BÖLÜM 3: HAZİNE MÜSTEŞARLIĞI PORTFÖYÜ
3.4. KİT - Merkezi Yönetim Bütçesi İlişkisi
3.4.2. KİT’lere Yapılan Görev Zararı ve Kamu Sermayeli Bankalara
Como defendemos desde o primeiro capítulo, a expansão urbana de Mossoró traz, no seu conjunto, as influências das etapas e períodos econômicos pelos quais o lugar vivenciou. Evidentemente estes aspectos não necessariamente estão claros e distintos na morfologia espacial, principalmente porque, com a passagem do tempo, a dinâmica espacial e sua permanente reprodução fundamenta a fixação de novos objetos e a afirmação de movimentos que continuarão a agir em prol dos interesses econômicos, e de outros, que contribuem para asseverar a complexidade espacial, conforme já defendemos em outro ponto deste trabalho. Contudo, é possível a localização dos traços históricos das ações realizadas na composição da forma espacial.
Na defesa que fazemos deste ponto de vista, entendemos que os processos econômicos têm inegáveis distinções no movimento de reprodução do espaço. Não explicam, por si só, os processos e conjunturas decorrentes de seu movimento, mas assumem protagonismo inegável, entre outras razões, também pela composição de influência com outros fatores. O espaço urbano contemporâneo de Mossoró tem sua complexidade. Podemos aproveitar o que afirma Milton Santos quando discorre a respeito da reprodução do espaço geográfico quando afirma que nesta condição este espaço revela uma intrincada composição de aspectos, de objetos, de
ações e seus híbridos (SANTOS, 1997a), denotando, nos arranjos constituídos, peculiaridades, mas também convergências com a realidade brasileira. O contexto de Mossoró tem adequações com esta animação apontada.
Neste tópico do trabalho, partimos da definição de que foi a partir da década de 1960, com mais ênfase na década de 1970, que a cidade de Mossoró passou a receber intervenções públicas habitacionais no âmbito dos programas nacionais de desenvolvimento urbano iniciadas no período dos governos militares. Como destacam Elias e Pequeno (2010) e Pequeno e Elias (2010), neste período o Estado promove ações públicas de produção habitacional nas suas diferentes esferas:
a) federal, a partir da liberação de recursos provenientes do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), obtidos junto ao Banco Nacional da Habitação (BNH); b) estadual, através da Companhia Estadual da Habitação (Cohab/RN), construindo milhares de moradias e implementando redes de infraestruturas urbana; c) municipal, mediante a desapropriação de imóveis para a implantação de conjuntos habitacionais, assim como através da formulação de Plano Diretor de Organização do espaço Urbano de Mossoró, em 1975, o qual definiu em seu zoneamento, os usos compatíveis com as possibilidades trazidas com a política nacional de desenvolvimento estabelecida pelo governo federal (ELIAS; PEQUENO, 2010, p. 240). Não obstante, a ação destas três forças reguladoras e intervenientes mencionadas pelos autores na citação acima, às quais, conforme os arranjos de suas atuações, buscavam forjar um verdadeiro arquétipo de domínio e controle, isto se estruturava numa hierarquia e se dava acompanhada de manifestações, de quaisquer formas, de quem delas muitas vezes nem faziam parte, como segmentos empresariais interessados nos capitais voltados à produção estrutural urbana.
Nesse arranjo, é construído em Mossoró o primeiro conjunto habitacional da cidade, no ano de 1968. O empreendimento, denominado Conjunto Walfredo Gurgel, no atual bairro Planalto 13 de Maio, foi composto de 550 unidades habitacionais, sendo dividido em dois blocos, em que um possuía 500 residências e o outro era composto por 50 casas. Ele teve, na sua localização, uma marcante razão para questionamentos. É que o mesmo foi edificado numa periferia distante do espaço urbano, situado à margem direita do rio Mossoró, num setor que ainda se encontrava num período inicial de povoamento e, como era voltado para segmento social de renda média, daí se originavam divergências. Até porque era aos segmentos mais bem postados que se voltavam às primeiras intervenções do BNH em todo o país, essencialmente pela relatada cooptação e domínio político das instâncias administrativas do governo. A este respeito, Maricato (2008) defende que, desde seus primeiros momentos
nas políticas públicas de habitação popular, os conjuntos habitacionais foram localizados em áreas desvalorizadas, em zonas rurais ou periferias, dando continuidade à progressiva presença de vazios urbanos e a expansão horizontal urbana, cujo interesse era alimentar a especulação imobiliária. Esta condição assume consistência histórica no contexto do Brasil, onde o mercado de terras urbanas se afirma ao longo do século XX, encontrando-se, nos dias atuais, fortemente condicionado aos propósitos dos interesses do mercado. Dessa forma, o caso de Mossoró, em muitos aspectos, tem convergências com o contexto nacional.
