BÖLÜM 2: TÜRKİYE’NİN YUMUŞAK GÜÇ POTANSİYELİ VE YUMUŞAK
2.6. Kurumlar
A poesia se mescla com o mito e com a história desde a Antiguidade Clássica, no entanto, o mito no modernismo brasileiro é plural, na medida em
59 que há diversos interlocutores étnicos. Em virtude disso, os modernistas combaterão o clássico que se apoiava em modelos mitos greco-romanos, questionando a literatura que valorizava a estética clássica purista e que se afastava da influência de etnias presentes na cultura brasileira.
Oliveira (2002, p.15) afirma que a nossa literatura se fez a partir da consciência de uma história vivida como servidão e perda de identidade, nações inteiras foram exterminadas no processo de colonização o que acarretou uma literatura preocupada em inventar e recriar um passado, com nostalgia das origens, do tempo mítico e utópico. Não se trata, então, no Modernismo, de buscar uma história, uma mitologia distante das nossas raízes, não se trata de buscar os mitos, os deuses do Olimpo, como quiseram os parnasianos, trata-se de buscar os mitos da Amazônia, os mitos da cultura africana. Bopp segue nessa direção, buscando o Brasil primitivo, como afirma Oliveira:
Ele funda a sua pesquisa na realidade enigmática do mito. Quer descobrir o Brasil primitivo anterior à lógica e ao racionalismo científico, que decretou a morte do mito. O poeta havia viajado longamente por todo o país, havia conhecido de perto as condições reais em que vivia a população das diversas regiões, havia observado os seus costumes e tradições. Desse contato vivo e direto, descobriu um Brasil vário, diferente ainda arcano e enigmático. Na verdade, em suas viagens, Bopp deparou com o fenômeno do mito, e tal experiência o marcou profundamente, tanto que a sua produção mais relevante é justamente aquela em que se evidencia a consciência do contato com essa parte latente e misteriosa da realidade (OLIVEIRA, 2002, p.21-22).
A amálgama entre poesia e mito foi para os modernistas uma forma de universalizar o local e de constantemente realimentar a narrativa mítica, que banhada por influências diversas, metaforiza-se na imagem do mito constantemente devorado e recriado.
No caso da poética boppiana, modernista por excelência, o emprego do mito tem a função de universalização e de perpetuação da memória coletiva. Não são simplesmente narrativas de lendas, são mitos genuínos, na medida em que são frutos de contato com a realidade, decorrentes do
60 mergulho no inconsciente coletivo, como atesta Oliveira a respeito da obra Cobra Norato, de Bopp:
Cobra Norato é um mergulho no inconsciente coletivo do Brasil, aquele inconsciente emaranhado e inexplorado, síntese da fusão de três povos- africanos, ameríndios e europeus – cada um com suas tradições e crenças específicas (OLIVEIRA, 2002, p.266).
Em busca de um modelo brasileiro de mito, fica clara a necessidade para os modernistas de construir, ou ainda, de recontar a nossa história sob outro ângulo, não a partir do Atlântico para o continente, do colonizador para o colonizado, mas sim de contá-la de dentro para dentro, dos brasileiros para brasileiros, seguindo parcialmente a proposta de Capistrano de Abreu que redirecionou os olhares nativos e alienígenas. Ainda que o autor tenha enfatizado mais o indígena, ele é o primeiro a se preocupar com a redescoberta do Brasil e com a mudança de ângulo de visão, como nos mostra Reis:
Capistrano será um dos iniciadores da corrente do pensamento histórico brasileiro que “redescobrirá o Brasil”, valorizando o seu povo, as suas lutas, os seus costumes, a miscigenação, o clima tropical e a natureza brasileira. Atribuirá a este povo a condição de sujeito da sua própria história, que não deveria vir mais nem de cima e nem de fora, mas dele próprio. (...) O conceito de “cultura” substitui o de “raça” e, nesse aspecto, ele é precursor de G. Freyre, assim como de S.B.de Holanda. Ele valoriza a presença indígena e pensa um Brasil mais mameluco do que mulato, mais sertanejo do que litorâneo (REIS, 2007, p.95).
É clara a influência das ideias de Capistrano nesse período, quando percebemos que movimentos e autores passam a assumir essa construção do passado histórico e mítico, viajando pelo Brasil quer de fato, como o fez Bopp e outros artistas, quer através de livros, de pesquisas a fontes de informação disponíveis na época.
