• Sonuç bulunamadı

Quando iniciamos estas conclusões, relembramos os momentos de encontro com os sujeitos e suas expressões acerca da tarefa de nos mostrar um pouco de seu universo profissional, seus significados acerca do cotidiano da profissão, bem como o contato com o paciente. Esclarecemos que ao apresentar os achados desta pesquisa e sua finalização, pretendemos contribuir para novas e sempre bem vindas reflexões acerca da temática em questão.

Ao vivermos a experiência de pesquisa, durante as atividades ou disciplinas cursadas no doutorado, até mesmo na interação entre colegas da Universidade Federal do Ceará (UFC), percebemos que, à medida que nos aproximávamos do fenômeno estudado, era suscitada em nós uma aprendizagem advinda do próprio processo de investigação. Assim, aprofundamentos conceituais, debates e reflexões realizadas ao longo dessa trajetória bem como saberes, experiências e conhecimentos compartilhados pelos professores passaram a constituir o nosso arcabouço formativo, pessoal e intelectual.

Retomar o campo de formação e atuação em Fisioterapia, desta vez enquanto pesquisadora possibilitou um novo olhar para o fenômeno que se perfaz durante a prática, trazendo um mergulho em questões próprias que permeiam a formação e a atuação desse profissional. Cada uma das reflexões que emergiram ao longo desta pesquisa pode contribuir com o fazer da profissão assim como redimensionar aspectos formativos que trafeguem em consonância com as demandas da realidade da prática em Fisioterapia.

Esta trajetória nos permitiu entrar em contato com a experiência de subjetividade, como categoria que surge a partir das reflexões oriundas desta tese que não é de fatos, mas sim de fenômenos. A subjetividade pode estar descrita nos inúmeros depoimentos, mas deve ser sentida por aqueles que formam e ainda por aqueles que no exercício do seu fazer profissional, tem nos encontros a possibilidade de exercê-la. Assim, a subjetividade nesta pesquisa emerge como algo internalizado, sentido, enfim, vivido.

Consideramos importante desenvolver uma pesquisa relacionada à prática do profissional em Fisioterapia, uma vez que pudemos abordar a formação desse profissional e sua atuação bem como confrontá-las com um modelo de educação em saúde que privilegia o sujeito-paciente, seus aspectos biológicos, psicológicos e seu contexto socioeconômico. Ressaltamos que o último assume posição de destaque enquanto determinante de um estado de saúde.

Ao contemplarmos a prática do profissional fisioterapeuta, percebemos a necessidade de uma aproximação com o sujeito-paciente que ultrapasse a barreira da condição biológica somente. Um olhar voltado para o todo desse sujeito demanda uma formação pautada no modelo biopsicossocial o qual permite que a doença seja vista como um resultado da interação de mecanismos celulares, teciduais, interpessoais e ambientais, apresentando assim, o ser humano de modo contextualizado em todos os aspectos inerentes ao seu espaço vital, ou seja: orgânico, psicológico, cultural e socioeconômico onde cada aspecto influencia e é por outro influenciado dinamicamente. Percebemos que os discursos apontaram evidências da consciência da importância da visão integral do sujeito- paciente, apesar da reprodução de técnicas e abordagens condizentes com o modelo biomédico de educação em saúde que prioriza a doença em detrimento do doente, ou ainda, o aporte técnico-científico em detrimento de ações que aliem a busca por uma compreensão mais integral desse sujeito. Acreditamos que o desenvolvimento de tal consciência se dá a partir do confronto com a prática a qual desvela uma realidade e uma demanda de atuação profissional para além daquela abordada na formação. Consequentemente para dar conta dessa realidade o fisioterapeuta busca ressignificar sua prática a partir de formações continuadas aliadas ao conhecimento advindo da experiência profissional. Considerando tal realidade pensamos ser o diálogo que se estabelece durante a prática clínica em Fisioterapia, o agente mediador para esta compreensão do sujeito-paciente e seu contexto de vida, ou seja, o diálogo perfaz-se, sim, uma exigência existencial.

Apesar dos relatos aqui apresentados apontarem a importância do diálogo na compreensão do sujeito-paciente de maneira integral, a prática não conseguiu ainda transpor a barreira da importância da aplicação de técnicas no tratamento, fruto de uma formação embasada numa concepção técnico-científica do conhecimento.

