2.2. D Grubu
2.2.3.4. Leopold Levy
Quero confessar, embora o medo dessa confissão me tome quase por inteiro, quero confessar que nada disso se deu, que eu minto.
J. G. Noll, A fúria do corpo
Ao se ponderar no subcapítulo anterior que a discursividade em Noll é incitada por um mesmo sujeito, cuja identidade é flutuante, mas ao mesmo tempo fixa em sua flutuação, como, então, “avançar da suspeita necessária para livrar-nos de afirmações ingênuas da subjetividade até o trabalho reconstrutivo indispensável para dar solidez a cidadanias possíveis? Que tarefas de investigação, teóricas e políticas, são necessárias?”.427 Partindo dessas interrogativas e daquela
proposição, acrescente-se ainda: a literatura – mais precisamente, a escrita por Noll – contribuiria para investigações de tais aspectos teóricos e políticos, na medida em que se analisa como se dá a encenação do sujeito em sua estrutura narrativa? E, ainda mais, essa literatura estaria preocupada em dar solidez à cidadania? Em decorrência dos pontos acerca da relação do sujeito e sua transitoriedade identitária expostos anteriormente, essas indagações se tornam pertinentes.
Em um primeiro momento, pode-se dizer que a literatura de Noll trabalha de modo a provocar torções no discurso hegemônico proferido pelo Estado, pois em todos os seus livros estão presentes seres anômalos das ruas, seres desajustados às normas. Os seus romances dão voz a subjetividades canhestras, como as representadas no exílio, em Lorde, ou pelo erotismo difuso, em A céu
aberto e Solidão continental. A prostituição de Afrodite, em A fúria do corpo; a
transsexualidade em Acenos e afagos; o casamento gay bem-sucedido em
Berkeley e Bellagio; a utopia da Sociedade Minimal e a loucura de Steve em Bandoleiros; a orfandade do narrador e sua relação erotizada com o garoto em Rastros do verão; o cadeirante em Hotel Atlântico; a vida às margens da sociedade
426 Um sujeito literário, sem documento, com função?
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em um casarão em O quieto animal da esquina; o garoto mudo e o paciente terminal em Canoas e marolas; o asilo em Harmada.
Todavia, seria em vão apenas descrever ou dar um sentido a esses temas, sem se perguntar como eles funcionam na obra. Para Deleuze e Guattari, “não se perguntará nunca o que um livro quer dizer, significado ou significante, não se buscará nada compreender num livro, perguntar-se-á com o que ele funciona, (...) em que multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia”.428 Analisar esse
funcionamento do sujeito em Noll não é tarefa realizável facilmente. A maneira como ele se apresenta no decurso de seus textos é bastante diversificada, indicando várias entradas exegéticas. Assim, muitas teses de ordem teórica surgem, na procura de traçar um horizonte de compreensão desse sujeito, e, aqui, não se esquiva de apresentar algumas de suas facetas.
Em seu primeiro romance, A fúria do corpo, Noll procurou auscultar muito a cultura da rua. Na página de abertura desse livro, o personagem principal já dá indícios desse sujeito-narrador que perpassará toda a sua obra, quase sempre sem nome:
O meu nome não. Vivo nas ruas de um tempo onde dar o nome é fornecer suspeita. A quem? não me queira ingênuo: nome de ninguém não. Me chame como quiser, fui consagrado a João Evangelista, não que o meu nome seja João, absolutamente, não sei de quando nasci, nada mas se quiser o meu nome busque na lembrança o que de mais instável lhe ocorrer. O meu nome de hoje poderá não me reconhecer amanhã. (...) Não me pergunte pois idade, estado civil, local de nascimento, filiação, pegadas do passado, nada, passado não, nome também: não. (...) O meu nome não. Mas se quiser um nome pode me chamar de Arbusto, Carne Tatuada, Vento.429
Essa passagem pode suscitar em alguns críticos interpretações de caráter estritamente referencial, em alusão ao contexto no qual o romance foi escrito – naquela altura, o Brasil estava ainda sob a ditadura militar. Porém, acredita-se que não seja somente essa a motivação de Noll, porque, nesse livro, como em Acenos e
afagos, é abordada, sobretudo, a temática do desejo, da sexualidade – “só tenho o
sexo e aqui estamos, sentados um em frente ao outro, e isso importa”.430 A
erotização dos corpos tem o seu ápice nos quatro dias de Carnaval na cidade do Rio