Em Mossoró a responsabilidade e a atribuição de escolha das áreas para a localização destes conjuntos habitacionais era da prefeitura municipal. Com esta condição o poder público municipal interfere diretamente, desde as primeiras intervenções públicas, na expansão urbana da cidade, consolidando claramente situações favoráveis que apontam privilégios ao mercado imobiliário privado e determinados segmentos sociais já dotados de condições socioeconômicas vantajosas. Nada distante dos processos de ação administrativa então existente no Brasil no período.
Conforme já discutimos no primeiro capítulo, a década de 1970 foi importante no que diz respeito às transformações espaciais de Mossoró, sendo a cidade beneficiada por um conjunto de intervenções públicas, seja no tocante à sua inclusão em programas governamentais como o citado Programa Nacional de Desenvolvimento Urbano Para Cidades de Porte Médio, seja nos investimentos de infraestrutura e habitação, e da oferta de serviços públicos. Um marco dessa dinâmica incorporada pela cidade foi a elaboração do primeiro plano diretor municipal em 1975, principalmente pela simbologia representada pelo mesmo enquanto marco político governamental que colocava a cidade na tendência regulatória positivista do processo de planejamento urbano modernista/funcionalista que se consolidava, principalmente na Europa e Estados Unidos por exemplo, tão aproveitada pelo regime militar brasileiro. Esta condição estabeleceu componentes de integração de Mossoró a então dinâmica espacial nacional, temática que abordaremos mais à frente ainda neste capítulo.
Uma definição deste Plano Diretor de 1975 para Mossoró foi o estabelecimento de um zoneamento do espaço urbano, que atribuía funções a setores da cidade, como aconteceu com a delimitação do distrito industrial e a determinação de acesso de todos os setores da cidade à área central. Este Plano consolida e assegura o eixo de expansão urbana no sentido sudeste- noroeste, condição da reprodução socioeconômica deste espaço naquele período em razão, essencialmente, de a dinâmica local tirar importantes proveitos da localização da ferrovia que cortava a sede do município neste sentido. Ademais, é necessário dizer que este Plano, em geral, não supera sua condição formal, tendo sido restritamente aproveitado enquanto
instrumento de intervenção urbana legítima. Dizemos isso, principalmente pela inexistência de sua referência em intercessões do poder público municipal, seja na literatura produzida sobre a dinâmica urbana local, seja no que se refere as ações aludidas pela própria Prefeitura Municipal, que não faz menção ao emprego desta Lei em intervenções urbanísticas específicas. Neste sentido trazemos a opinião de Villaça (2012) que diz que tanto o plano diretor quanto as ações de zoneamento, normalmente nele apontadas, são muito mais aproveitadas na conotação ideológica, pois sua efetiva aplicação é pouco vislumbrada.
De acordo com o Plano Local de Habitação de Interesse Social (PLHIS), voltado ao cumprimento dos requisitos da Política Nacional de Habitação, elaborado em 2009, Mossoró possuía até a conclusão deste Plano, 51 conjuntos habitacionais, sendo 15 construídos pela Cohab e outros pelo Inocoop, Prefeitura Municipal, governo do estado, além de alguns financiados pela Caixa Econômica Federal, podendo estes conjuntos residenciais alcançar, no geral, como já afirmado no capítulo inicial, o número de 25 mil imóveis, o que equivale a aproximadamente 33% das habitações da cidade. Porém, depois deste período foi entregue o conjunto Monsenhor Américo Simonetti, contendo 802 residências e, atualmente, outros estão em construção pelo Programa Minha Casa Minha Vida, o que acrescenta mais unidades de domicílios ao número absoluto de residências oriundas destas políticas urbanas à cidade. Por sua vez estes empreendimentos representam também, predominantemente, a disposição de edificações planejadas de habitação popular.
Os conjuntos habitacionais construídos nas décadas de 1970 e 1980 foram importantes para a expansão espacial da cidade e sua formação urbana. Como afirma Rocha (2005, p. 189), “[...] esses conjuntos definiram um novo formato da cidade, valorizando a periferia e áreas suburbanas e sinalizando para as tendências de expansão urbana da cidade”. No entanto, além do tributo ao incremento morfológico urbano, que confirma a extensão espacial no sentido noroeste-sudeste, esses complexos residenciais traduzem também as dicotomias e desigualdades sociais, uma característica da sociedade brasileira. Como relatam Elias e Pequeno (2010), as diferenças de público alvo para os conjuntos da Cohab/RN e para os do Inocoop contribuem na definição da localização dos mesmos, ou seja, os conjuntos populares mais distantes, edificados pela Cohab/RN, predominantemente situados no setor noroeste da cidade, foram destinados para segmentos sociais de renda média-baixa, enquanto os vinculados ao Inocoop foram ocupados por extratos sociais relativamente superiores, localizados nas áreas mais próximas dos setores de interesse do mercado imobiliário, a oeste da área central, onde se consolidou um eixo de (auto)segregração residencial, até o presente ocupado, predominantemente, por famílias de maior poder aquisitivo da cidade que tem sido
importante na afirmação deste trecho urbano como o que abriga a nova centralidade espacial que se encontra em evolução.
