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LİTERATÜR ARAŞTIRMASI

O Brasil do final do século XVII até a primeira metade do XVIII assistiu ao gradual desloca- mento de sua base econômica, que passou da agricultura para o ouro, com as recém-descobertas minas das regiões mais internas do território, dando origem ao denominado ciclo aurífero da história colonial. Em razão dessa mudança, diferentes bispados e prelazias se formaram, configurando, inicial- mente, o esboço de uma nova divisão territorial na colônia, assinalada pela fundação de inúmeras vilas e cidades, algumas delas, inclusive, destinadas a ser capitais, como nos casos de Vila Boa de Goiás e de Cuiabá do Mato Grosso. Com essas fundações, Portugal apontava sua intenção de consolidar um outro desenho do território colonial brasileiro, reafirmado, posteriormente, pela criação de novas capi- tanias. Com estas surge um outro cenário administrativo, que visou, prioritariamente, garantir à metró- pole a vigilância, os direitos e a extensão de autoridade sobre as terras minerais, notadamente aquelas que se localizavam além Tordesilhas.

Essa nova reorganização territorial pode ser observada inicialmente no remoto ano de 1748, a partir da determinação da Coroa para que o antigo e extenso território da Capitania de São Paulo fosse desmembrado para dar origem às capitanias de Goiás e Mato Grosso. A decisão sobre uma divisão dessa ordem se justificava tanto pela urgência de se definir as fronteiras a oeste da colônia – e nesse caso, encontrava-se Mato Grosso o “[...] antemural [de] todo o interior do Brasil”96– quanto pela

necessidade, dadas as circunstâncias, de um controle mais direto

[...] das muitas povoaçõez [mineiras] que já existem cotendidas por mais de trezentas legoas como vão deste a passagem do Rio grande athé com fins do Governo do Maranhão sendo a mayor parte deste espaço de terras mineraes de ouro, e também em razão de haverem no mesmo destricto dous, ou tres Rios em que se achão diamantesonde será presizo todo o cuidado de hum bom Governador para que se observe a prohibição de extrailos, a respeito da qual há noticia de muitas transgressões sem se lhe poder athe agora achar remedio eficaz. Acresce a isto estar aquele destricto rodeado de gentis dos mais bárbaros que athe aqui se encontrarão no Brasil, e ser presiza para rebater os seus insultos prompta providencia de hum Governador97.

96 AHU. Goiás. Doc. 249, 1748. Consulta do Conselho sobre os novos governos em Goiás e Mato Grosso. Goiânia: IPEHBC. 97 AHU. Goiás. Doc. 249, 1748. Idem.

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Nota-se, portanto, quão importante foram as primeiras providências para o efetivo controle dessa região e os esforços para a fundação de um novo município que permitiria a legitimação do poder administrativo sobre um território caracterizado por limites imprecisos e incertos. A inaugu- ração de uma capital representaria também a sua organização, autonomia, instauração de um gover- no próprio e uma política que, semelhante à de Cuiabá (1740), além de ultrapassar “[...] as circunstâncias de defesa de uma área localizada, para vir a significar a defesa de toda a conquista”98, visava, sobretudo, ampliar

a segurança da exploração do ouro encontrado, fortalecer as práticas do expansionismo português e dar início a uma nova reorganização da colônia, com a criação de capitanias.

Esses foram o contexto e os motivos fundamentais do surgimento de Vila Boa de Goiás. As primeiras ações em direção a tão importante decisão podem ser vistas a partir de 1736, quando o governador de São Paulo recebeu ordens reais para a sua fundação. No entanto, apesar da urgên- cia dessa tarefa, ela só seria cumprida em 1739, pois o primeiro homem destinado a executá-la, D. Antônio Luiz de Távora, o Conde de Sarzedas, faleceu em 1737, no Arraial de Traíras, antes mesmo de cumpri-la. Diante de tais circunstâncias, em 1738, o Superintendente Geral das Minas de Goiás, Agostinho Pacheco Telles, afirmava não só a intenção de “[...] V. Magestade servia [servir] mandar crear vilas nas povoações que chamão Arrayaes [...]”99 como também informava ao Conselho sobre a “[...]

necessidade que padescião os povos daquelas Minas de administração [...]”, pois era grande a distancia em que ficão [vam] humas povoações das outras [...]”100. Em 1739, finalmente, o sucessor do governador de São

Paulo, Luís de Mascarenhas101, demarcou as quatro léguas de terra para o termo de Vila Boa, ao

lado do Arraial de Santana, em um sítio que deveria estar provido de água saudável e quantidade suficiente de lenha para o abastecimento do novo lugar.

