Nas duas primeiras seções deste capítulo, foram tratadas as dimensões ontológicas do corpo para-mim e para-outro. A terceira dimensão, por sua vez, deriva da análise do olhar exposta no capítulo anterior. Eu sou para-mim por intermédio do outro. Se minha relação existencial básica com o outro se dá a partir do momento em que sou transformado em objeto pelo olhar seu olhar, agora podemos completar essa constatação do seguinte modo: “existo para mim como conhecido pelo outro a título de corpo” 215. Meu corpo, portanto, além de expressar minha facticidade, também é dotado de uma dimensão que, por princípio, me escapa. É o ponto de vista que sou, mas sobre o qual são tomados pontos de vista que eu jamais poderei ter. Através do olhar do outro, meu corpo me é revelado como um Em-si para o outro; minha facticidade é alienada e meu corpo objetivado. Como exemplo, podemos pensar em uma estrutura afetiva como a timidez. Em geral, o tímido diz que, diante de alguém, sente-se enrubescido, transpira, tem alguma dificuldade de movimentos, de fala, etc. Mas essas sensações, antes de serem reações puramente fisiológicas, manifestam a apreensão consciente do corpo tal como ele é para outro. Segundo Sartre, o que se passa, nesse caso, é que o tímido sente-se embaraçado com seu corpo tal como ele se apresenta e é apreendido pelo outro. É, enfim, a apreensão da alienação do corpo como irremediável. Com efeito, “o corpo-para-o-outro é o corpo-para-nós, mas inalcançável e alienado” 216. O outro desempenha, assim, uma função que, apesar de nos caber de direito, não podemos realizar: ver-nos como somos.
Nesse caso, a linguagem desempenha um papel fundamental: se me vejo pelos olhos do outro, eu o faço através da linguagem. Pelas revelações da linguagem é que tento captar meu ser. Mas, para isso, é preciso que meu corpo seja para-mim, também um objeto:
214 EN, p. 391. 215 EN, p. 392. 216 EN, p. 394.
“Para que os conhecimentos que o outro tem de meu corpo e que me comunica pela linguagem possam dar a meu corpo-para-mim uma estrutura de tipo particular, é preciso que se apliquem a um objeto e que meu corpo já seja objeto para mim. Portanto, é ao nível da consciência reflexiva que eles podem intervir: esses conhecimentos não qualificarão a facticidade enquanto puro existido (existé) da consciência não-tética, mas sim a facticidade como quase-objeto apreendido pela reflexão. É essa camada conceitual que, inserindo-se entre o quase-objeto e a consciência reflexiva, irá obter a objetivação do quase-corpo psíquico” 217.
A reflexão capta e supera a facticidade em direção a um irreal no qual o esse é um puro percipi. É isso o que Sartre denomina psíquico. Esse psíquico está constituído. Ocorre que o conhecimento conceitual que adquirimos de nosso contato com o outro, ao longo de nossa vida, produz uma camada constitutiva do corpo psíquico. Voltemos a uma nova passagem de Sartre.
“Em resumo, enquanto padecemos (souffrons) reflexivamente nosso corpo, nós o constituímos em quase-objeto pela reflexão cúmplice – assim, a observação vem de nós mesmos. Mas, desde que o conhecemos, isto é, desde que o apreendemos em uma intuição puramente cognitiva, constituímo-lo através dessa própria intuição e com os conhecimentos do outro, quer dizer, tal como ele jamais poderia ser para nós por si mesmo. As estruturas cognoscíveis de nosso corpo-psíquico, portanto, indicam simplesmente e no vazio sua alienação perpétua. Ao invés de viver essa alienação, nós a constituímos no vazio, transcendendo a facticidade vivida em direção ao quase-objeto que é o corpo-psíquico e transcendendo novamente esse quase-objeto padecido (souffert) rumo a caracteres de ser que, por princípio, não poderiam ser dados a mim e são simplesmente significados” 218.
Se retornarmos nossa atenção para a dor física, por exemplo, veremos que minha apreensão da dor ocorre a partir de categorias conceituais que me são dadas pelo outro, quer dizer, eu
conheço meu corpo por meio de conceitos que o outro me fornece. Conforme apresentado
anteriormente, a dor de estômago é o estômago enquanto a consciência o vive dolorosamente. Mas o saber que tenho dessa dor, sua significação, é a objetivação mesma de meu estômago. Posso conhecer a forma desse órgão, suas características, bem como saber que tenho uma gastrite ou uma úlcera por intermédio do diagnóstico médico. E essa gastrite ou essa úlcera, diz Sartre, eu a conheço através do conhecimento que adquiri de outras pessoas. Se ultrapassarmos a dor física para o caso de uma enfermidade ou de uma doença, veremos que a estrutura da argumentação se mantém: “um outro é responsável de minha enfermidade” 219 porque ela me escapa por princípio. A todo instante ela pode ser captada, analisada pelo outro,
217 EN, p. 395. 218 EN, p. 395. 219 EN, p. 397.
mesmo quando não sou consciente dela, quer dizer, mesmo quando não estou sofrendo uma crise ou algo parecido. Meu órgão, minha dor, minha enfermidade constituem-se para-outro; meu estômago enfermo é estômago-para-outro porque “é o polo da alienação de minha dor; é o que sou sem ter de sê-lo e sem poder transcendê-lo rumo a qualquer outra coisa” 220.
Sartre ainda pondera que podemos, por vezes, tomar o ponto de vista do outro sobre nosso corpo, quando vemos nossas mãos, ou nossas pernas, por exemplo. Ocorre que, para o filósofo francês, isso são contingências de nossa estrutura corporal que em nada interferem na ontologia do corpo que expusemos neste capítulo. O que é preciso frisar é que a aparição do corpo não o entrega enquanto age ou percebe, mas sim enquanto é agido e percebido. Nunca poderemos ter sobre nosso corpo o ponto de vista completo que o outro tem sobre ele221. De acordo com Sartre, a própria percepção que uma criança tem de seu corpo enquanto seu, a partir de analogias com o corpo do outro, dá-se em um momento posterior. Cronologicamente, nesse caso, é preciso que ela perceba o corpo do outro primeiro, para então somente perceber o seu próprio corpo-para-ela.
Enfim, da análise sobre a corporeidade devemos extrair uma conclusão importante: “O corpo é o instrumento que sou. É minha facticidade de ser ‘no-meio-do- mundo’ enquanto a ultrapasso rumo a meu ser-no-mundo” 222. A ontologia do corpo desempenha um papel essencial no desenvolvimento da questão do Ser-Para-outro sartriano: é o corpo que manifesta “o sentido profundo da facticidade” 223 e é a partir dele que se dará o contato efetivo com o outro. Com efeito, sem a compreensão do que é o nosso corpo e sua participação na realização de nosso ser-no-mundo, não poderíamos prosseguir. No próximo capítulo, estudaremos as atitudes originárias com o outro descritas por Sartre. Desde já, cumpre notar que tais atitudes não englobam todas as possibilidades de contato com o outro, mas desenham o pano de fundo no qual relações mais complexas são formadas. Isso, porém, será matéria de uma discussão posterior. De imediato, veremos como se dão essas primeiras relações, tendo em mente a ontologia do corpo que acabamos de expor.
220 EN, p. 397.
221 “Assim, a natureza de nosso-corpo-para-nós nos escapa inteiramente na medida em que podemos adotar
sobre ele o ponto de vista do outro” (EN, p. 399).
222 EN, p. 399.