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Como já foi relatado, o primeiro contato dos jesuítas com um japonês foi ainda em Malaca com o pirata posteriormente converso, Paulo de Santa Fé. Apesar de seu passado, Xavier e Torres aparentemente ficaram bastante impressionados com a inteligência do moço que teria “tão claro juízo e entrou tanto no conhecimento de Deus”, além de ser “de tanta memória e engenho”.112

110 FRÓIS, Luis, História de Japam, volume I, Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 1976 (1592), p.

125.

111 FRÓIS, Luis, História de Japam, volume II, Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 1981 (1592), p.

330.

112 Cosme de Torres. Carta. 25 de janeiro de 1549. In: MEDINA, Juan Ruiz de (ed.), Documentos del

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Assim que chegaram ao Japão, apesar de terem enfrentado grandes dificuldades devido ao desconhecimento da língua e cultura nativa, Xavier, Torres e o irmão João Fernandez ficaram muito animados com a possibilidade de expansão na nova vinha.

As primeiras notícias acerca da nova missão foram dadas por Xavier que escreveu uma carta seis semanas após sua chegada em Kagoshima. Tal carta foi enviada à Goa e rapidamente copiada e enviada para a Europa onde passou a circular já em 1552. Nesta carta Xavier afirmava que o povo japonês era o melhor já descoberto. Ele elogiava sua sociabilidade, boas maneiras, senso de honra e falta de malícia. Além disso, afirmou que embora fossem pagãos, estavam dispostos a ouvir argumentos contra suas crenças e “vícios”.113

O juízo que Cosme de Torres fez dos japoneses não foi diferente. Na primeira carta que escreveu do Japão, dois anos após sua chegada, ele afirmava que:

Estes japões são mais aparelhados pera que em elles se plante nossa santa fée que todas as gentes do mundo. São discretos quanto se pode cuidar. Governão-sse pola razão tanto ou mais que os espanhoes. São curiosos de saber mais que quantas gentes eu tenho conhecido, e de praticar de que maneira salvarão suas almas e servirão a quem os criou. Em todo o descoberto não há homens de sua maneira.114

Os elogios de Torres não pararam por aí. Na mesma carta ele ainda afirmara que os mesmos falavam tão bem que “parece que todos eles se criarão em paços de grandes

senhores”, não possuíam inveja uns dos outros nem julgavam. Ao fim, ainda coloca que “se ouvera de escrever todalas boas partes que há em elles, antes faltaria tinta e papel

que matéria”.115

Assim, mesmo sendo o futuro da missão ainda incerto (lembremos que as conversões nos primeiros anos não foram numerosas), tanto Xavier como Torres mostraram-se impressionados e animados com a população japonesa.

Os melhores cristãos

A despeito de todas as dificuldades que encontraram, os poucos missionários que trabalhavam no Japão mantiveram uma alta estima do povo nativo. Não apenas os

113 LACH, Donald, op. cit.

114 Cosme de Torres. Carta. 29 de setembro de 1551. In: MEDINA, Juan Ruiz de (ed.), Documentos del

Japon 1547-1557, Roma: Instituto Histórico de La Compañia de Jesus, 1990, p. 212.

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japoneses eram considerados tão “civilizados” quanto os europeus, como também ótimos cristãos116.

Segundo as notícias que temos pelas cartas de Cosme de Torres e dos relatos de Luis Fróis – que apesar de só ter chegado ao Japão em 1564 trabalhou em Malaca, entre 1554 e 1557, como copiador das cartas que circulavam na Ásia, além de ter juntado diversas delas posteriormente para poder escrever a sua História de Japam – os japoneses conversos eram bastante disciplinados na fé. Torres escreveu, numa carta de 1560, que os cristãos nativos frequentavam todos os domingos as missas, além das festas do Evangelho117. Além disso, os japoneses eram sempre descritos como constantes na fé e mesmo quando perseguidos por serem cristãos eles eram, segundo os relatos, capazes de colocar sua vida em risco para não irem contra a lei de Deus118. Eram também muito inclinados à devoção e penitência além de seguirem sempre a razão119 (que se bem usada confirmaria os ensinamentos cristãos, segundo os missionários).

A insistência em tais descrições demonstra a comoção por parte dos jesuítas que as escreveram, mas também servia a alguns fins. Primeiramente, à promoção da nova missão. Os jesuítas que trabalharam no Japão sempre tiveram que exercer suas atividades com número bastante reduzido de padres e irmãos, mas isso é verdade ainda mais para essa fase inicial do primeiro superiorato de Cosme de Torres. O historiador Daril Alden afirma que Torres jamais teve mais do que treze companheiros jesuítas no Japão, sendo que apenas sete deles eram padres120. A promessa de uma nova missão próspera deveria, portanto, animar aqueles que estavam na Europa a enviarem mais missionários, além de fundos para o Japão – essencial para a manutenção da missão que não possuía ainda renda própria.

