MEVZUATA İLİŞKİN GELİŞME VE DEĞİŞİKLİKLER
B) ACENTELERİN SORUMLULUĞU
Os estudos de Morin (1997), passim, contemplam abordagens sobre a morte individual e coletiva, sendo que esta última se dá na medida em que um grupo sofre a experiência de múltiplas mortes dos seus integrantes, como por exemplo, os judeus durante o holocausto, que significavam pessoas marcadas para morrer ou “quase mortos”, porém, ainda com vida. Nestes casos, a morte, ainda que à revelia dela mesma, é convocada a se fazer presente por meio das decisões e atitudes humanas – uma morte em “escala de sobreaviso”, reduzida a uma questão de ordem de chamada nominal. Na guerra, a morte deixa de ser sentida enquanto tal, deixa de ser vista no campo de batalha, em meio a amontoados de corpos, cadáveres,
ossuários e cruzes anônimas e assim, “é na guerra que a morte se apaga, que as preocupações com a morte desaparecem” (MORIN, 1997, p. 43).
Quando a finitude humana se faz banalizada em meio a cenários de mortes coletivas, a morte individual perde-se anônima e apaga-se porque não há tempo para os rituais religiosos, para as demonstrações de dor ou para as cerimônias de sepultamento. Depois da guerra, a morte retorna grandiosa provocando “imenso espanto ou uma aversão em retrospectiva”. Ou seja, a morte adquire os contornos que os eventos da sociedade nela imprimem. No contexto das guerras, dá-se a afirmação do grau de relevância da sociedade acima da afirmação do grau de importância da individualidade.
A não ser pelo fato de ser grafado em alemão, o título do poema “Berliner Nacht”, uma vez traduzido para o português, não deixa margem a dúvidas, pois anuncia que versará sobre uma noite em Berlim ou uma noite berlinense. Sobre o deslocamento de cenário percebido nesse poema, tem-se a informação de natureza biográfica de que H. Dobal residiu por um período em Berlim e é provável que por esta razão, a capital germânica tenha se tornado poesia na obra dobalina. No poema “Berliner Nacht”, o poeta piauiense captou e transmutou em versos, um aspecto da Morte que se pode identificar com os elementos da história política daquela cidade europeia. Localizada, geograficamente, ao norte da Alemanha, Berlim guarda memórias de mortes coletivas inapagáveis para o mundo inteiro:
BERLINER NACHT De que norte Vem este vento, De que morte vem este sino, e esta sirena
que noite ainda acorda com seus presságios? O vento bate
na janela morta, o sino bate
na morte da noite, e a sirena grita seu susto, sua sorte, nos súbitos presságios
da cidade fria (DOBAL, 2007, p. 131-132, grifos nossos).
Construído em duas estrofes de sete versos ou septilhas, o poema se elabora dramaticamente como uma produção poético-cênica de silêncios e sons, extremamente evocativa do ambiente que relembra os horrores das perseguições aos judeus pelos nazistas. É
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noite no tempo do poema e o espaço é a cidade de Berlim, originando o titulo do poema:
Berliner nacht ou “Noite berlinense”. Escrito em época posterior ao drama da perseguição e
sacrifício dos judeus em territórios dominados pelos alemães, de forma indiscriminada, o poema reúne símbolos dessa época traumática da história do regime nazista, período em que a “Morte” esteve a serviço dos ideais daquele modelo de governo. Talvez “despertada” por uma sirene ou um badalar de sinos, a memória poética reconstruiu um cenário de frio, susto, morte e presságios. Naquela época, consta que as sirenes alertavam a respeito dos horários de recolher ou mesmo de lançamento de bombas a destruírem regiões que eram supostamente habitadas por judeus ou por pessoas que os acolhiam. Em contextos vários, as badaladas de sinos, além de convocarem os fiéis, sempre estiveram vinculadas a anúncios de morte, sinal do falecimento de alguém que comprou esses serviços da Igreja.