A obra poética de Bopp, além de abarcar os temas do fabulário nacional, assume, predominantemente, a forma narrativa que inserirá a forma popular oral e que aproximará o poeta do contador de causos. Bopp faz as vezes de um antropólogo, uma vez que a sua poesia é uma recolha da história, dos costumes e do imaginário do povo. Mário de Andrade com
61 Macunaíma e Bopp com Cobra Norato são identificados por igual propósito, como afirma Garcia, por igual ressonância alegórica e pela similaridade de fontes de inspiração:
Ambas são, apesar da diversidade da forma – Macunaíma em prosa mítica, Cobra Norato em poesia mítica, se assim nos é permitido definir as características predominantes da sua realização verbal-, duas sagas de fundo folclórico, duas rapsódias de influxo popular com heróis míticos; são, enfim, duas estórias fantásticas, alucinantes, recosidas numa aparente incoerência, ilógicas ou paralógicas, porque simbólicas e míticas (1962, p.19-20).
Para nós, a escolha de uma poesia narrativa é uma forma de enfatizar o aspecto híbrido do Modernismo que retrata a mistura em todas as vertentes, inclusive do gênero e que propicia a explanação e a perpetuação do mito. Muitas quadrinhas, feitiços apresentam um ritmo que facilita a memorização.
A poesia oral é incorporada por Bopp em seus textos de forma que gesto, movimento e voz se articulam no esforço de perpetuação da memória. O contador de causos, de mitos insere o ritmo e o movimento do corpo em suas poesias, ele ultrapassa a oralidade reduzida à ação da voz, pois como afirma Paul Zumthor (2010, p.217 e 232) a oralidade não se reduz à ação da voz, ela é a expansão do corpo, o gesto não é apenas um ornamento da poesia oral, ele recria o sagrado, o que, no nosso entendimento, está presente na poética boppiana cujo ritmo e gestual podem ser percebidos no excerto a seguir:
Marabaxo da toada triste Negro velho dança no rancho
Pisando com a perna pesada no chão pegajoso.
Bum Qui-ti-bum Qui-ti-bum Bum-bum
(Marabaxo, Ur, p.202).
O terceiro verso do poema Marabaxo: Pisando com a perna pesada o chão pegajoso sugere uma batida ritmada no chão, característica da dança, sendo que a predominância da oclusiva bilabial /p/ aliada à imagem das pernas batendo no chão e ao refrão Bum Qui-ti-bum Qui-ti-bum Bum-bum, em que há predominância também de oclusivas /k/, /b/, /t/ marca o batuque do
62 canto, da dança, ou seja, tem-se claramente o gesto, a dança e a voz associados.
Ao se apropriar do imaginário nacional e de textos de Freud, calcados em metáforas e mitos, Bopp faz uma releitura dos mitos nacionais, trabalha os símbolos, que significam mais do que dizem, pois são, como afirma Campbell (2003), frequentemente energizados pela metáfora:
A vida de uma mitologia surge e depende do vigor metafórico de seus símbolos. Estes transmitem mais do que um mero conceito intelectual, pois, pelo seu caráter interior, eles proporcionam um sentido de participação real na percepção da transcendência. O símbolo, energizado pela metáfora, transmite não só uma ideia do infinito, mas certa percepção dele (CAMPBELL, 2003, p.29).
As teorias do inconsciente de Freud, do inconsciente coletivo de Jung, os estudos de Lévy-Bruhl sobre a mentalidade pré-lógica das populações “primitivas” podem ter fundamentado, como afirma Oliveira, o épico Cobra Norato de Raul Bopp, mas pode ser, como postula a autora que ele tenha absorvido o clima da época de reflexão antropológica que se enriquecia com essas contribuições. De toda forma, o mundo mais mítico que lógico está presente no universo de Cobra Norato.
Ao encontro da concepção de Jung, Campbell coloca a narrativa mítica como diagnóstico da condição humana. Todos os percalços dos heróis míticos são os obstáculos que todos nós encontramos, de forma que essa condição faz com que criemos uma identidade, faz com que nos sintamos parceiros de uma mesma viagem. Assim, seguimos nós, parceiros na viagem mítica pelo universo boppiano.
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