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Kurumsal Değerlendirme ve Stratejik Planlama Çalışmaları

A tecnologia não se explica por si só, não se configura como panaceia solucionadora de todos os nossos problemas e, muito menos, encontra-se livre de interesses subjacentes. Ela tem de fazer parte de um cenário transformador, no qual os sujeitos da transformação se apropriem, de forma consciente e crítica, de tais avanços tecnológicos.

Contudo, para uma análise mais detida sobre a(s) tecnologia(s), é necessário conceituarmos e entendermos este termo. Eis, aqui, uma tarefa não muito fácil, mas

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Aqui vale uma nota para dar destaque ao que Piketty (2014) traz na introdução do seu livro “O capital no século XXI”, ao iniciar as discussões sobre a questão da desigualdade e suas estruturas, capital e riqueza, divisão capital-trabalho e outros temas: “A distribuição da riqueza é uma das questões mais vivas e polêmicas da atualidade. Mas o que de fato sabemos sobre sua evolução no longo prazo? Será que a dinâmica da acumulação do capital privado conduz de modo inevitável a uma concentração cada vez maior da riqueza e do poder em poucas mãos, como acreditava Marx no século XIX? Ou será que as forças equilibradoras do crescimento, da concorrência e do progresso levam espontaneamente a uma redução da desigualdade e a uma organização harmoniosa das classes na fases avançadas do desenvolvimento, como pensava Simon Kuznets no século XXI?” (PIKETTY, 2014, p. 9).

de muita relevância, como afirma Pinto (2005, p. 219): “Sua importância na compreensão dos problemas da realidade atual agiganta-se, em razão justamente do largo e indiscriminado emprego, que a torna ao mesmo tempo uma noção essencial e confusa”.

O mesmo autor destaca a necessidade de se distinguir ao menos quatro significados do termo tecnologia, a saber:

a) De acordo com o primeiro significado etimológico, a “tecnologia” tem de ser a teoria, a ciência, o estudo, a discussão da técnica, abrangidas nesta última noção as artes, as habilidades do fazer, as profissões e, generalizadamente, os modos de produzir alguma coisa; b) No segundo significado, “tecnologia” equivale pura e simplesmente a técnica; c) Estritamente ligado à significação anterior, encontramos o conceito de “tecnologia” entendido como o conjunto de todas as técnicas de que dispõe uma determinada sociedade, em qualquer fase histórica de seu desenvolvimento; d) Por fim, encontramos o quarto sentido do vocábulo “tecnologia”, [...] a ideologização da técnica. Condensadamente, pode dizer- se que neste caso a palavra tecnologia menciona a ideologia da técnica. (PINTO, 2005, p. 220).

Pode-se entender, pelo menos em dois dos quatro conceitos apresentados acima, que a tecnologia pode ser considerada uma ciência: a ciência da técnica. Neste caso, considera-se a técnica como um ato produtivo e, consequentemente, a tecnologia se configura como ciência que estuda as transformações e as produções. Pinto (2005, p. 221) completa este entendimento:

Se a técnica configura um dado da realidade objetiva, um produto da percepção humana que retorna ao mundo em forma de ação, materializado em instrumentos e máquinas, e entregue à transmissão cultural, compreende-se tenha obrigatoriamente de haver a ciência que o abrange e explora, dando em resultado um conjunto de formulações técnicas, recheadas de complexo e rico conteúdo epistemológico. Tal ciência deve ser chamada “tecnologia”, conforme o uso generalizado na composição das denominações científicas.

Não cabe aqui esmiuçar estes conceitos e sua utilização para direita ou para a esquerda, mas importa destacar, sobretudo, que não se pode confundir técnica e tecnologia. Como dito anteriormente, a técnica é o ato e as ferramentas, e a tecnologia a ciência que abrange, que estuda, que teoriza este determinado ato e suas ferramentas. Um não é mais que o outro, são complementares.

Importante ainda dar foco a um outro ponto: como ciência, a tecnologia não se desenvolve de forma isolada e neutra e, por isso mesmo, não se encontra livre de influências e de conceituações que atendam este ou aquele interesse, que pode ser social, político ou econômico.

Também, no exercício de se estabelecer uma definição para a tecnologia, Castells (1999, p. 49) completa: “Como tecnologia, entendo, em linha direta com Harvey Brooks e Daniel Bell, o uso de conhecimentos científicos para especificar as vias de se fazerem as coisas de uma maneira reproduzível”.

Castells (1999) insere outra dimensão ao conceito, a dimensão do uso da tecnologia para reprodução. Esta dimensão está inserida em sua obra trazendo a questão da tecnologia como motor desenvolvimentista da sociedade, inclusive utilizando conceitos como sociedade em rede, revolução tecnológica e revolução tecnológica da informação.