Do verso 1 ao 5, um vento, um badalar de sinos e uma sirene acionada despertam a cidade e com ela os presságios ainda muito presentes nas suas memórias: /De que norte/, /vem este vento/, /de que morte/ , /vem este sino/, /e esta sirena/. Do verso 6 ao 15, quase toda a estrofe é construída com palavras que são índices da tensão daqueles tempo: no vento frio do norte, a morte da noite, a janela que é morta, a sirena que grita, o sino que bate, tudo anuncia susto, medo, presságios de um tempo em que tudo isso representava a presença permanente e incansável da Morte a serviço dos projetos do ditador Adolf Hitler: /que noite ainda acorda/, /com seus presságios?/, /o vento bate/, /na janela morta/, o sino bate/, /na morte da noite/, /e a sirena grita/, /seu susto, sua sorte/, /nos súbitos presságios/, /da cidade fria./ Do ponto de vista da musicalidade do poema, encontram-se rimas finais, que são presenças raras na poesia dobalina, que quase sempre opta pelas rimas internas por meio de aliterações e assonâncias. Na primeira estrofe, fazem par sonoro – /nor/te e /mor/te, enquanto que na segunda estrofe, a única rima final se dá pela repetição da palavra “bate” no oitavo e décimo versos. Mas, internamente, Dobal construiu aliterações bastante sonoras: verso 2 – /v/em este /v/ento/; 4- /vem este sino/; 12, 13, 14 - /e a /sirena grita/ seu susto, sua sorte/, /no súbito presságio/, /da cidade fria/. Desta forma, na primeira estrofe a consoante v ressoa na promoção do som do vento, seguido pelo sibilar da consoante /s/ da /si/rene e do /si/no (que além da sonoridade das palavras em si, causam a impressão psicológica dos sons já conhecidos do leitor). Depois, na segunda estrofe, os sons são do “bate-bate” da janela que é acompanhado pela insistência do som da sirena, que não somente sibila, mas grita – e então, seguem-se novas repetições da consoantes – /s/irena, /s/eu, /s/usto, /s/ua, /s/orte, /s/úbitos, pré/ss/ágios. Neste mesmo grupo de palavras é possível reconhecer também uma assonância dada pela vogal /u/ que pode implicar na impressão sonora de um vento que uiva, de natureza mais sinistra, quando as
palavras insistem na emissão dessa vogal /u/: /sus/to/, /su/a/, /sú/bito/, redundando em sons sibilantes associados a sons fechados, que podem sugerir o sopro de um vento que “sibila” e “uiva”. Assim, observa-se que os sons se repetem em ambas as estrofes, estabelecendo uma espécie de rotina sonora e visual alusivas àquelas históricas tensões - o repetir dos chamados e dos avisos: o sino, a sirena, o vento e também a janela que o vento bate. Em meio às inversões promovidas pelos versos, o sino vem da morte, /de que morte// vem este sino/, numa alusão ao fato de que as badaladas do sino poderiam ser anúncio de morte, como relatam os historiadores Phillipe Ariès (2003) e João José Reis (1991), dentre outros. A “janela é morta” e o vento é que a movimenta, fazendo-a bater, como numa cena de filme de suspense. Esta janela recebe o adjetivo de morta, provavelmente, porque não fosse aberta à vida normal, mas, talvez por ficar costumeiramente sem uso, ou mesmo conservar-se fechada para “guardar” as pessoas assustadas daqueles tempos de fuga, medo, sofrimento e morte. O poema dobalino, ainda que se detenha nos aspectos das tensões, medos e sobressaltos causados pelos índices memoriais da presença nazista, recompõe por meio desses mesmos índices, aquela Morte que “visitou” aos milhares e atuou como Morte coletiva, personificando os horrores perpetrados no holocausto. No poema, a Morte se esconde atrás dos seus símbolos, pois se mostra “escondida” em todos os lugares da noite berlinense, e dela somente ouviam-se os sons dos avisos e o “gritar” das sirenes, numa cidade poeticamente “revisitada”, cheia de presságios. Nestes versos a figuração da Morte se espraia pela cidade que tornou um signo da Morte e em tudo a “Ela” refere.
Em todas essas leituras elencadas sob o título Sol poeira e cinzas, buscou-se encontrar aspectos de aproximação entre alguns desses poemas, o que já nos permite esboçar uma tendência aos agrupamentos em categorias mais amplas. Há também algumas perspectivas de isolamento dessas figurações em estudo, as quais se pretende reunir numa categoria que represente a Morte quando em seus aspectos mais heterogêneos. Há uma feição da Morte que é marcada pela presença dos signos tanatológicos das cinzas e do pó, e que se identifica pelo abandono e esquecimento social, como nos casos dos poemas “Réquiem”, “Fim-de-mundo”, “Verão”, “O homem” e “Humanae Vitae”. Nesses poemas, todos, de alguma forma, se configuram num estar no mundo excluído da sociedade e das oportunidades cidadãs. Noutras aparições da Morte, há sua presença feminina em persona que se destaca e também a Morte nos outros seres, do poema “Melancholia rural” e que consideramos para o grupo das faces dessemelhantes. Mostram-se também feições de uma Morte que se apresenta em contextos da sociedade capitalista com seus atores impregnados pela ideologia que impulsiona seus modos de vida, trabalho e morte. Neste grupo, podem-se incluir “Barra mansa”, “Baleia”, Unreal
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City. Outra configuração que se consegue divisar é a da Morte sob o olhar das ciências
médicas, no caso, “A Pílula”, “Transplantes” e “Ressurreição”. Há dois poemas em que visualizamos uma Morte coletiva causada pelos anti-heróis, como em “Berliner nacht” e “El Matador”. Além dessas, define-se outra face que se configura pela velhice e pelo tempo que consome rumo ao termino da vida, nos casos de “ Crematória”, “Deste lado”, “As despesas do envelhecer”, e “Os velhos”. Todas essas tendências, divisadas enquanto figurações da Morte, serão alinhadas por afinidades nas suas leituras para a proposição de categorias em Comentários conclusivos.
CAPÍTULO IV
[...] Oh morte, tu que és tão forte, Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem, Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite... Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida Raul Seixas
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4 OUTROS VISLUMBRES FIGURATIVOS DO PERECER EM A SERRA DAS