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Kuyulu Cami Yokuşu Sokak Görsel Analiz Şemaları

6. GELENEKSEL AFYONKARAHİSAR KONUT CEPHELERİNİN GÖRSEL

6.2. Görsel Analiz Çalışması

6.2.1. Kuyulu Cami Yokuşu Sokak Görsel Analiz Şemaları

Consideramos relevante pontuar que, no prontuário escolar analisado, não há nenhum documento ou registro sobre o desenvolvimento pedagógico de Marina, elemento este fundamental para compreender a transformação da condição de não aprendiz em aluno com deficiência mental leve. Vale lembrar que o prontuário analisado é da escola em que freqüentou a classe especial, não havendo informações registradas sobre o desenvolvimento pedagógico anterior e durante sua permanência nela. No entanto, há um parecer psicológico de 1981, com dados de exames realizados no 2º semestre de 1980, trazendo algumas informações importantes acerca do desenvolvimento pedagógico de Marina, e que justificaram seu encaminhamento para a classe especial, o que ocorreu no início de 1983.

Nesse parecer, a queixa orientadora da avaliação é escolar, a saber, baixo rendimento pedagógico em sala de aula, multi-repetência, freqüência durante cinco anos na 1ª série, sendo que, ao ser promovida para a 2ª série, não acompanha a classe. No final do parecer, há a ressalva feita pelo profissional da Psicologia de que, desde 1977, da primeira vez que procurou o serviço de psicologia, a mãe foi orientada a colocar sua filha na classe especial, o que não ocorreu. Na época da avaliação, Marina estava na 2ª série de repetentes sem progredir pedagogicamente, a ponto de a professora considerar a possibilidade de retorná-la à 1ª série.

Entre a primeira indicação de encaminhamento para classe especial, em 1977, e sua freqüência na mesma, em 1983, há um hiato de 5 anos que, acrescido dos 2 anos inicias de reprovação, resulta em 7 anos de escolarização insatisfatória. Por conseguinte, a preocupação da presente pesquisa neste momento direciona-se para o processo de escolarização e sua contribuição para a constituição da condição de não aprendiz, geradora da deficiência mental leve nesses sete anos de freqüência na escola, na classe comum. Como explicitado acima, os documentos oficiais são pouco reveladores, bem como a única entrevista com Dona Regina; assim, as informações partiram das entrevistas com Marina e dos seus escritos durante a pesquisa.

O relato de Marina, para situar os acontecimentos, é confuso em alguns momentos, porém, no primeiro escrito solicitado pela pesquisadora, é possível selecionar um trecho que serve como breve resumo do que foram esses anos:

“Passei por várias dificuldades por não entender as explicações dos professores, passei por várias escolas até me adaptar com a escola e os ensinamentos. Às vezes me sentia meia desamparada porque tinha dificuldade em algumas matérias e não tinha a atenção que precisava.”

Para compreender esse resumo, iniciou sua vida escolar na mesma escola de seus irmãos, bem próxima de sua casa50, na pré-escola. Marina recorda como um tempo bom, pois passou rápido de ano, a professora era legal e ensinava os alunos. Lembra ainda que seu uniforme era uma roupa vermelha e sua rotina cheia de brincadeiras, pinturas e ginástica.

Quando ingressou na 1ª série, as dificuldades começaram. Passou por três escolas, sendo que uma delas era particular. A transferência para essa escola particular do bairro, segundo D. Regina, foi uma tentativa de reverter a situação de não aprendizagem da filha, o que não se revelou como uma estratégia de sucesso. Marina retorna, no ano seguinte, novamente à 1ª série de outra escola pública, mais distante de sua casa. Com essas mudanças de escola, sempre precisava reorganizar seu grupo, pois eram transferências solitárias, sem o acompanhamento de nenhum amigo.

Com relação às dificuldades encontradas nesses anos de escolarização, Marina revela, em tom confessional, que no começo não ligava muito para a escola. Sempre levava o material completo, a cartilha, os livros, o caderno que sua mãe comprava no início do ano, mas, à medida que as dificuldades pedagógicas se acentuavam, seu interesse diminuía; muitas vezes, esquecia o material em casa, gerando conflitos em sala de aula.

