atacar. Retroceder seria, para o inimigo, sinal de covardia e de medo.
Se [Odisseu], porventura, encontrava um dos reis, ou pessoa graduada, com termos brandos tentava detê-lo, embargando-lhe os passos:
“Não fica bem, caro amigo, mostrar o temor do homem baixo;
cuida, isso sim, de acalmar-te; concita essa gente a assentar-se, pois desconheces em todo o seu ânimo os planos do Atrida. Ora procura tentar-nos, mas breve há de a pena infligir-nos. Nem todos nós percebemos o que ele externou no conselho. Não aconteça, colérico, males causar aos Argivos.
Sempre é violento o rancor do monarca de Zeus descendente. A majestade e o poder ele os herda de Zeus poderoso”. (HOMERO, 2002, II, v. 188-197, p. 83) Cheio de bons pensamentos lhe diz [Odisseu], arengando, o seguinte:
“Filho de Atreu, soberano, os guerreiros Aquivos desejam
que ante o universo dos homens mortais inflamado tu fiques. Não querem dar cumprimento às promessas com que se empenharam ao virem de Argos, nutriz de corcéis, sob o teu regimento:
que voltariam somente depois de destruir Ílio forte.
Como se fossem mulheres a quem falta o esposo, ou crianças, uns para os outros se queixam, chorando e almejando retorno. Grande é, realmente, a fadiga, e o desejo da volta, explicável. Quem fica apenas um mês afastado da esposa querida, muito se queixa na nave provida de remos, se acaso as tempestades do inverno no mar o detêm agitado. Nós, entretanto, já vimos nove anos completos passarem, sempre detidos aqui. Não censuro, por isso, aos Acaios por se angustiarem nas naves recurvas. Mas é vergonhoso com mãos vazias voltarmos depois de demora tão longa.
(ibidem, II, v. 283-298, pp. 85-86) Com torvo olhar lhe responde Diomedes, o forte guerreiro:
“Fuga? Presumes que possa deixar-me suadir porventura?
Não se coaduna com minha coragem fugir do inimigo, ou trepidar; o consueto vigor ainda tenho no peito.
Peja-me de ter de subir para o carro; tão-só, como me acho, Hei de enfrentá-los, que Palas Atena tremer não me deixa [...]”. (ibidem, V, v. 251-256, pp. 142-143)
Vira-se, então, para Heitor, censurando-o acremente, Sarpédone:
“Para onde foi, divo Heitor, a coragem que sempre mostraste?
Não afirmavas que té sem aliados, sem povo, podias, só com os cunhados e irmãos, defender a cidade altanada?
Ora, em que muito me esforce, nenhum deles vejo ou percebo. Trêmulos todos estão, como em frente do leão cachorrinhos. Nós, combatemos, conquanto sejamos apenas aliados.
Enquanto a mim, como aliado, de terra distante sou vindo [...]”.
(ibidem, V, v. 471-478, p. 149) Por entre as filas o Atrida corria, dando ordens diversas:
“Sede homens, caros amigos, e ardor demonstrai combativo!
Possa o respeito recíproco a todos na pugna dar ânimo.
São mais poupados na guerra os que sabem morrer briosamente,
ao passo que os fugitivos nem glória obterão, nem defesa”.
(ibidem, V, v. 528-532, pp. 150-151)
Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante:
“Tudo isso, esposa, também me preocupa; mas quanta vergonha
dos outros homens e, assim, das Troianas de peplos compridos, eu sentiria se, infame, fugisse às pelejas cruentas.
Isso, meu peito proíbe, ensinando-me a ser valoroso e a combater sempre à frente dos fortes guerreiros de Tróia,
para mor lustre da glória paterna e de meu próprio nome [...]”.
(ibidem, VI, v. 440-446, p. 176)
Té que, por fim, Menelau se levanta e, com termos violentos, os companheiros censura, pois sua aflição era grande:
“Bando covarde de Acaios, não digo de Aqueus, bons de lìngua!
Para nós todos será grande opróbrio, o mais grave e humilhante, que nenhum Dânao revele coragem de a Heitor contrapor-se. Em água e terra virar se pudésseis, em vez de ficarem
todos sentados, assim, onde se acham, com medo e sem honra! Pois cingirei minhas armas para ir combatê-lo, que, é certo, só dos eternos do Olimpo depende alcançar vitória”. (ibidem, VII, v. 94-102, p. 182) té que, por fim, fala Diomedes, de voz poderosa:
“Do meu direito valendo-me, Atrida, começo insurgindo-me
contra tua idéia insensata, sem que isso provoque tua cólera. Foste o primeiro a acoimar-me de fraco, na frente dos Dânaos, de ser imbele e de pouco valor. Mas, sobre isso, os Argivos, tanto os anciões como os moços, já têm uma idéia formada. Zeus poderoso, nascido de Crono, negou-te uma dádiva: deu-te, sem dúvida, um cetro, o mais alto penhor do comando, mas não te deu a coragem, sem dúvida a força mais nobre. Pensas, então, infeliz, que os Aqueus sejam tão destituídos de varonil decisão para vires propor tal medida?
Se o coração te concita, realmente, a viajar de tornada, parte: o caminho está franco; na beira da praia os navios que de Micenas trouxeste, incontáveis, a jeito se encontram. Outros Acaios aqui ficarão, de cabelos cacheados,
para que os muros de Tróia arrasemos; mas mesmo que todos queiram voltar para a pátria querida nas céleres naves, nós, a saber, eu e Esténelo, a luta levar haveremos
té que Ílio santa destruamos, que um deus favorável nos trouxe”.
(ibidem, IX, v. 31-49, pp. 214-215)
“Pobre de mim, que farei? Se fugir, com receio da turba,
é grande mal; mas vergonha maior é vir eu a ser preso
sem mais ninguém, que nos Dânaos o Crônida medo ora infunde. Mas para que, coração, entregares-te a tais pensamentos? Sei que somente as pessoas covardes a pugna abandonam. Quem valoroso se mostra, só tem de conduta uma norma,
que é resistir decidido, quer fira, quer seja ferido”.
(ibidem, XI, v. 401-410, p. 265)