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O pensamento e a ficção utópica, enquanto possibilidades de significado e expressão do imaginário, já tinham, como se viu, uma boa trajetória quando John Stuart Mill cunhou e usou o termo distopia, pela primeira vez, num debate parlamentar sobre a Irlanda, em 1868. No momento, discutia-se a instituição da igreja protestante juntamente à católica, já existente, na Irlanda. Mill se opôs a essa proposta e reagiu, considerando que normalmente era identificado como utópico, e que tal ideia só poderia partir de alguém ou de um grupo com propósitos distópicos ou cacotópicos. A forma como Mill se associa aos pensadores utópicos denuncia o caráter de oposição à sua mentalidade depositada no termo distopia: “O que é comumente chamado utópico é algo bom demais para ser posto em prática, mas o que eles parecem defender é algo ruim demais para ser posto em prática” 24.

O termo distopia não receberá muita ênfase durante as primeiras décadas do século 20. Isso, no entanto, não significa que a produção ficcional que servirá para caracterizá-la não estará em pleno desenvolvimento. J. Max Patrick, em

24 Russel Jacobi (p. 202, 2007) recupera o texto original a partir de Mill, John Stuart.

Hansard’s Parliamentary Debate. Londres: Cornelius Buck, 1868, terceira série, v. 190: 1867-68, p. 1517.

195225, usará o termo novamente – seja através da reinvenção, da redescoberta ou de forma independente – para caracterizar, numa antologia sobre sociedades imaginárias26, aquilo que ele identifica como distinto entre as narrativas que falam do futuro como bons lugares e aquelas que falam como maus. Para os bons, o termo adequado seria eutopia e, para os maus, seria distopia. A constituição conceitual da distopia, portanto, se dá a partir daquilo que já havia se consolidado sobre a utopia, seja entre os pensadores e estudiosos, seja entre os escritores e artistas de forma geral.

Chad Walsh (1962) se posiciona no sentido de entender o que havia acontecido para que as ficções utópicas esmorecessem tanto com o andamento do século 20. Na definição que Walsh resgata para utopia, ele irá desconsiderar uma parte que a descreve como um “esquema impraticável de regeneração social”. Para ele, a preocupação deve recair sobre como os utopistas entendiam o termo: uma sociedade ideal, desfrutando da perfeição em política, leis etc. (p. 24) A utopia pode ser uma sociedade melhor do que „esta‟ e não necessariamente a sociedade perfeita. O que conta é a intenção do autor; portanto, um texto como

Walden Two (1948), de B. F. Skinner, é utópico na sua pretensão, mesmo que a

maioria dos estudiosos tenha visto no desenho dessa sociedade imaginária específica muito mais traços de um mundo distópico do que utópico27. Essa questão é tratada pela maioria dos autores e já se constituiu num verdadeiro truísmo: a utopia de um é a distopia de outro.

De forma geral, Walsh destaca quatro pontos recorrentes nas utopias: declínio no papel da religião na formação e na condução da sociedade; noção de evolução humana (isso se torna ainda mais intenso a partir de Darwin) e a adoção de uma perspectiva de humanidade como processo em direção a algo superior; relevância na forma como a economia é tratada, de maneira geral, a fim de implementar as melhorias coletivas, apostando no papel do homem para providenciar seu futuro no lugar de algum ente ou de alguma divindade externa; e

25 O pouco uso do termo distopia

– entre 1868 e 1952 são mais de 80 anos - pode ser percebido entre os próprios autores identificados atualmente como distópicos. Aldous Huxley, em 1946, se refere ao seu texto – Admirável mundo novo - como uma “utopia de um lugar ruim”.

26 NEGLEY, Glen e PATRICK, J. Max. The quest for utopia: an anthology of imaginery societies.

Nova York: Henry Schuman, 1952. p. 298

27 É o caso de Keith Booker (1994a) e Kumar (1987), que analisam neste texto mais a sua

a exaltação da trindade formada pela ciência, pela tecnologia e pela maquinaria (pp. 55-56). A palavra-chave nas utopias “de Platão a Wells é planejamento” (p. 57).

