2. SOLVENCY II’NİN YAPISI VE GETİRDİĞİ YENİLİKLER
2.2.1. Birinci Sütun: Nicel Gereklilikler
2.2.1.4. Mali Yeterlilik Sermaye Gereksinimi (SCR)
Juan Donoso Cortés ilustra, por meio de suas várias obras e de suas idéias às vezes tidas como contraditórias, a complexidade do pensamento conservador, assim como a necessidade constante de revisar esse conceito. Veja-se como foi possível, tanto à corrente política quanto ao próprio autor, caminhar por vias tão díspares, como por exemplo, por meio da necessidade de agir por meio da decisão, sem, no entanto esquecer o seu significado.
No entanto, muitos comentadores de Donoso Cortés não atentam para todas as épocas de sua vida; ou quando o fazem, preferem um período classificado polemicamente de “católico” ou “reacionário”. Sendo assim, o que tentamos fazer nesse capítulo foi, justamente, eliminar essa visão comum e totalizante sobre o autor, que procura enquadrá-lo em uma categoria muito simplificadora.
Para além de todos os preconceitos, é relevante lembrarmos o que diz Quentin Skinner (2007), quando trata das doutrinas políticas chamadas clássicas, grupo do qual, como é sabido, Cortés faz parte.
[...] El peligro específico que se corre en la biografía intelectual es el del anacronismo. A partir de cierta similitud de terminología, puede “descubrirse” que determinado autor ha sostenido una concepción sobre algún tema al que, en principio, no pudo haber tenido la intención de contribuir (SKINNER, 2007, p. 114-
115).
A grande relevância da obra de Skinner é mostrar como nós, atores centrados no presente, podemos cair no erro de encontrar nos clássicos doutrinas já esperadas ou prontas a priori. Este erro se assemelha ao rastreamento de uma doutrina pré-concebida, como se, em certo sentido, a idéia fosse uma entidade autônoma, vagando pela história, independente dos agentes envolvidos no contexto.
Dessa forma, quanto mais próximo o autor estudado chegar da idéia pré-concebida, maior será o seu crédito; e como a contemporaneidade é liberal e racionalista, aqueles que, à primeira vista, nada contribuíram às teorias que efetivamente venceram, seu pensamento é inferiorizado ou deixado de lado e tido como irrelevante. Assim, como Cortés é comumente reconhecido por suas prerrogativas ditatoriais (o que não é verdade, como dissemos acima), seus escritos são taxados como um entrave ao pleno desenvolvimento do ideal inexorável dos liberais.
Outro erro gravíssimo apontado por Skinner é tomar algumas observações ou comentários do pensador político como sendo sua “doutrina”, sobre temas que o historiador aqui do presente está inclinado a esperar (democracia, liberalismo, Estado Laico, Separação dos Poderes, etc.). E mais, quando um autor omite ou não diz o que se espera dele, diz-se que ele fracassou (demonização).
A esse tipo de atitude, Skinner chama de “formas de mitologia das doutrinas políticas”, as quais consistem, sobretudo,
[…] en criticar a los autores clásicos de acuerdo con el supuesto a priori de que
cualquiera de los escritos que redactaron tenía la intención de constituirse en la contribución más sistemática que eran capaces de ofrecer a su disciplina
(SKINNER, 2007, p. 126).
Ou seja, ao se fazer História das Idéias dessa maneira não se dá espaço à observação do contexto e das idéias do autor, em si mesmas, e às questões reais às quais ele se propunha a resolver. Por isso temos sempre que atentar para quem era Donoso, qual era a conjuntura vivida por ele durante toda a sua vida, que problemas enfrentava, o que impulsionava as suas formulações de idéias. Em última instância, Donoso não foi um cientista, no sentido mais contemporâneo do termo, mas sim um político. Portanto, não podemos esperar dele a mesma análise que faríamos nós, hoje, sobre o avanço do socialismo ou das instituições liberais no século XIX.
Por exemplo, Donoso é acusado por fazer uma série de críticas ao gênero humano e à sua natureza perversa, além de tornar a figura do soberano um ser inquestionável. Essas idéias, ainda que fossem totalmente verdadeiras (e neste capítulo fizemos questão de esclarecer os prejulgamentos implícitos sobre a obra donosiana), são frutos de seu tempo, de um período de grandes conflitos dentro da Espanha, e da Europa de um modo geral. Logo, não seria de estranhar que ele tivesse uma visão negativa do homem (ainda que condicionada ao racionalismo), assim como não são estranhas as suas preocupações, acima de tudo, com a efetividade do poder político, e com a eficiência e funcionabilidade do seu exercício.
Cortés foi um homem que, em suma, viveu em um momento bastante turbulento da história política espanhola e européia, e não estava alheio aos problemas reais que dali emergiram. Isso é correto se levarmos em consideração que Donoso Cortés dedicou-se à política devido aos problemas de seu país, quando até então tinha se aproximado das ciências jurídicas e do ofício de advogado.
Portanto, quando os pensadores interpretam a realidade de alguma maneira específica, ou concebem o ser humano nada mais fazem do que responder, a seu próprio modo, questões reais (que, a princípio, podem ser bastante simples) colocadas diante de seus olhos. Nenhum deles, como já afirmou Skinner, e ao contrário do que queriam os positivistas, está alheio às suas próprias pré-concepções. Logo, toda doutrina política deve ser lida de acordo com os pontos de vista lançados pelo autor e não como verdades imutáveis.
Outro ponto interessante citado por Skinner é o desacerto de se ler os autores de modo generalizante, almejando coerência em tudo o que foi dito. Embora existam boas intenções nessa empreitada, já que objetiva-se fazer com o que o pensador político seja acessível ao leitor, existe o problema de atribuir a ele algo que não tem teve a mínima intenção de fazer. Assim, o estudioso de Donoso não deve ler alguns de seus livros, ou mesmo sua obra completa, e explicar ao leitor, a qualquer custo, o epicentro de seu pensamento. Seria como transmitir uma interpretação unificada ou uniforme do autor – um sistema, o que, nesse caso, consistiria no erro de tomar a parte pelo todo.
Skinner (2007, p. 131), igualmente, adverte para o fato de que os clássicos podem ser fragmentados, não obstante os exegetas queiram generalizá-los. Além disso, essa falta de sistematização de idéias é, muitas vezes, motivo de reprovação por parte dos estudiosos do assunto.
As conseqüências desse tipo de trabalho são negativas, visto que descartam obras que colocariam em risco a integridade do “sistema do autor”. Vimos que muitos comentadores de Cortés mantém essa prática, ignorando os escritos de sua juventude. Isso acontece, segundo Quentin Skinner, pois os historiadores abordam o seu material com paradigmas concebidos previamente, e tal ocorrência não deve proceder.
[...] Exigir a la historia del pensamiento una solución a nuestros propios problemas inmediatos es cometer no simplemente una falacia metodológica, sino algo así como un error moral. Pero aprender del pasado – y de lo contrario no podemos aprender en absoluto – la distinción entre lo que es necesario y lo que es el mero producto de nuestros dispositivos contingentes es aprender la clave de la autoconciencia misma