O município de Mossoró cumpre, pelo menos formalmente ou em tese, os requisitos da legislação urbana brasileira. A cidade enfrenta muitos dramas urbanos que são comuns à realidade nacional, inclusive alguns que habitualmente são mais relacionados aos grandes centros, até porque há algum tempo as diferenças entre as cidades já não se baseiam somente na hierarquia do tamanho. Dessa forma, na medida em que se defende ser a legislação da política urbana brasileira detentora de méritos, principalmente quando se discute a questão da busca de amenização dos problemas existentes, ela tem condições de auxiliar nestes propósitos. Assim, são percebidos os dilemas que aparecem, essencialmente, resultantes do paradoxo da percepção entre os problemas existentes, diante de uma legislação que pode ser utilizada, com resultados promissores, se planejadas as intervenções possíveis. Mossoró, pode se dizer, vivencia esses embates, sem, todavia, uma ampla consciência de sua sociedade ou dos seus gestores das possibilidades de seus enfrentamentos.
Neste tópico faremos a exposição de contrastes, referentes a esta discussão, no seu conjunto, mas continuaremos a abordar as especificidades existentes ao longo do trabalho. Partimos do entendimento de que Mossoró cumpre os requisitos do Estatuto da Cidade, inclusive fazendo emprego de ações solenes para realçar as posturas anunciadas como gestão administrativa cumpridora das leis. Mesmo sob pressão em determinadas ocasiões, como os referentes aos prazos disponíveis para a conclusão das demandas, o artifício de empregar a mídia nas articulações de estratégias, tem sido favorável nas repercussões das ações, como as que ensejam serem os administradores pessoas que detém áureas de eficiência e compromisso com a sociedade. Tais fatores são também aproveitados para lapidar a imagem destes agentes, que normalmente são entes da oligarquia histórica que, avidamente, controla politicamente o município.
A primeira ação neste sentido foi à elaboração do Plano Diretor em vigência. As cidades, após a aprovação do Estatuto da Cidade em 2001, teriam até cinco anos para sua elaboração,
isto é, até o segundo semestre de 2006. Mossoró conclui sua elaboração no limite do prazo, no mês de outubro de 2006, quase um ano e meio após iniciados os trabalhos.
A Lei 11.124/05 é um reflexo desses novos momentos que o país vivencia, principalmente na consideração das expectativas de se aplicar os recursos inerentes aos seus enunciados. Esta Lei dispõe sobre o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS), que cria o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS). Tais instituições condicionam a formação de um Conselho Municipal de Habitação, em situação semelhante ao Conselho da Cidade, também resultado desta Lei.
Mossoró também cumpre suas exigências ao elaborar o Plano Local de Habitação de Interesse Social (PLHIS), no ano de 2009, e cria o seu Conselho Muncipal da Cidade de Mossoró (ConCid) no mês de junho de 2011. Também neste ano a gestão municipal estabelece a adesão ao Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social.
Com estas considerações é possível presumir que o contexto mossoroense ponha em prática iniciativas de ordem política ou de interesse popular, que contribuam, sobretudo, com mudanças socioespaciais voltadas às alterações da realidade, em virtude destas condições institucionais. No entanto, diretamente, não é assim que acontece. É importante reafirmar que estamos analisando uma cidade socialmente desigual, administrativa e politicamente centralizada e oligárquica, cujos fundamentos destas condições são históricos. Neste sentido, consequências e resultados desta situação podem ser observadas, considerando a discussão sobre a conjuntura da legislação à disposição do município e a ausência de efetiva aplicação deste conjunto normativo, que podem constituir um quadro de contradições, como de fato acontece.
Começamos com a discussão sobre a ausência de iniciativas pelo poder gestor de Mossoró em aplicar efetivamente o Plano Diretor. Um exemplo é a ausência da disposição dos instrumentos urbanísticos voltados ao controle da especulação imobiliária e do aproveitamento eficiente do espaço urbano, como é o caso do IPTU progressivo no tempo. Embora com situações que revelam o problema, como trataremos com detalhamento no tópico 4.1, os gestores das secretarias municipais diretamente responsáveis pela questão (SEDETEMA e Secretaria da Tributação) admitem que este instrumento urbanístico nunca foi empregado em Mossoró, tampouco exista perspectiva de fazê-lo.