Ao assinalar as dificuldades pedagógicas freqüentes, indica as disciplinas de Português e Matemática, na 1ª série, e em alguns momentos das entrevistas sinaliza a posterior incorporação de História. Marina detalha que, em Português, não conseguia aprender a ler nem escrever; se em determinado momento conseguia ler, não conseguia correspondência na escrita porque se preocupava com a qualidade de sua letra e com a possibilidade ou não de ser entendida pelas pessoas. Em Matemática explica que, apesar de saber contar, não conseguia entender os sinais de mais e menos, bem como entender e efetuar a operação de divisão ou mesmo ver as horas51. Essas dificuldades se

50 Esta escola ainda funciona no mesmo lugar e fica a quatro quarteirões de sua casa. 51 Dificuldade esta que perdurava ainda durante a realização de nossas entrevistas.

concretizavam em notas baixas na hora da prova, conforme afirma: “Tudo errado”, desencadeando, assim, as reprovações freqüentes. Nas provas não colava, porque ficava muito nervosa; seu princípio era fazer o que sabia, entregar ao professor e aguardar a nota baixa. Marina lembra que não era uma situação exclusiva que vivenciava, muitos alunos de sua sala tiravam notas baixas e era freqüente a mudança de escola, numa tentativa de reverter a situação, bem como a drástica decisão de sair da escola.

Diante desse quadro, Marina relata que a professora ensinava, “mas não entrava na cabeça”, o que lhe causava nervosismo e choro em sala de aula. Ao mesmo tempo, sinaliza que, pelo fato de os professores preferirem os alunos com bom rendimento, acabava não recebendo muita atenção e, quando começava a acompanhar o ritmo do professor, a matéria já era outra, fazendo com que ficasse perdida novamente. Outro ponto importante e recorrente a ser ressaltado das entrevistas, envolvendo uma tentativa de melhor compreensão das suas dificuldades, é a problemática de sala de aula envolvendo diferentes explicações de professores sobre um mesmo assunto, o que Marina identifica como gerador de “confusões em sua cabeça”. No entanto, não foi possível precisar se está se referindo aos muitos professores que teve durante a sua trajetória escolar, se é uma situação envolvendo mudanças de professores ao longo de determinado ano letivo, se havia rodízio de professores numa mesma série com divisão de conteúdo, dentre outras possibilidades.

Nas escolas freqüentadas, a formação das salas era feita agrupando-se alunos considerados fortes e alunos fracos. Marina pertenceu majoritariamente às salas que eram compostas por alunos fracos, repetentes, que não entendiam nada e não sabiam ler e nem escrever, o que ela resume como situação parecida à encontrada na classe especial. Reconhece que os professores não tinham condições de ficar somente com ela, principalmente porque, na sala dos fracos, havia alunos em piores condições que ela.

Da rotina de sala de aula foi possível resgatar que na 1ª série, todos os alunos faziam a lição ao mesmo tempo, sem que houvesse qualquer estratégia de trabalho em grupo; quando necessário, a professora dava explicações para cada um dos alunos. Marina exemplifica esta situação com a atividade pedagógica denominada ditado, que transcorria da seguinte forma: a professora falava as palavras e todos os alunos

aguardavam o colega escrever, o que dava a base para a professora analisar a condição e desenvolvimento de cada aluno. Sua classificação, oriunda dessa análise, é de que era uma aluna “mais ou menos”, dentre os alunos da turma fraca, de modo que não se considerava dos piores casos em termos de aprendizagem. Da 2ª série, recorda que o conteúdo era bem mais intenso e, mesmo estando na sala dos fracos, suas dificuldades não eram amenizadas.

