Em 1998, após a montagem de Dandara, o marinheiro – e ainda enquanto apresentava os infantis –, Rebouças foi convidado a participar de um espetáculo intitulado Antes de dormir, com texto de Manuel Filho, direção de Antônio de Andrade e atuação de Anette Lewin e Fernanda Verdasca, artistas do ABC. Apesar de Rebouças incluir essa montagem como parte da trajetória da Artehúmus, o Diadema Jornal e o informativo da Cooperativa Paulista de Teatro divulgaram a peça como sendo criação do grupo Cantos e Atos.
CANTOS E ATOS, da Cooperativa Paulista de Teatro
Convida para a estréia nacional e temporada do espetáculo “...ANTES DE DORMIR” de Manuel Filho – direção de Antônio de Andrade com: Anette Lewin, Fernanda Verdasca e Evill Rebouças, no dia 07 de Agosto de 1998 às 21:00 h
TEATRO ARTHUR DE AZEVEDO, Av Paes de Barros 955, Mooca, tel 292.8007. As apresentações ocorrerão até 27/Setembro sempre às sextas e sábados às 21:00h e aos domingos às 19:00h.
Mas, se a Artehúmus não foi vinculada a Antes de dormir pelos periódicos da época e se os artistas da encenação não participaram nem antes nem depois de outros trabalhos da Companhia, porque então o espetáculo dirigido por Antônio Andrade consta no histórico da Companhia? Aparentemente, as trajetórias de Rebouças e da Companhia que fundou são tão interligadas, que o dramaturgo tem dificuldade em dissociar seus trabalhos individuais no teatro daqueles realizados pelo coletivo. Além disso, depois de Dandara, o marinheiro a Artehúmus ficou sem produzir espetáculos inéditos durante 9 anos e quando o grupo retomou os trabalhos – com novos integrantes e outra linguagem artística – parece que Rebouças reconstruiu o passado dando um
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sentido linear para o percurso da Companhia e incluindo Antes de dormir no repertório187.
No tempo em que a Cia. Artehúmus ficou sem estrear novos trabalhos, Rebouças trabalhou como ator em algumas produções de forte matiz comercial. Segundo o próprio:
Fiz alguns espetáculos infantis no Centro Cultural São Paulo – um lugar onde sempre havia um número grande de espectadores. Lá eu fiz Floresta das
Fábulas, espetáculo escrito por Aziz Bajur e dirigido por Antonio de
Andrade, com o qual sobrevivi por um bom tempo. Um pouco antes participo de Machbeth, com direção de Ulysses Cruz, e com um elenco estelar que garantia uma boa bilheteria: Antônio Fagundes, Vera Fischer, Stênio Garcia, Paulo Gorgulho e Paulo Goulart. Passei a ficar craque em fazer testes; nem nervoso eu ficava mais. Diversifiquei o leque de possibilidades e passei a fazer testes para musicais brasileiros. Ia lá, fazia a cena, cantava e passava! Fiz Turandot, do Brecht, com direção do José Renato. Nesse espetáculo eu tive carteira assinada. Depois fiz teste para Panos e Lendas, de Vladimir Capela. Fiquei um ano e meio fazendo Panos e Lendas... Nesse período eu já vivia só de teatro. UMano depois fiz teste para o musical Brasil 500 – Uma pop ópera, escrito por Millor Fernandes, dirigido por Roberto Lage, com
músicas de Edu Lobo. Era uma produção com dinheiro suficiente para bancar uma orquestra, o Coral Paulistano e nós que cantávamos e atuávamos. Nessa época nunca fiquei sem trabalhar. Com produção de mesmo porte e recebendo salário fixo, atuei também em A Luta secreta de Maria da
Encarnação, última peça escrita pelo Gianfrancesco Guarnieri, com direção
de Marcus Vinícius Faustini e músicas compostas por Renato Teixeira. Nessa peça eram trinta e sete atores, uma orquestra com mais de cinquenta músicos e quase uma dúzia de cenários monumentais criados pelo Serroni. Todo ano eu fazia teste e todo ano tinha um espetáculo para fazer. Ganhei salário fixo por quase um ano atuando em A farsa do advogado Pathelin, peça dirigida pelo Cássio Scapin e integrante do Projeto Formação de Público da Secretaria Municipal de Cultura. Confesso que alguns desses trabalhos não me satisfaziam; geralmente porque tudo já estava escolhido e o elenco praticamente executava o que havia sido predeterminado. Foi aí que começou a ficar mais forte a ideia de retomar as atividades na Artehúmus188
(REBOUÇAS, 2014, entrevista).
187 Rebouças reconstruiu sua trajetória incluindo Antes de dormir na história da Companhia porque
segundo ele essa peça já investigava a dramaturgia apoiada no conceito de Obra Aberta, de Umberto Eco. No entanto, esse expediente parece ter sido discutido pela Artehúmus apenas em 2007 – quando conquistou seu primeiro Fomento – ponto que coloca em perspectiva o fato muito comum de que ao narrar suas histórias de vida os agentes sociais normalmente constroem sua percepção do passado a partir de sua vida presente. Nesse sentido ver as contribuições de Bosi (1983), Debert (2002), Halbwachs (2006), Weber (1996), Pollak (1989) e (1992), Meneses (1992) etc.
188 Além dos trabalhos que fez como ator, nesse período (1995 a 2003), Rebouças também escreveu os
textos dramatúrgicos A paixão de um homem (1996), Amada, mais conhecida como mulher e também
chamada de Maria (1998), Asas do desejo – uma outra história de amor (1998), Eu não me lembro muito bem (1999); Yael, animal de chifres espiralados (2003) etc. O dramaturgo também participou de outras
atividades, a saber: ministrou aulas de teatro para o Projeto Ademar Guerra, da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo (1996 e 2001); foi jurado do Festival de Teatro Amador AMANDRE (1998), do Festival Estudantil de Fernandópolis (1999), do Concurso de Dramaturgia da Sociedade Lítero-Dramática Gastão Tojeiro (2001), do Mapa Cultural Paulista (2003); foi mediador da Mostra de Teatro de Mauá (2002); foi professor de dramaturgia na Escola Nacional de Teatro de Santo André (2003); atuou nos longas-metragens Bocage, o triunfo do amor, de Djalma Limongi Batista (1997) e A Ordem, de Luis Alberto Pereira (1997); fez o roteiro dos curtas-metragens Maria Madalena (1997) e Ônibus (2000); escreveu a novela Mandacaru, com direção de Walter Avancini (1997); integrou o Núcleo de
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Como se vê, durante os anos em que a Companhia ficou adormecida, Rebouças seguiu na profissão e continuou “vivendo de teatro” – o que significa que seu objetivo inicial foi cumprido. No entanto, a imersão na vida artística e a aproximação progressiva em relação ao universo do “teatro de arte” fizeram com que, aos poucos, o dramaturgo, ator e diretor ampliasse suas perspectivas e abrisse novas possibilidades. Assim, a partir dos anos 2000, suas ambições começaram a voltar-se para o “teatro de arte”, reunindo atores e atrizes em 2004 para reestruturar a Cia. Artehúmus189. Desde
então, a empreitada de Rebouças e todos os outros artistas do grupo têm sido a luta por uma posição prestigiosa no universo teatral paulistano.