No tópico anterior, foi visto que a humanidade não possui verdades infalíveis, e que a unidade de opinião, que não decorre da livre discussão, não é algo desejável. A diversidade de costumes e opiniões é algo que se instala no mundo como algo necessário e salutar. Cabe ao ser humano estar apto para escolher o plano de vida mais adequado as suas necessidades.
Para Mill, existem tipos infindáveis de ações humanas. Algumas delas, injustificadamente, podem prejudicar outros e, nesse sentido, devem ser controladas. Nas demais ações, o princípio da individualidade deve prevalecer ao princípio do dano. Contudo, ainda que o indivíduo seja livre para atuar nos casos que em nada influenciam os outros, essa
ação não deve ser despretensiosa. Ela deve ser movida por uma capacidade racional, que leva o homem não só à decisão, mas ao processo de justificação de sua própria decisão. É preciso, portanto, que a ação livre também seja autônoma.
Aquele que faz qualquer coisa porque é o costume, não faz nenhuma escolha. Ele não ganha nenhuma prática, seja em discernir ou em desejar o que é melhor. (...) Aquele que permite que o mundo, ou sua própria parte deste, escolha seu plano de vida para ele, não tem nenhuma necessidade a qualquer outra faculdade a não ser aquela da imitação dos símios. Aquele que escolhe seu plano para si próprio emprega todas as suas faculdades. Ele deve usar a observação para ver, raciocínio e julgamento para prever, atividade para juntar materiais para a decisão, discriminação para decidir, e quando houver decidido, firmeza e autocontrole para sustentar sua decisão deliberada (MILL, 2006, p. 87).
Segundo Will Kymlicka, a concepção de autonomia que subjaz à teoria de Mill aponta que é um interesse básico para o homem ser capaz de acessar e revisar racionalmente seus próprios fins (KYMLICKA, 1996, p.88). E a autonomia não tem um papel relevante apenas na liberdade de ação: ela também é um requisito essencial para o cultivo da individualidade.
Para Mill, individualidade é sinônimo de desenvolvimento humano (MILL, 2006, p. 93). Ela fomenta a originalidade e a autenticidade, possibilitando, inclusive, a vida em um contexto social, pois, segundo o autor, “havendo mais vida nas unidades, haverá mais vida na massa da qual elas são compostas” (MILL, 2006, p. 92). Esse apelo à individualidade traz consigo um elogio a diversidade. Ora, diferentes pessoas requerem diferentes condições de desenvolvimento e, por esse motivo, é preciso libertar-se do despotismo do costume corriqueiro e, a partir de um princípio progressivo, almejar fins melhores que os usuais.
A individualidade, entretanto, deve ser fomentada dentro dos limites impostos pelo direito dos outros. O indivíduo vive em sociedade, e esse fato “torna indispensável que cada um deva comprometer-se a observar certa linha de conduta em relação ao resto”. Portanto, a sociedade terá jurisdição sobre qualquer conduta que interfira prejudicialmente no interesse dos outros. Todavia, nos casos em que isso não ocorrer, deve haver a liberdade incondicional.
Isso significa que, segundo a teoria de Mill, o sujeito é livre para causar dano a si mesmo. Assim, caso existam deveres morais do indivíduo em relação a si mesmo, esses deveres não são socialmente obrigatórios, e não podem sofrer intervenção do Estado, a menos que, ao mesmo tempo, sejam deveres para os outros. Nesses casos, a única atitude que a sociedade pode tomar é expressar seu desagrado através da desaprovação pública.
Considerando a liberdade de ação, restou claro que: (1) ela advém da individualidade, (2) tem como requisito essencial a existência da autonomia; (3) é limitada pelo princípio do dano. Para Glyn Morgan, entretanto, a relação prática entre a liberdade de ação e o princípio
do dano é muito vasta, e não atinge todas as ações da mesma maneira. Isso acontece porque a amplitude do que se entende por ação autônoma (self-regarding action) é grande e, por isso, torna-se necessária a divisão dessa espécie de ação em quatro grupos:
(1) Ações que atingem apenas o agente;
(2) Ações que afetam os outros de maneira trivial;
(3) Ações que afetam os outros negativamente, mas consensualmente ou justificadamente;
(4) Ações que injustificadamente e não consensualmente prejudicam os interesses vitais e essenciais dos outros
Segundo Morgan, o princípio do dano de Mill proíbe terminantemente apenas as ações do tipo (4), de modo que as demais devem estar sujeitas a uma regra geral de tolerância (MORGAN, 2008, p. 149). Isso significa que, em última instância, apenas os interesses vitais e essenciais dos indivíduos são tutelados pelo poder do Estado e, por esse motivo, essa teoria de liberdade de ação estaria essencialmente interligada a uma concepção substantiva de bem.
Mill não identificou diretamente, em sua obra, quais seriam esses interesses vitais. Poder-se-ia pensar que eles são a própria individualidade, ou o ideal de autonomia e liberdade. Para Morgan, eles representam o interesse pela segurança, acompanhada de uma teoria sociológica concernente à formação do caráter progressivo (MORGAN, 2008, p.161). Para a autora,
a discussão de Mill no capítulo VI mostra que seu modo de tolerância preferido requer que nos assumamos a responsabilidade pela formação do caráter de cada um. A respeito disso, os modos de tolerância de Mill são bem diferentes daqueles que prevêem a tolerância apenas como um meio de assegurar a ordem civil entre grupos antagonistas. Para Mill, a tolerância é um mecanismo educativo que deve ser usado sabiamente se as sociedades livres devem construir os tipos certos de caráter. Percebidos sob essa luz, os modos de tolerância de Mill podem ser entendidos como uma contribuição para, o que foi denominado acima, o processo progressivo da formação do caráter nas sociedades civilizadas (MORGAN, 2008, p. 157. Tradução nossa).33
33 No original: “Mill‟s discussion in chapter IV shows that his own preferred mode of toleration requires us to
assume responsibilities for each other character formation. In this respect, Mill‟s mode of toleration is very different from those who envisage toleration as merely a means of securing civil order between otherwise antagonistic groups. For Mill, toleration is an educative mechanism that must be used wisely if free societies are to build the right type of characters. Viewed in this light, Mill‟s modes of toleration can be understood as a contribution to, what was termed above, a progressive process of character formation in a civilized society”.
Entretanto, a primeira vista, esse discurso soa contraditório ao que foi defendido por Mill nos capítulos I e II do “Ensaio sobre a liberdade”. Enquanto nesses capítulos Mill apregoava a intolerância dos costumes e da opinião pública como inibidores da individualidade, no início do Capítulo IV e, segundo a interpretação de Morgan, Mill advoga pelo controle social daquelas ações indesejáveis, mas que não podem ser controladas pelo Estado. A complexidade dessa e de outras contradições presentes na teoria da tolerância de Mill serão objeto do próximo tópico.