Com relação às professoras, Marina indica uma de que gostou muito e se caracterizava por ser exigente. Sempre solicitava que realizasse os exercícios e, quando percebia que estava desistindo, insistia para que cumprisse suas obrigações em sala de aula, o que acabou proporcionando uma nova condição de aprendizagem em sua vida. Na entrevista, afirma: “eu comecei a gostar dela, por ela ser ruim comigo (...) por ela pegar no meu pé” e, concomitantemente, explica que somente assim que “os miolo acordou na minha cabeça”. O diferencial marcante dessa professora pode ser resumido na sua frase: “Ela tratava todo mundo igual”. Em sala de aula, explica que os bagunceiros tinham medo dela; por isso, as pessoas que passavam, e viam a sala quieta, achavam que era a sala dos alunos melhores, o que refletia na prova, porque nenhum aluno procurava olhar para o vizinho, “estava tudo na cabeça decorado”. Recorda que, durante uma gincana realizada na escola, sua sala foi campeã e a professora, junto com os alunos, chorou de felicidade. A causa da ruptura do vínculo com essa professora não fica clara nas entrevistas, sendo possível compreender que uma delas ou ambas tenham deixado a escola. Está história, preservada como significativamente boa, teve repercussões em casa, pois, segundo Marina, “ficaram até bobo de ver as coisas certas que estava fazendo”.

Outras professoras passaram por sua vida e não deixaram boas lembranças; vale salientar que Marina não se recorda do nome de nenhuma delas, nem mesmo da que lhe traz boas recordações. Verbaliza que foram muitas as professoras de que não gostou, em especial uma que falou para Dona Regina que ela não tinha jeito, o que justifica seus sentimentos de aversão. Ao relatar essa história, Marina diz que a tal professora tinha “cisma” dela e, ao exemplificar, acaba generalizando alguns comportamentos: “Se a gente fizesse bem, se não fizesse, pra ela, ela tava nem aí (...) só queriam (as professoras)

saber de dá lição pra aqueles que eram inteligente, sabe, eles ficavam mais ali só pra, pra passar o tempo”.

Lembra também de uma professora que a deixou isolada no fundo da sala, “Deixava eu esquecida lá”, o que gerava mais revolta. Ao tentar explicar tal postura, considera que nutriam raiva pelos alunos que tinham dificuldades, e por isso não ligavam para o processo de aprendizagem dos mesmos. O princípio era explicar várias vezes, se o aluno não entendesse, era deixado de lado e a atenção era voltada aos que aprendiam, explicitando, assim, a falta de paciência dos professores que muitas vezes não explicavam para os alunos com dificuldades, até mesmo pelo fato de terem errado. Aliado ao seu histórico de dificuldade de aprendizagem, Marina apresentava também um problema de visão que lhe acometera desde pequena, necessitando usar óculos de lentes grossas e fortes. O comprometimento visual era significativo a ponto de não enxergar os números do ônibus, e, durante os exames médicos anuais na escola, sempre era recomendado o uso de óculos e se sentar na frente, próxima da lousa. Os outros alunos chamavam-na de “quatro-olho” ou “zarôia”, ela acabava reagindo e batendo neles; conseqüentemente ia para a diretoria correndo o risco de ser suspensa e até mesmo expulsa, o que não aconteceu, devido às circunstâncias. Para Marina, o fato de não enxergar direito deixava-a confusa e atrapalhava. Mesmo sentando na frente, tinha dificuldade para copiar e acompanhar a matéria. Todavia, atualmente Marina diz que não necessita mais dos óculos e que deixou de usá-los na quarta série, após a saída da classe especial.

A combinação da dificuldade de aprendizagem com o problema de visão e a postura do professor é sintetizada por Marina da seguinte forma: “O professor tinha raiva porque eu não conseguia acompanhar ele, uma que eles era muito rápido e eu era lerda e eu não enxergava direto e tinha que escrever depressa”. Explica que ser lerda é “gente que não consegue acompanhar o professor”, porque ele apagava a lousa rápido; além disso, sua letra era feia, embora sempre tentasse caprichar. Algumas vezes pedia para uma amiga de sala o caderno emprestado ou ficava “aérea”. Era freqüente escutar dos professores: “Você tá assim agora, quando chegar na quinta série, aí vai ser pior, você não vai conseguir acompanhar”.

