Nascido em Kingston em 10 de dezembro de 1924, Michael Norman Manley era o segundo filho de Norman Washington Manley, um dos heróis nacionais da Jamaica, com sua prima Edna Manley, uma renomada escultora inglesa considerada a ‘mãe da arte jamaicana’. O casal se mudou para a Jamaica após o casamento. Após ter servido às forças armadas do Canadá na Segunda Guerra Mundial, Michael Manley foi para Londres, onde se formou na London School of Economics em 1949. Retornou à Jamaica, onde se envolveu com ativismo sindical antes de assumir a veia política da família. Era um membro da classe alta afrodescendente jamaicana, e por sua origem mestiça era classificado como brown. Porém, foi um dos políticos que mais lutou pela igualdade e pelos direitos da população afrodescendente e menos favorecida economicamente naquele país.
Michael Manley foi um produto do tempo dos políticos heróis. As multidões que o admiravam até mesmo o chamavam de ‘Josué’, depois de ter liderado uma passeata de trabalhadores em greve como sindicalista. Na ocasião, Manley comparou aquela situação aos ‘muros de Jericó’, em referência à passagem bíblica do livro de Josué. Esses muros ao redor daquela cidade são um símbolo das dificuldades levantadas por inimigos a fim de impedir uma conquista. Na estória bíblica, Josué, o líder espiritual e político dos hebreus, cria uma estratégia que resulta na queda sobrenatural dos muros. Em um discurso no outono de 1971, Manley falou sobre Deus e sobre a igreja, aparecendo diante da multidão segurando o ‘cajado da correção’, semelhante ao usado por profetas do Velho Testamento, como Josué. Esse cajado foi presenteado por Haile Selassie durante a visita de Manley à Etiópia em 1970, o que
levou o povo a compará-lo à Josué’153. O cajado representava as correções que Manley
prometeu efetuar na Jamaica.
Michael Manley alcançou apoio popular, inclusive dos Rastas, já que sua plataforma eleitoral representava muitas de suas esperanças. Artistas como Bob Marley, Max Romeo e Clancy Eccles acompanharam Manley e se apresentaram em seus comícios em demonstração de seu apoio. Bob Marley, ele mesmo um Rastafári, endossou Manley por ter percebido seu potencial para mudanças. Outros que apoiaram Manley foram Junior Byles e Delroy Wilson, que até mesmo compuseram a música ‘Better Must Come’ (“O melhor há de vir”) para os políticos e para os jovens, a qual foi usada na campanha de Manley. O resultado foi que na eleição de 1972, o PNP ganhou com maioria mais ampla da história da Jamaica.
Essencial para o sucesso da campanha de Manley e do PNP, esses artistas de reggae conquistaram o apoio do segmento Rastafári como um todo, grupo conhecido por não participar de eleições como sinal da rejeição ao sistema político dominado pelos brancos, ao qual se referem como ‘politricks’, um jogo de palavras que significa ‘truques políticos’. Naquele ano o grupo abriu uma exceção, apesar do número de Rastas que participou do processo eleitoral não foi identificado, devido ao sucesso da campanha e das promessas que Manley fez, muitas das quais foram cumpridas. A importância de Michael Manley para a ascensão dos Rastafáris é considerada por muitos como sendo tão marcante quanto a importância de Bob Marley.
Após vencer as eleições, Michael Norman Manley deu início às reformas que havia prometido aos Rastafáris e ao povo da Jamaica. Só em 1972, Manley implementou mais de doze reformas, inclusive um programa de merenda escolar para crianças do ensino primário e educação de graça até o nível universitário; antigas leis sobre filhos ilegítimos foram substituídas por uma legislação que deu aos filhos bastardos o mesmo direito à herança que aos legítimos; as mulheres passaram a receber salários iguais por trabalhos iguais; uma nova lei concedeu às mães três meses de licença maternidade; a idade para votar foi diminuída; um programa de moradia construiu casas para família de baixa renda e para famílias de classe média; um programa de arrendamento de terras acelerou a entrega de terra cultivável para moradores pobres da região rural; foi implementado um programa de alfabetização de adultos; os impostos da bauxita foram negociados, dando ao governo nova renda; a criação de novos empregos diminuiu a taxa de desemprego; foi efetuada uma redistribuição do plano de renda com o intuito de incrementar a renda nacional, entre outras realizações que contribuíram para o melhoramento da vida dos jamaicanos.
