1918 a 1922
LOCALIZAÇÃO QUANTIDADE PART. (%)
R. 14 de Julho 52 33,77
R. 1º de Março (atual Dom Aquino) 18 11,69
R. Santo Antônio (atual Av. Calógeras) 15 09,74
R. 7 de Setembro 11 07,14 R. 13 de Maio 09 05,84 R. Barão do Melgaço 07 04,55 Não identificado 06 03,90 R. Maracaju 05 03,25 R. Cândido Mariano 03 01,95
R. Barão do Rio Branco 03 01,95
R. 15 de Novembro 03 01,95
Av. Marechal Hermes (atual Afonso Pena) 03 01,95
Povoação de Rio Pardo 03 01,95
R. Afonso Pena (atual 26 de Agosto) 02 01,30
R. Pedro Celestino 02 01,30
Povoação de Entre Rios 02 01,30
R. Antônio Maria Coelho 01 00,65
R. 24 de Fevereiro (atual Rui Barbosa) 01 00,65
R. Joaquim Murtinho 01 00,65
R. José Antônio Pereira 01 00,65
Praça do Mercado 01 00,65
Praça Costa Marques (atual Imigrantes) 01 00,65
Povoação de Jaraguary 01 00,65
Povoação Aldeia dos Botas 01 00,65
Av. Mato Grosso 00 00,00
Rua Anhanduy 00 00,00
Rua Aquidauana 00 00,00
TOTAL 154 100,00
FONTE: ARCA, livros diversos
A inauguração da estrada de ferro e a fixação de linhas regulares de cargas e passageiros foram definitivas no estabelecimento da rua 14 de Julho como a rua principal, assim como na fixação de comércios, preferencialmente no sentido sul-norte. Computando-se aos dados da 14 de Julho o número de estabelecimentos comerciais licenciados, para as ruas Santo Antônio e 13 de Maio, paralelas à 14 de Julho e que, portanto, também faziam a ligação com a estação ferroviária, nota-se que as três ruas juntas concentraram cerca de 50% dos novos comércios instalados (mapa 2). Esses dados são representativos da importância adquirida pelo trem na estruturação do espaço urbano de Campo Grande, assim como em todas as comunicações da cidade, conforme frisado por antigos comerciantes.
Na ocasião, era tudo pelo transporte ferroviário... estrada de ferro... não havia estrada de rodagem na década de 20 e 30, eu cheguei em 1925, mas Campo Grande só tinha comunicação via ferroviária... 43
Tudo vinha pelo trem e... Quando chegava o trem, por muitas vezes vinha um vagão cheio para mim...44
Ela ajudou o comércio de Campo Grande, porque os grandes atacadistas queriam alguma coisa, já que existia o trem de passageiros e o trem de cargas que trazia as coisas mais pesadas, e o trem parava lá e tinham os carroceiros que carregavam as mercadorias, arroz, arame, etc. e tiravam dos vagões e colocavam nos caminhões para depois levar para os grandes atacadistas que eram ali na rua 14. Os atacadistas estavam da rua Antônio Maria Coelho para frente até para lá do Dom Bosco, na rua 14 que era fechada por um muro, pois a ferrovia passava ali... Era só o trem, o trem trazia tudo, era boi, era cavalo, era carro, pneu, tudo...45
43
Entrevista com José Mansur, realizada em 31/03/2001. 44
Entrevista com Francisco Leal Junior, realizada em 06/04/2001. 45
Os comerciantes: José Mansur, nascido no Líbano em 1910 e radicado em Campo Grande, na rua 14 de Julho, desde 1925; Francisco Leal Junior, nascido em Portugal em 1907, radicado em Campo Grande desde 1927 e comerciante na 14 de Julho desde 1929; Jamil Felix Naglis, corumbaense que chegou em Campo Grande em 1920 e Gabura, nascido na 14 de Julho, ao serem perguntados se só existia comércio na 14 e como era o comércio das outras ruas, me responderam:
Não! Tinha comércio nas outras ruas, mas muito pouco, mais era na 14. Ela sempre foi a rua principal...46
Naquela época só tinha um lugar que tinha movimento. Era a 14 da Afonso Pena até a Barão do Rio Branco... Mas como você perguntou... daqui da Afonso Pena até a 15 de Novembro tinha algum comércio, mas muito pouco, o comércio forte era aqui [da Afonso Pena à Barão do Rio Branco].47
Antigamente era a 14 de julho, não se falava em outra rua, era a 14 de julho...48
Então a rua 14 era uma evolução, um reboliço muito grande, era um centro de tudo que passava em Campo Grande era na rua 14 e eu participei de todos os movimentos, eu nasci lá e qualquer coisas dessas eu estava na porta...49
Analisando os dados dos quadros 3 e 4, fica a pergunta sobre o porquê da rua 1º de Março, ou Dom Aquino, após a mudança de nome em 1919, aparecer como a segunda rua que mais recebeu alvarás, tanto para construção, quanto para abertura de comércio. Na verdade, ela era a rua que concentrava as atividades de diversão da cidade. Nos livros de registros, foi possível identificar a solicitação de licença para funcionamento de bares, casa de jogos, mesas de sinuca, stand de tiro ao alvo, circo de cavalinhos, espetáculos de touradas e outros tipos de divertimentos. Portanto, é possível que esta seja a explicação de tantos investimentos, numa rua transversal àquelas que levavam em direção à estação ferroviária. José Mansur explicou, também, o receio que aquela rua despertava em alguns dos moradores, ao dizer:
46
Entrevista com José Mansur, realizada em 31/03/2001. 47
Entrevista com Francisco Leal Junior, realizada em 06/04/2001. 48
Entrevista com Jamil Felix Naglis, realizada em 28/03/2001. 49
Essa quadra aqui, da Dom Aquino até o prédio do Correio... a quadra inteira era a zona da prostituição, era tudo nessa quadra daqui até onde tem o correio hoje... eu trabalhava com o meu irmão, a casa chamava Casa Mansur, eu tinha chegado há pouco, e um dia ele disse para mim, vai até o correio e pega a correspondência, agora..., não passa por aqui, vai pela Rio Branco e vem pela Calógeras até o Correio... era perigosa aqui, viu?...