No tocante aos documentos normativos que regulamentam a formação em Fisioterapia, o Currículo Mínimo, vigente até a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Fisioterapia, em 2002, embasava-se num sistema de currículo fechado, o qual enfatiza aspectos técnicos (relacionados ao desenvolvimento de competências), o conhecimento científico e as necessidades próprias da formação em Fisioterapia. Já as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Fisioterapia, documento que norteia o planejamento e a elaboração dos currículos dos cursos de graduação em todo o país, enfatizam os aspectos formativos, sugerindo que o profissional terá uma formação baseada não somente em conhecimentos científicos, mas também pautada em valores éticos, em fundamentos sociológicos, psicológicos e políticos, determinantes para o desenvolvimento do perfil profissional. Porém, de acordo com o documento, a formação continua baseada em habilidades e competências, o que evidencia

a não superação do tecnicismo na formação do fisioterapeuta. Sabemos que tal modelo de educação é condizente com o fato de articular uma formação que se volta para responder as demandas do mercado de trabalho.

Percebemos, portanto uma incompatibilidade entre a formação para o desenvolvimento de um profissional generalista, humanista, crítico e reflexivo, e, o mundo do trabalho, este por sua vez regido pelas determinações mercadológicas caracterizando um modelo de ensino que enaltece a dimensão técnica sem a preocupação com “a pessoa que queremos formar”.

Um currículo por competência não dá conta de formar um fisioterapeuta para além do aporte técnico-científico, pois o diálogo necessário durante o atendimento não é condição específica para o mercado. Tal abordagem se faz importante para os arranjos sociais. Nessa lógica, o termo competência, polissêmico, aberto a inúmeras interpretações apresenta-se mais adequado do que o de saberes (educação) ou ainda de qualificação (no exercício profissional) para uma desvalorização do profissional em geral. Nesse sentido, o discurso das competências vem anunciando ao longo dos anos uma espécie de novo tecnicismo e ainda, ao aperfeiçoar o positivismo (com seu viés de controle) e consequentemente do capitalismo, aponta de responsabilidade do profissional a busca por novas competências sempre, através de diversos cursos.

Pelo que foi exposto ao longo desta investigação, podemos afirmar que a resposta à grande pergunta anunciada no primeiro bloco de questões - qual a concepção do profissional de Fisioterapia egresso da UNIFOR sobre as dimensões biopsicossocial do sujeito-paciente na sua prática clínica? – está ancorada na compreensão acerca do objeto de trabalho da Fisioterapia, que ainda traz uma concepção voltada para a reabilitação, muitas vezes desconsiderando os aspectos subjetivos e sociais do sujeito-paciente. Tal concepção ainda se faz presente no âmbito da formação pautada no discurso das competências. A pesquisa qualitativa de abordagem fenomenológica hermenêutica-dialética desenvolvida neste estudo levou-nos a perceber que todas essas dimensões foram mencionadas e consideradas pelos sujeitos desta pesquisa, embora na maioria dos relatos a necessidade de resolução dos casos de saúde apresentados pelos sujeitos-pacientes configurou-se objeto prioritário.

Ao delimitarmos o objetivo geral que foi compreender como ocorre a comunicabilidade relacional dialógica na prática clinica do profissional fisioterapeuta, visando à identificação de aspectos subjetivos e objetivos que estabelecem uma visão integral do sujeito-paciente, percebemos que esse diálogo ocorre na perspectiva de compreensão das dimensões biopsicossocial, a partir do interesse em aprofundar o

conhecimento do universo próprio do sujeito-paciente. E ainda que tal comunicação deve ser feita com devido cuidado para não ultrapassar a barreira estabelecida muitas vezes pelo profissional. Há também fatores característicos relacionados ao local do atendimento e condição clínica dos pacientes que favorecem ou dificultam a promoção de um diálogo. Portanto, pensamos que apreender a concepção sobre o fenômeno do diálogo, requer contemplar este humano em sua relação com a realidade social e educacional de onde emerge seu pensar.