Apesar de serem importantes providências, haveria de se pensar ainda na gerência da Vila. Para tanto, diversas ações burocráticas deveriam ser iniciadas por vereadores, o que levou D. Luís de Mascarenhas102 à

constituição da Câmara com “[...] dous vereadores e procurador do conselho, os quaes foram eleitos e tomaram juramen- to, fazendo a sua primeira vereança no primeiro de agosto de 1739”103. Além do controle da própria Vila, esses

homens bons se responsabilizariam também pela administração e organização dos Arrayaes desta Ouvidoria104.

Para essa tarefa, contariam com o auxílio de “[...] dous Juizes ordinários em cada hum delles e hum Tabelião do publico judicial, e notas, e hum Meirinho para servirem com os ditos Juizes”105. Assim, vereadores

98 ARAÚJO, Renata Malcher de. A urbanização do Mato Grosso no século XVIII: discurso e método. Tese de doutoramento. Lisboa: Universidade

Nova de Lisboa, 2000, p. 102.

99 AHU. Goiás. Doc. 60, 1739. Estabelecimento da Vila. Goiânia: IPEHBC 100 AHU. Goiás. Doc. 60, 1739. Idem.

101 AHG. Goiás. Doc. 60, 1739. Estabelecimento da Vila. Goiânia: IPEHBC.

102 Segundo as Ordenações Filipinas, caberiam aos vereadores o “[...] encargo de todo o regimento da terra a das Obras do Conselho e de tudo

que puderem saber entender, porque a terra e os moradores d’ella possam bem viver[...]”. De acordo com Freitas, “os juizes ordinários presidiam o conselho e superintendiam a polícia e o procurador do povo deveria manter a câmara informada das necessidades e dos reclames do povo”. FREITAS, Lena Castello Branco Ferreira de. Correição em Villa Boa de Goyaz. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. N. 18, dez. 2004, p. 87-105.

103 SILVA E SOUZA, Luiz Antônio de. Memória sobre o descobrimento, governo, população e coisas mais notáveis da Capitania de Goiás. Goiânia: Ed. Oriente 1978. p. 85. 104 A primitiva intendência das minas dos Goyazes se dividia em duas: Santana e Tocantins, que, por sua vez se subdividiam operacionalmente em

comissárias: Santana, Meia Ponte, Crixás, São Luís (depois Natividade), São Félix, Arraias, e, mais tarde, Santa Luzia e Santa Cruz. PALACIN, Luís. Goiás: 1722/1822. Goiânia: Oriente 1976, p. 49.

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Fig. 25 – Vila Boa de Goiás e tudo que pertence ao seu termo.

Fonte: Catálogo de verbetes dos documentos de manuscritos avulsos da Capitania de Goiás existentes no AHU. TELES, José Mendonça (org.). Brasília: Ministério da Cultura; Goiânia IPEHBC, 2001, p 23.

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e juízes, articulados, deram início aos primeiros traços da rede jurídico-administrativa de Goiás, liderada por uma única vila106.

Por outro lado, não foram apenas as decisões de âmbito administrativo que caracterizaram a implantação desse mais novo centro irradiador de controle. Para instaurá-lo, intervenções no espaço físico também foram realizadas e coordenadas pelos mesmos vereadores, que iam desde a definição do seu termo – território do município –, dos tênues acordos que se estabeleceram entre os limites territoriais dos povoados vizinhos, com a demarcação do pelourinho, da Casa de Câmara e Cadeia e da matriz, até a acentuada preocupação com a regularidade das casas. Todos esses cuidados revelavam uma clara atenção com a organização e regularização do traçado da nova capital Vila Boa.

