Na qualidade de mulher separada, mãe de adolescente e professora alfabetizadora, Maria Clara se divide, semanalmente, entre os afazeres domésticos e os da profissão, este último subdividido em duas etapas: primeiro, no turno da manhã, leciona na Escola Municipal Atenas18, na cidade João Pessoa/Pb, onde já trabalha há mais de oito anos; segundo, trabalha na Secretaria de Educação do Estado como assessora de Comissão Educacional, no turno da tarde.
Graduada em Jornalismo e Pedagogia pela UFPB, a professora Maria Clara, declarada de cor branca mediante os critérios de auto-identificação do IBGE, revelou-nos a trama de conflitos instalada na sua vida pessoal e profissional, evidenciando a sua rotina diária de trabalho.
Antes de iniciar as suas atividades na escola, Maria Clara faz, diariamente, caminhada matinal com a filha adolescente, que apresenta problema de obesidade e requer cuidados especiais, em virtude da dieta prescrita pelo médico.
Após o horário do exercício físico matinal, retorna para casa, prepara o café da manhã, organiza o material escolar da única filha, e cada uma segue para o cumprimento de mais uma jornada de atividades.
A professora Maria Clara chega, pontualmente, às 7h na Escola Atenas para iniciar mais uma manhã de trabalho com seus alunos do 1º ano do ensino fundamental19. Na hora do
18 Nas dependências dessa escola, encontramos salas de aula pequenas, que não comportam mais de 30 (trinta)
alunos, pois não há espaço para transitarem livremente entre as carteiras; laboratório de informática; salas de direção, supervisão e secretaria; refeitório com cadeiras plásticas; banheiros de alunos e funcionários; espaço aberto para recreação e aulas de educação física (campo de areia), porém sem uma boa infra-estrutura, pois não é coberto, e o piso não é cimentado. Na ocasião do recreio e das aulas de educação física, os alunos ficam sem as respectivas atividades ou, então, brincam num corredor estreito, que fica ao lado das salas de aula, o que atrapalha o andamento das atividades das demais professoras por conta do barulho que se instala nesse ambiente.
19 Nessa turma, o número de alunos matriculados foi de 24, mas a freqüência diária nas aulas era apenas de 17 a
18 crianças. Segundo a professora, nas semanas de prova e em datas comemorativas, com realização de festas, todos os matriculados se faziam presentes.
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intervalo, momento de descanso, prefere ficar em sala de aula, cuidando da turma, já que a escola não dispõe de local apropriado para a recreação, que acontece, simultaneamente, para toda a escola. Para as crianças pequenas, adota o uso de brinquedos e brincadeiras nesse espaço, de forma a preservá-los de possíveis acidentes caso estivessem juntos com os alunos maiores. (Foto 03)
Fonte: Arquivo pessoal
Terminando o horário de trabalho no turno da manhã, a professora dirige-se para sua residência, que fica próxima da escola onde leciona. Ela faz o almoço e, à tarde, segue para o emprego, que fica localizado num bairro a 20 minutos de sua casa, tendo que pegar transporte para chegar ao local de trabalho.
Esse ritmo constante de atividades é somado também aos sábados, quando tem que participar de planejamento e de cursos de formação continuada, promovidos pela Secretaria de Educação do município.
Numa das conversas com Maria Clara, ela falou da correria enfrentada, quando ainda era estudante do segundo curso de graduação - Pedagogia - realizado em virtude da legislação educacional (LDB 9394/96), que prevê a atuação do professor nos anos iniciais do ensino fundamental mediante formação em curso de licenciatura em nível superior.
Em seu desabafo, a professora Maria Clara descreveu os momentos difíceis por que passou, como mãe, quando, trabalhando em dois turnos e estudando à noite, tinha que deixar sua filha ainda pequena na companhia de uma secretária doméstica, que a agredia fisicamente, aproveitando-se de sua ausência e da fragilidade da criança.
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Esse fato gerou na professora indignação em relação ao curso, devido aos conflitos que vivenciou no período de formação na UFPB, pois já era professora estatutária do município de João Pessoa, tendo ingressado na rede pública de ensino apenas com o curso de magistério, sentindo-se, portanto, obrigada a retornar aos bancos universitários para cumprimento da lei que, no momento de sua sanção, foi mal interpretada pelos educadores, provocando uma verdadeira corrida desses profissionais em busca dos cursos de licenciatura, com uma demanda maior para os de Pedagogia.
Acompanhando a professora Maria Clara, foi possível conhecer essa parte de sua história de vida, que ficou marcada pelo desgaste físico e psicológico, quando em sua fala revelou:
A gente faz na raça porque brasileiro acho que vive de raça, e muitas noites eu virei aqui a madrugada nesse mesmo cantinho que eu tô sentada e dormir três horas por dia e ter que me acordar no outro dia para ir trabalhar. Isso me rendeu duas vezes eu ficar estressada a ponto de ter que ir atrás de médico, ter que baixar hospital e tudo mais. E no fim, quando eu terminei, entrei direto na especialização e não tive mais condição de continuar por isso, porque fisicamente eu não agüentava mais.
Isso acontece não só na história de vida de Maria Clara, mas de muitos outros professores. De acordo com Soratto e Pinto (1999, p.290), a proporção elevada de professores com altos níveis de carga mental no trabalho já é uma informação preocupante, pois trabalhar por longos períodos submetido a tal condição traz conseqüências sérias para o trabalhador e para o trabalho .
Dentre os tipos de desgastes proporcionados ao longo da profissão, o de ordem psicológica é o que mais provoca no professor a vontade de abandonar o exercício profissional e a descrença no papel social e político que a educação oferece ao projeto de formação cidadã.