4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
4.2. İzolasyon sonucu elde edilen Penicillium türleri
Outra prática cada vez mais frequente no mercado de livros digitais é a recusa de venda ou a remoção de um livro da livraria em razão de seu conteúdo. Também nesse caso, a posição da livraria na triagem dos títulos que chegam ao leitor pode ser motivo de alerta.
Os livros eróticos são os mais afetados por essa prática. O caso mais notório desse tipo de remoção ocorreu em outubro de 2013, quando a revista inglesa The Kernel fez uma reportagem sobre certos livros digitais autopublicados na Amazon cujo conteúdo explorava tópicos como estupro e incesto (WILSON, 2013), mas livros com conteúdo semelhante foram encontrados também em outras lojas (PIGGOTT, 2013). Depois da acusação, as livrarias procuraram apagar os livros cuja temática poderia ser considerada ofensiva. Contudo, há relatos de que essa remoção teria atingido mais do que os livros tidos como “abusivos’, dando início a uma onda indiscriminada de remoção de livros eróticos, com base em palavras-chave como “filha”, “papaizinho” e “virgem” (DAUDELIN, 2013). De fato, na época, a Kobo chegou a desativar toda a sua plataforma de autopublicação (GILBERT, 2013a). Além disso, apenas os livros eróticos de autopublicação teriam sido afetados, enquanto livros eróticos populares, como a obra “Cinquenta Tons de Cinza”, não sofreram qualquer tipo de restrição.
A Amazon também já foi acusada de se recusar a publicar um livro digital do artista David Uzal porque a capa do livro consistia na pintura de uma mulher nua (GRAGNANI, 2014). Similarmente, a Apple recusou-se a aprovar um aplicativo de leitura de livros digitais porque o aplicativo permitia o download da obra “Kama Sutra” (em uma versão somente em texto, sem imagens). Algo que causa espanto nessa decisão é que a obra sequer vinha instalada no aplicativo: cabia ao usuário buscar pelo título e baixá-lo, o que também seria possível em outros aplicativos de leitura aprovados pela App Store (MUSIL, 2009). Em ambos os casos, a decisão foi revista.
Diante desses casos, é difícil não pensar em clássicos como “Decamerão”, “O Amante de Lady Chatterley” e “Madame Bovary”, que foram censurados à época de seu lançamento por serem considerados imorais. Reconhece-se, por um lado, que as livrarias têm todo o direito de estabelecer regras sobre o conteúdo que colocam à venda, principalmente se isso é feito por meio das plataformas de autopublicação que oferecem. Isso não impede, contudo, que seus impactos sejam questionados.
Em primeiro lugar, tais regras são extremamente vagas: a Amazon, por exemplo, declara que o que a loja considera ofensivo “é, provavelmente, o que você também pense que possa ser”, e que “pornografia ou representações de atos sexuais gráficos e ofensivos” não são aceitos.240
Segundo, como os usuários estão amarrados à loja, os limites do que é vendido nela correspondem aos limites do que lhes é possível acessar. Nas palavras do jornalista Mathew Ingram (2012),
Uma coisa é quando um dono de livraria independente decide não anunciar um livro por motivos pessoais, e mesmo quando uma cadeia nacional decide não distribuir livros por causa de seu conteúdo (embora essas decisões também muitas vezes sejam criticadas pelos defensores da liberdade de expressão, com boa razão). Mas o que faz com que as ações recentes da Apple e Amazon e Barnes & Noble sejam diferentes é que elas também possuem as principais plataformas de leitura digital, da qual a Amazon é a maior em termos de participação de mercado. Portanto, não é apenas as lojas que eles controlam, mas um dos métodos fundamentais de leitura desses livros.241-242
240 As diretrizes de conteúdo da Amazon estão disponíveis em:
https://kdp.amazon.com/help?topicId=A2TOZW0SV7IR1U (acesso em 15/09/2014).
241 Tradução livre. No original: “It’s one thing when an independent bookstore owner decides not to carry a book
for personal reasons, and even when a national chain decides not to stock books because of their subject matter (although those decisions also often get criticized by free-speech advocates, with good reason). But what makes the recent moves by Apple and Amazon and Barnes & Noble different is that they also own the major e-reading platforms, of which Amazon is the largest in terms of market share. So it’s not just the stores they control, but one of the fundamental methods of reading those books.”