428 DELEUZE;GUATTARI. Introdução: rizoma. Mil platôs, p. 12. 429 NOLL. A fúria do corpo, p. 9.
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de Janeiro, onde “não há nada a ser revelado eu grito aos quatro ventos, tudo está na epiderme dos nossos sentidos basta se convencer porque é Carnaval”.431
Em A fúria do corpo, há o tempo todo um clima de insaciabilidade, evidenciado por meio de uma linguagem poética, por vezes escatológica, que subverte a gramática, com períodos longos, sem pontuação, que redunda em um ritmo veloz à narrativa. Contam-se as peripécias de um sujeito lançado à sorte das ruas cariocas, com sua companheira Afrodite. Esses personagens, às margens dos padrões sociais, praticam desvios de toda natureza, envolvem-se com drogas e em brigas, são presos pela polícia. Praticam sexo na rua, no mar, no elevador. Vendem seus corpos e também são estuprados:
digo a Afrodite que com a gente tudo acontece muito rápido, um turbilhão de coisas que parece inverídico, ninguém acredita, somos trucidados e estamos prontos pra outra no meio do Carnaval, tudo parece muito irreal, não sei, Afrodite responde com sua frase: NÃO HÁ REMÉDIO QUANDO OS SENTIDOS SUPERAM A REALIDADE PORQUE A REALIDADE ENTÃO ESTÁ CONDENADA.432
Dessa forma, em João Gilberto Noll, pode-se inferir que, mais que tratar de identidades e cidadanias, a literatura propõe algo que escapa a essa noção estritamente egoica que incide diretamente ou exclusivamente na realidade – “a vida é simulação” –,433 a serviço de uma ideologia ou fixação identitária unívoca. A
literatura, de modo geral, opera na ordem do imaginário, de forma a provocar fricções agonísticas na interação entre o leitor e a obra, como já visto. Veja-se o convite do protagonista d’A fúria do corpo:
O que não vou te declarar é o nome e todos os dados que me confrangem a uma certidão que além de me embalsamar num cidadão que
desconheço servirá de pista a esse algoz (imperceptível de tão
entranhado nas nossas já tão fracas presenças). O meu nome não. Nem o meu passado, não, não queira me saber até aqui, digamos que tudo começa neste instante onde me absolvo de toda a dor já transpassada e sem nenhum ressentimento tudo começa a contar de agora.434
430 NOLL. A fúria do corpo, p. 10, grifo meu. 431 NOLL. A fúria do corpo, p. 155.
432 NOLL. A fúria do corpo, p. 148. 433 NOLL. A fúria do corpo, p. 102.
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O pacto de leitura que o texto de Noll propõe é um pacto por meio do qual se apresenta um sujeito textual, colocando em suspensão um referente ligado diretamente a um determinado tipo de realidade. Um bom exemplo disso são as hibridações de gênero sexual, como em Acenos e afagos, A fúria do corpo e A céu
aberto, por exemplo. Nesse último romance, o gênero de um dos personagens é
mutante. Vale a pena realizar uma breve análise de como se desenvolve a relação entre os irmãos, cena exemplar para se verificar a transitoriedade identitária dos sujeitos que se enunciam em Noll.
A certa altura, no início do livro, o narrador, sem nome, sai do acampamento de guerra para levar seu irmão, enfermo, para se tratar no salão paroquial da cidade. Nesse lugar, encontra-se com o pianista Artur, amigo de infância de seu pai. O protagonista vai para casa de Artur, um “pederasta” de meia- idade, onde passa um período hospedado. Posteriormente volta ao acampamento para continuar a exercer seu ofício noturno de sentinela. Em seguida, deixa a guerra e o seu pai em definitivo:
Eu ia fazer agora o que já pensara desde o início e me inclinei um pouco até chegar a três palmos da cara do meu pai (...) e expulsei uma cusparada que foi justo no seu olho esquerdo (...).