Todos os sujeitos desta pesquisa apontaram que não foram preparados para a compreensão de aspectos particulares dos sujeitos-pacientes. A formação foi caracterizada como tecnicista e que o entendimento do sujeito e seu contexto, além do biologicamente apresentado, eles aprenderam no cotidiano da profissão. Um dos sujeitos pontuou a sensibilização para tais aspectos a partir de disciplinas das ciências sociais e humanas. Outro apontou a necessidade de uma formação mais humanizada. Portanto, uma formação cujo currículo contemplasse as disciplinas das ciências sociais e humanas e apresentasse especialmente um viés humanista configurou-se uma proposta de formação experienciada por alguns dos sujeitos. Pensamos ainda que tais disciplinas e enfoque humanista podem fazer uma ligação entre a atuação profissional e o contexto, o que aproximaria mais o profissional da realidade da saúde numa perspectiva que partiria de um entendimento amplo das condições de saúde até chegar à especificidade de cada um dos sujeitos-paciente.

Quanto aos significados atribuídos à prática clínica na perspectiva da integralidade do sujeito-paciente, percebemos que a prática constitui momento de conhecimento dos aspectos relativos ao contexto dos sujeitos-pacientes. No entanto, a busca por resolução dos quadros clínicos apresentados por estes e consequentemente a possibilidade de retorno às suas atividades do dia a dia, configura-se aspecto relevante, o que expressa a importância dada à dimensão física e/ou biológica, à doença em detrimento do doente, o que ressalta o perfil reabilitador do profissional fisioterapeuta.

As experiências dos sujeitos no âmbito da formação apresentam forte caráter técnico-científico. No tocante às vivências práticas, os sujeitos apontaram a dificuldade inicial de desenvolver um olhar mais amplo exatamente porque a formação não deu conta de apresentá-los tal realidade. Então a partir dessas lacunas, os profissionais buscaram novos conhecimentos no sentido de aprimorar e desenvolver condições de lidar com o sujeito-paciente e o todo ao seu redor. Muitos ainda relataram que aprenderam a compreender e a valorizar o outro e seu contexto através de saberes da experiência, ou seja, no dia a dia do fazer da profissão.

As reflexões surgidas ao longo desta pesquisa nos fizeram atentar para a realidade das atividades formativas e de trabalho do fisioterapeuta. As relações de trabalho da sociedade atual marcadas pelo mercantilismo transformam práticas emancipadoras e humanitárias em cobranças de produtividade. Quando um dos sujeitos desta pesquisa reconhece que “a profissão ficou muito aquém da importância dela”, percebemos a evidente proletarização vivida pela Fisioterapia e seus profissionais.

Os achados e as conclusões obtidas por esta pesquisa ratificam os seguintes argumentos levantados para a formulação da tese. São eles:

- Apesar do currículo prescrito anunciar a importância da formação generalista, a prática clinica apresenta uma forte atuação tecnicista e fragmentadora; - A presença da técnica e consequentemente de ações que privilegiam o físico

em detrimento de aspectos subjetivos do sujeito-paciente;

- Formação que não responde às demandas da realidade em saúde no que tange às necessidades próprias do sujeito-paciente para além da condição clinica física ou funcional.

Somente o argumento referente a não valorização da intersubjetividade como aspecto importante para o tratamento, não foi confirmado a partir dos achados desta pesquisa.

Portanto, os dados da minha pesquisa confirmaram parcialmente a tese de que na relação fisioterapeuta/paciente há indícios da valorização da intersubjetividade com forte presença de condutas clínicas que privilegiam o corpo físico não ocorrendo uma comunicabilidade que supere a dicotomia corpo/mente. Os discursos dos sujeitos desta pesquisa anunciaram uma conscientização acerca da compreensão dos aspectos subjetivos dos sujeitos-pacientes evidenciando ainda a importância da perspectiva da visão integral dos mesmos a partir da intersubjetividade. Tal consciência permite desvelar a realidade ora apresentada e assim promover ações capazes de transformá-la.

Constatamos, ainda, não apenas indícios e sim afirmações que evidenciaram que somente a utilização de condutas voltadas para a funcionalidade não dá conta da demanda do cuidar no âmbito da prática em Fisioterapia e que a comunicabilidade exercida durante a prática clínica promove o desenvolvimento da compreensão das dimensões biopsicossocial daquele que busca tratamento.

Assim, o reconhecimento consciente da importância da compreensão das dimensões biopsicossocial do sujeito-paciente a partir dos discursos dos sujeitos desta pesquisa sinalizam uma transformação em processo, portanto não devem findar a busca por melhoria na qualidade da formação do profissional fisioterapeuta.

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