Vive-se em uma sociedade que faz usos das tecnologias e pensa com seus aparatos para quase tudo. Conforme pode-se vivenciar, e também em Castells (1999), depara-se cada vez mais com um volume espantoso de descobertas, de invenções, de disseminação de informações, que levou este mesmo autor a tratar da revolução tecnológica moderna - que ele chama de Revolução da Tecnologia da Informação - e, ainda, destacar que:

O que caracteriza a atual revolução tecnológica não é a centralidade de conhecimentos e informações, mas a aplicação desses conhecimentos e dessa informação para a geração de conhecimentos e de dispositivos de processamento/comunicação da informação, em um ciclo de realimentação entre a inovação e seu uso. (CASTELLS, 1999, p. 50-51).

Nesta definição, pode-se dar destaque à centralidade e à importância da difusão da informação para o processo de mudanças tecnológicas e sociais. Acerca disso, acrescenta Green (2009, p. 56) que: “A questão do acesso à informação não é um debate abstrato; é uma ferramenta essencial da cidadania”.

A informação passa a ser a mola mestra de todas as outras coisas. Nesse cenário, cujo encadeamento de fatores propícios induziu seu aparecimento, surge então a sociedade em rede. Diz Castells (1999, p. 69) a esse respeito que:

O surgimento da sociedade em rede, [...], não pode ser entendido sem a interação entre estas duas tendências relativamente autônomas: o desenvolvimento de novas tecnologias da informação e a tentativa da antiga sociedade de reaparelhar-se com uso do poder da tecnologia para servir a tecnologia do poder.

Numa sociedade em que não haja distribuição e acesso igualitário à informação, as possibilidades de participar ativamente deste processo de transformações se tornam reduzidas. Então, a questão aqui posta é a seguinte: a mesma tecnologia que faz a informação circular numa velocidade sem precedentes, propiciando condições de socialização desta informação/conhecimento, é a mesma que pode aumentar o fosso de desigualdade e exclusão13, na medida em que pode estar a serviço dos grupos dominantes interessados em manter seu status quo.

Veja-se o que Belloni (2002) traz a respeito da questão do agravamento das desigualdades sociais que podem ocorrem em função do progresso tecnológico e sua disseminação:

Nos países subdesenvolvidos, porém industrializados e altamente urbanizados; pobres e atrasados cultural e politicamente, mas com “bolsões tecnificados” e globalizados; nesses países as contradições e as desigualdades sociais tendem a ser agravadas pelo avanço tecnológico. São aqueles países que, tendo sido compelidos a importar os piores malefícios do desenvolvimento (poluição, devastação ecológica, concentração urbana), não puderam exigir ao mesmo tempo os benefícios (o avanço social e político) e continuam sofrendo os problemas típicos de sua situação tradicional (estrutura agrária arcaica, política oligárquica, desemprego estrutural, ignorância, exclusão e miséria), agravados de modo inédito na história pela eficácia tecnológica. Para ilustrar este agravamento pensemos, numa metáfora, na motosserra e no machado em ação na Amazônia. (BELLONI, 2002, p. 119).

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13 Martins (2002) trabalha o conceito de exclusão como uma peça fundamental do sistema capitalista,

na medida em que nesse sistema a exclusão faz parte de seu processo de funcionamento. Nele se exclui para poder incluir de forma progressivamente degradante. Desse modo, Martins (2002) chama a atenção para o seguinte: o problema da exclusão capitalista está justamente, em tempos recentes, na demora que o excluído leva para se reincluir-se. É esse movimento – exclusão/inclusão – a espinha dorsal do capitalismo moderno. Nesse sentido, o conceito de exclusão estaria estreitamente ao ponto de vista do outro, do não excluído. Assim, esse conceito: “É, antes, uma impressão superficial sobre o outro por parte daqueles que se consideram ‘incluídos’ (humanizados) e não o são de fato” (MARTINS, 2002, p. 43). Numa citação longa, mas essencial, Martins (2002, p. 46) se faz melhor entender: “Há processos sociais excludentes, mas não há exclusões consumadas, definitivas, irremediáveis. Uma sociedade cujo núcleo é a acumulação de capital e cuja contrapartida é a privação social e cultural tende a empurrar ‘para fora’, a excluir, mas, ao mesmo tempo, o faz para incluir ainda que de forma degradada, ainda que em condições sociais adversas. O ‘excluído’ é, na melhor das hipóteses, a vivência pessoal de um momento transitório, fugaz ou demorado, de exclusão-integração, de ‘sair’ e ‘reentrar’ no processo de reprodução social”.

