182 Além desses, foram publicados apenas pequenos informes sobre os dias e horário das peças em várias
edições da Agenda Cultural, de São Paulo, dos Guias Culturais de São Bernardo do Campo e no
Diarinho (Diário do Grande ABC).
183 Alguns periódicos do ABC (tais como o Diário do Grande ABC e o Diadema Jornal) aumentavam as
publicações sobre a Cia. Artehúmus de acordo com a maior interlocução do grupo com a cidade de São Paulo. A título de comparação, vale lembrar que nos dois anos em que Explode seiva bruta foi encenada (tanto no ABC quanto em festivais e no Teatro Markanti) o Diadema Jornal publicou cinco matérias enquanto que o mesmo periódico lançou apenas um texto sobre No reino de carícias e Pingo pingado,
papel pintado – nos mais de dez anos em que ficaram regularmente em cartaz. Outros exemplos serão citados mais a frente.
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Após o início frustrante de Explode Seiva Bruta e o recuo tático ao teatro infantil, a Artehúmus conseguiu mudar um pouco sua posição e suas possibilidades com a quarta criação da Companhia, o espetáculo para adultos intitulado Dandara, o marinheiro, de 1995184 – entretanto, ainda assim continuava observando o “teatro de arte” de fora e de longe, orientando-se vagamente a partir do imaginário usual acerca do que seria “bom teatro”. É o que afirma Rebouças:
O Dandara surgiu [...] quando eu estava nessa pegada: “Estou fazendo infantil, estou ganhando dinheiro, mas quero fazer um adulto”. Aí fui produzir o texto. As pessoas liam o texto, achavam lindo. Luís Rossi nos dirigiu. Solange estava também. Chamamos mais pessoas [...]. Dandara era uma necessidade de fazer teatro. Eu vivia de teatro quando fazia os infantis. Os infantis me seguravam, porque a gente fez por uns cinco anos os infantis. Por muito tempo. Mas quando aposentava, no ano seguinte alguém chamava. A gente não precisava mais vender o infantil. Era no boca-a-boca (REBOUÇAS, 2014, entrevista).
Como se vê, embora Rebouças já estivesse vivendo integralmente do seu trabalho com as apresentações dos infantis, ele ansiava por um espetáculo para adultos, separando o teatro que lhe dava sustento (infantil) daquele que necessitava fazer (adulto). Sobre essa divisão, vale trazer à tona um trecho do periódico São Bernardo Hoje, de 1999, em que Rebouças comentou de passagem sobre esse conflito:
Pelo menos duas produções voltadas para o público infantil e, que tiveram início nessa ocasião, são, hoje em dia o ganha pão de Evill. ‘No Reino das Carícias’, de Roberto Shinyashiki e direção de Lídia Zózima Sampaio está em cartaz há sete anos cumprindo apresentações em teatro e escola. ‘Pingo Pingado, Papel Pintado’, de sua própria autoria, permanece firme há quatro anos, com direção de Edemir Praxedes Branca. [Segundo Evill Rebouças] ‘A gente vive basicamente desses dois espetáculos e esporadicamente fazemos outros para adultos’. Espetáculos que, segundo ele, se não dão muito retorno financeiro, em compensação conferem algum status (REBOUÇAS, 2014, entrevista).
Sem perder a ambição de angariar algum status no fechado universo teatral paulistano, a Artehúmus passou a conciliar as apresentações dos infantis com a montagem de Dandara, o marinheiro. Esse novo trabalho da Companhia contou com a atuação de novos atores – Carlos Albant e Tony Francisco – e a presença de membros mais antigos, como Evill Rebouças, Diaulas Ulysses e Solange Moreno. O texto, escrito por Rebouças, teve a direção de Luis Rossi (na época, ator do conceituado grupo Boi Voador). O convite a Luis Rossi parece ter sido estratégico, na medida em que o artista
184 O texto Dandara foi escrito por Evill Rebouças quando ainda frequentava o SEMDA. Nesse período,
os colegas do Seminário de Dramaturgia o incentivaram a encenar sua obra e então o ator-dramaturgo reuniu alguns de seus conhecidos para montar a sua peça.
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tinha boa interlocução com diversos grupos de São Paulo e outros agentes no campo teatral. Rebouças enfatizou essa importância:
“Porque o Rossi era do Boi Voador, então poderia nos abrir algumas portas... Conseguimos pauta no Teatro Sérgio Cardoso. Conseguimos, pela primeira vez, ganhar um edital de ocupação e fazer uma temporada em um teatro do Estado” (REBOUÇAS, 2014, entrevista).
Assim, a presença de Rossi na Companhia foi importante não só por conta de sua contribuição poética e estética, mas, principalmente, porque ele foi uma figura central para que a Artehúmus conseguisse fazer uma temporada de mais de dois meses no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo (de 30 de novembro de 1995 até 15 de fevereiro de 1996). Aliás, as apresentações feitas nesse espaço não só tiveram uma quantidade considerável de espectadores – diferente do fracasso do espetáculo amador Explode seiva bruta no Teatro Markanti – como renderam à Companhia uma indicação ao prêmio APETESP/1995, na categoria de melhor direção (para Luis Rossi) e as conquistas dos prêmios de melhor texto (para Evill Rebouças) e de melhor trilha sonora (para Tunica)185.