Nesse período, entre 1914 e 1930, as regulamentações passaram a ser mais constantes e rigorosas, instituindo com mais precisão o tipo de controle sobre a estrutura urbana, desejado pela elite local. Desta forma, em 31 de outubro de 1918, foi estabelecida a zona urbana, com área de 222 hectares, sendo: SUL – da confluência dos córregos Segredo e Prosa, seguindo pelo Prosa, até a rua José Antônio Pereira; LESTE – na rua José Antônio Pereira, do córrego Prosa, até o cruzamento com a av. Mato Grosso; NORTE – na av. Mato Grosso, da rua José Antônio Pereira até o córrego Segredo e OESTE – pelo Segredo da av. Mato Grosso até a confluência dos dois córregos50. Nesse mesmo ano, ficou regulamentado que qualquer construção ou reconstrução, assim como qualquer alteração dos prédios só poderia ser feita com a prévia autorização da intendência e imediata fiscalização51.
O crescimento da cidade começou a exigir outras medidas mais práticas, como a numeração dos prédios, instituída em 1919, seguindo do poente para o nascente, a partir do Segredo e do sul para o norte, a partir do Prosa52. No ano de 1921, os alvarás de licença para construção passaram a conter maiores especificações legais sobre a obra, tais como: largura das calçadas, necessidade de pintura, tipo de calçamento, etc. enquanto era exigida, também, a aprovação da obra na seção de engenharia da intendência municipal.
Ainda no período citado, Campo Grande estava estruturada, tendo como base a circulação de mercadorias que chegavam pelo trem e eram distribuídas, tanto para as fazendas da redondeza, como para as outras cidades da região. Essa situação era refletida no tipo de comércio instalado que, segundo Jamil Felix Naglis e Gabura, cujos comércios das famílias foram
50
Ato do Intendente de 31.10.1918. ARCA – Livro 52a, caixa 03. 51
Ato do Intendente de 27.12.1918. ARCA – Livro 52a, caixa 03. 52
Ato do Intendente de 12.03.1919. ARCA – Livro 52a, caixa 03. Nota-se que os córregos Prosa e Segredo, como os próprios nomes já demonstram, tornaram-se elementos constantes da vida daquela sociedade, ao mesmo tempo em que representavam barreiras naturais, que impediam o crescimento da cidade nos sentidos sul e oeste.
estabelecidos na 14 de Julho, desde a década de 1920, era uma espécie de bazar onde se vendia de tudo.
Em 24 de maio de 1924 foi inaugurado o Palace Royal... A loja começou, nos tempos dos meus pais, vendendo ferragens, montarias, óculos de graus, que se vendia naquela época, por que não tinha oculistas, tudo isso, medicamentos, bijuterias, era um tipo de um bazar, em que se vendia de tudo... Não existia comércio de especialidades, artigos de jovens, masculinos, femininos, nada disso. Se vendia de tudo.53
...tinha a casa Calarge... era uma loja enorme que tinha os fundos na avenida Afonso Pena e vendia de tudo lá, vendia sal, querosene, gasolina, arame farpado roupas, tudo que era interessante para Campo Grande e para as fazendas da redondeza e que muitas vezes vinham as carretas que entravam pelo portão e se abasteciam das mercadorias que eram levadas para as fazendas e nesse vai-vem o pessoal muitas vezes até dormiam por lá, os peões e os proprietários vinham das fazendas, almoçavam e dali já saiam as carretas para as fazendas que eram nas redondezas, até Rio Brilhante, até Terenos, até essas outras cidades, mas que compravam na Casa Calarge que eram dos meus tios.54
Esse tipo de comércio servia, principalmente, para o abastecimento dos fazendeiros da redondeza, que chegavam com suas carroças, compravam de tudo e depois voltavam para as suas propriedades. Pode ser observado, no quadro 5, que das atividades comerciais constituídas, entre 1920 e 1930, mais de 60% destinavam-se ao atendimento daquele tipo de clientela. Deve ser considerado, entretanto, que as atividades registradas na JUCEMS são de categorias nominadas com linguagem atual e que um mesmo estabelecimento pode exercer mais de um tipo de atividade.
QUADRO 5
CAMPO GRANDE: ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS CONSTITUÍDOS ENTRE 01.01.1920 E