Algumas das reformas implementadas por Michael Manley afetou diretamente os Rastas. Primeiramente, a diminuição da idade eleitoral permitiu aos Rastafáris participar mais ativamente dos aspectos democráticos do governo, já que constituem uma ampla camada da população jamaicana – os adeptos do Rastafári são jovens entre as idades de dezessete e trinta e cinco anos. Em segundo lugar, o programa de arrendamento da terra permitiu que os Rastas da camada de baixa renda rural, em sua maioria vegetarianos que defendem a necessidade de cultivar sua própria alimentação, garantissem uma dieta saudável e rejeitassem o alto nível de substâncias químicas na comida importada comercializada na Jamaica. Os Rastafáris tinham estado na linha de frente da divulgação da necessidade de uma política alimentar na Jamaica.
Michael Manley exerceu um papel importante na tarefa de tornar os Rastafáris mais visíveis e respeitados. O regime de Manley preparou um cenário por meio do qual o
movimento Rastafári pode revelar-se para a sociedade jamaicana, pois proporcionou para a comunidade espaço e liberdade para conduzirem suas atividades rotineiras, tais como a habilidade de importar literatura negra dos Estados Unidos ou da Inglaterra. Além do mais, esse novo governo permitiu que líderes negros radicais, outrora banidos do país, visitassem e país e ali tivessem o direito de expressão. Aos Rastafáris também foi concedido o direito de usar as instalações e propriedades do governo em qualquer lugar do país. Foi durante esse período que houve uma grande expansão do sistema de valores e visão de mundo Rastafáris pelo Caribe e na América do Norte.
Contudo, o mandato de Manley foi acompanhado por muitos tumultos. O custo daquelas realizações excedeu os limites. Na agenda do partido estava uma clara dedicação à democracia socialista, o que assustou o capital americano e canadense, que começou a sair do país. O apoio de Manley a Cuba elevou o medo de desestabilização da Jamaica. Além do mais, a oposição iniciou um programa calculado de violência. O jornal da ala da direita Daily Gleaner contribuiu para essa queda na popularidade. Na verdade, a Jamaica estava em tumulto desde 1976. Manley decretou um estado de emergência e mandou prender pessoas suspeitas de insuflar violência, principalmente membros de tropas militares e líderes do JLP. Ainda durante o estado de emergência, foi realizada outra eleição, em que o PNP venceu o segundo mandato seguido, embora o crescente medo de que a Jamaica se tornasse um país comunista se espalhava, especialmente na classe alta e na classe média. O aumento da migração, principalmente para os Estados Unidos e Canadá, causou um colapso na economia principalmente causado por sérios problemas de endividamento financeiro. O engajamento posterior com o FMI armou o pano de fundo para o declínio do governo de Manley, o qual levou à pior derrota eleitoral em outubro de 1980. Segundo Meeks,
Então, Manley, que tinha inaugurado a década de 1970 com tanta esperança de mudar a Jamaica, saiu dela amargamente, com os brados vitoriosos do JLP ressoando em seus ouvidos juntamente com as palavras de [Edward] Seaga em seu discurso inaugural no qual ele se compromete a ‘erradicar o radicalismo’ da Jamaica, de uma vez por todas (MEEKS, 2000, p. 125) 154.
Durante o segundo mandato de Manley entre 1989 e 1992, ele já foi visto de maneira diferente, por ter promulgado menos leis e sua agenda não mais girava em torno de igualdade de classe típica da extinta União Soviética, que na época já estava em vias de entrar
154 Texto original: “Manley, then, who had entered the decade of the seventies with so much hope for changing Jamaica, departed bitterly at the end of it, with the victorious bells of the JLP ringing in his ears along with the words of [Edward] Seaga’s inaugural speech in which he committed himself to ‘eradicating radicalism’ from Jamaica, once and for all” (2000:125).
em colapso. Dessa vez, Manley realizou uma mudança de paradigma ao defender princípios de mercado livre inerentes à ideologia subjacente ao neoliberalismo. Durante o mesmo período o PNP também se concentrou na ampliação das oportunidades econômicas da Jamaica, afirmando que essas políticas orientadas para o mercado eram a opção disponível na nova ordem mundial.
Devido a problemas de saúde, Michael Manley renunciou, passando o seu mandato para P.J. Patterson, que venceu três eleições seguidas. Quando da morte de Manley em virtude de cancer de próstata em 6 de março de 1997, dezenas de milhares de cidadãos em luto se aglomeraram no funeral que durou nove noites. Como Monroe aponta, vai demorar para que aquele tempo de intolerância contra a injustiça e iniquidade, que faz parte da agenda Rastafári, varra a Jamaica novamente. Nas palavras de Meeks, eles
[...] lastimaram não somente pela morte de um homem […] mas pela perda da década de 1970. Enlutaram-se por toda uma era, em que pela primeira vez o povo negro e pobre da Jamaica estava começando a ter uma voz, embora aquela voz, ainda muda, teve que ser amplificada pelas trombetas de Josué (2000, p. 128). 155