A tecnologia pode servir tanto para libertar quanto para dominar. De certo modo, pode-se fazer neste ponto uma analogia à discussão que Bauman (1999) faz sobre a anulação das distâncias de tempo e espaço trazidas pelas tecnologias, quando diz “Nova velocidade, nova polarização” (BAUMAN, 1999, p. 25). E completa:

Trocando em miúdos: em vez de homogeneizar a condição humana, a anulação tecnológica das distâncias temporais/espaciais tende a polarizá-la. Ela emancipa certos seres humanos das restrições territoriais e torna extraterritoriais certos significados geradores de comunidade – ao mesmo tempo que desnuda o território, no qual outras pessoas continuam sendo confinadas, do seu significado e da sua capacidade de doar identidade. Para algumas pessoas ela augura uma liberdade sem precedentes face aos obstáculos físicos e uma capacidade inaudita de se mover e agir a distância. Para outras, pressagia a impossibilidade de domesticar e se apropriar da localidade da qual têm pouca chance de se libertar para mudar- se para outro lugar. (BAUMAN, 1999, p. 25).

Está-se a dizer aqui, acerca do uso das tecnologias como instrumentos de dominação social, econômica ou política de uma sociedade, que essas tecnologias tanto podem servir a isso tudo quanto podem servir ao contrário, ou seja, como instrumentos de libertação, dependendo, neste ponto, de uma visão social crítica e reflexiva acerca de seu uso e de práticas políticas para sua apropriação.

Sevcenko (2001, p. 17-18) traz também uma contribuição a respeito desta necessidade de uma visão crítica sobre a panaceia tecnológica e desenvolvimentista:

A crítica, portanto, é a contrapartida cultural diante da técnica, é o modo de a sociedade dialogar com as inovações, ponderando sobre seu impacto, avaliando seus efeitos e perscrutando seus desdobramentos. A técnica, nesse sentido, é socialmente consequente quando dialoga com a crítica. O problema, assim, não é nem a técnica e nem a crítica, mas a síndrome do

loop14, que emudece a voz da crítica, tornando a técnica surda à sociedade.

E Castells (1999, p. 78), dentro desta perspectiva de se ressaltar a importância de uma visão crítica sobre a tecnologia, destaca em outra passagem:

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[...] devemos evitar um precipitado julgamento de valores ligados a essa característica tecnológica. Isso porque a flexibilidade tanto pode ser uma força libertadora como também uma tendência repressiva, se os redefinidores das regras sempre forem os poderes constituídos.

E numa visão de cunho mais filosófico, Pinto (2005, p. 262) enfatiza que:

Quando, conforme acontece na época atual, a tecnologia se revela ambivalente, sendo ao mesmo tempo o esteio e a arma da dominação, na mão do senhor, e a esperança de liberdade e o instrumento para consegui- la, na mão do escravo, a revelação desta duplicidade fere, como uma aberração, os princípios mais sólidos do pensar formal, não encontra explicação, torna impossível configurar qualquer conceito lógico da tecnologia e leva a crer na intervenção de agentes anímicos irracionais.

O grande desafio não está somente no desenvolvimento das tecnologias ou em determinar seus vieses, mas também no aprimoramento da capacidade crítica e da qualidade da formação do próprio homem como um pré-requisito para que a tecnologia ou conhecimento técnico possa continuar a se desenvolver, mas sem ameaças às economias e seus desenvolvimentos, à qualidade de vida das pessoas, às questões culturais e até mesmo à sua segurança.

O conceito de revolução tecnológica está intimamente ligado ao conceito de desenvolvimento e progresso econômico, uma vez que esta tecnologia se atrela justamente ao objetivo do aumento da produção, ao ganho de capital, ao barateamento dos meios de produção e consequente aumento do lucro (CASTELLS, 1999).

E aí se encerra, para muitos, o ciclo das virtudes das tecnologias. Trata-se de uma visão ideológica que, ao universalizar conquistas, que são para poucos como se fossem para todos, torna as tecnologias em si mesmas libertadoras, democráticas e até revolucionárias.

Nesse sentido é que se entende a necessidade de se discutir amplamente a questão da apropriação da tecnologia e seus recursos como direito de toda pessoa. Um direito que deveria ser dado desde a formação escolar mais básica e que igualmente deveria estar inserida nas discussões escolares e curriculares. Ou seria a garantia da não apropriação a esta tecnologia uma estratégia de dominação ou manutenção de um status dominante? É justamente esta discussão que se pretende realizar na próxima seção deste capítulo.

Benzer Belgeler