O conceito de memória evoca interesses multidisciplinares, ele é estudado por disciplinas diversas, como Psicologia, Filosofia, Sociologia, História, Museologia, entre outras. Este é fundamentalmente inter ou transdisciplinar na medida em que possui diferentes definições de acordo com as distintas intencionalidades de cada campo do conhecimento que o utilizou ao longo da história, portanto se faz necessário ponderar a existência de diferentes enfoques sobre a questão da memória.
A memória pode se apresentar como reminiscências do passado, que afloram no pensamento de cada um, no momento presente; ou ainda, como a capacidade de armazenar dados ou informações referentes a fatos vividos no passado (LEAL, 2011). O historiador Jacques Le Goff (1990) remete, em primeiro lugar, o conceito de memória a um fenômeno individual e psicológico, que possibilitaria ao homem a atualização de impressões ou informações passadas. Em um de seus trabalhos seminais a pesquisadora Ecléa Bosi (1994) apresenta a memória atribuindo a
ela uma função decisiva em nosso processo psicológico total. Por meio da memória é que se dá a relação de um corpo presente com o passado, ao mesmo tempo em que esta interfere em nosso p o esso atual das ep ese taç es. Em uma abordagem subjetiva a memória teria uma função prática de limitar a indeterminação (do pensamento e da ação) e de levar o sujeito a reproduzir formas de comportamento que já deram certo. No entanto, assim como foi para Bosi, para além das abordagens psi ologiza tes da e ia, o ue os i te essa dis uti neste trabalho, é o tratamento da memória como fenômeno social.
Em paralelo a elevação da política da memória como uma preocupação central das sociedades, o campo da memória também emerge como centralidade de algumas teorias e discussões em trabalhos acadêmicos. Nesta direção, ganha novo impulso principalmente a teoria sociológica de Maurice Halbwachs e sua conceituação de memória coletiva. Para o autor a memória de um indivíduo depende de seu relacionamento com a família, com a classe social, com as instituições de ensino, instituições religiosas, com a profissão; enfim, com os grupos de convívio e de referência peculiares a este indivíduo.
A memória coletiva não seria apenas a agregação de memórias individuais, subjetivas, ela é um conjunto de lembranças construídas socialmente e referenciadas a um conjunto que transcende o indivíduo. As memórias de um indivíduo nunca são apenas suas uma vez que nenhuma lembrança pode existir apartada da sociedade. Nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. E porque, em realidade, nunca estamos sós (HALBWACHS, 1990,p.26). Portanto, mesmo que aparentemente particular, a memória remete a um grupo; o indivíduo carrega em si a lembrança, mas está sempre em interação na sociedade. A maneira em que este interpreta, absorve e relembra os acontecimentos estará sempre influenciada pelo sistema de representações, hábitos e relações sociais referentes aos grupos, quadros ou contextos sociais aos quais os indivíduos estão imersos.
Assim a memória possui um caráter essencialmente familiar, grupal, social e que seria por meio de seus referentes sociais que se constituiria nossa capacidade de lembrar:
[...] se a memória coletiva tira sua força e sua duração do fato de ter por suporte um conjunto de homens, não obstante eles são indivíduos que se lembram, enquanto membros do grupo. Dessa massa de lembranças comuns, e que se apoiam uma sobre a outra, não são as mesmas que aparecerão com mais intensidade para cada um deles. Diríamos voluntariamente que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios (HALBWACHS, 1990, p.51).
Desta forma afirma-se que o indivíduo que lembra é sempre inserido e habitado por grupos de referência; a memória é sempre construída em grupo, mas é também, sempre um trabalho do sujeito. O modo de lembrar é tanto individual quanto social, pois o grupo transmite, retém e reforça as lembranças, mas o recordador, ao trabalhá-las, vai paulatinamente individualizando a memória comunitária. Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro de um tesouro comum (BOSI, 1994, p.411).
Neste ponto toca-se em uma questão crucial para a teoria sociológica da memória, a memória é trabalho. Lembrar não seria reviver, no sentido de que se resgata um passado o se ado tal o o foi . Mas sim um trabalho de (re) construção, baseado no presente. Retoma-se aqui conforme enunciado anteriormente a afirmação de Huyssen (1997) que nos lembra de que o status temporal de todo ato de memória é o presente. Desta maneira:
[...] lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, tal o o foi , e ue se da ia o i o s ie te de ada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas ideias, nosso juízos de realidade e valor. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista (BOSI, 1994, p.55).
A memória como fenômeno coletivo desenvolve-se então de acordo com suas próprias regras e seria uma corrente de pensamento contínuo na medida em que
retém do passado somente aquilo que está ainda vivo na consciência de um grupo. Desta maneira ela está em constante transformação na medida em que os grupos que guardam as lembranças também se transformam, portanto acontecimentos e figuras são esquecidos e/ou lembrados na medida em que estes grupos desaparecem ou se renovam.
Enquanto uma lembrança subsiste seria inútil fixá-la, pois a memória coletiva é uma memória viva. Quando o que se quer lembrar se torna distante no passado, quando a memória social se apaga, se decompõe ou se dispersa entre espíritos individuais, pelos quais as novas sociedades não se interessam mais, a memória coletiva tende a se transformar em memória histórica. Entende-se por memória histórica3 aquelas memórias que passam a ser registradas, geralmente fixadas por escrito em uma narrativa, na tentativa de serem eternizadas (HALBWACHS, 1990).
Nos tempos atuais reconhecem-se algumas problemáticas ao conceito de memória coletiva conforme estabelecido por Halbwachs, principalmente ligadas ao fato de que o mesmo nos sugere formações relativamente estáveis de memórias sociais. A memória coletiva seria responsável por garantir a coesão do grupo e o sentimento de pertinência entre seus membros, sendo, portanto, incapaz de lidar com a realidade das práticas atuais da memória, conflitantes e fragmentadas (HUYSSEN, 2014).
No entanto, é reconhecida a importância seminal do autor para as reflexões no campo da memória a partir da inauguração de uma reflexão que ultrapassa os aspectos individualizantes e subjetivos da memória, em que se admitem seus processos como dinâmicos. Em defesa de Halbwachs cabe citar suas palavras i t odut ias o olu e de A Me ia Coleti a, Fazemos apelo aos testemunhos para fortalecer ou debilitar HALBWACHS, 1990, p.25). Antes de estabelecer uma reflexão sobre estes aspectos contemporâneos e conflituosos da memória, cabe traçar uma reflexão sobre outra definição que ganha expressão a partir da centralidade que o
3 Cabe aqui o apontamento de que embora se utilize do termo na composição de sua obra Halbwachs
registra que não concorda com este, a partir do estabelecimento de uma oposição radical entre os dois. De tudo o ue foi dito a te io e te se o lui ue a e ia oleti a o se o fu de o a história, e que a exp ess o e ia hist i a o foi es olhida o uita feli idade, pois asso ia dois te os ue se op e e ais de u po to , p. .
conceito de memória adquire a partir da década de 1980, a noção de Lugar de Memória de Pierre Nora.