8. BULGULAR, ÖNERİLER VE GENEL SONUÇ
3.4. Malatya Kentinde Araştırmanın Konusu ile Doğrudan İlgil
Após a verificação dos argumentos utilizados pelos Ministros com o objetivo de justificar as motivações que os levaram a votar pela procedência ou improcedência do pedido, foram selecionados os temas mais explorados em seus votos como a Religião, a Ciência, o Direito e questões associadas ao gênero feminino.
A partir disso e dando prosseguimento à análise proposta, os argumentos trabalhados nesse tópico são associados ao axioma de que a República Federativa do Brasil é um Estado laico e não deve se pautar em crenças religiosas para decidir assuntos de interesse público.
Nesse sentido, M1, após justificar, preliminarmente, sua posição a respeito do tema em discussão, inicia o primeiro capítulo de seu voto denominado “A República Federativa do
Brasil como Estado laico” com um trecho do Evangelho de São Marcos, capítulo XII,
versículos 13 a 17: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. É interessante notar que o primeiro argumento utilizado por M1 para explicar que as decisões estatais devem estar dissociadas de crenças religiosas é uma citação bíblica. A intenção do jurista ao utilizar o discurso religioso, que é tão dogmático como o discurso jurídico, seria, talvez, mostrar que no próprio Livro Sagrado é possível depreender que Estado e religião devem ser apartados e um não pode determinar formas de condutas no universo do outro. Mostrar que o Estado está associado ao público e as crenças religiosas às esferas individuais é importante para a desconstrução de todos os possíveis argumentos religiosos que poderiam ser trazidos, posteriormente, ao julgamento.
Além de refutar por antecipação possíveis argumentos de cunho religioso os quais poderiam aparecer no voto de algum dos Ministros que ainda iriam se manifestar, a citação parece ser utilizada, por M1, com o propósito de responder a outras vozes provenientes de determinados grupos sociais os quais são contra a antecipação do parto de anencéfalos e que se utilizam de propósitos e crenças religiosas para se justificarem.
M1 procura, então, demonstrar momentos nos quais Estado e Igreja se confundiram e, através de um levantamento histórico, explicita alguns destes. No excerto abaixo, o Ministro
Relator faz referência ao texto constitucional de 1824 no qual constam referências expressas à Religião Católica.
A Constituição do Império, de 25 de março de 1824, inicia-se com “EM NOME DA SANTÍSSIMA TRINDADE” e, no artigo 5º, preconiza que “A Religião Catholica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo [...]. Antes de ser aclamado, cabia ao Imperador realizar o juramento de manter a religião Católica como oficial e nacional (M1, p.34).
Através de pesquisas históricas, M1 atribui credibilidade à sua argumentação, e traz, por exemplo, em sua explanação uma correspondência entre Dom Marcelo Costa, Bispo do Pará, e Ruy Barbosa, Ministro do Governo Provisório – na transição do Império para a República – incumbido este último de redigir o decreto do qual adviria a separação entre o Estado e a Igreja. Na carta tem-se a evidente tentativa de a Igreja Católica fazer com que não seja decidida em sede de Governo Provisório uma ruptura entre Estado e Religião. M1 cita um pequeno trecho do documento:
Não desejo a separação, não dou um passo, não faço um aceno para que se decrete no Brasil o divórcio entre o Estado e a Igreja. Tal decreto alterando profundamente a situação da Igreja poderia causar grande abalo no país. Talvez fosse de melhor prudência, de melhor política e até mais curial reservar esse assunto para a próxima assembléia constituinte. Mas, se o Governo Provisório está decidido a promulgar o decreto, atenda-se o mais possível à situação da Igreja, adquirida entre nós, há cerca de três séculos. É evidente que sob o pretexto de liberdade religiosa não devemos ser esbulhados (M1, p.37).
Além de toda a dificuldade trazida pela Igreja em ver-se separada do Estado, “a laicidade, que não se confunde com laicismo, foi finalmente alçada a princípio constitucional pela Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 24 de fevereiro de 1891” (M1, p. 37) que preconizava que o Estado não iria mais “estabelecer, subvencionar ou embaraçar o exercício de cultos religiosos” (art, 11, § 2º, CR/1891). Em nota, M1 deixa claro que laicismo designa uma atitude hostil do Estado para com a religião. A partir desse momento, os demais textos constitucionais reproduziram o conteúdo desse artigo e, “na mesma linha, andou o constituinte de 1988, que, sensível à importância do tema, dedicou-lhe os artigos 5º, inciso VI, e 19, inciso I, embora, àquela altura, já estivesse arraigada na tradição brasileira a separação entre Igreja e Estado” (M1, p. 38).
Porém, mesmo diante da intenção de (re)afirmar a República Federativa do Brasil como um Estado laico, M1 mostra que ainda há referências à religião Cristã pelo Estado e
pela própria Constituição. Esse argumento é autorizado pela citação do Preâmbulo da Constituição Federal de 1988:
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. (Preâmbulo, CF/88).
M1, entretanto, esclarece que mesmo diante de o Preâmbulo da Constituição da República de 1988 fazer referência a Deus, essa não foi a posição abraçada pelo Supremo Tribunal Federal que, em julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2.076/AC, de relatoria do Ministro Carlos Velloso, explicitou “que a menção a Deus carece de força normativa” (M1, p.40). M1 reafirma seus dizeres utilizando a voz de outra autoridade jurídica, o eminente Ministro Sepúlveda Pertence, que havia asseverado que a
locução ‘sob a proteção de Deus’ não é norma jurídica, até porque não se teria a
pretensão de criar obrigações para a divindade invocada. Ela é uma afirmação de fato jactanciosa e pretensiosa, talvez – de que a divindade estivesse preocupada com a Constituição do país (M1, p. 40).
Sobre o assunto, M1conclui que “Deuses e Césares têm espaços apartados. O Estado não é religioso, tampouco é ateu. O Estado é simplesmente neutro”(M1, p. 41).
Além da evocação a Deus na Constituição Federal, M1 faz referência “aos crucifixos e a outros símbolos religiosos nas dependências públicas” (M1, p.41) e, ao argumentar a emoção de “perplexidade” (M1, p.41), mostra a discrepância na utilização da expressão “Deus seja louvado” contida nas cédulas da moeda real. “Vê-se, assim, que, olvidada a separação Estado-Igreja, implementou-se algo contrário ao texto constitucional” (M1, p. 42).
Embora não signifique alusão a uma religião específica, “Deus seja louvado” passa a mensagem clara de que o Estado ao menos apoia um leque de religiões – aquelas que creem na existência de Deus, aliás, um só deus, e o veneram –, o que não se coaduna com a neutralidade que há de ditar os atos estatais (M1, p. 42).
Para a finalização do primeiro capítulo de seu voto, M1 afirma que questões “morais religiosas, quer unânimes, quer majoritárias, quer minoritárias, não podem guiar as decisões estatais, devendo ficar circunscritas à esfera privada” (M1, p. 44). Nesse sentido, ele argumenta utilizando-se como exemplo o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade
nº 3.510 – na qual se debateu a possibilidade de realização de pesquisas científicas com células-tronco embrionárias –, em que o Supremo primou pela laicidade, devendo o assunto da anencefalia ser decidido de forma equivalente não se submetendo à Religião.
Além disso, foi entendido que “as autoridades incumbidas de aplicá-lo (o Direito)83 devem despojar-se de pré-compreensões em matéria confessional, em ordem a não fazer repercutir, sobre o processo de poder, quando no exercício de suas funções, as suas próprias convicções religiosas” (M1, p. 44). É esse o momento em que M1 parece desejar aparentar certa neutralidade, não se apoiando em nenhuma crença religiosa e sim em argumentos mais ligados à esfera científica, como veremos no próximo tópico.
M2 também retoma elementos biblícos para embasar sua argumentação e, para isso, utiliza termos próprios do Cristianismo para comparar a situação da mãe de um anencéfalo à vivida pela mãe de Cristo. Isso ocorre, por exemplo, ao dizer que a mulher “que carrega em seu ventre um filho já fadado a não resistir à doença que lhe acomete” (M2, p.4) passa por situação semelhante à “via crucis”. Esse argumento suscita emoções no interlocutor tendo em vista estar apoiado em uma seleção lexical muito representativa de acontecimentos bíblicos, como a referência que se faz aos momentos anteriores à morte de Jesus Cristo.
Para os Cristãos, esse foi o momento de maior dor na história do Novo Testamento e a maior prova pela qual uma mãe poderia passar: acompanhar a trajetória da morte certa de um filho. Essa estratégia argumentativa é reforçada em trechos subsequentes do voto de M2 com a utilização do topos “quanto maior o calvário, maior a dor” (M2, p.8) e com a expressão “do qual resultam chagas eternas” (M2, p.8).
A escolha dos argumentos religiosos produz dois possíveis efeitos nos votos. Ao mesmo tempo em que se pretende julgar de maneira objetiva, não levando em consideração as crenças individuais de cada membro, tem-se que os próprios contextos religiosos são utilizados para reforçar e fortalecer o discurso decisório proferido. Dessa maneira, pode-se notar a frequência que pensamentos imaginários religiosos foram explorados pelos Ministros a fim de provocar os interlocutores, suscitando-lhes emoções que pudessem fazer com que os demais Ministros sigam os proferimentos anteriores.