Afastei o olhar de cima do velho para sempre. (...) Olhei para trás e notei que uma colina escondia para sempre o meu pai de mim. (...) Eu era um homem filho dali, daquelas terras que nunca conhecera bem de fato, mas que desde cedo aprendera a odiar de graça.435
Após as cenas no campo de batalha e a cisão com o pai e o lugar (duplamente com sua origem), o protagonista se encontra com o irmão em outras paragens, próximas ao acampamento, e vão morar juntos em uma casa. Em um dos momentos de maior estranheza da narrativa, seu irmão torna-se sua mulher:
Precisarei romper com esse negócio de pensar nessa figura aí como meu irmão, falei dentro de mim. (...) Eu já era um homem apaixonado, ainda mais por saber que aquele corpo percorrera um itinerário tão tortuoso para chegar até ali. Dentro daquele corpo de mulher deveria existir a lembrança do que ele fora como homem, e boliná-lo como eu fazia naquele instante deixava em mim a agradável sensação de estar tentando seduzir a minha própria casa, onde eu encontraria o meu irmão quem
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sabe em outro momento. Não, o meu irmão não morrera naquele corpo de mulher, ele permanecia lá dentro esperando a sua vez de voltar.436
Os dois irmãos vivem juntos durante anos, surgindo ainda um terceiro nessa relação, o filho de Artur, um jovem dramaturgo, que morava em Estocolmo.
As indagações que se seguem podem advir da leitura de A céu aberto: o irmão do narrador é ou não a sua mulher? O narrador estaria apenas projetando o irmão em sua mulher? Ou tudo não passaria de alucinação desse narrador? Essas questões não nos são respondidas de imediato, o que gera, estrategicamente, certa tensão à narrativa, apresentando um personagem híbrido em sua constituição identitária. Porém, na medida em que se avança na leitura, o irmão se distancia, e se constata o seguinte:
Eu me perguntava por onde andava o meu irmão, se ali dentro daquela mulher mesmo ou mais adiante morto e enterrado quem sabe apodrecendo a céu aberto – fruto de uma batalha; em meio a esparsos ruídos de talheres e pratos a presença do meu irmão era quase física, não sei dizer bem onde, atrás da cortina, no quarto lá dentro lendo uns versos, ou ali no âmago da mulher que por vezes me fitava e me atiçava sem querer para eu descobrir o mistério dele até o fim.437
Talvez se possa mesmo arriscar dizer que essa androginia ou essa transmutação da identidade seria uma projeção do narrador, pois ele vê, em sua mulher, o seu irmão: “Me lembrei do meu irmão que eu tanto costumava pensar como estando dentro dela”.438 Porém, em seguida, a dúvida se refaz, através da
seguinte interrogação: “Não pude deixar de rir ali quando lembrei dele: uma farsa montada por mim? ou esse irmão havia de fato existido com sua própria face, tornando-se de repente apenas uma imagem turva para que a face de minha mulher pudesse reinar...”.439
Na contracapa de A céu aberto, há uma nota bastante elucidativa, sem autoria, dizendo que esse narrador está “cercado por seres ambíguos e andróginos, esse personagem sem nome, sem família e sem pátria vê seu próprio corpo transformado em palco dos embates entre as forças da vida e da morte, do sexo e
436 NOLL. A céu aberto, p. 76-7. 437 NOLL. A céu aberto, p. 93. 438 NOLL. A céu aberto, p. 121. 439 NOLL. A céu aberto, p. 138.
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da destruição”.440 Essa afirmação de que o protagonista não tem família é notada
nesse romance a partir do momento em que ele assassina sua mulher-irmão e se queda no mundo, sem dinheiro e sem documentos. O personagem, então, entra em um navio, “perdido e sem documentos”,441 e se torna um prisioneiro na cabine do
comandante.
Às vezes quase me enlouquecia a sensação de estar preso dentro daquela cabine, de depender dele para tudo literalmente. Clandestino clandestino, a minha cabeça martelava essa canção naquele vasto ócio. Só um cupincha dele (aliás, que nunca cheguei a encontrar) sabia naquele navio da minha existência. Nas fugidas a bares portuários era armado com esse cúmplice invisível um esquema todo especial para que eu não fosse descoberto. (...)
– Eu sou um rato de porão – falei. – Você é o quê? Não entendi... – Um rato de porão.