Mas, além dessas preocupações o que se coloca aqui em relevo é a formação de um município que se responsabilizaria pela importante região central da colônia. Ou seja, o território, agora constituído como uma unidade administrativa coordenada por Vila Boa, passou a ser gerido ao longo de todo o século XVIII, a partir de uma comarca e vários julgados107, que frequentemente se

alternavam no atendimento das necessidades locais. É o que se vê na proposta de subdivisão feita pelo então governador José de Almeida e Vasconcelos, resultando na execução da Carta ou plano Geografhico da Capitania de Goyaz108, ou simplesmente Mapa dos Julgados, de 1778, elaborado pelo

sargento-mor Thomaz de Souza, no qual se encontram os limites de Vila Boa, Crixás, Pilar, Traíras, S. Félix, Conceição, Natividade, Arraias, Cavalcante, Santa Luzia, Meia Ponte, Santa Cruz e Rio das Velhas, porém com a advertência de que “[...] huns cumpriendem pequeno terreno por serem mais povoados, e outros muito grandes por terem muita terra inteiramente despovoada como he Villa Boa e Natividade” 109. Nesse

momento, já distante da época em que se dava o início de mais uma nova unidade administrativa da colônia, o extenso território de Goiás se apresentava com esses julgados, vários arraiais e apenas um único município, responsável por toda a sua gestão.

Vila Boa foi, portanto, a representante física e legal das instituições de Portugal e a única articuladora dos diferentes arraiais existentes. Por essa razão, ela não foi apenas um simples povoa- do de mineração, mas, principalmente, um importante centro fiscal e político-administrativo da metrópole, responsável pela hierarquização, defesa e eficácia dos caminhos e comunicações, além de ordenadora de todo o território da Capitania. Mais que isso, ela representava, sobretudo, a certe- za do controle das minas de ouro do Brasil Central e a incorporação aos domínios de Portugal de parte de um território que não lhe pertencia.

106 Tal situação de soberania gerou, entretanto, por diversas vezes, várias reclamações dos governadores sobre a grande extensão da Capitania,

sobre suas conseqüentes dificuldades para administrá-la, ou até mesmo pelas solicitações que alguns arraiais do distrito do Tocantins fizeram à Coroa para se elevarem à categoria de vila, bem como a da importante Meia Ponte, que ainda no final do século (1779) reclamava já ter passado da condição de julgado.

107 Grosso modo, esses tipos de divisões se assemelhavam bastante, pois se destinavam ao controle fiscal e judiciário, diferindo apenas em relação ao

tamanho dos territórios e dos tipos de juízes. As comarcas, de maior área são da competência dos juízes de direito e os julgados, dos juízes municipais. Em Breve Notícia da Comarca de Goiás, observa-se que em Goiás, nos setecentos, houve apenas uma única comarca na Capitania com “vinte Juízes Ordinários, havendo uns que têm jurisdição mais de duzentas léguas de note a sul, ou de um rumo a outro”. A segunda foi criada apenas no início do século XIX, pelo alvará de 18 de março de 1809, denominada de S. João das Duas Barras.

108 Vila Boa, 20 de abril de 1778 – José de Almeida Vasconcelos e Carvalho. Mapa dos julgados. In: BERTRAN, Paulo. Notícia Geral da Capitania

de Goiás. V.1, 1996, p.102.

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110 No artigo Conquista e formação de territórios/territorialidade no processo de constituição das

fronteiras da Capitania de Minas Gerais, Fernanda Borges de Moraes verifica situação semelhante. MORAES, Fernanda Borges de. Conquista e formação de territórios/territorialidade no processo de consti-

tuição das fronteiras da Capitania de Minas Gerais. Londrina: ANPUH, julho de 2005.

1111 WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José C. de. Formação do Brasil colonial. Rio de Janeiro:

Editora Nova Fronteira, 1994, p. 77-78. Fig. 28 – Vista deVila Boa de Goiás no

séc. XIX.

Fonte: Biblioteca Mário de Andrade. S. Paulo.

Benzer Belgeler