As utopias se apresentam, portanto, como projetos realizáveis que atenderão às demandas da humanidade como um todo. Esse planejamento permeia cada detalhe da vida e é possível encontrar suas aplicações em áreas como: educação, arte, organização econômica, composições familiares, religião ou forma assemelhada de comunhão, moral, relacionamentos e formas de casamentos, reprodução humana, estrutura social, vigilância e controle sobre o indivíduo, leis, combate à criminalidade, punição e tratamento de infratores, eutanásia e eugenia. Walsh destaca como esse planejamento vai depender, cada vez mais, da presença da ciência nos desígnios da vida:

Os sistemas educacionais das utopias modernas normalmente incluem mais unidades de ciência do que latim; as instituições como a Casa de Salomão são expandidas; a ciência é posta a serviço de tarefas benevolentes tais como a ampliação na longevidade, curando doenças, melhorando a produtividade da terra e providenciando a tecnologia para poupar o trabalho humano através das máquinas. (p. 56)

Conforme Walsh, a mudança de uma perspectiva ficcional utópica para uma distópica tem como motivação uma questão paradoxal. As utopias, ao mesmo tempo, foram exitosas e falharam. Muitas das realizações que as utopias defendiam ou propunham em suas visões de futuro foram obtidas, tornaram-se reais. Aspectos como a alfabetização universal, os direitos das mulheres, avanços na ciência e na tecnologia e o bem-estar social estavam em curso ou foram alcançados. Walsh lembra, no entanto, que isso não significa necessariamente que o mundo ficou melhor do que era. A alfabetização de toda a Alemanha, por exemplo, tornou acessível a uma multidão a leitura de Mein Kampf (1925-1926), de Hitler. Nessa linha, Walsh segue explorando a outra face dessas utopias realizadas.

No lado das utopias não realizadas, há as expectativas especialmente relacionadas ao século 19, que foram francamente desapontadas com o curso do século 20. A paz foi quebrada por duas guerras devastadoras, a democracia

universal não foi alcançada e a liberdade individual foi soterrada sob regimes que varreram o mundo durante décadas. O termo que Walsh usa para definir a condição das utopias neste período é esclarecedor: “a utopia está minguando” (p. 21).

Walsh emprega os termos distopia, utopia invertida e anti-utopia como intercambiáveis, sem estabelecer distinções entre eles, para definir a nova torrente de textos que o século 20 trouxe consigo. Caracteriza-os genericamente como respostas críticas às utopias e afirma que eles superaram, em volume e em relevância, as utopias do mesmo século 20.

De acordo com Walsh, os utopistas se apoiavam em basicamente nove pressupostos, ou “sonhos”, sobre o homem; e esses pilares de otimismo seriam suficientes para a humanidade viabilizar, através do progresso, da ciência e da tecnologia, um mundo melhor. Os escritores distópicos, no entanto, tinham visões ou respostas diferentes sobre esse homem que lhes parecia um ser mais imaginado do que real.

A primeira premissa apostava que o homem é “essencialmente bom”. A bondade seria, portanto, inerente ao homem e, como Walsh exemplifica, “sua „maldade‟ pode ser eliminada ou reduzida a proporções administráveis através de um bom ambiente, educação, treinamento moral, talvez mesmo por meio de controle genético” (p. 70). A visão distópica acredita que o homem guarda, de alguma maneira, seu lado selvagem e sádico, que espreita a razão, e nada garante que esses sentimentos hostis não emergirão de forma individual ou grupal em algum momento e de forma imprevista.

A segunda afirmava que o homem é “extremamente plástico” ou maleável. Nesse sentido as distopias parecem concordar com as utopias. Isso, no entanto, não significa uma resposta positiva. Walsh destaca que os textos utópicos tratam normalmente de considerar a natureza como uma ficção e o homem “pode ser moldado e condicionado para se acomodar felizmente em qualquer que seja a sociedade que ele tenha escolhido criar” (p. 71). O homem seria potencialmente moldável, transformável e manipulável na imaginação utópica e havia a percepção de que isso era positivo. Poder-se-ia, finalmente, a partir de uma

perspectiva utópica, tornar o homem ideal para uma sociedade ideal. O contexto histórico fornecia o otimismo e o repertório científico e tecnológico que permitiam apostar nisso.