Outra questão importante refere-se à ausência de participação popular no planejamento de ações administrativas. O PDDM contempla a perspectiva da participação popular nas ações políticas da gestão municipal mesmo que de forma consultiva. Contudo, não há ações políticas ou perspectivas de estabelecer um processo de inserção social nas ações
administrativas da cidade. A manifestação mais visível nesta questão é a presença do líder comunitário, existente em cada bairro. No entanto, se tratam de pessoas que normalmente expressam fortes compromissos político-partidários com os gestores municipais, assim como com membros do legislativo, aos quais professam ampla fidelidade. Sobre esta questão da importância da participação popular nas ações de planejamento e gestão da cidade Souza (2004) diz:
Sob um ângulo autonomista, os instrumentos de planejamento, por mais relevantes e criativos que sejam, só adquirem verdadeira importância ao terem a sua operacionalização (regulamentação) e a sua implementação influenciadas e monitoradas pelos cidadãos. Caso contrário, corre-se o risco de atribuir aos instrumentos, em si mesmos, a responsabilidade de instaurarem maior justiça social, independentemente das relações de poder e de quem esteja decidindo, na prática, sobre os fins do planejamento e da gestão da cidade (SOUZA, 2004, p. 321).
É daí que se pode concluir que a desmobilização da sociedade ante seus proveitos, como temos interpretado em Mossoró, se torna oportuna e estratégica no jogo de interesses que busca expressão na dinâmica da cidade.
Mais uma referência das contradições existentes é a marcante diferença no que concerne à estrutura espacial das áreas centrais, em comparação com as áreas periféricas da cidade. Componentes da acessibilidade e serviços essenciais são mais presentes naqueles setores que adquiriram uma ênfase socioespacial e a expressam na própria estruturação urbana que, por sua vez, é refletida no valor de mercado dos imóveis. Estes, predominantemente são habitados por segmentos sociais de poder aquisitivo privilegiado. Apesar de se tratar de uma situação claramente perceptível, as intervenções da administração municipal mantém-se pontuais e fragmentadas, o que incentiva o isolamento, o que pode ser interpretado como a segregação de certos setores, sendo estes predominantemente ocupados pela habitação popular local. O próximo capítulo especificará componentes dessa temática.
Outro assunto que endossa a interpretação que estamos fazendo a respeito da relação contraditória entre legislação e gestão urbana se refere aos problemas habitacionais enfrentados por expressiva parcela da população mossoroense. Temática que também será especificada em tópicos do próximo capítulo, propomos, com o endosso das referências de pesquisa neste assunto, que a cidade está dividida em duas alas: a cidade formal, “legal”, e a cidade informal, “ilegal”. A primeira, fundamentada na presença de imóveis com registros que os tornam aptos a cumprir suas funções, de acordo com a legislação vigente e, a segunda, o oposto disso. Em Mossoró tal questão se compõe em um problema que afeta expressivas
porções da cidade, com maior gravidade na sua periferia em que de forma dominante se concentra a habitação popular, que tem na sua composição, inclusive, imóveis residenciais construídos em políticas públicas do estado, como é o caso de conjuntos habitacionais. Porém é necessário lembrar que o poder público tem responsabilidades no agravamento da situação e, embora se disponha de instrumentos de legislação viáveis para serem empregados em intervenções como estas, muito pouco tem sido feito. Sem esquecer do déficit habitacional e da autoconstrução, intimamente relacionados com o problema.
Também como componente do conjunto de contradições aqui relacionado está a criação do Conselho Municipal da Cidade de Mossoró (ConCid), em junho de 2011. Porém a aprovação de seu Regimento Interno e sua confirmação por parte da prefeita municipal somente acontece em 04 de abril de 2012, isto é, quase um ano após sua criação. Composto de 19 membros, cada um é acompanhado de respectivo suplente, para um mandato de dois anos. Conforme especificado no Termo de Reunião Ordinária do Conselho Municipal da Cidade, o Conselho tem a função de órgão consultivo e deliberativo, compondo-se, assim, de autoridade para alterar o PDDM. Sua importância é inegável por ser constituído de representantes de órgãos públicos e organizações não governamentais, mesmo tendo a Prefeitura significativa representatividade no colegiado. Ainda conforme a ata da reunião destacada ficou estabelecido que as reuniões fossem realizadas mensalmente.
É com estes exemplos de situações, portanto, que podemos compreender a ausência de políticas públicas ou ações de governo voltadas à aplicação efetiva do Estatuto da Cidade por intermédio do PDDM em toda a cidade. A lacuna existente no tocante a concepção de seu significado se soma ao desinteresse expressado na ausência de inclusão dos diversos segmentos sociais presentes na cidade nas ações de planejamento de políticas e na gestão urbana, como meta de restrição da sua fragmentação, fortalecidas nas assimetrias socioeconômicas, e procure estimular a conversão de toda a sociedade em se tornar ativa participante da aplicação da legislação disponível, de fato.
3.5 ESTATUTO DA CIDADE E PLANEJAMENTO URBANO EM MOSSORÓ: TEORIA E