2. KAYNAK ARAŞTIRMASI
3.3. Laboratuvar Çalışmaları
Outro aspecto importante dos impactos da baixa interoperabilidade no acesso aos livros diz respeito à exclusividade238 sobre determinadas obras. Isso porque, estando os leitores vinculados a uma plataforma, os livros exclusivos são acessíveis apenas aos leitores que fazem parte do ecossistema da livraria.
O âmbito em que a exclusividade se faz mais presente diz respeito às plataformas de autopublicação. Embora haja uma gama variada de plataformas para publicação independente, as opções mais populares são aquelas oferecidas pelas próprias livrarias, como a Amazon, Apple e Barnes & Noble.
A Amazon, por exemplo, oferece uma notória plataforma de autopublicação, Publicação Direta do Kindle, por meio da qual a loja comercializa o e-book mediante uma taxa de 30% do preço final, permitindo, assim, que os autores ganhem 70% do valor em royalties. Dentro da PDK, os autores podem optar por participar da PDK Select, um programa direcionado a aumentar a visibilidade do autor e expandir o número de leitores. Por exemplo, por meio da PDK Select, o livro é incluído no serviço de streaming, Kindle Unlimited, e fica
2010, p. xv). Esse fator, juntamente com a crescente incorporação de editoras por grandes conglomerados de
mídia, em que a pressão por lucro é enorme, acaba exercendo grande influência no panorama de publicações. Nas palavras de Schiffrin, (2010, p. 6), “the pressure is to produce fewer books, concentrating on those with the highest sales potential, eliminating vast areas that used to be the hallmark of many of these [publishing] houses. In the past I have joked that publishers progressed from infanticide, neglecting the new books that show no sales promise, to abortion, canceling existing contracts of books no longer thought to be financially worthwhile. The goal now is contraception, preventing such titles from ever entering the process at all.” Uma análise mais detalhada desse processo, que está além do escopo desta pesquisa, pode ser verificada em SCHIFFRIN (2001, 2010).
237 Os contratos de exclusividade recebem bastante atenção da doutrina concorrencial. Há duas grandes posições
sobre esse tipo de contrato. Por um lado, argumenta-se que a exclusividade pode ser prejudicial na medida em que diminui as opções do consumidor, forçando-o a (i) consumir um produto que não seria o de sua escolha numa outra situação ou (ii) deslocar-se para outro local de venda para adquirir um produto atingido pela restrição vertical. Por outro lado, entende-se que a exclusividade aumenta a eficiência, diminui os custos de transação, e que apenas altera o “local” da concorrência, que deixa de ser verificada no ponto de distribuição e passa a ocorrer entre o ponto de distribuição. Esses aspectos concorrenciais não são explorados neste trabalho porque os contratos de exclusividade no mercado de livros digitais são analisados apenas do ponto de vista de acesso aos livros. Para maiores considerações sobre esse assunto, ver FORGIONI (2007).
238 Conforme já mencionado na nota 193, há indústrias, como a de videogames, em que contratos de
exclusividade beneficiam novos players, permitindo que eles se diferenciem dos agentes econômicos dominantes (LEE, 2013). “Without exclusive arrangements, high quality software would have primarily been released on the incumbent due to its larger installed base, and only later, if at all, on either entrant; consequently, neither entrant would have been able to significantly differentiate themselves from the incumbent. Exclusive software thus appears to have been leveraged by the entrants to gain traction in this networked industry.” (LEE, 2013, p. 2.962). Contudo, é importante mencionar novamente que esse efeito é mais presente em produtos com baixo grau de substituibilidade, como os games. Além disso, no mercado de livros digitais, os contratos de exclusividade são utilizados pelas plataformas dominantes, não tendo sido encontrados relatos de contratos de exclusividade utilizados por novos players para alavancar seu ecossistema. Ainda, como o foco desta pesquisa diz respeito aos impactos da baixa interoperabilidade no acesso aos livros, a exclusividade ainda seria um fator relevante mesmo que tivesse viabilizado maior concorrência nesse mercado.