A ideia de transformação do homem, como se nota, sempre é projetada a partir da aplicação de métodos que sejam competentes na formação do homem e nas maneiras de organizá-lo e monitorá-lo, a fim de fazê-lo se conformar a um corpo social que tem um objetivo e uma razão de existir definida como superior. A maleabilidade do homem atende bem às expectativas de moldá-lo por meio de manipulações psicológicas e desígnios que possam interessar a certos modos de controle. A plasticidade do homem surgirá nas ficções distópicas desde os seus aspectos genéticos, que podem ser definidos no período pré-fetal, até a coação depois de adulto, que poderá torná-lo desprovido de qualquer capacidade de nexo.

A terceira acreditava que “não é necessário estabelecer uma dicotomia entre a felicidade do indivíduo e a da sociedade” (p. 71). Ambas se completariam, se alimentariam. Nas distopias, o indivíduo é anulado de tal maneira que sua vida se torna regulada desde o nascimento até a morte, sempre em nome de um bem ou da felicidade coletiva que nunca se percebe, de fato. Os anseios individuais precisam ser suprimidos completamente ou necessitam de recursos externos ou artificiais para aplacar as tensões da sua forma de vida.

A quarta postulava que “o homem é um ser racional e pode se tornar ainda mais” (p. 71). A razão e a ciência poderiam providenciar as soluções para a vida e a tornariam melhor através da superação das crendices das massas não esclarecidas. A ficção distópica lembra que o ser humano não é completamente racional e que a razão não tem relação de sentido imediato com a ideia de benevolência. As sociedades projetadas unicamente pela razão tendem a criar lógicas em si mesmas, baseadas nos seus pressupostos simplesmente porque consideram a ciência como uma premissa neutra. Isso, no entanto, pode não representar algo melhor em relação ao existente. Pode, pelo contrário, soterrar formas de vida social harmonizadas ao longo de séculos em sistemas que não são necessariamente científicos, mas que resolvem bem o convívio humano.

A quinta dizia que “o futuro detém um número finito de possibilidades e elas podem ser suficientemente previstas para fins práticos” (p. 71). Para os distópicos, essa crença pode conduzir, na verdade, a resultados imprevisíveis. Acreditar que o mundo, como um todo, e a vida humana são passíveis de serem contempladas por equações ou relações de causa e efeito poderia ser apenas uma nova forma de fé.

A sexta proclamava que “o propósito da utopia é alcançar o bem-estar sobre a Terra” (p. 71). Os distópicos veem mais os infernos decorrentes desses projetos e mostram que a ideia do paraíso é absolutamente relativa e não pode ser tomada como fé universal.

A sétima atestava que “as pessoas não se cansam da felicidade” (p. 71). O escritor distópico lembra que a ideia de felicidade oferecida ou defendida pode não dar tranquilidade suficiente e isso pode gerar ainda mais agonia.

A oitava defendia que os governantes podem administrar de forma justa. Walsh considera que há uma esperança nos textos de que “podem ser encontrados os governantes que governarão justamente ou que homens podem ser pinçados e treinados para governarem de forma justa. O perigo da tirania é fraco e pode ser reduzido até o seu desaparecimento através da educação, seleções sensatas, disciplina ascética ou alguns ajustes e verificações elementares” (p. 72). Na distopia, as formas de governo oscilam entre aquelas com ideais de justiça que fazem sentido apenas dentro das suas próprias normas; ou essa governança é realizada de maneira corrupta; ou ainda com vistas a atender aos anseios e às ideias de grupos específicos.

A nona e última argumentava que “a utopia não é o oposto de liberdade” (p. 72). A “verdadeira” liberdade é encontrada quando o destino de cada um serve como cooperação para os propósitos da sociedade. A questão está na definição dessa "verdadeira liberdade". Nos textos distópicos, o conceito de liberdade é usado mais como um recurso discursivo do que como uma realização nos moldes do que os utopistas realmente acreditavam.

