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Conforme Milton Santos (1994) o lugar seria o locus do intersubjetivo, do coletivo. É a extensão do acontecer solidário, em que se entende por solidariedade a obrigação de se viver junto. Desta forma na construção da memória de um lugar deve- se levar em conta um processo de memória compartilhada, a memória solidária, portanto uma memória que diga respeito a um grupo ou coletividade, nesta direção, conforme visto anteriormente, uma memória coletiva.

Com vistas a empreender uma reflexão sobre a relação entre os lugares e a categoria da memória, se tornam imprescindíveis as contribuições do historiador francês Pierre Nora. Entre os anos de 1984 e 1992, este realizou um empreendimento intelectual e editorial no qual, em conjunto com as contribuições de diversos outros intelectuais, realiza um trabalho de reflexão coletiva sobre a memória nacional francesa. O projeto, publicado originalmente em sete volumes, foi batizado de Les

Lieux de Mémoire4.

O intuito dessa investigação é trazer uma reflexão sobre a noção de lugar de memória, que se constitui na espinha dorsal do projeto de Nora. Busca-se compreender em que medida tal noção pode apontar aspectos crucias em nossa reflexão sobre o uso do espaço construído na produção de lugares de memória, visto que a mesma foi constantemente apropriada em diferentes contextos e acepções.

Em decorrência do apogeu dos processos de industrialização e dos

fe e os de u dializaç o , de o atizaç o, assifi aç o e ediatizaç o ,

observa-se um sintomático desaparecimento das culturas tradicionais, consideradas como repositórios de memória por excelência. Este fenômeno identificado como p o esso de a ele aç o da hist ia , efetua-se como uma ruptura de equilíbrio que resulta em uma crescente preocupação pelo passado histórico e numa sensação generalizada de que não haveria mais memória espontânea. Por estas operações não

4 O plano geral da obra Le Lieux de Mémoire, se divide em três partes, La République (1984), La Nation

(1986) e Les France (1993) que por sua vez se distribuem nos sete volumes totais do projeto. Participaram de sua construção cerca de 130 historiadores oriundos dos mais diversos centros de pesquisa, universidades e museus franceses.

ocorrerem de maneira natural se faz necessária a criação de arquivos, comemorações, celebrações, museus, enfim, lugares de memória para preservá-las (NORA, 1993).

Conforme Nora (1993), a memória é a vida, sempre aberta a dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente. Porque afetiva e mágica, a memória não se acomodaria a detalhes que a confortam, se alimentando de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensíveis a todas as transferências, cenas, censuras ou projeções. A memória emerge de um grupo, o que significa dizer que há tantas memórias quantos grupos existem, sendo ela então, por natureza, múltipla, desacelerada, coletiva, plural e individualizada.

Já a história, uma reconstrução problemática e incompleta do que já não mais existe. Representação do passado, operação intelectual e laicizante, que demanda análise e discurso crítico, com vocação para o universal. Para a história a memória é sempre suspeita, porque vulnerável a todos os usos e manipulações. Sua verdadeira missão seria a de deslegitimar o passado i ido. No o aç o da hist ia

t a alha u iti is o dest uto de e ia espo t ea NORA, , p. .

Desta fo a uito do ue é chamado hoje de memória não é, portanto, e ia, as j hist ia NORA, 1993, p.14). A memória verdadeira estaria, abrigada no gesto e no hábito, nos ofícios onde se transmitem os saberes do silêncio, nos saberes do corpo, portanto fadadas ao esquecimento junto aos grupos tradicionais, víti as da a ele aç o da hist ia . Neste sentido, tais memórias são preservadas por meio de sua passagem em história, transformadas em sua materialização, através de diferentes registros, em uma memória arquivística. Quanto menos a memória é vivida no interior das práticas cotidianas, mais ela apresenta a necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis para sua preservação. Se ha it sse os ai da ossa e ia, o te ía os e essidade de lhe o sag a luga es NORA, 1993, p.8).

Os lugares de memória são então os lugares onde a memória se cristaliza e se refugia, lugares de ancoragem da memória, lugares salvos de uma memória que não mais vivenciamos:

Os lugares de memória são, antes de tudo, restos. A forma extrema onde subsiste uma consciência comemorativa numa história que a chama, porque ela a ignora. É a desritualização de nosso mundo que faz aparecer a noção. O que secreta, veste, estabelece, constrói, decreta, mantém pelo artifício e pela vontade uma coletividade fundamentalmente envolvida em sua transformação e sua renovação [...] os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais (NORA, 1993, 12-13).

