Mas não é qualquer lixo que pode se tornar uma mercadoria. A reciclagem em grande escala é realizada pela indústria através de quatro grandes grupos de materiais
– os papéis, os metais, os vidros e os plásticos, cada um com seus sub-tipos e especificações que variam conforme as características próprias.
De acordo com o IPT-CEMPRE (1998), na reciclagem do papel utiliza-se “aparas de papel”, uma denominação genérica para a matéria-prima utilizada no processo e que pode ser constituída de rebarbas de papéis, cartões, cartolinas e papelões gerados durante os processos de fabricação desses materiais, ou de sua conversão em artefatos, ou ainda gerados em gráficas. As aparas podem ser constituídas por materiais já usados e descartados. As fontes destas matérias-primas são residências, comércios, escritórios, gráficas e as próprias indústrias fabricantes de papel. Mas, para que esse material seja reciclado, é necessária a intermediação de fontes geradoras e indústrias recicladoras realizada pelos catadores e sucateiros. Tais agentes são responsáveis pelo acúmulo e enfardamento, que inclui também a necessidade de eliminação de impurezas presentes no papel coletado.
Quanto aos metais existe uma classificação devido à sua composição em dois grupos: os ferrosos compostos basicamente de ferro e aço, e os não-ferrosos. Os metais que se destinam a reciclagem recebem a denominação de sucata. No lixo domiciliar a maior parte dos metais presente é proveniente de embalagens, principalmente as de alimentos. Encontra-se em menor quantidade os metais provenientes de utensílios e equipamentos descartados como panelas, peças de geladeira e fogão etc. Segundo o IPT-CEMPRE, a sucata metálica, além de ter embutida em si a etapa mais cara do processo primário, que é a extração e redução do minério ao estado metálico, tem ainda um valor econômico, próprio do metal, sendo este significativo em metais como alumínio, chumbo, cobre e, particularmente, nos metais nobres: ouro, platina e prata. Assim, a grande vantagem da reciclagem dos metais é a de se evitar as despesas da fase de redução do minério a metal, fase esta que envolve um alto consumo de energia. Os metais e especificamente, as latas de alumínio, são o tipo de material mais procurado pelos catadores de rua devido ao valor que lhe são pagos no ato da venda pelos “ferros velhos” ou comércio de sucatas, denominação mais recente deste tipo de comércio. Como veremos adiante o preço pago por cada quilograma de latinha de alumínio e muito superior ao do papel, plástico, vidro e até mesmo de outros metais ferrosos.
De acordo com o IPT-CEMPRE (1998) o vidro é 100% reciclável, não ocorrendo perda de material durante o processo de fusão. Para cada tonelada de caco de vidro limpo, uma tonelada de vidro novo é feita e, ainda se economiza 1,2 tonelada de matéria-prima. Quanto à energia necessária para a fabricação do vidro são economizados 2,5% para cada 10% de caco de vidro empregado no processo. A proveniência dos cacos é basicamente duas: as próprias fábricas de vidro e os usuários e processadores de todos os tipos de produtos de vidro. No lixo domiciliar a grande quantidade deste material é encontrada na forma de embalagens. Na comercialização do vidro os intermediários, após comprarem os produtos na forma de garrafas, potes e demais tipos de embalagem, dos catadores, separam por cor e quebram esse material, transformando-os em cacos. Mas, pelo pouco valor que este tipo de material possui no mercado, sua reciclagem ocorre apenas nas áreas próximas às fabricas de vidros devido ao custo do transporte que inviabiliza a venda.
Apesar do seu recente desenvolvimento e utilização, comparados aos outros materiais, o plástico é o maior problema dentre todos os tipos de lixo que se acumulam no espaço urbano. Sua natureza química apresenta uma grande resistência à biodegradação. Embora represente somente cerca de 4 a 7% em massa, os plásticos ocupam de 15% a 20% do volume do lixo, o que contribui para que aumentem os custos de coleta, transporte e deposição final e, diminuindo a vida útil de aterros sanitários. Segundo o IPT-CEMPRE (1998), o plástico proveniente do lixo urbano pode ser comercializado em diversas formas e diferentes estágios de preparo, dependendo dos sistemas de coleta e separação, do beneficiamento, da disponibilidade de empresas recicladoras na região etc. como as empresas que se dedicam a reciclagem do plástico preferem adquiri-lo previamente separado e limpo, cabe aos agentes intermediários da cadeia produtiva ter uma estrutura mínima para preparar o material visando atender o mercado consumidor.
Todos estes quatro tipos de materiais recicláveis constituem o que hoje se denomina de mercado da reciclagem. A transformação do lixo em novos objetos envolve uma extensa cadeia produtiva, desconhecida da população em geral. São catadores autônomos, cooperativas de coleta seletiva, pequenos, médios e grandes sucateiros e, na ponta, a indústria recicladora. O emprego de novas tecnologias tem possibilitado a especialização destes agentes em um único tipo ou sub-tipo de material.
A modernização de estabelecimentos que comercializam sucatas aliada à formação de cooperativas de catadores solidifica uma rede de comercialização do lixo através do aumento do número de fixos e fluxos, ou seja, mais locais de beneficiamento de materiais recicláveis e maior intercâmbio entre os diversos agentes.
Cabe destacar ainda que o mercado de reciclagem possui quatro leis fundamentais para seu funcionamento: quantidade, qualidade, freqüência e forma de pagamento. Tais exigências podem dificultar, por exemplo, a implantação de programas de coleta seletiva com participação de cooperativas de catadores. Os principais compradores de materiais recicláveis, as grandes indústrias recicladoras, só compram em grande quantidade, sendo o material selecionado e enfardado, o que determina sua qualidade. A indústria tem preferência por quem fornece sempre o material, observada as características de quantidade e qualidade. Sua forma de pagamento não é a vista, mas, dentro de 30 a 40 dias, o que requer um capital de giro para quem decide fazer parte desta cadeia produtiva. Todos estes elementos trazem dificuldades para as cooperativas que dependem da doação de materiais porque não podem acumular a quantidade necessária na freqüência exigida pela indústria. Dessa forma, resta a estes empreendimentos a venda para intermediários que pagam valores inferiores aos do comprador final.