Elias e Pequeno (2010) e Pequeno e Elias (2010) também enfatizam que, conforme foram executadas, essas políticas habitacionais implementadas em Mossoró, principalmente nas décadas de 1970 e 1980, ensejaram um movimento de crescimento urbano descontínuo, além da composição de um quadro de disparidades socioespaciais quanto ao acesso aos equipamentos sociais que se concentravam predominantemente no centro da cidade e áreas vizinhas. Outro problema enfrentado dizia respeito à questão da mobilidade, pois os transportes públicos não realizavam o atendimento a todas as áreas habitadas, como acontece até hoje, sendo uma problemática vinculada diretamente aos segmentos sociais mais pobres, representantes diretos dos segmentos sociais que ocupam a habitação popular.
O incremento residencial traduzido por essas ações políticas na cidade não foi suficiente para solucionar os problemas da falta de moradia, por muitas razões. Entre elas não se pode deixar de mencionar que as intervenções em análise se tratavam de ações pouco articuladas com os dramas vividos socialmente, além da restrita interação com a realidade local. Por dizer respeito a um centro regional que possui influência espacial numa determinada abrangência, esse município passava por transições socioeconômicas que se acentuaram nas décadas de 1960, 1970 e 1980 principalmente, tendo, por sua vez, marcantes influências na dinâmica espacial urbana. Com isso, uma consequência foi sua configuração como destino de migrantes oriundos, essencialmente, de cidades vizinhas, os quais buscavam alternativas de sobrevivência diante de limitações em suas localidades de origem, impostas por muitos fatores como por exemplo pelas secas estacionais da região e suas consequências. Ademais, as políticas públicas empregadas, seja para a questão habitacional ou de outra conotação, não representavam intercessões de interesse social voltadas propriamente aos objetivos da busca de qualidade de vida pela população.
Nesse sentido, Bolaffi (1982) se reporta especificamente à questão da habitação no regime militar e as reações governamentais ante os problemas presentes. Daí, afirma que a questão da habitação popular é um falso problema quando gestado pelo governo federal. Isso porque, para o autor, o governo converte a questão em ideologia, agindo apenas por conveniência e desprestigia camadas sociais mais necessitadas do acesso à moradia, em razão das forças impostas pelas camadas sociais mais bem situadas no arranjo social disposto. Como já vimos no primeiro capítulo deste trabalho, esta situação também tem conotação histórica quando pudemos verificar que, desde o governo Getúlio Vargas a habitação já havia sido convertida em questão ideológica à disposição do governo que dela fez os usos que
considerou conveniente. Novamente cabe dizer que tal problemática é intrinsecamente pertencente às classes sociais mais pobres, ou seja, aos segmentos sociais que ocupam ou buscam ocupar a habitação popular.
O fim do regime militar em 1985, assim como a extinção do BNH, tiveram repercussão no movimento de expansão urbana de Mossoró, somados às crises econômicas sucessivas ao longo de toda esta década. A ausência de incentivos financeiros gestados até então pela Cohab e Inocoop, fornecidos pelo BNH, inibiram as construções de habitações, assim como dos sistemas de infraestrutura, que penalizaram mais diretamente o subúrbio e a periferia da cidade. Com a Constituição de 1988 e suas perspectivas de mudanças no que se refere à condução da gestão do município de forma mais autônoma é que acontecem mais iniciativas locais nesse sentido. Rocha (2005) discute essa nova condição:
O quadro constitucional vigente, estabelecido a partir de 1988 com a aprovação da Constituição da República Federativa do Brasil, das Constituições Estaduais em 1989 e das Leis Orgânicas Municipais, em 1990, ocasionou mudanças substanciais na capacidade de atuação do Município. Uma dessas mudanças diz respeito a uma maior participação na dotação de recursos tributários, diferentemente da realidade anterior normatizada pela Constituição Federal de 1967, a qual centralizava o volume tributário em favor da União (ROCHA, 2005, p. 195).
No entanto, mesmo com estas mudanças anunciadas, a realidade social não incorpora transformações muito significativas. Permanecem as desigualdades, embora seja o município uma referência regional que naquele período tratado já se constituía em polo produtor de petróleo e fruticultura, além de continuar conduzindo o sal como um marco da economia, ao mesmo tempo em que se encontrava em expansão no setor terciário, muito demandado local e regionalmente.