– É preciso a guerra acabar para você recuperar seus documentos; e sem documentos não é possível vir à tona sobre a Terra – ele sentenciou.442
Nessa cabine, o personagem passa um “tempo incalculável” viajando – “saía apenas num porto ou noutro, naqueles países ou cidades que apresentavam menos perigo para os expatriados como eu” –,443 até chegar a um porto chamado Maia,
em certo país oriental, onde foge do navio: “eu não tinha papéis, documentos de nenhuma espécie, seria difícil conseguir trabalho sem ser o que chamam de cidadão. Como iria provar que sou eu?”.444
A voz que se enuncia em Noll narra constantemente as suas experiências no tempo presente, em oscilação com memórias muito turvas do passado, pelas quais não se intenta construir uma identidade fechada por meio de uma reconstituição histórica, por exemplo: “Não sei quem sou, que fiz (...). Não tenho a mínima intenção de saber quem sou”.445
Assim, o sujeito narra suas sensações corpóreas por intermédio de um “eu” que se torna, além de uma simples individualidade, um agenciador coletivo de enunciação. Sobre esse tema, o próprio autor corrobora, ao dizer em uma entrevista que “a literatura não é só sonho, ela é mito também. Ela tem que ‘pegar’
440 NOLL. A céu aberto, contracapa. 441 NOLL. A céu aberto, p. 140. 442 NOLL. A céu aberto, p. 143-4. 443 NOLL. A céu aberto, p. 142. 444 NOLL. A céu aberto, p. 157. 445 NOLL. A fúria do corpo, p. 212.
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realmente as coisas que dizem respeito a todas as pessoas, não é apenas um sonho individual. Ela vai trabalhar com os mitos de uma coletividade, de uma sociedade”.446 Nesse sentido, por mais que haja reconhecibilidade ou identificação
do leitor com os personagens no ato de leitura, não é do mundo factual que parece tratar essa e outras obras de Noll, ou pelo menos não diretamente, mesmo porque não haveria literatura sem a fabulação, sem o ato gerador de poder imaginar outros mundos – “nada é tão real quanto a possibilidade de se criar uma outra realidade”.447
Contudo, segundo Gilles Deleuze, essa “função fabuladora não consiste em imaginar nem projetar um eu”.448 A literatura só é possível quando se dá na
terceira pessoa do plural, quando se instaura um “nós”, pois “as duas primeiras pessoas do singular não servem de condição à enunciação literária; a literatura só começa quando nasce em nós uma terceira pessoa que nos destitui do poder de dizer Eu”.449
João Gilberto Noll, ao ministrar a oficina de criação literária “Surtos de inverno”, no Festival de Inverno da UFMG, em Diamantina (2007), propôs aos alunos o abandono de seus próprios textos, convocando as pessoas para uma “literatura pulsional”. “Eu convoco as pessoas para que elas não tenham tanto controle, tanto domínio do seu processo ficcional. Deixem-se levar pelas forças do inconsciente. Quando eu digo ‘surtos’, eu digo dessa coisa que rompe (...) pra fora da nossa casca, da nossa armadura de cidadão.450
Tal formulação parece ir ao encontro do que Gilles Deleuze propõe como tarefa de um escritor, não devendo este pretender “impor uma forma (de expressão) a uma matéria vivida. A literatura está antes do lado do informe, ou do inacabamento (...). Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida”.451 Esse “eu” é
consonante com a introdução de Mil platôs, quando Deleuze e Guattari demonstram que a questão quando se escreve “não é chegar ao ponto em que não se diz mais EU, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não
446 Entrevista de Noll. Disponível em: http://www.ufmg.br/online/radio/arquivos/006199.shtml. 447 NOLL. A fúria do corpo, p. 209.
448 DELEUZE. A literatura e a vida. Crítica e clínica, p. 13. 449 DELEUZE. A literatura e a vida. Crítica e clínica, p. 13.
450 Entrevista de Noll. Disponível em: http://www.ufmg.br/online/radio/arquivos/006199.shtml. 451 DELEUZE. A literatura e a vida. Crítica e clínica, p. 11.
