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Muitas foram as sementes lançadas nos campos do lazer da Escola Agrícola de Jundiaí. No entanto, apesar da fartura geral visualizada no processo da colheita, foi com a semente da festa que pudemos vivenciar com maior intensidade e beleza a florescência ludopoiética do lazer. Este é o momento marcante do percurso deste estudo por permitir

compreender e observar o florescer da ludopoiese. Em outras palavras, foi nesse momento que visualizamos os processos da autotelia, autoterritorialidade, autoconectividade, autovalia, e autofruição como um todo ontopoiético.

As sementes da festa quando lançadas foram rapidamente absorvidas e germinaram, porque já faziam parte dos sonhos dessas pessoas. Algumas já foram vivenciadas junto aos familiares ou aos amigos, como uma prática de interação/integração, descontração e celebração. Diante dessas experiências diversas, plurais e sistêmicas das festas, foi possível compreender o fenômeno da ludopoiese ao mobilizar sentimentos e emoções nas pessoas, influenciando na maneira de ser, conhecer, conviver e fazer, bem como contribuindo na transformação pessoal e social como um todo.

Os estudantes residentes mostravam intenso envolvimento com as festas, pois tinham em suas raízes, experiência com as festas tradicionais do interior nordestino, em especial com aquelas que são vinculadas as festas comemorativas e religiosas, revelando as raízes culturais e os valores com esse tipo de manifestação popular. Festas religiosas organizadas nas ruas para cultuar os santos ou para homenagear personagens da história da cidade; aquelas que se restringem ao ambiente familiar e aquelas que se ampliam para a cultura geral, datas dos ciclos festivos: o carnavalesco, o junino, o natalino, dentre outros.

As festas não apenas perpassam a vida desses adolescentes e dos que com eles convivem, mas integram a vida de pessoas que lidam com o campo e com a agricultura, por exemplo, que é o caso da maioria das famílias dos residentes. É comum, antes do começo de um novo trabalho com a terra, a comunidade se reunir para pedir aos seres e as forças da natureza, ou a um deus poderoso, as bênçãos necessárias para a boa execução do trabalho e para que a colheita seja generosa, garantindo, assim, o sustento da família.

Em nosso campo investigativo, a festa foi abordada a partir dos valores culturais do lazer, despertados nos estudantes residentes no sentido de vivenciarem momentos sociais lúdicos, livres de tensões. Como afirma Barros (2002, p.67), “a festa é uma espécie de parada na vida cotidiana, como um momento contemplativo no meio da ação diária”. Para a comunidade da EAJ, as festas a que nos referimos foram momentos lúdicos, nos quais foi possível construir e fortalecer laços afetivos no convívio com as pessoas e romper com as dificuldades do cotidiano.

Além de tudo isso, a festa emergiu como uma vivência do lazer ludopoiético, por meio da qual os estudantes puderam desenvolver, em seu cotidiano, a capacidade de criar seu próprio lazer de maneira lúdica. Para isso, eles se comprometeram com o cenário escolar,

implicaram-se nas atividades propostas, zelaram pelos afetos e entregaram-se às vivências, consolidando o sentimento de pertencimento à escola.

O sentimento de pertencimento aos lugares onde se realizavam as festas e a relação de afeto que os estudantes estabeleceram com a moradia estudantil evidencia o processo da autoterritorialidade da vivência ludopoiética, uma vez que nesses eventos o estudante era partícipe do processo e do contexto, como argumenta Mesquita (1995, p.85):

[...] reconhecer-se como sujeito, faz-se a partir do contato com o outro, com os outros, e nas múltiplas relações que com eles mantemos. Seja do indivíduo, seja do grupo, ela é o reconhecer-se a si mesmo: conhecer-se de novo, mapear-se a si mesmo.

As festas foram organizadas seguindo um rito próprio. Foram promovidas por pequenos grupos de estudantes, que, de acordo com suas experiências de vida, seus desejos e sua criatividade, planejavam cada passo a ser dado para a celebração. Ao longo dos dois anos letivos em que se desenvolveu este estudo, tornou-se necessária uma maior mobilização. Durante o processo de consolidação, a festa passou por transformações e evolução em suas diferentes fases: na preparação, na celebração e na repercussão.

Para a celebração da festa na escola, houve efetivamente uma mobilização da comunidade escolar, estudantes, professores e funcionários. Cada segmento contribuiu de uma maneira específica, de acordo com as atividades que desempenhava na instituição, envolvendo-se no apoio organizacional e na logística, tanto na preparação quanto após a realização, principalmente, referentes aos recursos materiais (gêneros alimentícios, material para decoração, segurança, transporte e limpeza). Participaram animadamente na separação de madeiras e gravetos para a fogueira, auxiliavam no som, juntavam-se nos momentos de cantoria e dança. Houve até quem expressasse a alegria de fazer o diferente pelo choro da sanfona e pelas batidas do pandeiro. Nesse sentido, a festa possibilitou o reconhecimento das pessoas,pois na medida em que os sujeitos entregavam-se à atividade, demonstravam suas habilidades, refletindo um pouco de sua essência, de sua forma de ser e de colocar-se no mundo.

Os professores também deram sua parcela de contribuição, embora, a princípio, tenha sido pouco expressiva em número de participantes. Porém, com a diversificação de temática e maior interação entre professores e estudantes, houve mais envolvimento e a presença passou a ser mais constante e significativa. Nas festas, os professores demonstravam sua alegria de viver: homenageavam os participantes com músicas, dançavam, contribuíam

para a aquisição de materiais e a liberação de espaços, tornando-se, inclusive em algumas situações, parceiros dos residentes nos momentos de “transgressão de regras”, particularmente em relação ao horário de encerramento. Além disso, assumiam o papel de disseminadores das festas, na medida em que emitiam comentários sobre as situações vividas, estimulando outros professores a participar. Como afirma Padilha (2007, p.136/137) “a escola também é lugar de festa, de „baile‟ e de alegria. [...] para ser realizada, depende, geralmente, das decisões, da participação e da ajuda de muitas pessoas” (grifo do autor).