242 Um raciocínio semelhante é empregado por Jason Merkoski, ex-funcionário da Amazon que participou da
equipe que desenvolveu o Kindle. Em suas palavras: “It’s a tough editorial choice: though a given book may be objectionable, where do we draw the line when it comes to free speech? And more importantly, who is drawing
De fato, um aspecto importante da liberdade é a possiblidade de exploração intelectual autônoma, sem interferências externas. Esse processo exploratório é seriamente prejudicado quando a decisão sobre os livros a que o leitor tem acesso é determinada pela política de vendas de uma empresa. Nas palavras de Ray Bradbury, há mais de uma forma de se queimar um livro. No mundo digital, pode-se verificar uma versão mais sutil: embora seja praticamente impossível apagar um arquivo por completo, evitar o acesso pelo usuário acaba se tornando a forma mais eficaz de impedir a leitura (MERKOSKI, 2013, p. 60).
De certa forma, essas medidas não ferem apenas a autonomia de uma pessoa que deseja ler o gênero de livro banido, mas também a das pessoas que não terão sequer informações sobre essa opção de literatura. Em outras palavras, não se trata apenas de uma afronta à liberdade de quem quer ler livros eróticos e não pode, mas também daqueles que não sabem sequer se esse gênero pode lhes interessar (BENKLER, 2001, p. 40).
Apesar de o problema ser mais acentuado na literatura erótica, há outros exemplos que evidenciam ainda mais as complicações de ter as livrarias como filtro do que é acessível pelo usuário final. Em maio de 2013, a Amazon recusou-se a publicar o primeiro livro digital escrito em córnico, argumentando que essa não era uma língua suportada pelo sistema de Publicação Direta do Kindle (MOODY, 2013). Acontece que a língua córnica também é escrita em alfabeto latino, de modo que não parece haver razões técnicas que justifiquem a recusa. Essa medida se torna mais grave quando se tem em mente que a língua córnica sofre sérios riscos de desaparecer (MOSELEY, 2010).243
Em um exemplo ainda mais peculiar, a Amazon removeu, após dezoito meses de venda, a obra de horror "High Moor 2: Moonstruck", do escritor Graeme Reynolds, sob a justificativa de que o texto continha muitos hifens (mais de 100 palavras entre as 90.000 palavras da obra), por considerar que esse excesso teria um impacto negativo na experiência de leitura (SMITH, 2014).
Já a Apple se recusou a vender um livro do autor Seth Godin porque a bibliografia continha links que redirecionavam o leitor ao site da Amazon (GODIN, 2012). Essa recusa deixa claro que a curadoria do conteúdo disponível na loja tem em vista não apenas o
the line? What moral or literary sensibilities do the executives of Amazon have? What about the retailers at
Barnes & Noble or Google or Apple? You have to ask yourself whether you trust these men (because they are mostly men—and mostly white men, at that). Do you trust them to make decisions for you on what books you’re permitted to buy?” (MERKOSKI, 2013, p. 62).
243 Para uma análise da importância das línguas minoritárias para a cultura e o acesso ao conhecimento, ver
bloqueio do conteúdo considerado ofensivo, mas também a preservação de interesses de negócios da livraria.
É fácil perceber como esses problemas são potencializados pelo fato de que, com a baixa interoperabilidade dos sistemas de DRM, a livraria é o único pontos de escoamento do e-book até o leitor que faz parte daquela plataforma. Por conta disso, a recusa em vender uma obra tem uma importância maior no mercado digital do que no físico. Se os usuários pudessem buscar a interoperabilidade para acessar qualquer livro em seu dispositivo de leitura, tais políticas de venda teriam um impacto limitado. Porém, estando o leitor vinculado a um ecossistema, as suas possibilidades de leitura são restritas às escolhas editoriais da livraria, tomadas com base em critérios desconhecidos do público. Nesse sentido, reformas legislativas como a da LDA são consideradas essenciais para garantir a autonomia intelectual do leitor no mundo digital.