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dizer EU”.452 Todavia, não se deve pensar que esse “eu” esteja encerrado em um
corpo, e que este é um ente fechado do qual tudo emana. O corpo é relacional e está em constante devir, em meio a outras pessoas nas ruas – “sou vivo, entre os mortais eu amo e me componho com outras identidades, embora precariamente, me componho sim”.453 Dessa forma, “a literatura segue a via inversa, e só se instala
descobrindo sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal”.454 Deleuze
chega até a afirmar que “a literatura é um agenciamento, ela nada tem a ver com ideologia”.455
É pertinente observar que, em Berkeley em Bellagio, em um encontro entre o narrador – escritor famoso – e um jovem – formado em engenharia e trabalhador de uma grande instituição filantrópica – há a seguinte afirmativa do jovem equatoriano, seguida de um diálogo:
Já não existia ideologia suficiente para encarar a construção de um projeto nacional. A realidade é um jogo. Há uma ética?, perguntei. Ética, sim, mas dentro de uma vastidão amoral. Se os poderes venais puderem contribuir, que venham! Descartar?, só essa gente como os protagonistas da minha ficção que ele já tinha lido quase toda – homens desadaptados ao circuito social, caminhantes à procura de um lugar onde a sociedade humana não pudesse alcançar. Seres sem cidadania ou qualificação, ele se apressou a dizer. Sim, respondi, é isso mesmo. Todos devem jogar seu jogo até o fim, ele insistia, essa a razão de estarmos aqui. O aperfeiçoamento das regras desse jogo? – ah, a única promessa. Posso conceder, ele se apressa, que, de certa forma, entrará na roda até esse teu eterno desajustado, como você mesmo diz, também o criminoso, o traficante de drogas, o mercenário, o louco, todos jogam o seu papel e é bom que seja assim. Só o seu protagonista pensa não jogar, coitado, talvez seja o que mais joga, e sem tirar nenhum proveito desse match. O que lhe falta é a cidadania afirmativa ou negativa, não importa, é sair desse limbo que afeta só a ele, me acredite, não se engane.456
Seguem-se algumas indagações relevantes sem a pretensão de responder a todas elas. Haveria possibilidade de existirem sujeitos, neste caso, ficcionais, destituídos de ideologia? Não estariam todos eles dentro de uma mesma ordem discursiva, mesmo que a contrapelo ou “afastados”? Todo ato não seria em si um
452 DELEUZE;GUATTARI. Introdução: rizoma. Mil platôs, p. 11. 453 NOLL. A fúria do corpo, p. 240.
454 DELEUZE. A literatura e a vida. Crítica e clínica, p. 13. 455 DELEUZE;GUATTARI. Introdução: rizoma. Mil platôs, p. 12.
456 NOLL. Berkeley em Bellagio, p. 41-2. Pode-se desdobrar aqui todas as concepções acerca do
biografema barthesiano e do duplo em Foucault. “Os poderes venais” no sentido apresentado são relativos à venda.
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ato político, a exemplo de uma obra, como Deleuze e Guattari afirmam em Kafka
por uma literatura menor? Ou política, para esses pensadores, é diferente de
ideologia? Se for, em que medida se daria essa diferença? Ela se aplicaria à obra de Noll? Seriam também importantes as considerações acerca do autor a escrever tais ficções e o leitor em sua posição ideológica?457
Estar no limbo, como diz o equatoriano referindo-se ao protagonista do escritor brasileiro, é estar fora do discurso? Seria possível estar fora do discurso? Como bem define Michel Foucault, um dos pensadores mais influentes sobre a relação entre discurso e poder produzida no século XX, há uma “vontade de poder” pelo discurso em si, pelo enunciar-se “verdadeiro”. Por isso, na relação entre discurso e ideologia, é importante que esta última seja definida na acepção que se entende: conjunto de convicções políticas, sociais, estéticas, filosóficas que se estruturam por meio do pensamento, da linguagem. Portanto, não haveria possibilidade ideológica fora do discurso, não havendo igualmente possibilidade de se proferir a “verdade” sobre si mesmo, a “verdade” de um sujeito.
Para Foucault, não há um fora do discurso; há somente o embate entre discursos e contra-discursos. O autor ainda formula alguns procedimentos que apontam para profícuas ligações com a obra literária. Segundo ele, há três grandes
procedimentos em nossa sociedade que “controlam”, “organizam” e “selecionam”
os discursos dos sujeitos, estabelecendo um jogo de limites da proliferação discursiva, a saber: o procedimento externo ou de exclusão; o procedimento
interno; e, o procedimento de rarefação dos sujeitos que falam. Cada um deles se