Quanto aos estudantes, estes tiveram uma efetiva participação nas três etapas principais das festas. Essa implicação foi principalmente evidenciada com aqueles que residiam na própria escola por suas atitudes e expressões gestuais e fisionômicas demonstravam intenso envolvimento, comprometimento e prazer, permitindo-se vivenciar os processos ludopoiéticos da autotelia, autoterritorialidade, autoconectividade, autovalia, autofruição. Esses processos emergiram da vivência da festa de forma integrada, indissociável e interdependente. A seguir, buscamos mostrar essa integração dos diferentes processos ludopoiéticos, evidenciados nas vivencialidades da festa.

Os luais (temáticos ou tematizados), as festas de acolhimento, as festas religiosas, dentre outras, foram motivo de alegria para os residentes, propiciando uma nova razão para permanecer na escola. Mais do que isso, criaram motivos para se sentirem acolhidos, cuidados, úteis e felizes. Na realidade, as festas, antes sonhos impossíveis, tornaram-se uma realidade prazerosa e transformadora. Uma prática da esperança, da plenitude e de celebração, com a qual se comemoravam as vitórias, concretizavam-se desejos, interligavam-se histórias e pessoas, construindo-se novas aprendizagens, ampliando-se a vontade de viver de maneira significativa e intensa.

Com as festas, os solos tornaram-se ainda mais férteis, receberam nutrientes, fortalecendo-se como parceiros da vida, mostrando sua singularidade e sua preciosidade. Colocaram em evidência sua capacidade de adaptação a novos cultivos, demonstrando a habilidade de gerar e fazer florescerem as sementes do lazer. As festas foram momentos de auto-organização nos quais atitudes, valores e conceitos puderam ser construídos e reconstruídos para uma maior qualidade ao processo da autoformação humanescente.

Dentre essas festas, que proporcionaram transformação espacial e humana, destacaram-se os luais, realizados, mensalmente, a partir da criação de temas, entrelaçando fortemente os fios da corporeidade: criatividade, ludicidade, sensibilidade, reflexividade

A ideia de desenvolver a Festa do Lual partiu do desejo dos próprios residentes, que sentiam necessidade de vivenciar algo diferente, momentos que os fizessem reviver um pouco suas tradições e lhes oportunizassem o encontro consigo mesmos, com o outro e com o ambiente. Sobre este desejo, Solo G.L.F. (2008) destaca que “as festas dos luais feitas aqui na escola são muito interessantes”. Interessantes por fugirem da rotina, movimentarem o imaginário e reacenderem o prazer, propiciando o exercício da criatividade dos residentes.

Tais vivências instigavam o potencial criativo dos residentes em diferentes momentos, principalmente no trabalho de preparação das festas favorecendo a resolução de problemas. Nesse contexto, a criatividade apresentava-se como um processo de autorrealização pessoal, constituindo-se um fim em si mesmo, à medida que contribuia para o desenvolvimento de habilidades sociais e afetivas nos residentes, estimulando-os na participação e no envolvimento, de maneira significativa para a sua existência.

A Festa do Lual é apresentada aqui como uma manifestação sociocultural que sofre influências tanto das festas camponesas como das urbanas (ROSA, 2002). Nela consagra-se o conhecimento popular, possibilita-se ainda a conexão do homem com a natureza, o que permitindo a construção de vínculos afetivos, uma vez que a festa é celebrada por grupos com afinidades que manifestam acolhimento e identificações afetivas.

Integrando o calendário das celebrações para os estudantes em moradia estudantil, o lual foi apontado pelos residentes como uma manifestação cultural que homenageia a natureza por meio da contemplação da lua cheia, podendo ser vivenciado na escola, já que o ambiente permitia essa aproximação.

Culturalmente, existem muitos mitos sobre a influência da lua na vida das pessoas, principalmente quando está na fase contemplativa, ou seja, a lua cheia. Alguns estudos antropológicos apontam a influência da lua na vida dos seres vivos desde a Antiguidade, quando servia para que os homens regulassem o tempo com base nos seus movimentos de rotação e translação, que indicam a passagem das horas, dos dias, das estações. Além disso, a lua, em seus diferentes movimentos e fases, traz à tona a dinâmica da vida. Sua luz é convidativa e envolvente, promovendo sensações e percepções diferenciadas naqueles que a observam ou que transmitem com seu brilho.

Em nossa realidade escolar, a festa que homenageia a lua cheia tornou-se uma mediadora das relações, a motivação necessária para a criação e a expressão daqueles que há muito tempo não vivenciavam momentos com tanta liberdade e plenitude.

Acreditando na potencialidade dos encontros com a lua, dez eventos foram realizados, congregando não apenas os estudantes, mas também professores e funcionários, que, ao participar desses momentos festivos, eram convidados a sair de sua rotina diária.

Partindo de um planejamento participativo, os estudantes, em comissão, organizavam as festas do lual, decidiam o local, o tema, a decoração e a culinária em comum acordo a professora coordenadora do projeto. As festas foram realizadas em diversos espaços internos da escola ou ao ar livre.

Para escolher o tema de cada festa, os residentes se organizavam em pequenos grupos, propriciando a ampliação da cultura daquela comunidade e motivando a participação dos demais alunos. As festas aconteceram em dez meses, estendendo-se de 2007 até o final das atividades letivas de 2008, com interrupção nos períodos de férias escolares.

Benzer Belgeler