disponível para os usuários da Amazon Prime retirarem em um sistema de empréstimo semelhante ao de uma biblioteca. Como a PDK aumenta as oportunidades de alcance aos leitores, as possibilidades de ganho são maiores, o que torna essa a principal escolha dos autores independentes que optam pela autopublicação pela Amazon. Em 2012, a Amazon declarou que os autores que optaram pela PDK Select ganharam, em um mês, um valor 77% maior do que o lucro obtido nos três meses antes da participação no programa (CHAUDHURI, 2012). Uma das condições da PDK Select é, justamente, que o livro seja comercializado com exclusividade na Amazon.239
Na Apple, os autores que decidem publicar seus livros na iBookstore devem optar pelo formato .EPUB ou .ibooks. O formato .ibooks é criado por meio do software da Apple, iBooks Author, e requer que o livro seja publicado exclusivamente na iBookstore caso o autor cobre algum valor por ele. Se o livro for anunciado de graça, ou o formato adotado seja o .EPUB, é possível distribuí-lo a outras lojas que não a iBookstore.
Já os autores que decidam publicar pela plataforma Nook Press, da Barnes & Noble, não estão sujeitos a qualquer cláusula de exclusividade.
Há também exemplos de contratos de exclusividade entre autores publicados por grandes editoras. Por exemplo, a Amazon teve por um tempo o direito exclusivo de vender a versão digital do best-seller “Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes”, de Stephen R. Covey, e outro livro do mesmo autor, “Liderança Baseada em Princípios” (STONE; RICH, 2009). Em 2010, a Wylie Agency assinou um contrato que deu à Amazon exclusividade sobre títulos como “Lolita”, de Vladimir Nabokov, por dois anos. Stephen King também ofereceu o livro “UR” exclusivamente na Kindle Store em 2009. Outros exemplos de livros exclusivos da loja Kindle são “Basic Training”, de Kurt Vonnegut, e “An Unexpected Twist”, de Andy Borowitz. Por outro lado, o famoso autor japonês Ryu Murakami, em parceria com a Apple, lançou o livro “A Singing Whale” como um aplicativo de livro (INDVIK, 2010).
239 A Amazon impõe obrigação semelhante aos usuários dos serviços print-on-demand da loja. “Also in 2008,
Amazon hit the fastest growing category of new books, print-on-demand (POD), with new restrictions. The self- published authors can sell their books through Amazon, but must print their books through the Amazon subsidiary CreateSpace or those books would lose their ‘Buy’ icons. Bezos promoted it as a cost-saving approach for customers. An open statement on Amazon. com read: ‘It makes more sense to produce the books on site, saving transportation costs and transportation fuel, and significantly speeding the shipment to our customers and Amazon Prime members. We believe our customer-focused approach helps the entire industry in the long term by selling more books.’ But one POD publisher, BookLocker.com, felt it was illegal for Amazon to demand a monopoly in printing POD books. (The majority of such books are sold online, giving Amazon enormous leverage.) BookLocker filed an antitrust suit against Amazon. It was settled in December 2009, with Amazon agreeing not to retaliate against BookLocker for using another publisher, and agreeing to pay BookLocker’s legal fees of $300,000. The settlement, however, only applied to BookLocker. Many other POD publishers had already agreed to Amazon’s demands.” (BRANDT, 2011, p. 122).
Embora os contratos de exclusividade se apliquem a um número limitado de obras, seu impacto não deve ser subestimado. Note-se que, em março de 2012, 16 dos 100 livros mais vendidos na Amazon eram exclusivos da Kindle Store (AMAZON MEDIA ROOM, 2012). Ou seja, 16 dos 100 livros mais lidos não estavam acessíveis para os donos de um Nook ou Kobo. Em agosto 2012, o número de acessos aos livros exclusivos da loja Kindle já era maior que 100 milhões (CHAUDHURI, 2012).
Dessa forma, os contratos de exclusividade das livrarias sobre determinadas obras representam mais uma limitação de acesso que é agravada pela baixa interoperabilidade. No mundo físico, caso determinada obra seja vendida com exclusividade por uma livraria, o leitor pode simplesmente se dirigir até ela, independentemente de qual a sua loja favorita, ou de onde comprou seu último livro. Similarmente, em um mundo digital em que os usuários pudessem alterar ou remover os sistemas de DRM para fins de interoperabilidade, os livros exclusivos seriam apenas vantagens competitivas, atraindo consumidores para a loja naquela determinada compra. No cenário atual, as cláusulas de exclusividade se somam aos demais exemplos descritos neste capítulo para demonstrar como a simples escolha de qual dispositivo de leitura adquirir pode impactar nos livros acessíveis ao leitor.