Walsh faz questão de destacar itens-chave entre os nove relacionados para conduzir o seu raciocínio:

a bondade do homem, a plasticidade da natureza humana e a possibilidade de encontrar governantes que não serão corrompidos pelo poder. Essas são as três principais afirmações. Sem elas, o empreendimento utópico pode ser enfrentando num primeiro plano. Sustentado através de, pelo menos, algumas das outras suposições, elas permitem uma fundação firme na qual a cidade dos sonhos humanos pode ser erguida. A única questão é: esta fundação é realmente firme? Esta é a questão que devemos fazer constantemente para investigar o mundo da distopia.

Essa questão se desenvolveu de forma mais urgente neste século, como um produto depois que a utopia saiu das pranchas de projeto para o planejamento social concreto. Nós somos compelidos a perguntar – Nós realmente queremos a uma utopia? (p. 72)

Esse período, a entrada do século 20, é especialmente importante para as alterações que começam a tomar corpo e ganhar notoriedade na inversão de uma perspectiva ficcional utópica para uma distópica, nos projetos e nos textos que imaginam o futuro. Se as utopias pareciam distantes até aquele momento, postula Nicolas Berdiaeff (1933), e até mesmo se costumava desconsiderá-las, a situação mudou: “Agora, no entanto, elas parecem ser levadas a cabo muito mais facilmente do que pensamos e chegamos até a nos defrontar com um problema angustiante bem diferente: como podemos evitar sua realização final?”28 As

utopias deixavam de ser promessas animadoras e passavam ao estágio de ameaças iminentes. Esse é o estado de ânimo que desencadeia a onda ficcional anti-utópica e que ilustra bem o pensamento de Berlin sobre os perigos que uma sociedade que se acredita como a realização de uma utopia pode representar.

De acordo com Hillegas, The machines stops (1909), de E. M. Forster, e Nós (1924), de Zamiatin, representam conjuntamente aquilo que pode ser considerado como a primeira onda de reações notadamente anti-utópicas em ficção. A novela de Forster merece destaque especialmente pelo fato de representar tão bem a expressão imaginativa do futuro a partir do medo. Não são os medos das inconstâncias da natureza ou de um Deus capaz de punir pecadores. Este medo está endereçado à máquina. Como Hillegas lembra, esse é um dos medos mais

28 Este fragmento faz parte do texto The end of our time publicado por Berdiaeff nos Estados

identificados com humanistas, como Forster, os quais deixam de acreditar que um mundo futuro, que avance a partir das premissas do seu tempo, será melhor. Esses medos se referem ao: temor de que a máquina conduzirá a vida humana e finalmente acabará controlando essa vida; medo de que a máquina inferiorizará o homem a ponto de tirar seu auto-respeito, seu orgulho e sua singularidade; medo de que a confiança na máquina não será perigoso apenas em termos psicológicos e espirituais, mas também acabará sendo fisicamente destrutivo; e, por fim, temor de que a máquina se constitua numa espécie de ídolo merecedor de adoração (pp. 89-90).

No conto29 de Forster, explora-se muito o medo de que a própria máquina, como ser físico, se transformará na figura ou no sistema que exercerá o domínio sobre o homem. Nos textos distópicos que receberão mais atenção ao longo de nossa pesquisa, nem há expressões tão pungentes desse tipo de medo30. O

problema se desloca para o próprio homem que se converte num ser maquínico e estende o seu poder sobre os demais como uma máquina.