Os lugares de memória se fazem pela experiência, pelos restos, resíduos e ruínas daqueles que vivem o lugar e pela preocupação em perpetuar uma memória que é viva, mas crê-se no seu desaparecimento, daí a necessidade de espaços capazes de reavivar essas memórias. Na conformação dos lugares de memória se faz necessário observar simultaneamente três aspectos ou dimensões. São elas as dimensões, material, simbólicas e funcionais que se diferem somente quanto ao grau de evidência, sendo necessário para a constituição dos Lugares de memória que os três aspectos coexistam sempre (NORA, 1993).

Desta forma é preciso deixar claro que a noção de lugar de memória se estende para além da materialidade e monumentalidade. Esta abarca registros, artefatos diversos, eventos e comemorações. Dialoga então com o que viríamos a conhecer na atualidade como os aspectos, materiais e imateriais da categoria de patrimônio. Grande parte destes registros e documentos são preservados nas instituições de memória e compõem os instrumentos pelos quais podemos contextualizar os testemunhos do passado que restaram na paisagem. Neste sentido, as memórias coletivas se eternizariam muito mais em registros e documentos do que nas formas materiais da paisagem (ABREU, 1998, p.85).

Outro aspecto fundamental da noção de lugar de memória é o fato de que os mesmos s o o stituídos po eio de u jogo da e ia e da hist ia , pois se originam a partir desta interação entre o esquecimento das memórias e a necessidade de sua preservação, que se efetiva por meio de seu registro histórico. Desta maneira, para se constituírem como Lugares de memória, se faz indispensável que haja

i i ial e te u a i te io alidade de e ia ou o tade de e ia (NORA,

Portanto, um lugar de memória não seria meramente um lugar dig o de le a ça . N o se do possí el dete ta ou ast ea os investimentos humanos que, ao longo do tempo, buscaram esta iliza sig ifi ados pa a esses luga es e te didos o o luga es da memória da nação), ou concluindo-se que deles estaria ausente uma vontade ou intenção de memória, não seriam propriamente luga es de e ia, as luga es de hist ia. (GONÇALVES, 2012, p.32-33).

Dentro destas reflexões teóricas realizadas pelos autores, a noção de Lugar de Memória ganha extremado relevo e passa a ser inclusive exportada e apropriada em contextos e situações totalmente diversas, sendo aplicada em outros contextos nacionais que não o francês. Para Nora as utilizações da noção de Lugar de Memória tiveram usos que se traduziram como cópias fiéis e aplicações fecundas, mas também usos abusivos e pouco fiéis a seu sentido original (BREFE, 1999).

Ao analisar as contribuições da noção de Lugar de Memória para o tempo presente, nota-se que sua banalização reforça uma leitura redutora e topográfica dos lugares, focada por sobre os aspectos materiais, entendidos muitas vezes como restritas as formas e propriedades físico-químicas, dos lugares de memória. Seus usos, quando ocorridos, além das fronteiras da historiografia, muitas vezes provocam efeitos contrários aos esperados, com as comemorações elogiosas e festivas prevalecendo sobre a problematização e a crítica. No entanto, é necessário entender que também houveram ganhos. Como a estimulação de u a hist ia da hist ia , e de estudos mais sistemáticos e aprofundados sobre instituições de preservação, bens patrimoniais e processos de patrimonialização (GONÇALVES, 2012).

De instrumento para preservação e problematização do passado, a expressão lugar de memória, por meio de sua banalização, tornou-se uma figura do discurso político, um argumento turístico, um lugar comum presente tanto na linguagem dos especialistas, quanto do grande público. A partir desta discussão, se verifica conforme apontado pela reflexão de Nora, que a obsessão contemporânea pela memória coexiste com um intenso medo público frente ao esquecimento o que justificaria a proliferação dos lugares de memória. No entanto, o teórico da memória Andreas Huyssen nos apresenta alguns questionamentos o edo do es ue i e to que dispara o desejo de lemb a , ou tal ez o o t io? . É possí el ue o ex esso de memória nessa cultura saturada de mídia crie uma tal sobrecarga que o próprio

sistema de memórias fique em perigo constante de implosão, disparando, portanto, o edo do es ue i e to? HUYSSEN, 2003, p.19). Antes de traçar uma reflexão sobre estas questões, mostra-se necessário que primeiro sejam tecidas algumas considerações a respeito do relacionamento, memória e esquecimento.

Benzer Belgeler