O seu histórico de não aprendizagem é aliado à construção de sua fama de bagunceira. Não obstante, faz a ressalva de que, nos seus primeiros anos de escola, não tinha essa fama, porque seu problema de aprendizagem era bem delimitado. A bagunça se caracterizava por jogar papel nos outros alunos, dar risadas e conversar, comportamentos esses que eram intensificados quando o professor se ausentava da sala; no entanto retifica que havia alunos piores do que ela, que eram os meninos que ficavam no fundo, dos quais alguns foram expulsos da escola.

A repercussão da bagunça na escola implicava em castigos52, a saber, permanecia em pé no corredor, durante a aula, de forma que todo mundo da escola via a cena, e, quando entrava para a sala novamente, se ainda tivesse aula, dava risada junto com os colegas, o que deixava a professora mais brava ainda. Caso estivesse na hora de ir embora, no outro dia todos os alunos ficavam tirando “barato” dela. Também podia ser enviada à diretoria, e permanecer na secretaria sem fazer nada, ou fazendo a lição, de forma que muitas vezes lá ficou até acabar a aula. Aos poucos foi construindo a fama de bagunceira e, segundo explicação de Marina, a diretora escrevia na sua ficha para que todo professor, antes de conhecê-la, soubesse dessa informação53. Em casa sua mãe lhe falava: “Ah, Marina você é fogo heim? A professora te botou lá fora e você ainda debochou dela”. Mesmo assim, lembra como um período gostoso.

Com regularidade, Marina levava lições para casa, sendo que às vezes, limpava a casa e tinha preguiça de fazer suas obrigações escolares; quando não eram feitas, levava bronca da professora, além de ter lição de casa em dobro. Durante um certo tempo, quando sua mãe trabalhava, ficava sob a responsabilidade de uma tia que mora vizinha de sua casa, e que não permitia que fosse para a rua, desconsiderando o desejo de Marina. Cabia a seu primo explicar-lhe as lições, o que não se revelava uma estratégia bem sucedida, envolvendo ameaças e concretização de castigos físicos, até mesmo, o exagero de fazê-la engolir papel. Marina conta que ficava muito nervosa e chorava; seu alento era à noite, quando a mãe chegava e ia ensinar-lhe a lição.

52 No seu relato Marina afirma que nunca apanhou de professor ou diretor da escola.

53 Dado importante, é o de que, na análise dos documentos do prontuário da classe especial da aluna, não há

Em casa outras pessoas tiveram participação esporádica no acompanhamento de seus estudos, entre elas seu irmão mais velho, Lúcio, que às vezes tentava ensinar, mas acabava ficando nervoso diante da situação “as coisas sumiam de sua cabeça”. Uma vez, seu pai interferiu, ao perceber que Marina não conseguia dizer para a mãe quantos dedos tinha em cada mão. Segundo ela, o pai falou com “frieza” que, se não soubesse, iria apanhar e, quando ele perguntou novamente, conseguiu falar. Para Marina, essa história de seu pai ilustra uma estratégia bem sucedida de aprendizagem, em que há a marca da rigidez, o que lhe garantia maior aprendizagem.

Em determinado momento das entrevistas explica que, na verdade, hoje percebe que, como era queridinha, ninguém ligava muito para o que acontecia na escola; por outro lado, como sua mãe trabalhava, acabava ficando solta na rua.

Não obstante, Dona Regina era chamada com regularidade na escola, porque sua filha não aprendia e era bagunceira, sendo que dessa época não restou nenhum material escolar guardado: “era só vergonha”. O material não foi guardado, mas recorda-se com emoção de que a mãe “ia para reunião e voltava de cabeça baixa porque só tinha nota baixa e repetia sempre”. Além de que sempre escutava das professoras que sua filha tinha problema.

Ao justificar e explicar o desânimo de Dona Regina diante da situação da filha na escola, conta que sua mãe não tinha mais vontade de ir até lá de vergonha, sendo que Marina pactua com ela, quando diz que até em escola particular estudou, que era uma tentativa de dar um jeito nela; porém, ao ouvir de sua mãe que “a gente não pode ficar pagando escola sem você num querer nada”, somente pode concordar.

4.1.3 Vivência da exclusão escolar decorrente da condição de deficiente mental