116 Tal estima pelo povo japonês permaneceu por muito tempo, segundo os relatos dos jesuítas, como

veremos ao analisar o superiorato seguinte de Francisco Cabral.

117 Cosme de Torres. Carta a Melchior Nunes Barreto. 20 de outubro de 1560. In: MEDINA, Juan Ruiz de

(ed.), Documentos del Japón 1558-1562, Roma, Institutum Historicum Societatis Iesu, 1995.

118 Cosme de Torres. Carta ao Geral da Companhia. 24 de outubro de 1566. In: GARCIA, José Manuel

(ed.). Cartas que os Padres da Companhia de Iesus Escreverão dos Reynos de Iapão e China aos da

mesma Companhia da Índia e Europa des do anno de 1549 até o de 1580, vol. I, Maia, Cotovia, 1997.

Luis Fróis também conta na sua História de Japam casos em que cristãos japoneses preferem morrer a deixar sua fé.

119 Cosme de Torres. Carta a Antônio de Quadros. 08 de outubro de 1561. In: MEDINA, Juan Ruiz de

(ed.), op. cit., (1995).

120 ALDEN, Daril. The Making of an Enterprise – The Society of Jesus in Portugal, its empire and beyond

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Além disso, com as grandes navegações o mundo tornava-se cada vez maior e a Companhia precisava eleger determinados locais para mandar seus missionários. Um importante critério para esta escolha era justamente a disponibilidade do gentio (onde a porta estivesse mais aberta), assim como uma maior devoção e desejo da sua parte121 - critérios absolutamente preenchidos a julgar pelas animadas cartas analisadas até aqui.

O pequeno contingente de missionários, por outro lado, os impediria de espalharem-se pelo território japonês. Pelas cartas, contudo, os jesuítas não hesitaram em deixar algumas áreas, com um número até significativo de cristãos, sem nenhum padre ou irmão para que pudessem chegar a outras cidades e províncias e aumentar o número de batismos e conversões. A prudência jesuítica, contudo, só permitiria tal conduta caso eles tivessem certeza de que os cristãos que fossem deixados para trás permaneceriam firmes em sua fé, da forma que lhes foi ensinada. Tal estratégia será posteriormente criticada por Francisco Cabral, o segundo superior da missão, que defendia que cada casa jesuíta no Japão deveria ter ao menos três ou quatro missionários, mesmo que isso implicasse no fechamento de algumas delas.122 Cabral, contudo, não foi o único a defender tal estratégia. O próprio padre Geral, Francisco Borja, enviara uma carta em 1567 ao provincial do Peru, na América espanhola, ordenando que os jesuítas fossem a poucas partes e atendessem primeiramente os já cristianizados, cuidando para conservá-los, e depois convertessem outros, seguindo o critério inaciano de ganhar pouco a pouco, fortificando o que já ganhou.123 Parece, contudo, que as cartas dos primeiros jesuítas do Japão conseguiram cumprir seu papel, uma vez que tal orientação não foi dada a Cosme de Torres por nenhum de seus superiores.

Além disso, a persistência de comunidades cristãs relativamente numerosas em domínios de daimyō hostis ao cristianismo (como veremos, em alguns casos daimyō não

cristãos chegavam a permitir a atividade dos missionários em seus domínios, mas depois de um tempo os expulsavam e proibiam a evangelização em seus territórios) como Hirado, Yamaguchi, Higo, Satsuma, demonstra que os missionários conseguiram

121 LONDOÑO, Fernando Torres. Escrevendo Cartas. Jesuítas, Escrita e Missão no Século XVI. Revista

Brasileira de História, São Paulo, V. 22, nº 43, p. 11-32, 2002.

122 Francisco Cabral. Carta ao Padre Diego Miró do Colégio de Roma. 06 de setembro de 1571. In:

CORREIA, Pedro Lages Reis. Francisco Cabral and Lourenço Mexia in Macao (1582-84): two different perspectives of evangelization in Japan. Bulletin of Portuguese/Japanese Studies, Universidade Nova de Lisboa, vol. 15, dez-2007 (p. 47-77).

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formar algumas comunidades que se consolidaram, ainda que longe da presença dos padres e irmãos124. Se essas comunidades praticavam os rituais e cerimônias cristãs da forma que os missionários esperavam é difícil de dizer, arriscaria dizer que é muito provável que não, contudo, creio que para esse caso apenas o fato de elas se autodenominarem cristãs já é suficiente para que sejam consideradas comunidades consolidadas de cristãos japoneses.