O álcool é considerado como a droga psicotrópica de maior uso e disseminação em todo o mundo, variando– dependendo da fase, da frequência e das circunstâncias – de um uso sem problemas a um consumo excessivo ou frequente, que pode levar a complicações psicológicas, orgânicas e sociais, ocasionando até o alcoolismo (Micheli & Formigoni, 2011).
Acerca destas questões, diversos estudos e manuais classificam os comportamentos humanos relativos ao ato de beber como forma de facilitar a prevenção, o diagnóstico e tratamento.
A etiologia da dependência do álcool pode ser compreendida como manifestação de traços que incluem a predisposição genética (Bierut, Saccone, Rice, Goate, Foroud, Edenberg, et al., 2002; Cloninger, 1999; Cloninger, Bohman, & Sigvardsson, et al., 1981) ou ainda a síndrome da dependência do álcool, como também se denomina o
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alcoolismo e se caracteriza como compulsão por ingestão de álcool, perda de controle, dependência física e tolerância (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2008).
O DSM-IIIR define dependência como “um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e psicológicos que indicam que uma pessoa tem o controle do uso da substância psicoativa prejudicado e persiste nesse uso a despeito de consequências adversas” (Glossário de Álcool e Drogas, 2006, p. 51).
Os problemas decorrentes do uso de bebidas alcoólicas estão descritos no Manual de Diagnóstico de Transtorno Mental (DSM-IV) como “Transtornos Relacionados a Substâncias”. Em versão recente, a classificação refere-se aos critérios de Dependência do Álcool (DAS) no que refere-se à perda do controle, à presença de sintomas de tolerância e de abstinência, classificando o indivíduo como sendo ou não alcoólatra. Considera que a transição do beber moderado ao beber problemático ocorre de forma lenta, em geral levando vários anos.
A Classificação Internacional das Doenças (CID-10) considera que os padrões de consumo das drogas podem ser de “uso nocivo” quando acarreta dano físico ou mental ou, ainda, como “abuso”, que segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) envolve também as consequências sociais (CID-10, 1993; DSM-IV, 2000; Glossário de Álcool e Drogas, 2006).
O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais americano (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - DSM IV, 2008) define os critérios para a classificação dos quadros de abuso ou dependência de substâncias, incluindo o álcool. Neste manual, o abuso caracteriza-se como padrão mal-adaptativo do uso da substância, desencadeando prejuízo ou sofrimento clinicamente significativo, ainda que sem critérios que diagnostiquem uma dependência.
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De acordo com o DSM-IV (2008) o abuso deve ocorrer por um período de um ano e revela-se por pelo menos um dos aspectos apresentados abaixo:
1. Uso recorrente da substância, resultando no fracasso em cumprir obrigações importantes relativas a seu papel no trabalho, na escola ou em casa;
2. Uso recorrente da substância em situações nas quais isto representa perigo físico;
3. Problemas legais recorrentes relacionados à substância;
4. Uso continuado da substância, apesar de problemas sociais ou interpessoais persistentes ou recorrentes causados ou exacerbados pelos efeitos da substância. O diagnóstico de abuso pode ser mais recorrente em pessoas que tenham começado o consumo da substância recentemente, mas deve-se alertar para o fato de que alguns se mantêm nesse estágio por longo período, sem desenvolverem a dependência propriamente dita. Já o quadro de dependência, por sua vez, configura-se a partir do momento em que a pessoa continua com o uso da substância, apesar de manifestar sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos que provocam problemas expressivos (DSM-IV, 2008).
Para o diagnóstico de abuso o DSM-IV considera um padrão de auto- administração repetida, comumente resultante em tolerância, com sinais de abstinência e compulsividade devido ao consumo da droga. Para tanto é necessária a ocorrência de três ou mais dos sintomas aqui relacionados:
1. Tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:
• Necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância, para adquirir a intoxicação ou efeito desejado;
• Acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade de substância.
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2. Abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos: • Síndrome de abstinência característica para a substância;
• Uso da mesma substância com o objetivo de aliviar ou evitar sintomas de abstinência.
3. A substância ser frequentemente consumida em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido.
4. Desejo persistente ou esforços malsucedidos no sentido de reduzir ou controlar o uso da substância.
5. Gasto excessivo de tempo para obtenção da substância, sua utilização ou na recuperação de seus efeitos.
6. Abandono ou redução de atividades sociais, ocupacionais ou recreativas importantes em virtude do uso da substância.
7. Manutenção do uso da substância, apesar da consciência de se ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado por ela.
Por fim, quanto à definição de abstinência, quadro recorrente dentre os usuários crônicos de álcool, o DSM IV a define como alteração comportamental mal adaptativa, com elementos fisiológicos e cognitivos, decorrente da queda da concentração da substância no sangue e nos tecidos. Assim, diante dos sintomas desagradáveis da falta do álcool, a pessoa fica propensa a consumir mais uma vez a substância, desta vez com o objetivo de alívio do sofrimento ou evitação do mesmo.
Tais classificações são usualmente utilizadas em diagnósticos que se referem à população geral, não identificando suas especificidades da população adolescente, ainda que o alcoolismo possa ser previsto nesta fase a partir da prevalência de uso.
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Outrossim, a Academia Americana de Pediatria (AAP, 1996) define uma classificação diagnóstica a partir de seis estágios que propõe critérios de prevalência de uso do álcool na adolescência. Sendo eles:
1. abstinência; 2. uso experimental/recreacional; 3. abuso inicial; 4. abuso; 5. dependência; e 6. recuperação.
De acordo com essa classificação, nem todo uso de álcool na adolescência será problemático, pois a maior parte das pessoas que o experimentam ou têm eventuais episódios de abuso não desenvolvem quadro de dependência. Entretanto, não se deve desconsiderar os riscos próprios da precocidade do uso, a exemplo das complicações clínicas, como hepatite alcoólica, gastrite, síndrome disabsortiva, hipertensão arterial, acidentes vasculares, cardiopatias, neoplasias malignas diversas, pancreatite e polineurite alcoólica (Departamento de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2007).