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1. GİRİŞ

1.6. Mali Yapı

este grupo existem dois pontos relevantes que precisam ser destacados, a sua perspectiva regionalista, caso único na guerrilha brasileira do período e a imensa dificuldade em entendê-la com mais profundidade por causa da ausência de documentos oficiais escritos, já que não se tem notícia que tenha imprimido algum programa. 107

Formada no Ceará a partir de um militante expulso da ALN, o amazonense, testemunha ocular do incêndio da sede da UNE em 1964 no Rio de Janeiro, e posteriormente último preso político a ser solto no Brasil, José Salles Oliveira, e por um ex-militante da VAR-Palmares de Pernambuco, que também articularam contatos na Paraíba, a FLNe teve vida curtíssima restrita aos anos de 1971 e 1972. 108

O modus operandi da Frente em nada se distinguia dos troncos que lhe deram origem, expropriações revolucionárias como o que efetivado na coletoria de Bodocó em pleno Sertão pernambucano ou a tentativa de assaltar o Banco do Brasil na cidade do Crato, extremo sul do Ceará.

Esta última ação falira, pois o planejamento da ação fora detectado antecipadamente pelos órgãos de inteligência e repressão. Preso o guerrilheiro José Salles Oliveira as quedas começaram, o que levou a desarticulação da organização e o fuzilamento em Recife do militante João Mendes Araújo, oficialmente num tiroteio com a polícia. 109

Chama atenção no caso desta guerrilha a boa relação que tinham com a ALN que chegou a enviar Arnaldo Cardoso Rocha para fazer o trabalho de ligação com o agrupamento no nordeste, chegando inclusive a ter algum grau de comando na Frente, apesar da independência do grupo irmão.

Outra semelhança deste grupo regional foi o projeto para deflagrar a luta armada no campo, pontualmente na Serra do Araripe, também no sul do Ceará. Lembremos neste caso que a VAR-Palmares cearense também tinha esta perspectiva, assim

107 Vide os casos das Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN) que existiu apenas na

cidade de Ribeirão Preto (SP) e o Movimento Revolucionário Tiradentes MRT) que se organizou apenas no Estado de São Paulo. Portanto ao contrário da FLNe tinha até nos seus nomes perspectivas nacionais. Lembro que o Congresso que discutiria com mais profundidade as características do grupo não aconteceu por causa da sua rápida desarticulação, então o nome adotado provisoriamente poderia ter sido outro, já que existiam outras propostas. Frente de Libertação Nacional, Ação Libertadora do Nordeste ou Frente de Libertação do Nordeste. De qualquer maneira observamos uma tendência à valorização do regional.

108 José Salles de Oliveira foi expulso da ALN por causa do desastre na operação político-

militar no município de São Benedito (Ce). Detalhes estão FARIAS, Airton de. Op. Cit. Cap. 03.

como a ALN local, configurando dessa forma uma espécie de herança para a “filha guerrilheira”.

Termino esta explanação sobre a Frente chamando atenção que tanto a ALN como a VAR-Palmares pretendiam, apesar de não serem maoístas, adotar a guerra popular prolongada chinesa, dando prioridade ao cerco das cidades através do campo. Neste sentido o nordeste do Brasil assim como o norte e o centro-oeste, as regiões mais ruralizadas do território nacional seriam espaços perfeitos para a ação guerrilheira. 110

Neste capítulo tentei mostrar como esse leque de organizações, movimentos, projetos que veio a ser chamado de Nova Esquerda produziu as mais variadas possibilidades para a ação política. Idéias novas que independente da vontade de seus criadores se fundiram com propostas tradicionais, bolchevismo com foquismo, maoísmo com guevarismo, ação sindical, atentados a bomba, e assim consecutivamente.

Eis que a partir desta certeza colocada pela historiografia surgem as primeiras dúvidas com relação aos combatentes cearenses, que informalmente já vinham me afirmando desde anos oitenta que leram pouca teoria revolucionária, o que foi confirmado por uma Dissertação de Mestrado publicada recentemente:

“Uma coisa percebida nas entrevistas foi à confidência dos guerrilheiros, à exceção de um ou outro, sobre o pouco domínio que tinham do marxismo quando de sua atuação entre 1968-1972 – muitos só vieram realmente a ler Marx com profundidade nas prisões, após a derrota da luta armada”. 111

Agora este mal entendido não se deu apenas localmente, pois mesmo na Europa continente na qual se originam a maior parte das teorias da contestação, também possui mitos intelectuais quando o assunto gira em torno de supostos teóricos que teriam guiado os revolucionários. Veja por exemplo o que nos diz Daniel Cohn Bendit sobre a influência filosófica de Herbert Marcuse e ação dos revoltosos do Maio de 1968:

110 É difícil identificar com precisão esse projetos nos documentos da ALN e da VAR-Palmares

porque eles estão fragmentados. Mas quem se der ao trabalho de ler os escritos oficiais de ambas perceberá esta tática militar revolucionária.

“Marcuse foi introduzido tardiamente na França, prova disto é que, até os acontecimentos de Maio de 68, apenas 40 exemplares de Eros e civilização haviam sido vendidos na França”. 112

Voltando ao Ceará, passei a me perguntar: o que então os guerrilheiros locais leram que lhes convenceram a virar rebeldes marxistas? Esta pergunta será à base do segundo capítulo, mas que somente poderá ser respondida após minucioso trabalho de coleta de informações, pois como outro comunista que também participou dos embates teóricos que levaram a formação da Nova Esquerda, o historiador E. P. Thompson indicou:

“A história real revelar-se-á somente depois de pesquisa muito árdua e não irá aparecer ao estalar de dedos esquemáticos”. 113

112 BENDIT, Daniel Cohn. O grande bazar. 1ª edição. São Paulo. Editora Brasiliense. 1988. p.

13.

113 THOMPSON, E. P. Op. Cit. p. 135. Este historiador foi um dos fundadores da New Lleft