Diante do crescimento econômico que ocorre ao longo do tempo e que tem seus reflexos na extensão da área urbana, a Prefeitura de Mossoró sanciona a Lei nº 502, em 05 de junho de 1990. A mesma cria, delimita e denomina mais cinco bairros da cidade. São eles: Lagoa do Mato, Santa Delmira, Redenção, Santa Júlia e Rincão. Os quatro primeiros situam- se na zona Norte da cidade e o último na zona Sul, de acordo com a classificação e zoneamento da gestão municipal. Com esta medida, têm alterados suas áreas e limites os bairros Belo Horizonte, Santo Antonio, Bom Jardim, Barrocas e Abolição que com estes recém-criados passaram a se limitar. Predominantemente essas subdivisões da cidade, então criadas, se situam na periferia, por isso, como aborda Rocha (op. cit.), as características do cotidiano da vida social nessas áreas têm, em muitos traços, semelhanças com as práticas
rurais, sem falar da rusticidade dos processos de vida que é endossada pela precariedade da infraestrutura. O que justifica a compreensão de que tais medidas são decisões políticas efetivadas sem sinais evidentes de planejamento e discussão com a sociedade.
O crescimento da zona urbana, ao longo do tempo, fazia a inclusão no seu contexto de segmentos sociais que já conviviam com precariedades e limitações. A criação destes bairros, assim, amplia um quadro de problemas na medida em que se trata de uma ação com claro viés burocrático, na qual não ocorre a articulação dos habitantes aos processos urbanos existentes na cidade, mantendo-os vinculados a uma periferia componente de um espaço urbano fragmentado. A moradia popular que predominantemente ocupam, desde então, tem sido retratada como um exemplo destas limitações em razão, principalmente, da precariedade estrutural em que boa parte delas se constitui, além das fragilidades infraestruturais que caracterizam a periferia da cidade. Assim, não se deve deixar de considerar a permanente perspectiva de expansão do espaço urbano. Contudo, é importante considerar que tal processo não pode ser feito de forma protocolar, com restrita ou sem qualquer discussão com o contexto social que já ocupa o espaço, para não somente instituir, por decreto, um novo distrito da cidade, mas para que, junto com isso, possam ser planejadas intervenções que tenham a capacidade de acompanhar a complexidade inerente à expansão do espaço urbano que se torna inevitável por este motivo.
A criação destes cinco bairros realiza a primeira alteração formal da estrutura urbana de Mossoró definida pela Lei 44/1980, isto é, dez anos depois. Naquela medida foram delimitados 23 bairros. Com a Lei 502/90 passam a existir 28 subdivisões do território urbano.
No segundo semestre de 2011 foram criados mais dois bairros na cidade, o bairro Alto da Bela Vista e o bairro Monsenhor Américo Simonetti. Ambos situados na zona Norte da cidade. O bairro Alto da Bela Vista foi instituído com o propósito de atender as demandas de ordenamento oriundas da emergência da nova centralidade urbana que tem se afirmado no setor noroeste da cidade, na qual situa-se o shopping center, uma universidade particular, o supermercado atacadista filial de rede internacional do segmento, além de condomínios e loteamentos requintados que fizeram sua opção por se instalar neste trecho urbano, dando continuidade ao setor nobre estruturado pelo bairro Nova Betânia, do qual é vizinho e interligado. Já o bairro Monsenhor Américo Simonetti situa-se na periferia norte, sendo também área de extensão de conjuntos habitacionais, os quais predominantemente correspondem moradia social.
O Mapa 0 abaixo apresenta a distribuição presente dos 30 bairros da zona urbana de Mossoró, com a representação dos períodos em que foram instituídos através da legislação da cidade que era elaborada no propósito, certamente, de acompanhar o crescimento e dinâmica da cidade, sendo sua configuração na carta uma representação de grupos de bairros seccionados pelas respectivas épocas de criação. É possível identificar na projeção as direções ou sentidos assumidos pela expansão do espaço urbano a partir de cada período delimitado.
Mapa 06 - Expansão urbana de Mossoró a partir da criação dos bairros da cidade e seus respectivos períodos
Fonte: Levantamentos da pesquisa.
É possível perceber que, dos setores da cidade, os que tiveram maior extensão dos anos 1990 até o presente, foram o Norte e o Oeste. Neste período o setor Sul não integrou qualquer nova agregação territorial representativa de bairro. Esta projeção contribui para o entendimento de que o setor Oeste é uma das áreas de maior valorização imobiliária, assim como se constitui numa das circunscrições mais bem estruturadas locais.
3.4 ESTATUTO DA CIDADE E A QUESTÃO HABITACIONAL EM MOSSORÓ: