Nossa investigação buscou apreender as expressões patriarcais contidas nas narrativas e discursos televisivos, em particular dos telejornais, no sentido de desvelar as determinações que perpassam os noticiários, a elaboração e veiculação das notícias sobre a violência contra a mulher. Longe de propormos conclusões estanques, elencaremos algumas questões identificadas no processo de análise das matérias catalogadas e nas entrevistas realizadas. A partir dos casos estudados, confrontados à análise de resultados de pesquisa da mesma natureza, podemos destacar três aspectos/questões centrais: a) a abordagem e o tratamento dados aos casos de violência nos telejornais, particularmente, a violência contra a mulher; b) as concepções ideológicas patriarcais que perpassam as narrativas veiculadas nos telejornais e, c) as contradições que reverberam e provocam debates, sobre demandas sociais demonstrando o caráter contraditório dos meios comunicação
Vimos que o sistema de mídia no Brasil concentra-se majoritariamente, nas mãos de poucas famílias, constituindo um verdadeiro oligopólio midiático que, embora disputem entre si, monopolizam a grande maioria dos processos de produção e veiculação da informação. Embora, dependam de concessão pública, a apropriação privada e a concentração de capitais prevalecem nas empresas de comunicação. Nesse sentido, os media, são mecanismos de difusão da dominação ideo-cultural capitalista, contribuindo para a reprodução das concepções de mundo, ideologias e a ética que sustentam os interesses das classes dominantes.
Assim, pudemos apreender que a televisão brasileira tem sido historicamente, comandada pelo capital; surge privatizada e assim permanece até os dias atuais. O caráter comercial das emissoras de televisão concorre para a crescente multiplicação de programas apelativos e sensacionalistas. Destarte, a violência uma de suas principais mercadorias, encontra-se presente nos mais variados gêneros e, de forma mais acentuada, nos telejornais.
Apesar de importantes mecanismos socializadores (muitos indispensáveis nos dias atuais), os meios de comunicação de massa desempenham papel importante para a manutenção da racionalidade das classes dominantes e, assim, para o processo de acumulação capitalista.
como estratégia do telejornalismo para captar a atenção dos/as telespectadores e manter os índices de audiência. É também, reflexo das disparidades sociais criadas e recriadas no âmbito da sociedade capitalista. Cabe destacar que, nas redações, os fatos são editados e adaptados ao tempo de agendamento disposto nos telejornais; isso serve para recortar determinadas dimensões da realidade, dar ênfase ou minimizar aspectos e elementos de processos por demais complexos e veiculá-la como sendo a totalidade. O formato da produção noticiosa, tendo por base a mercantilização da informação, não possibilita ao telespectador dados e informações críticos sobre a realidade. A partir das frações do real que lhes são apresentadas constrói conceitos, ideias e concepções sobre determinados aspectos da realidade, muitas vezes preconceituosos e conservadores. Essa condição impõe limite à apreensão critica das informações pelos/as telespectadores/as ou mesmo à construção de um entendimento mais coerente e completo das notícias divulgadas.
Da mesma forma, observamos o tratamento dado à violência contra a mulher nos noticiários televisivos. Identificamos a frequência de análises pontuais e simplistas do fenômeno. Os casos analisados são repetidos em alguns telejornais, revelando detalhes minuciosos do crime, sujeitos envolvidos, sentenças previstas de modo fragmentado, por vezes capcioso.
Embora reconheçamos a publicização da violência vivenciada pelas vítimas, mantêm-se invisíveis as relações sociais que condicionam e fundamentam. Como nos casos investigados por Sales (2007) poderíamos indagar se não estamos diante de uma (in)visibilidade perversa, com exposição de detalhes da vida privada, supervalorizando aspectos que, na maioria das vezes, não são centrais, tornando visíveis apenas marcas da violência e da barbárie na qual vivem sobretudo mulheres do meio popular, objeto de interesse sobretudo de programas de âmbito local
Em geral, o fenômeno tem sido tratado como um episódio excepcional, realizado por indivíduos particulares, circunscrito à esfera individual-subjetiva. Todavia, salientamos que a violência atinge diretamente as mulheres independente de classe, raça/etnia, orientação sexual ou geração, é um problema rotineiro na vida cotidiana destas. Por certo, ocorre nos bairros “nobres” e nas periferias, embora a materialização e as formas de enfrentamento sejam distintas nos diversos espaços.
demonstram a naturalização e banalização da violência através dos discursos (entrevistados e dos próprios repórteres), culpabilizantes e subjetivistas na sua interpretação/análise. Nos dois casos tratados observamos a associação dos crimes praticados a distúrbios psicológicos dos envolvidos: frieza, dificuldades psicológicas e instabilidade são com freqüência “justificativas” à prática da violência.
O segundo aspecto diz respeito à participação da televisão e do telejornal na reprodução e afirmação de estereótipos e preconceitos sobre as mulheres. Reforça a ideia de beleza que de longe compreende a diversidade que compõe a sociedade brasileira. À condição feminina imposta pela sociedade burguesa soma-se a supervalorização de um padrão estético. A mídia apropria-se de demandas das mulheres (liberdade sexual, autonomia) explorando a sexualidade e sensualidade destas nas novelas, propagandas e programas de entretenimento. Contraditoriamente, reforça preconceitos e recrimina, a depender dos interesses, aquelas que exercem “livremente” sua sexualidade rompendo com os padrões e normas sociais.
É importante observar o sistema de dominação-exploração é construído historicamente, a partir de condições objetivas e subjetivas determinadas. Nesse sentido, a cultura e os valores ideológicos que alicerçam a violência, ou seja, a cultura machista e patriarcal, afloram em diversas circunstâncias, nos mais variados espaços de sociabilidade, inclusive naqueles em que as mulheres procuram ajuda e proteção.
Devemos salientar que as contradições que marcam nossa sociabilidade também perpassam os meios de comunicação. Movimento importante torna-se necessário para apreendê-los inseridos na dinâmica da vida cotidiana e, portanto, atravessado pelas lutas e disputas de hegemonia. Nesse sentido, os mass media, em alguma medida expõem também demandas sociais caras ao conjunto da população reverberando em debates e discussões importantes ao processo de apreensão crítica da realidade. Entretanto, há que se perceber que a forma como se estruturam os sistemas de comunicação no Brasil é funcional ao processo de acumulação do capital. Desse modo, prevalece a coisificação e a mercantilização das relações sociais, espraiando-se o domínio do capital para todas as dimensões subjetivas e objetivas da vida social.
Nesse sentido, a luta pela democratização da comunicação, assim como as lutas feministas contra exploração e opressão das mulheres, não podem estar desvinculada das lutas emancipatórias, com vista à construção de outra sociabilidade, em que seja possível vivenciar a emancipação humana, a plena realização das potencialidades de cada um e de cada uma e em que as formas de violência não tenham mais lugar, porque sucumbiram desigualdades de classe, de gênero, raça/etnia, orientação sexual, geração.
Questões éticas importantes subjazem o debate sobre a comunicação: a difusão de interesses particulares e privados em detrimento de temas e fatos de interesse coletivo; a exposição da vida privada de categorias sociais oprimidas; a espetacularização do fato noticioso, com exploração de imagens degradantes e “chocantes90” e, a criminalização dos movimentos e organizações sociais são
algumas das questões que permeiam a dimensão das implicações éticas da prática jornalística “[...] em razão do fato de que os media detêm, em grande parte, o poder de determinar o que é [ou não] noticia (SALES, 2009, p. 56). Nesse sentido, o controle e regulação democráticos dos meios de comunicação figura como defesa necessária no contexto atual, embora saibamos os limites impostos pelas intransigências do modo vigente de produção da vida social
Como explicitamos no decorrer desse estudo, a violência contra a mulher é resultado da legitimação social da opressão dos homens sobre as mulheres e dos processos de exploração tecidos na dinâmica da produção e reprodução sociometábolica do capital. É produto das hierarquias e opressões patriarcais intensificadas e perpetuadas na sociedade capitalista. A apreensão crítica desta realidade coloca-nos, ao mesmo tempo, diante de desafios importantes: combater as desigualdades e preconceitos, e lutar por novas relações entre homens e mulheres, entre homens e homens, mulheres e mulheres, sem desvincular das lutas pela emancipação humana, por uma sociedade radicalmente livre e democrática. E ainda, não abrir mão da luta por ampliação de direitos e por políticas sociais no âmbito da sociedade capitalista como espaço de constituição de sujeitos críticos e
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Não raras vezes são mostrados nos telejornais corpos amorfos, ensangüentados e sem vida, como se tais imagens constituíssem a noticia em si, fossem toda a notícia. Promove-se um espetáculo mistificador em detrimento do esclarecimento da população sobre o real significado daquelas imagens.
conscientes, como mediação importante na construção de outra sociabilidade.
Esperamos com esse estudo instigar análises mais profundas das relações patriarcais de gênero que tecidas no âmbito da sociedade capitalista condicionam as diversas formas de violência perpetradas contra as mulheres. Ainda oferecer elementos para a apreensão crítica dos processos comunicação entendidos como imprescindíveis a vida coletiva, que apropriados e mercantilizados constituem-se estratégicos aos interesses do capital.
No entanto, para que nossas propostas sejam desencadeadoras de um processo de transformação radical da sociedade, é necessário romper com todas as formas de internalização que dão suporte à lógica capitalista e patriarcal; significa dizer que, necessariamente, temos que superar com o processo de produção
metabólica no qual a sociedade está submersa (MÉSZÁROS, 2009)
Por fim, é importante salientar que chegamos ao termino desse estudo com a certeza de que todo final traz consigo novas indagações, novas possibilidades e novos começos.
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