Nesse sentido, Gorman Beauchamp (1986) avança na análise e defende que a distopia funde dois medos no seu conjunto de imagens projetadas para o futuro: o medo das utopias e o medo da tecnologia. Este último, em especial, tem a ver com um temor compartilhado, em sua opinião, pela maioria dos intelectuais do século 20. Beauchamp defende que a ficção distópica é uma forma moderna única de texto literário na qual emergem os perigos do crescimento do poder tecnológico moderno como recurso narrativo (p. 53)

Beauchamp destaca que “a imaginação distópica oferece como sua imagem ameaçadora de futuro um estado totalitário avançado, que se mantém sobre um aparato tecnológico massivo – em resumo, uma tecnotopia” (p. 54). A partir disso, dessa presença e dessa dependência ativa da tecnologia, ele lança uma questão sobre a forma como ela é tratada nos textos distópicos: a tecnologia seria um mero instrumento nas mãos de sistemas totalitários, que fariam uso dos seus recursos como forma de facilitar o controle e o poder; ou a tecnologia teria

29 O texto é, sem dúvida, emblemático, mas relativamente pouco detalhado quando comparado a

romances como Nós ou Admirável

30 Em Revolução no futuro (1952) há a sensação que isso poderá vir a acontecer a partir do uso

condições de alcançar um poder autônomo a ponto de fazer com que a sociedade tomasse a sua própria forma e os agentes humanos do poder (tais como o Benfeitor, em Nós; e o Grande Irmão, em 1984) fossem subservientes aos seus desígnios?

O autor lembra que essa discussão divide os debatedores em dois ramos antagônicos facilmente identificáveis: os tecnófilos e os tecnofóbicos. Os primeiros veriam a tecnologia como um valor neutro, um instrumento capaz de ser usado para os fins os quais o humano se inclinar a fazer. Por outro lado, os tecnofóbicos acreditam que a tecnologia pode vir a transcender os propósitos criados inicialmente e pode adquirir independência, numa espécie de relação ao modo do que foi imaginado por Mary Shelley, em Frankenstein (1831). Esta percepção tecnofóbica é a que define, em seu ponto de vista, a maioria das ficções distópicas, revelando a tecnologia como um monstro moderno capaz de ser totalitária em si mesma e não apenas um caminho para facilitar a ordenação e o controle da sociedade.

The Machine stops e Colossus (1966), de D. F. Jones, são apontados por

Beauchamp como textos nos quais a máquina não é apenas uma referência ou metáfora. Ela, de fato, é a figura autônoma que toma as decisões sobre os destinos da humanidade (no primeiro caso, essa é a condição inicial do texto – a máquina “morre” no percurso da trama; e, no segundo, é a forma como a história finaliza – a máquina “nasce” e toma o controle). Essas duas formas, como demonstra Beauchamp, revelam a autonomia como decorrência da tecnologia.

No entanto, há uma outra forma até mais amedrontadora no espectro tecnofóbico: o homem se transforma na própria máquina. A máquina se transforma na medida das coisas e o homem a adota como modelo a ser emulado. Isto conduziria a uma espécie de mecanoformismo. Este tipo de relação imaginada não surge sem motivo. Beauchamp lembra que os princípios industriais de eficiência podem transformar os atos e o pensamento, da sua aplicação ao trabalho repetitivo mais básico até a organização gerencial, em ações mecânicas com vistas unicamente à produção. A vida, de forma geral, acabaria passando por esses esquemas técnicos e isso conduziria a uma desumanização da vida em virtude da lógica produtiva.

Beauchamp destaca que o homem, nestas ficções distópicas, parece barganhar com o demônio para se tornar um ser/criatura tão perfeito quanto um relógio. A questão que surge é que, quando o homem se transforma num “homem relógio”, ele não é mais um homem em tudo, ele passa a ser algo como um autômato sob a pele. A grande proposta das ficções distópicas estaria, portanto, muito mais num sentido de destacar de forma assombrosa como o homem parece se guiar livremente para esse mecanomorfismo, e isso seria mais trágico que a própria máquina transformada em ser autônomo (p. 62).

A ficção distópica é, em síntese, o resultado de ansiedades e medos que se identificam, nas primeiras décadas do século 20, com as utopias que deixam de ser apenas projetos e se encaminham como formas, de fato, de organização da sociedade; e com a tecnologia que marca, cada vez mais, a sociedade como um modo de vida, de produção e de dominação. Em ambas as situações há o temor quanto ao destino do homem diante de um novo mundo que pode conduzi-lo a ser um outro homem, um homem transformado ou, a partir de uma concepção