Embora seja difícil precisar, é possível que o contato entre dramaturgo e diretor tenha sido impulsionado por Carlos Albant (que Rebouças conhecera no CPT), pois o ator havia feito um curso com o Boi Voador anteriormente, ou mesmo mediante Ulysses Cruz (à época diretor do Boi Voador), que residia em São Caetano do Sul/SP e conhecia Rebouças e Rossi, sendo um possível elo na rede de sociabilidade que a Artehúmus tecia progressivamente. Seja como for, está evidente que a interlocução da Cia. Artehúmus com agentes sociais do universo do “teatro de arte” paulistano teve importante ampliação com a participação de Rossi. Em suma, parece que o relativo sucesso e as conquistas alcançadas pela Companhia com Dandara, o marinheiro podem ser mais bem compreendidas considerando-se a experiência de Rossi e as alianças que o diretor firmou ao longo de sua trajetória no Boi Voador.
185 Tunica foi uma importante sonoplasta nos anos de 1980, pois só nessa década criou a trilha sonora de
55 espetáculos apresentados na cidade de São Paulo (MATE, 2008), bem como ganhou muitos prêmios em sua categoria. Sua chegada até a Artehúmus se deu por convite de Rossi.
112 Dandara, o marinheiro (1995). Na foto: Solange Moreno. Fonte: acervo da Cia. Artehúmus de Teatro.
Foto de Marcos Blau.
Apesar da quantidade considerável de espectadores na temporada do Teatro Sérgio Cardoso, das indicações em três categorias do prêmio da APETESP/1995 e dos prêmios recebidos em duas delas, o espetáculo Dandara, o marinheiro não foi notado pela crítica paulistana, afinal, os periódicos e revistas de São Paulo não escreveram uma matéria sequer sobre a peça em suas páginas especializadas em teatro. As apresentações da Artehúmus no Sérgio Cardoso foram divulgadas apenas em pequenos informes do Jornal da Tarde (novembro de 1995), do Estado de S. Paulo (novembro de 1995) e do Diário Popular Revista (dezembro de 1995). Não foi diferente quando a Companhia levou Dandara às Casas de Cultura do Butantã (abril de 1996), da Freguesia do Ó (maio de 1996) e de Itaquera (junho de 1996), pois estas aparecem divulgadas somente na Agenda Cultural (SP) e na Agenda News (SP). Desta feita, situação um pouco diferente se deu com os periódicos do ABC, pois alguns dos jornais da região publicaram matérias longas sobre a temporada que a Artehúmus realizou em São Paulo e também sobre as apresentações que o grupo fez no Teatro Municipal de Santo André (fevereiro de 1996), Teatro Elis Regina (São Bernardo do Campo, maio de 1996) e no Teatro da Fundação das Artes (São Caetano do Sul, maio de 1996): O Diário do Grande ABC noticiou dois grandes textos sobre Dandara (um em dezembro de 1995 e o outro em maio de 1996) e o Diadema Jornal publicou duas matérias sobre as apresentações da peça (maio e outubro de 1996). Ainda que o número de publicações dos jornais do ABC
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não fosse excessivo, as matérias publicadas nos jornais regionais tinham uma tendência – já discutida anteriormente – a valorizar a Companhia quando fazia temporadas em São Paulo, reiterando a ideia de que as peças de teatro apresentadas em São Paulo tinham mais valor estético. Por isso, é comum depararmo-nos com textos que não só divulgavam as temporadas na capital como faziam questão de relembrar que a Companhia Artehúmus foi semeada no ABC e que seus integrantes eram, em grande parte, moradores e estudantes de cursos de teatro da região. O ar triunfalista dos periódicos regionais exibia o orgulho que o Grupo inspirava por ter conquistado algum espaço em São Paulo.
Apesar de ter sido mais bem recebida pelo público paulistano do que a peça amadora de estreia, bem como apesar de ter sido indicada a premiações e até conquistado algumas, a Artehúmus estava ainda distante de ser um “grupo renomado”, afinal não tinha angariado quase nenhuma das credenciais necessárias para garantir uma posição sólida no universo do “teatro de arte”: a Companhia ainda tinha pouca interlocução com grupos bem colocados de São Paulo, não mantinha nenhum vínculo com universidades; não fazia pesquisa continuada; não participava do movimento do teatro de grupo; não era sequer comentada pela crítica teatral paulistana etc186.
Assim como em Explode seiva bruta, o espetáculo dirigido por Rossi apenas foi apresentado nos palcos da capital paulista em dias de semana, em espaços que eram mais concorridos nos fins de semana, enquanto continuava a realizar suas montagens no ABC.
186 É verdade que a crítica teatral paulistana nos anos de 1990 (e ainda nos dias de hoje) já era superficial
e pouco explorada pelos periódicos, revistas e jornais. No entanto, esporadicamente, alguns espetáculos de determinados Grupos eram citados e colocados em destaque pela crítica jornalística paulistana – ainda que em um curto espaço e com textos de pouca profundidade e maturidade. Apesar dos pesares, parte dos coletivos valoriza quando seus trabalhos são divulgados e comentados e, inclusive, criam estratégias para que os críticos vão ver seus trabalhos para, quem sabe, fazer uma resenha sobre ele. No caso da Artehúmus, por exemplo, ter seu trabalho comentado significa reconhecimento e, ao mesmo tempo, divulgação das peças em cartaz. Retornarei a essa questão mais pormenorizadamente no terceiro capítulo desta dissertação.
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Tabela 3 – quadro de apresentações de Dandara, o marinheiro
Teatro Municipal (Santo André) Teatro Elis Regina (SBC) Teatro da Fundação das Artes (São Caetano do Sul) Casa de Cultura Butantã (São Paulo) Casa de Cultura Freguesia do Ó (São Paulo) Casa de Cultura Itaquera (São Paulo) Teatro Sérgio Cardoso (São Paulo) Segunda-feira Terça-feira XX Quarta-feira XX Quinta-feira XX XX XX Sexta-feira XX Sábado XX XX XX XX XX Domingo XX XX XX XX